"MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO" Capítulo 5
Valentina não conseguiu voltar imediatamente ao relatório financeiro.
A frase de Gabriel continuava presa na cabeça.
"Você ainda divide o sanduíche ao meio."
Ela o encarou por alguns segundos, tentando entender.
"Como você sabe disso?"
Gabriel desviou os olhos para a janela.
"Observei."
"Não."
Valentina balançou a cabeça.
"Você falou como se já tivesse visto isso antes."
Ele permaneceu calado.
Valentina se inclinou para a frente.
"Nós já nos conhecemos?"
Gabriel respondeu:
"Talvez você tenha conhecido muita gente."
"Não desse jeito."
Antes que ele dissesse qualquer coisa, a porta se abriu.
Augusto entrou.
"Espero não estar interrompendo."
Valentina recuou na cadeira.
"Não."
Augusto percebeu o clima.
Olhou para Gabriel.
Depois para o sanduíche cortado ao meio.
"Algum problema?"
Gabriel respondeu:
"Nenhum."
Augusto sentou-se ao lado de Valentina.
Perto demais.
Passou o braço pelo encosto da cadeira dela.
"Ótimo. Porque eu gostaria de alinhar os próximos passos."
Valentina endureceu.
"Eu ainda não terminei a conversa."
Augusto sorriu.
"Que conversa?"
Ela olhou para Gabriel.
Ele já havia recuperado a expressão fria.
"Depois."
Valentina não gostou.
Mas não insistiu.
A reunião terminou trinta minutos depois.
Gabriel foi embora sem revelar nada.
No elevador, Bruno apertou o botão do térreo.
"Você conhece aquela mulher."
Gabriel olhou para frente.
"Eu conheço o grupo."
"Não foi isso que eu disse."
Gabriel não respondeu.
Bruno cruzou os braços.
"Você quase esqueceu que eu estava na sala quando ela cortou o sanduíche."
"Bruno."
"Está bem."
Ele fez uma pausa.
"Mas se isso vai interferir no negócio, eu preciso saber."
Gabriel virou o rosto.
"Não vai."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Bruno soltou uma risada curta.
"Essa foi a resposta menos convincente que você já me deu."
Gabriel deixou o hotel sem comentar.
Mas naquela noite, em vez de voltar para o apartamento, foi direto ao escritório da Ferraz Participações.
Bruno apareceu pouco depois com uma pilha de documentos.
"Você pediu tudo sobre o Grupo Almeida."
"Quero os últimos três anos."
"Contratos, fornecedores, financiamentos?"
"Tudo."
Bruno colocou as pastas sobre a mesa.
"Isso vai levar tempo."
"Comece pelos maiores aumentos de custo."
"Algum motivo específico?"
Gabriel abriu o primeiro relatório.
"Sim."
"Qual?"
"Tem alguma coisa errada."
As primeiras horas pareciam confirmar apenas uma empresa em crise.
Receita menor.
Custos maiores.
Endividamento crescente.
Mas Gabriel conhecia padrões.
Conhecia números inflados.
Conhecia fornecedores criados para esconder margens.
Conhecia contratos feitos para parecer legais.
À meia-noite, ele encontrou o primeiro problema.
"Bruno."
O assistente se aproximou.
Gabriel apontou para uma empresa.
"Rosa Norte Serviços Hoteleiros."
"Fornecedor de lavanderia e manutenção."
"Quanto faturava com o grupo?"
Bruno verificou.
"Quase seis milhões por ano."
"Há três anos?"
"Menos de um milhão."
Gabriel fechou os olhos.
"Quem aprovou a expansão do contrato?"
Bruno passou algumas páginas.
"Diretoria financeira."
"Quem recomendou?"
Bruno parou.
"Montenegro Consultoria."
Gabriel levantou os olhos.
"Augusto?"
"Uma empresa ligada à família."
O segundo caso apareceu quarenta minutos depois.
Depois o terceiro.
Uma empresa de tecnologia que cobrava quatro vezes o valor de mercado.
Uma fornecedora de alimentos registrada em nome de um ex-funcionário da Montenegro Capital.
Uma empresa de segurança com endereço compartilhado com um escritório pertencente a um primo de Augusto.
Gabriel ficou em silêncio.
Bruno deixou os papéis cair sobre a mesa.
"Isso não é má gestão."
"Não."
"Estão drenando o grupo."
Gabriel assentiu.
"Devagar o suficiente para parecer incompetência."
"E rápido o suficiente para empurrar a família para uma venda."
Gabriel fechou a pasta.
"Quero saber para onde o dinheiro foi."
Bruno olhou para o relógio.
"São quase duas da manhã."
"Então você pode começar cedo."
Bruno soltou um suspiro.
"Eu realmente odeio quando você fala assim."
Na manhã seguinte, Valentina acordou pensando na mesma pergunta.
Quem era Gabriel Ferraz?
Ela pesquisou entrevistas.
Fotos antigas.
Reportagens.
Tudo começava em Curitiba.
Nenhuma matéria falava de uma infância em São Paulo.
Nenhuma mencionava o sobrenome Costa.
Ainda assim, alguma coisa a incomodava.
O jeito como ele a olhara.
A frase sobre o sanduíche.
A pausa antes de apertar sua mão.
Valentina abriu uma gaveta antiga no quarto.
Encontrou uma caixa com fotografias da infância.
