"MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ" Capítulo 5
Henrique não perguntou mais nada naquele momento.
Dobrou o desenho de Léo com cuidado e guardou no bolso da camisa.
Depois olhou para Isabela.
"Você sabe que quarto é esse?"
Ela demorou a responder.
"Sei."
Henrique sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
"Onde?"
Isabela olhou para Léo.
O menino ainda segurava o lápis com força.
"É melhor ele não ouvir."
Henrique se abaixou.
"Léo, vai até a cozinha buscar aquele suco que você gosta."
O menino hesitou.
"Você vai ficar aqui?"
"Vou."
"Promete?"
Henrique respirou fundo.
"Prometo."
Léo saiu devagar.
Assim que desapareceu pelo corredor, Henrique se virou para Isabela.
"Agora fala."
Ela apertou as mãos.
"Tem um depósito na parte antiga da casa."
"Eu sei qual é."
"Vitória usava."
"Usava para quê?"
Isabela baixou os olhos.
"Para deixar o Léo lá."
Henrique ficou imóvel.
"Por quanto tempo?"
"Eu não sei."
"Você viu?"
"Uma vez."
A voz dela tremeu.
Henrique se aproximou.
"Me mostra."
Os dois atravessaram o corredor lateral da casa.
A propriedade de Campos do Jordão tinha sido ampliada várias vezes ao longo de décadas.
A parte mais antiga quase não era usada.
Havia quartos de hóspedes fechados, uma antiga sala de costura e um depósito no fim do corredor.
Henrique parou diante da porta.
Tentou a maçaneta.
Trancada.
"Cadê a chave?"
Isabela balançou a cabeça.
"Não sei."
Henrique examinou a fechadura.
Era nova.
Ele conhecia aquela porta desde criança.
A fechadura nunca tinha sido trocada.
Pegou o celular.
"Bruno, vem para a ala antiga. Agora."
Cinco minutos depois, Bruno apareceu com uma pequena maleta de ferramentas.
Ele olhou para a porta.
"Quer que eu arrombe?"
"Quero que abra."
Bruno se ajoelhou.
"Isso foi instalado recentemente."
Henrique sentiu a mandíbula endurecer.
"Quanto tempo?"
"Poucos meses, pelo estado."
Isabela ficou ainda mais pálida.
Bruno trabalhou por menos de dois minutos.
A fechadura cedeu.
Henrique empurrou a porta.
O cheiro de madeira fechada veio primeiro.
Depois o frio.
O quarto era pequeno.
Não havia janela grande, apenas uma abertura estreita perto do teto.
Caixas ocupavam metade do espaço.
Ferramentas antigas estavam encostadas numa parede.
Por um instante, parecia apenas um depósito.
Henrique entrou.
Bruno acendeu a luz.
Então Isabela apontou para o canto.
"Ali."
Henrique olhou.
Havia um carrinho vermelho.
Um urso de pelúcia sem uma orelha.
Duas folhas amassadas.
E uma pequena manta azul dobrada no chão.
Henrique ficou parado.
Ele reconhecia aquela manta.
Tinha sido de Léo quando era menor.
"Como isso veio parar aqui?"
Ninguém respondeu.
Henrique pegou o carrinho.
Havia marcas de poeira, mas também marcas recentes nos pneus.
Bruno examinou o piso.
"Esse lugar não está abandonado."
Henrique olhou para ele.
"Tem certeza?"
"Tem pegadas."
Bruno apontou.
"Algumas são pequenas."
Henrique fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, a raiva já havia tomado o lugar do choque.
"Chama o Léo."
Isabela segurou o braço dele.
"Talvez não seja uma boa ideia."
Henrique virou-se.
"Eu preciso saber."
"Ele fica nervoso aqui."
"Eu preciso ouvir do meu filho."
Isabela soltou devagar.
Poucos minutos depois, Léo apareceu no corredor.
Assim que viu a porta aberta, parou.
Henrique percebeu imediatamente.
O menino não deu mais nenhum passo.
"Léo."
Ele não respondeu.
Henrique saiu do quarto.
Abaixou-se diante dele.
"Você conhece esse lugar?"
Léo assentiu.
"Vitória te trazia aqui?"
Outro movimento de cabeça.
Henrique sentiu o peito apertar.
"Por quê?"
Léo olhou para Isabela.
Depois para o chão.
"Quando eu fazia coisa errada."
"Que coisa?"
"Quando eu chorava."
Henrique sentiu um nó na garganta.
"Só isso?"
"Quando eu não queria tomar remédio."
