"MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ" Capítulo 3
Henrique deixou Campos do Jordão antes das oito da manhã.
Não contou a Vitória para onde estava indo.
Levou apenas o frasco encontrado no lixo, colocou-o dentro de um envelope e pediu a Bruno Almeida que preparasse o carro.
Léo foi junto.
O menino acreditava que passaria o dia com o pai em São Paulo.
Henrique preferiu que continuasse pensando assim.
No banco traseiro, Léo observava a estrada pela janela.
A serra ainda estava coberta por uma névoa fina.
"Vamos trabalhar, papai?"
"Hoje não."
"Então vamos brincar?"
Henrique virou o rosto.
"Um pouco."
Léo sorriu.
Aquele sorriso ainda parecia impossível.
Henrique sentiu raiva ao pensar que alguém poderia ter tentado apagar aquilo do próprio filho.
Quando chegaram a São Paulo, Bruno seguiu primeiro para um laboratório particular nos Jardins.
Henrique entregou o envelope pessoalmente.
"Preciso saber exatamente o que tem nesse comprimido."
A farmacêutica responsável analisou a embalagem.
"Tem receita?"
"Não."
"Então precisamos tratar isso apenas como análise de composição."
"Faça o que for necessário."
Ela percebeu a tensão dele.
"O senhor terá o resultado preliminar ainda hoje."
Henrique assentiu.
Depois saiu sem dizer mais nada.
Do laboratório, foi diretamente ao Hospital Santa Cecília.
Ele havia marcado a consulta na noite anterior usando outro nome no primeiro contato administrativo.
Não queria que Dr. Rafael Ferraz soubesse.
Muito menos Vitória.
A médica escolhida era Dra. Marina Salles, especialista em desenvolvimento infantil.
Ela recebeu Léo em uma sala clara, cheia de livros, brinquedos e desenhos.
Henrique permaneceu próximo à porta.
Marina não começou com perguntas.
Sentou-se no chão.
Pegou dois carrinhos.
"Este aqui é muito rápido."
Léo observou.
"Não é."
A médica levantou uma sobrancelha.
"Não?"
"Esse tem roda ruim."
Henrique quase sorriu.
Marina entregou o carrinho a ele.
"Então você entende mais que eu."
Léo examinou as rodas.
"Esse trava."
"Pode consertar?"
"Posso tentar."
Durante quase vinte minutos, os dois brincaram.
Depois Marina mostrou figuras.
Perguntou sobre cores.
Contou histórias.
Mudou as regras de algumas brincadeiras de propósito.
Léo reclamou.
Riu.
Fez perguntas.
Em certo momento, correu até Henrique para mostrar um desenho.
"Olha."
Henrique pegou a folha.
Era um cachorro enorme ao lado de uma casa.
"Quem é esse?"
"O Thor."
"Mas nós não temos cachorro."
"Eu vou ter."
Marina observava tudo.
Depois de quase duas horas, pediu que uma enfermeira acompanhasse Léo até outra sala para fazer um lanche.
Assim que a porta fechou, Henrique se levantou.
"Então?"
Marina retirou os óculos.
"Então eu preciso saber por que o senhor veio aqui sem enviar o histórico médico completo."
Henrique percebeu que ela já havia entendido que havia alguma coisa errada.
"Eu trouxe cópias."
"Parciais."
"São os documentos que eu tenho."
"Quem acompanha seu filho?"
"Dr. Rafael Ferraz."
Marina ficou séria.
"Há quanto tempo?"
"Quase dois anos."
"Ele prescreveu medicação?"
"Sim."
"Qual?"
Henrique citou o nome.
Depois explicou a dose que conhecia.
Marina anotou.
"Mais alguma?"
Henrique ficou em silêncio.
"Eu descobri que talvez exista outra."
A médica levantou os olhos.
"Talvez?"
"Encontrei um frasco."
"Prescrito para o Léo?"
"Não."
A expressão dela mudou imediatamente.
"Henrique, isso é sério."
"Eu sei."
"Esse medicamento foi administrado a ele?"
"É o que estou tentando descobrir."
Marina fechou a pasta.
"Então preciso falar com clareza."
Henrique sentiu o corpo endurecer.
"Fale."
"A avaliação de hoje não permite fechar nenhum diagnóstico."
