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"MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO" Capítulo 1

正文开头

Ao meio-dia, Gabriel Costa já estava diante do portão de ferro do Colégio São Bento.

Enquanto carros importados paravam na calçada e motoristas uniformizados abriam portas para crianças com mochilas caras, ele permanecia do outro lado das grades, descalço dentro de um par de tênis rasgados e com a camiseta desbotada grudada ao corpo pelo calor de São Paulo.

Gabriel tinha nove anos.

E estava com fome.

No jardim interno, os alunos abriam lancheiras coloridas. Sanduíches naturais, pão de queijo, frutas cortadas, bolos caseiros e pequenas garrafas de suco apareciam sobre as mesas.

Gabriel observava tudo em silêncio.

Não pedia.

Não chamava ninguém.

Não estendia a mão.

Já havia aprendido cedo demais que algumas pessoas ficavam mais irritadas quando alguém pobre pedia comida do que quando jogavam comida fora.

Naquele dia, uma menina reparou nele.

Valentina Almeida estava sentada perto de uma jabuticabeira com duas colegas. Tinha nove anos, cabelos castanhos presos por uma fita azul e o uniforme impecavelmente passado.

Ela era filha única de Henrique e Helena Almeida.

Naquela escola, o sobrenome Almeida não passava despercebido.

O pai era proprietário de hotéis e restaurantes de luxo em diferentes cidades do Brasil. A mãe aparecia em eventos beneficentes e era conhecida entre as famílias tradicionais dos Jardins.

Valentina, porém, não olhou para Gabriel como as outras crianças.

Ela olhou para os olhos dele.

E foi isso que a incomodou.

Gabriel não encarava os brinquedos, os relógios ou os carros estacionados.

Ele encarava o sanduíche em sua mão.

Valentina levou uma mordida à boca e parou.

Gabriel percebeu.

Desviou o rosto imediatamente.

Aquilo a atingiu de uma forma que ela não conseguiu explicar.

"Valentina, você não vai comer?"

A pergunta veio de Beatriz, sentada ao lado dela.

"Vou."

Mas Valentina já não estava com tanta fome.

Naquele primeiro dia, ela apenas observou.

Quando o sinal tocou, viu Gabriel se afastar devagar pela calçada, misturando-se ao movimento da região central.

Na manhã seguinte, perguntou à mãe enquanto tomava café:

"Mãe, por que algumas crianças não estudam?"

Helena levantou os olhos.

"Porque nem todas tiveram as mesmas oportunidades que você."

"E por que algumas não têm comida?"

Helena demorou um pouco antes de responder.

"Porque o mundo nem sempre é justo."

Valentina franziu a testa.

Helena tocou a mão da filha.

"Mas ter mais do que os outros não serve para a gente se achar melhor."

"Serve para quê?"

"Para ter condições de ajudar."

Valentina guardou aquela frase.

Ao meio-dia, Gabriel apareceu novamente.

Dessa vez, ela não terminou o sanduíche de presunto e queijo.

Guardou metade dentro da lancheira.

Mas não teve coragem de se aproximar.

O segurança caminhava diante do portão, e duas professoras conversavam perto das escadas.

Gabriel ficou ali até o fim do intervalo.

Quando percebeu que não receberia nada, foi embora.

Valentina sentiu um aperto no peito.

No terceiro dia, decidiu que não iria apenas olhar.

Esperou as amigas se distraírem.

正文1

Pegou metade do sanduíche.

Escondeu-o debaixo do guardanapo.

Então caminhou até a lateral do jardim, onde uma fileira de arbustos escondia parte das grades.

Gabriel estava lá.

Quando viu a menina se aproximando, recuou.

Valentina passou a mão pelas barras de ferro.

"Ei."

Ele olhou para ela.

"Vem aqui."

Gabriel hesitou.

"Eu não fiz nada."

"Eu sei."

Ela estendeu o sanduíche.

"É para você."

Gabriel não pegou.

Valentina olhou para trás, nervosa.

O segurança conversava com uma funcionária.

Ela tornou a empurrar a comida pelas grades.