Henrique fechou os olhos.
"Quanto tempo você ficava aqui?"
Léo encolheu os ombros.
"Até parar."
"Parar o quê?"
"De chorar."
Henrique desviou o rosto.
Bruno baixou a cabeça.
Isabela levou a mão à boca.
Léo continuou.
"Ela dizia que menino grande não faz barulho."
Henrique voltou a olhar para o filho.
"E você ficava sozinho?"
"Às vezes."
"Às vezes?"
"O Rafael vinha."
Henrique congelou.
"Dr. Rafael?"
Léo assentiu.
"O que ele fazia aqui?"
"Falava com a Vitória."
"Com você também?"
"Pouco."
Henrique respirou fundo.
"Ele te dava remédio?"
O menino ficou em silêncio.
Isabela se aproximou.
"Léo, você não precisa responder se não quiser."
Henrique olhou para ela.
Depois percebeu que o filho começava a tremer.
Ele parou.
"Chega."
Pegou Léo no colo.
"Você não volta mais aqui."
Léo passou os braços pelo pescoço dele.
"Nem se eu fizer coisa errada?"
Henrique sentiu os olhos arderem.
"Nem se fizer a maior bagunça do mundo."
Léo encostou o rosto no ombro do pai.
Henrique ficou alguns segundos assim.
Depois entregou o menino a Isabela.
"Leva ele para o jardim."
Quando os dois se afastaram, Henrique olhou para Bruno.
"Fotografa tudo."
"Já estou fazendo."
"Quero registro da fechadura, das pegadas e de qualquer objeto."
Bruno assentiu.
Henrique ficou sozinho por alguns segundos.
Então viu algo preso atrás de uma caixa.
Uma folha dobrada.
Pegou.
Era um desenho infantil.
Uma figura pequena dentro de um quadrado preto.
Do lado de fora, uma mulher alta.
Henrique apertou o papel.
Naquela tarde, chamou Isabela ao escritório.
Ela entrou nervosa.
"Você disse que viu isso uma vez."
"Sim."
"Me conta."
Isabela permaneceu de pé.
"Foi há uns três meses."
Henrique esperou.
"Eu ouvi o Léo chorando."
"De onde?"
"Do corredor."
"Você entrou?"
"Tentei."
"Vitória estava lá?"
"Na porta."
Henrique ficou sério.
"O que ela disse?"
"Que ele precisava aprender a se controlar."
"E você?"
"Eu disse que aquilo não estava certo."
Henrique se inclinou sobre a mesa.
"E depois?"
"Ela mandou eu voltar ao trabalho."
"Você voltou?"
"Não."
Henrique percebeu.
"Você enfrentou ela."
Isabela respirou fundo.
"Eu disse que não ia deixar ele sozinho."
"Então?"
"Ela ameaçou me demitir."
Henrique sentiu a raiva crescer.
"No dia seguinte, ela chamou a administradora da casa."
Isabela baixou os olhos.
"Eu já estava arrumando minhas coisas."
Henrique ficou imóvel.
"O que aconteceu?"
"Léo percebeu."
Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.
"Ele começou a chorar."
"Quanto?"
"Muito."
"Ele nunca tinha feito aquilo comigo antes."
Isabela respirou fundo.
"Ele se agarrou na minha perna e não soltava."
Henrique sentiu uma dor silenciosa.
"Vitória desistiu de te mandar embora?"
"Naquele dia."
"Por quê?"
"Porque ele ficou tão nervoso que começou a passar mal."
Henrique ficou em silêncio.
"Ela disse que eu podia ficar até encontrarem alguém."
"E nunca encontraram."
Isabela balançou a cabeça.
"Não."
Henrique levantou-se.
"Obrigado."
"Senhor Henrique..."
Ele parou.
"Eu devia ter falado antes."
Henrique olhou para ela.
"Devia."
Isabela baixou os olhos.
"Eu tive medo."
Henrique ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu.
"Eu também devia ter estado aqui."
Ela ergueu o rosto.
"Isso não foi culpa sua."
Henrique desviou o olhar.
"Parte foi."
A porta abriu de repente.
Vitória entrou sem bater.
"Que reunião interessante."
Henrique virou-se.
"Eu ia te procurar."
"Não precisa."
Vitória fechou a porta.
"Já sei que vocês abriram o depósito."
Henrique se aproximou.
"Você trancava meu filho lá?"
Ela não se intimidou.
"Eu corrigia comportamento."
"Trancando uma criança de seis anos?"
"Não dramatiza."
Henrique bateu a mão na mesa.
