"Quando Você Voltou, Eu Já Tinha Partido" Parte 6 — Ele Levou Davi
Parte 6 — Ele Levou Davi
Na manhã seguinte, Helena reuniu a diretora da escola, sua advogada e Rafael.
Colocou sobre a mesa uma lista com os nomes das únicas pessoas autorizadas a buscar Davi.
"Qualquer alteração precisa ser confirmada por videochamada comigo", determinou. "Nenhum telefonema será suficiente."
A diretora concordou.
"Vamos alertar todos os funcionários."
Helena retirou da bolsa um pequeno dispositivo de localização.
"Também quero isto preso no fundo da mochila."
Rafael examinou o aparelho.
"Ele envia a posição pela rede móvel?"
"E armazena o trajeto quando fica sem sinal."
"Boa escolha."
Helena mostrou outro dispositivo idêntico.
"Um ficará na mochila. O segundo, dentro do tênis reserva."
Rafael ergueu os olhos.
"Você já pensou na possibilidade de Rogério encontrar o primeiro."
"Ele sempre acredita que é mais inteligente do que os outros."
Nos dias seguintes, Helena transformou a própria rotina.
Mudou os horários, contratou transporte autorizado e ensinou Davi a repetir o endereço da mãe e o número de emergência.
Também criou uma frase secreta.
Se alguém dissesse que fora buscá-lo a pedido dela, precisava conhecer a resposta correta.
"Qual é a pergunta?", ela treinou.
Davi sorriu.
"Qual é o nome da estrela da mamãe?"
"E a resposta?"
"Marina."
Helena beijou sua testa.
"Perfeito."
Rafael acompanhava as medidas sem tentar assumir o controle. Caio, porém, aparecia todos os dias oferecendo ajuda jurídica.
No terceiro, Helena perdeu a paciência.
"Você não pode usar o processo para se aproximar de mim."
"Não estou fazendo isso."
"Então pare de aparecer sem ser chamado."
Caio recebeu a frase em silêncio.
"Quero que Davi esteja seguro."
"Respeitar minhas decisões também faz parte disso."
Ele assentiu e foi embora.
Na sexta-feira, Helena recebeu uma nova informação sobre o seguro de Marina.
A empresa de Rogério não apenas recebera a indenização. Parte do dinheiro fora transferida para o administrador da clínica dois dias antes de o prontuário ser alterado.
A advogada levou os registros à Polícia Civil.
Rogério poderia responder por fraude, falsificação de documento e possível participação na omissão de socorro.
Às quatro e meia da tarde, Helena saiu do trabalho para buscar Davi.
O transporte autorizado avisara que estava preso no trânsito. Como a escola ficava a poucos quarteirões, ela decidiu ir pessoalmente.
Rafael telefonou.
"Posso mandar um motorista."
"Estou a menos de dez minutos."
"Helena, não mude o plano de segurança sem avisar."
"Estou avisando agora."
"Isso não torna a mudança segura."
"Não vou viver escondida."
Ela encerrou a ligação, mas compartilhou sua localização com ele.
Quando chegou à rua da escola, viu uma motocicleta caída na esquina. Dois homens discutiam no meio da pista, bloqueando o trânsito.
Helena diminuiu o passo.
Algo parecia errado.
A diretora apareceu no portão com Davi.
"Helena, ainda bem que chegou. Recebemos uma mensagem sua autorizando um motorista novo, mas ele não sabia a frase secreta."
"Eu não enviei mensagem."
A diretora empalideceu.
Davi correu para a mãe.
Naquele instante, uma van branca avançou sobre a calçada e parou diante deles.
A porta lateral se abriu.
Rogério saltou do veículo com dois homens.
"Pegue o menino!"
Helena empurrou Davi para trás da diretora.
"Tranque o portão!"
Um dos homens agarrou a funcionária. O outro avançou sobre Helena.
Ela pressionou três vezes o botão lateral do celular, ativando o envio automático de áudio e localização.
"Socorro! Estão tentando sequestrar uma criança!"
Rogério acertou o telefone de sua mão.
"Você deveria ter entregado os documentos."
Helena golpeou o rosto dele com a bolsa e correu para Davi.
Um dos cúmplices a segurou pela cintura. Ela bateu o cotovelo contra o nariz dele e conseguiu se soltar.
"Davi, corra para dentro!"
O menino obedeceu, mas Rogério alcançou sua mochila.
Helena se lançou sobre ele.
"Solte meu filho!"
Rogério a empurrou contra o muro.
Uma dor violenta explodiu em sua cabeça. O sangue escorreu por sua têmpora, mas ela se levantou novamente.
Davi gritava.
"Mamãe!"
Helena agarrou a porta da van. Rogério pisou em sua mão e arrancou seus dedos da lataria.
O veículo acelerou.
Ela caiu sobre o asfalto.
A van desapareceu na esquina com Davi chorando atrás do vidro.
Durante alguns segundos, Helena não ouviu nada além do próprio coração.