"Come rápido… antes que o segurança veja."

Gabriel segurou o sanduíche.

Ficou alguns segundos olhando para aquilo.

Depois olhou para Valentina.

"Você não vai querer de volta?"

"Não."

"Tem certeza?"

"Tenho."

Ele mordeu.

Mastigou depressa.

Tão depressa que Valentina sentiu vontade de chorar.

"Qual é o seu nome?"

Gabriel limpou a boca com o braço.

"Gabriel Costa."

"Eu sou Valentina."

"Eu sei."

Ela arregalou os olhos.

"Como?"

"Todo mundo aqui sabe quem você é."

Valentina quase sorriu.

"E onde você estuda?"

Gabriel abaixou os olhos.

"Não estudo."

"Por quê?"

"Porque eu não tenho escola."

Ela demorou a entender.

"E sua mãe?"

Gabriel ficou em silêncio.

"E seu pai?"

Nada.

Valentina percebeu que havia feito perguntas demais.

"Desculpa."

Gabriel deu de ombros.

"Não faz mal."

O sinal tocou.

Valentina correu de volta.

Antes de entrar no prédio, virou-se.

Gabriel ainda estava ali.

Pela primeira vez, ele sorriu.

Depois daquele dia, aquilo virou um segredo.

Às vezes era metade de um sanduíche.

Às vezes dois pães de queijo.

Às vezes uma maçã.

Em outros dias, Valentina escondia dentro da mochila um achocolatado que dizia não querer tomar.

Gabriel sempre aparecia perto do meio-dia.

Valentina começou a descobrir pequenos pedaços da vida dele.

Sabia que ele dormia algumas noites perto do Mercado Municipal.

Sabia que às vezes caminhava até o Brás e ajudava homens a descarregar caixas por algumas moedas.

Sabia que já havia sido expulso de padarias.

Sabia também que uma vez apanhara de um comerciante que acreditou que ele tinha roubado uma carteira.

"Mas você roubou?"

Gabriel ficou ofendido.

"Não."

"Então por que ele bateu em você?"

"Porque alguém tinha roubado."

Valentina não entendeu.

"Mas não foi você."

"Eu sei."

"Então não faz sentido."

Gabriel soltou uma risada curta.

"Tem um monte de coisa que não faz sentido."

Aos poucos, ele deixou de ir ao portão apenas pela comida.

Valentina perguntava como tinha sido seu dia.

Mostrava desenhos.

Contava histórias da sala de aula.

Uma vez, reclamou porque havia tirado sete em matemática.

Gabriel arregalou os olhos.

"Sete é ruim?"

"Meu pai acha."

"Eu nunca tirei sete."

Valentina percebeu a razão e se arrependeu na mesma hora.

Gabriel, porém, riu.

"Nem zero."

Ela acabou rindo também.

Durante alguns minutos, as grades entre os dois pareciam desaparecer.

Mas segredo de criança raramente permanece segredo por muito tempo.

Numa sexta-feira, Valentina caminhou até o portão com um pedaço de bolo embrulhado em guardanapo.

正文2

Gabriel já esperava.

Ela estendeu a mão.

Antes que ele alcançasse o bolo, uma voz explodiu atrás dela.

"Valentina!"

A menina congelou.

O segurança vinha em sua direção.

Gabriel soltou a comida e recuou.

"O que você está fazendo aqui?"

"Nada."

O segurança olhou através das grades.

"Você de novo?"

Gabriel virou-se para fugir.

"Ei! Não volte mais aqui!"

Valentina colocou-se diante do homem.

"Não grita com ele!"

O segurança parou.

"Senhorita Valentina, volte para o pátio."

"Ele não fez nada."

"Esse menino fica rondando a escola."

"Ele só estava com fome."

A discussão chamou atenção.

Crianças começaram a se aproximar.

Uma professora apareceu.

Depois outra.

Gabriel já tinha sumido.

Mas o estrago estava feito.

Na segunda-feira seguinte, Valentina percebeu os cochichos.

"É ela."

"A que dá comida para o mendigo."

Beatriz aproximou-se com duas meninas.