"Não me manda não dramatizar!"
Isabela recuou.
Vitória respirou fundo.
"Você está ouvindo só uma versão."
"Eu ouvi do meu filho."
"Seu filho tem um transtorno."
Henrique ficou imóvel.
Vitória abriu a bolsa.
Retirou uma pasta.
Jogou sobre a mesa.
"Quer falar de verdade? Então lê."
Henrique abriu.
Eram relatórios.
Avaliações.
Assinaturas.
Laudos de Dr. Rafael.
Vitória apontou.
"Dois anos de acompanhamento."
Henrique virou as páginas.
"Isso não justifica o que você fez."
"Justifica rotina."
"Isso era castigo."
"Era controle de estímulo."
Henrique levantou os olhos.
Vitória apontou para Isabela.
"Ela não contou que começou a interferir no tratamento?"
Isabela ficou pálida.
"Eu nunca..."
"Você ensinou Léo a te procurar toda vez que era contrariado."
"Isso não é verdade."
Vitória riu.
"Você dava doces escondido."
"Uma vez."
"Deixava ele fugir das atividades."
"Ele estava chorando."
"Exatamente."
Vitória olhou para Henrique.
"Ela criou dependência."
Henrique ficou em silêncio.
Vitória percebeu e avançou.
"Você está tão desesperado para acreditar que seu filho está bem que resolveu transformar uma funcionária em especialista."
Henrique fechou a pasta.
"Chega."
"Não."
Vitória levantou a voz.
"Você nunca esteve aqui."
A frase acertou.
Henrique ficou imóvel.
Vitória continuou.
"Eu levei esse menino a consultas. Eu passei noites acordada. Eu segui orientação médica."
Henrique apertou os punhos.
"E agora você chega de repente, vê ele sorrir duas vezes e decide que todo mundo mentiu?"
"Eu vi ele com medo de você."
"E eu vi crises que você nunca viu."
Vitória pegou o celular.
"Quer ouvir alguém que entende?"
Antes que Henrique respondesse, ela ligou.
Dr. Rafael atendeu.
Vitória colocou no viva-voz.
"Rafael, Henrique interrompeu parte da medicação e está questionando os relatórios."
Houve silêncio.
Depois a voz do médico apareceu.
"Henrique, isso é extremamente irresponsável."
Henrique aproximou-se do telefone.
"Você estava indo à minha casa sem me informar."
"Porque seu filho precisava."
"E recebendo centenas de milhares de reais do meu grupo."
Silêncio.
Rafael respondeu mais devagar.
"Isso não tem relação com o tratamento."
"Então vamos conversar pessoalmente."
"Vamos."
Henrique quase desligou.
Mas Rafael continuou.
"Só não cometa o erro de confundir culpa com diagnóstico."
Henrique parou.
"O quê?"
"Você se sente culpado por ter sido ausente."
A voz do médico ficou firme.
"Isso não significa que Léo esteja saudável."
Henrique sentiu o rosto endurecer.
"Você está dizendo que eu estou inventando tudo isso?"
"Estou dizendo que pode estar procurando uma explicação mais confortável."
Vitória cruzou os braços.
Isabela ficou em silêncio.
Rafael concluiu.
"E transformar Isabela em solução para todos os problemas do menino pode piorar ainda mais a dependência emocional dele."
Henrique desligou.
O escritório mergulhou em silêncio.
Vitória guardou o telefone.
"Agora você entende?"
Henrique olhou para ela.
"Não."
"Então o quê?"
"Agora eu sei que vocês estão com medo."
Vitória perdeu o sorriso.
Antes que pudesse responder, Bruno bateu na porta.
"Henrique."
"Agora não."
"É importante."
Henrique saiu.
Bruno segurava o celular.
"Mariana Costa está aqui."
Henrique franziu a testa.
"A advogada?"
"Ela veio de São Paulo."
"Por quê?"
"Disse que precisa falar só com você."
Henrique desceu até a biblioteca.
Mariana estava de pé perto da janela com uma pasta antiga nas mãos.
Ao vê-lo, fechou a porta.
"Você está investigando os pagamentos médicos do Léo."
Henrique ficou sério.
"Como você sabe?"
"Porque alguns deles estão ligados a documentos que eu mesma registrei anos atrás."
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Que documentos?"
Mariana colocou a pasta sobre a mesa.
"O problema não começou com os remédios."
Ela abriu a primeira página.
No alto havia o nome do avô de Henrique.
Mariana ergueu os olhos.
"Você precisa ler o testamento do seu avô."
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