Festas.
Viagens.
Uniformes escolares.
Nada de Gabriel.
Henrique tinha sido cuidadoso demais.
Aquela parte da vida dela parecia ter sido apagada.
Helena apareceu na porta.
"Procurando o quê?"
Valentina fechou a caixa depressa.
"Nada."
A mãe entrou.
"Você nunca foi boa em mentir."
Valentina respirou fundo.
"Você lembra daquele menino?"
Helena ficou imóvel.
"Que menino?"
"O que ficava no portão da escola."
O rosto de Helena mudou quase imperceptivelmente.
"Por que está perguntando isso agora?"
"Conheci alguém ontem."
"Quem?"
"Gabriel Ferraz."
Helena demorou um segundo.
"Gabriel?"
"Ele disse uma coisa estranha."
Valentina sentou-se na cama.
"Ele sabia que eu corto sanduíche ao meio."
Helena olhou para a filha.
"Talvez tenha sido coincidência."
"Eu também achei."
"Então deixa para lá."
Valentina franziu a testa.
"Mãe, você está nervosa."
"Não estou."
"Está sim."
Helena virou-se.
"Seu pai precisa de você agora. A empresa também. Não vale a pena mexer em lembranças antigas."
Valentina se levantou.
"Por que vocês sempre fizeram isso?"
Helena parou.
"Isso o quê?"
"Agiram como se aquele menino fosse uma vergonha."
Helena baixou os olhos.
"Eu nunca achei isso."
"Mas também nunca me contou o que aconteceu."
"Valentina..."
"Ele foi adotado, não foi?"
Helena ergueu a cabeça.
"Como você sabe?"
Valentina ficou em silêncio.
Helena percebeu o erro.
A pergunta havia confirmado demais.
"Mãe."
Helena passou a mão pela testa.
"Não quero conversar sobre isso agora."
"Então quando?"
"Quando for a hora."
Valentina soltou uma risada amarga.
"Vinte e cinco anos não foram suficientes?"
Helena saiu sem responder.
No mesmo dia, Augusto apareceu no escritório de Valentina.
Dessa vez, sem sorriso.
"Você pretende fechar com Ferraz?"
"Eu pretendo ouvir propostas."
"Não foi o que perguntei."
Valentina levantou os olhos.
"Desde quando você decide com quem eu converso?"
Augusto fechou a porta.
"Desde que esse homem começou a usar uma negociação para se aproximar de você."
Valentina ficou irritada.
"Não seja ridículo."
"Eu vi como ele olha para você."
"Isso é problema seu."
Augusto se aproximou.
"É meu problema quando minha noiva vira interesse pessoal de um investidor."
"Eu não sou propriedade sua."
"Não foi isso que eu disse."
"Foi exatamente isso."
Augusto respirou fundo.
"Eu só estou tentando proteger você."
Valentina riu.
"De quê?"
"De homem que aparece do nada prometendo salvar empresa falida."
"Curioso."
Ela cruzou os braços.
"Você fez exatamente isso."
O rosto dele endureceu.
"Você está me comparando com ele?"
"Estou comparando propostas."
Augusto se aproximou mais.
"Tenha cuidado, Valentina."
"Isso é uma ameaça?"
"É um conselho."
Ela abriu a porta.
"Então eu não preciso."
Augusto saiu.
Mas não sem antes lançar um olhar duro para os documentos sobre a mesa.
Naquela tarde, Gabriel recebeu uma ligação inesperada.
Era Helena Almeida.
Ela pediu uma conversa particular.
Gabriel hesitou.
Depois aceitou.
Encontraram-se numa sala reservada do Hotel Almeida.
Helena entrou sozinha.
Gabriel se levantou.
"Senhora Almeida."
Ela olhou para ele demoradamente.
"Você me conhece?"
"Conheço o nome."
Helena não pareceu satisfeita.
"Posso fazer uma pergunta?"
"Claro."
"Qual era o seu sobrenome antes de Ferraz?"
Gabriel ficou imóvel.
"Por quê?"
Helena apertou a bolsa.
"Responda."
"Vale mesmo a pena?"
A voz dela falhou.
"Por favor."
Gabriel respondeu:
"Costa."
Helena empalideceu.
"Gabriel Costa?"
Ele não disse nada.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
"Meu Deus..."
Nesse momento, a porta se abriu.
Valentina entrou.
"Mãe?"
Helena se virou depressa.
"Valentina, eu..."
Mas Valentina já olhava para Gabriel.
Ele havia tirado o paletó.
No movimento, a manga da camisa recuara um pouco.
Preso discretamente junto ao relógio havia um pequeno objeto de prata.
Valentina congelou.
Conhecia aquele formato.
Mesmo depois de vinte e cinco anos.
"Essa pulseira..."
Gabriel baixou os olhos.
O silêncio tomou a sala.
Helena começou a chorar.
Valentina se aproximou devagar.
"De onde você tirou isso?"
Gabriel soltou o fecho.
A pulseira caiu na palma da mão dele.
Ele caminhou até Valentina.
Ela parecia ter esquecido como respirar.
Gabriel colocou a peça em sua mão.
Os dedos dela se fecharam automaticamente sobre o metal.
E então ele disse:
"Eu prometi que voltaria."
Valentina ergueu os olhos.
As lágrimas vieram antes das palavras.
"Gabriel?"
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