"Eu não estou pedindo um diagnóstico em duas horas."
"Ótimo."
Ela apoiou as mãos sobre a mesa.
"Mas também não vi elementos suficientes para sustentar a descrição que o senhor me apresentou."
Henrique franziu a testa.
"Que descrição?"
"Uma criança emocionalmente desconectada, incapaz de formar vínculo afetivo e com baixa resposta social."
Henrique sentiu um aperto no peito.
"Foi isso que me disseram."
"Hoje ele estabeleceu contato visual."
Henrique permaneceu em silêncio.
"Buscou sua aprovação."
Marina continuou.
"Respondeu a estímulos emocionais, demonstrou humor, frustração, curiosidade e afeto."
Henrique apertou a mandíbula.
"Então ele não tem nada?"
"Eu não disse isso."
A médica falou com firmeza.
"Crianças são complexas. Uma manhã boa não apaga dois anos de histórico."
"Mas?"
"Mas o comportamento que eu vi não combina com a ideia de ausência de emoção."
Henrique encarou a mesa.
Marina hesitou antes de continuar.
"Há outra coisa."
"O quê?"
"Quando perguntei quem cuida dele em casa, ele ficou tenso."
Henrique ergueu os olhos.
"Ele falou da Vitória?"
"Não."
"Então?"
"Ele perguntou se precisava voltar para casa hoje."
Henrique sentiu o estômago afundar.
Marina respirou fundo.
"Eu perguntei por quê."
"E o que ele respondeu?"
"Disse que lá ele precisa ficar quieto."
Henrique fechou os olhos.
Por alguns segundos, a raiva quase venceu.
Marina percebeu.
"Não faça nada impulsivo."
Henrique abriu os olhos.
"Alguém pode estar drogando meu filho."
"É exatamente por isso que o senhor não pode agir sem prova."
Ele odiou ouvir aquilo.
Porque sabia que ela tinha razão.
Marina continuou.
"Também quero exames laboratoriais."
"Faça todos."
"Quero verificar possíveis efeitos de uso prolongado de medicamentos sedativos."
Henrique congelou.
"Você acha que o comportamento dele pode ser causado por remédio?"
"Pode ser agravado."
"Quanto?"
"Depende da substância, da dose e da frequência."
Ela fez uma pausa.
"Mas medo constante também muda comportamento."
Henrique olhou para ela.
Marina falou mais baixo.
"Uma criança que vive tentando prever quando será repreendida aprende a se controlar o tempo todo."
"Isso pode parecer doença?"
"Pode parecer muitas coisas."
Henrique ficou em silêncio.
A porta se abriu.
Léo entrou segurando um suco.
"Podemos ir agora?"
Henrique se abaixou.
"Podemos."
Léo aproximou-se.
"Eu gostei daqui."
Marina sorriu.
"Pode voltar quando quiser."
"Tem o carrinho quebrado."
"Vou deixar para você consertar."
Léo sorriu novamente.
Henrique sentiu uma dor tão forte que precisou desviar o rosto.
No caminho de volta, recebeu a ligação do laboratório.
Bruno colocou no viva-voz apenas depois de confirmar que Léo estava usando fones de ouvido.
A farmacêutica falou primeiro.
"Temos o resultado preliminar."
Henrique segurou o telefone.
"Pode falar."
"O comprimido contém uma substância sedativa de ação central."
Henrique ficou imóvel.
"É usada em crianças?"
"Em situações específicas e sob controle médico rigoroso."
"A dose?"
"Sem saber o peso do paciente e o histórico, não posso avaliar com precisão."
"Mas?"
"A apresentação encontrada não é compatível com uso casual."
Henrique sentiu a mão fechar em torno do aparelho.
"Pode causar sonolência?"
"Sim."
"Redução de resposta?"
"Pode."
"Lentidão?"
"Também."
Henrique desligou poucos minutos depois.
Bruno olhou pelo retrovisor.
"Quer que eu investigue o médico?"
"Quero tudo."
"Rafael?"
"Rafael, Vitória, receitas, farmácias, pagamentos."
Bruno assentiu.
Henrique olhou para Léo.
O menino dormia encostado na janela.
Naquela tarde, voltaram para Campos do Jordão.