"É verdade que você namora aquele menino de rua?"

Valentina fechou a lancheira.

"Claro que não."

"Então por que você dá comida para ele?"

"Porque ele tem fome."

Uma das meninas riu.

"Namorada do menino de rua."

As outras repetiram.

"Namorada do menino de rua."

Valentina sentiu o rosto queimar.

"Para!"

Mas quanto mais se irritava, mais elas riam.

Naquela tarde, a coordenadora chamou Helena.

Um pai havia reclamado que a presença de Gabriel colocava as crianças em risco.

Outro disse que a escola estava permitindo "gente estranha" nos arredores.

Quando Henrique Almeida descobriu, a reação foi muito diferente da de Helena.

Ele chegou em casa antes do jantar.

Valentina soube que havia problemas assim que viu o pai parado no escritório.

"Entre."

Ela entrou devagar.

Henrique colocou as duas mãos sobre a mesa.

"Você está levando comida para um menino que fica na porta da sua escola?"

Valentina olhou para a mãe.

Helena permanecia perto da janela.

"Estou."

"Há quanto tempo?"

"Algumas semanas."

Henrique respirou fundo.

"Por que você fez isso?"

"Porque ele estava com fome."

"Você conhece esse menino?"

"Conheço."

Henrique bateu a mão sobre a mesa.

"Não. Você não conhece."

Valentina se assustou.

Henrique abaixou a voz.

"Pessoas como ele se aproveitam de pessoas como você."

Valentina ficou imóvel.

"Ele nunca me pediu nada."

"Isso não importa."

"Importa sim."

"Valentina."

"Se eu estivesse com fome, também gostaria que alguém me desse comida."

O silêncio caiu sobre o escritório.

Helena olhou para a filha.

Henrique desviou os olhos por um instante.

Mas sua expressão endureceu novamente.

"Você não vai mais chegar perto daquele portão."

Valentina arregalou os olhos.

"Pai..."

"A decisão está tomada."

"Eu posso só falar com ele?"

"Não."

"Ele vai achar que eu abandonei ele!"

Henrique permaneceu frio.

"Na segunda-feira você começa em outra escola."

Valentina ficou pálida.

"Não."

"Você será transferida."

"Não!"

Ela começou a chorar.

Helena tentou se aproximar.

Valentina correu para fora do escritório.

Na manhã seguinte, Gabriel chegou cedo ao Colégio São Bento.

Trazia no pulso uma fita azul velha que Valentina havia deixado cair dias antes e que ele guardara como se fosse um presente.

Ao meio-dia, ficou diante das grades.

Esperou.

O intervalo começou.

Crianças ocuparam o jardim.

Valentina não apareceu.

Gabriel esperou mais.

O sinal tocou.

Os alunos voltaram para as salas.

Mesmo assim, ele não saiu dali.

Às três da tarde, começou uma chuva fina.

Gabriel se protegeu debaixo de uma árvore.

Às cinco, os primeiros carros começaram a buscar os alunos.

Um por um, eles foram embora.

Beatriz passou pelo portão.

Duas professoras passaram.

O segurança apagou as luzes do jardim.

Valentina não apareceu.

Gabriel finalmente perguntou:

"A menina que ficava ali... a Valentina... ela faltou?"

O segurança olhou para ele.

"Ela não estuda mais aqui."

Gabriel sentiu alguma coisa afundar dentro do peito.

"Foi embora?"

"Foi transferida."

"Para onde?"

"Não sei. E você também precisa ir embora."

O portão de ferro se fechou diante dele.

Gabriel ficou parado na calçada molhada.

Apertou a fita azul no pulso.

Durante semanas, aquele portão havia sido o único lugar em São Paulo onde alguém parecia feliz em vê-lo.

Agora estava fechado.

E Gabriel acreditou que nunca mais veria Valentina Almeida.

Ele ainda não sabia que, poucos dias depois, receberia uma notícia capaz de arrancá-lo das ruas.

Nem que, antes de deixar São Paulo, atravessaria a cidade inteira por uma última chance de cumprir uma despedida.

Porque aquela história ainda não tinha terminado.

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