Depois se obrigou a respirar.
Pegou o telefone quebrado e verificou a tela.
A gravação havia sido enviada.
O primeiro localizador continuava ativo.
Ligou para a Polícia Civil e, em seguida, para Rafael.
"Rogério levou Davi."
A voz dele mudou imediatamente.
"Onde você está?"
"Na escola. A van é branca, placa final sete. Estou enviando o trajeto."
"Não se mova. A polícia já está sendo acionada."
"Venha para cá."
Helena entregou à polícia as imagens das câmeras, o áudio do ataque e o acesso ao rastreador.
Caio chegou ao local pouco depois, avisado por Lúcia. Ao vê-la com sangue no rosto, tentou levá-la ao hospital.
"Não vou sair daqui."
"Você pode estar com uma concussão."
"Meu filho está naquela van."
"Os policiais estão procurando."
"E eu tenho informações que eles não têm."
Helena abriu o histórico de Rogério.
Ele nascera em uma cidade do Paraná, mas não seguia na direção de lá.
A van pegara a Rodovia dos Bandeirantes e depois desviara para uma estrada secundária.
"Ele quer que pensemos que está fugindo para outro estado", disse Rafael. "Pode trocar de veículo."
"Não. Ele precisa de mim."
Helena reproduziu a última frase dita por Rogério durante o ataque.
Você deveria ter entregado os documentos.
"Ele levou Davi para me obrigar a entregar o prontuário original e os registros do seguro."
Caio fechou os punhos.
"Então vai entrar em contato."
Helena olhou para o mapa.
O primeiro sinal desapareceu perto de um posto de combustível.
Ela não se desesperou.
"Ele encontrou o aparelho da mochila."
Rafael aproximou-se.
"E o segundo?"
Helena acessou outra conta.
Um ponto azul piscava alguns quilômetros adiante.
"Ainda está no tênis."
O rastreador seguiu por mais vinte minutos. Depois abandonou a estrada principal e entrou em uma área rural próxima a Jundiaí.
A posição parou.
Helena ampliou o mapa.
Havia três propriedades nas proximidades: uma chácara, um depósito de equipamentos e uma antiga fazenda de café abandonada.
Ao consultar os registros públicos, encontrou o nome de uma empresa que havia alugado o galpão anos antes.
RB Consultoria.
A empresa usada por Rogério para receber o dinheiro do seguro de Marina.
"Não é apenas um esconderijo", Helena disse. "Ele guardou alguma coisa lá."
Uma tontura a obrigou a apoiar-se na mesa.
Rafael segurou seu braço.
"Você precisa de atendimento."
"Depois que Davi voltar."
Os policiais insistiram em levá-la a uma unidade de pronto atendimento enquanto uma equipe verificava a região. Helena aceitou apenas depois de entregar todas as senhas e mapas.
No hospital, o médico fechou o corte com quatro pontos.
Caio permaneceu do lado de fora. Rafael estava em contato com a equipe de investigação.
O telefone de Helena tocou.
Número desconhecido.
Ela colocou no viva-voz e iniciou a gravação.
A voz de Rogério surgiu baixa.
"Você tem duas horas para trazer os documentos."
"Quero falar com Davi."
"Não está em posição de exigir."
"Se ele estiver ferido, os documentos serão enviados automaticamente à polícia e à imprensa."
Houve silêncio.
Então a voz chorosa do menino atravessou a ligação.
"Mamãe?"
Helena apertou os olhos.
"Estou aqui, meu amor. Você está usando o tênis azul?"
"Estou."
"E consegue ver alguma coisa?"
"Está escuro. Tem cheiro ruim."
Rogério tomou o telefone.
"Chega. Venha sozinha ou nunca mais verá o menino."
A ligação terminou.
Helena repetiu mentalmente os sons captados: um motor pesado, metal sendo arrastado e, ao fundo, três badaladas.
Abriu o mapa novamente.
A fazenda abandonada ficava a menos de dois quilômetros de uma antiga igreja e ao lado de uma linha ferroviária de carga.
Era lá.
A porta da sala se abriu. Rafael entrou com dois investigadores.
"A equipe tática está pronta, mas ainda precisa confirmar o imóvel."
Helena mostrou o mapa.
"Confirmado. Davi ouviu o trem e o sino da igreja. A RB Consultoria alugava o galpão."
Rafael observou a marca azul do rastreador.
"O sinal voltou."
O ponto se movia dentro do prédio principal.
Helena enviou o mapa, a gravação e a planta antiga da propriedade para a equipe policial.
Em seguida, arrancou a pulseira de identificação hospitalar e se levantou.
Caio bloqueou a porta.
"Você não pode ir até lá."
"Não vou entrar na fazenda. Vou para o centro de comando."
"Helena—"
"Rogério não está fugindo."
Ela fitou os dois homens, os investigadores e o ponto azul que representava seu filho.
"Ele está esperando por mim."
Helena empurrou a porta.
"E desta vez, sou eu quem vai preparar a armadilha."
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