Vitória os esperava na sala.
Ela levantou assim que viu os dois.
"Onde vocês estavam?"
"São Paulo."
"Fazendo o quê?"
"Passeando."
Vitória olhou para Léo.
"Você tomou o remédio da manhã?"
Henrique respondeu antes do filho.
"Não."
Vitória virou-se tão rápido que deixou de esconder a irritação.
"Como assim, não?"
"Ele não tomou."
"Henrique, você não pode simplesmente interromper um tratamento."
"Uma dose."
"Uma dose pode desregular tudo."
A voz dela estava mais alta.
Léo se aproximou do pai.
Henrique percebeu.
"Baixa a voz."
Vitória olhou em volta.
"Você está fazendo isso para me provocar?"
Henrique quase riu.
"Não sabia que a medicação do meu filho era sobre você."
Ela ficou pálida por um instante.
Depois recuperou o controle.
"O Rafael precisa saber."
"Eu falo com ele."
"Não. Eu vou ligar agora."
Vitória pegou o celular.
Henrique segurou o pulso dela.
"Eu disse que eu falo."
Ela olhou para a mão dele.
Depois para seu rosto.
"Você está escondendo alguma coisa."
Henrique soltou.
"Engraçado."
Vitória franziu a testa.
"O quê?"
"Nada."
Ele levou Léo para cima.
No corredor, encontrou Isabela.
Ela olhou para os dois.
"Está tudo bem?"
"Fica com ele um pouco?"
"Claro."
Léo segurou a mão dela imediatamente.
Henrique desceu de novo.
Vitória já não estava na sala.
Ele achou que ela tivesse ido para o quarto.
Mas Isabela descobriu a verdade vinte minutos depois.
Ela estava levando roupas limpas até a lavanderia quando ouviu a voz de Vitória vindo da varanda lateral.
Vitória falava ao telefone.
"Ele não tomou hoje."
Isabela diminuiu o passo.
"Eu não sei o que o Henrique está fazendo."
Silêncio.
"Não. Você não está entendendo."
A voz de Vitória ficou tensa.
"Ele levou o menino para São Paulo."
Isabela parou atrás da parede.
"Eu acho que está desconfiado."
Outra pausa.
Vitória começou a andar.
"Você precisa resolver isso."
Isabela sentiu o coração acelerar.
Então ouviu a frase que fez suas mãos gelarem.
"Se ele melhorar agora, tudo acaba."
Isabela quase deixou as roupas caírem.
Vitória continuou falando.
"Eu não vou perder tudo por causa disso."
Isabela recuou antes de ser vista.
Foi até o escritório.
Bateu duas vezes.
Henrique abriu.
Ao olhar para o rosto dela, percebeu imediatamente.
"O que aconteceu?"
Isabela entrou e fechou a porta.
"Eu ouvi Vitória falando com alguém."
"Sobre o quê?"
"Sobre o Léo."
Henrique ficou imóvel.
"O que ela disse?"
Isabela repetiu a frase.
Henrique não respondeu.
Mas alguma coisa mudou em seu rosto.
Até aquele momento, ele acreditava estar investigando crueldade, abuso de autoridade ou um tratamento médico irresponsável.
Agora era diferente.
Vitória precisava que Léo continuasse doente.
Ou, pelo menos, precisava que todos acreditassem nisso.
Henrique foi até a mesa.
Ligou o computador.
"Bruno."
"Sim?"
"Quero saber quem pagou cada consulta, cada receita e cada medicamento dos últimos dois anos."
Bruno começou a acessar os registros financeiros.
Alguns minutos depois, encontrou uma sequência de pagamentos vinculados às despesas médicas de Léo.
"Henrique."
"O quê?"
"Tem uma coisa estranha."
Henrique se aproximou.
"Mostra."
Bruno abriu os dados bancários.
As consultas particulares não estavam saindo da conta pessoal de Henrique.
Também não estavam sendo pagas pela conta doméstica da propriedade.
Os valores vinham de um centro de custo corporativo.
Henrique leu o nome duas vezes.
Não podia ser coincidência.
Os pagamentos feitos ao Dr. Rafael, à farmácia e aos serviços ligados ao tratamento de Léo vinham diretamente de uma conta interna do Grupo Montenegro.
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