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"Quando Você Voltou, Eu Já Tinha Partido" Parte 5 — Uma Declaração Sete Anos Atrasada

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Parte 5 — Uma Declaração Sete Anos Atrasada

Na manhã seguinte, Helena chegou ao escritório antes das sete.

Espalhou sobre a mesa todos os documentos relacionados a Marina: prontuários, registros da ambulância, extratos bancários, decisões judiciais e a apólice do seguro de vida.

Rogério usaria a relação biológica para fingir que era um pai injustiçado.

Ela demonstraria que ele jamais enxergara Davi como filho.

Camila entrou carregando dois copos de café.

"Você dormiu?"

"Durante uma hora."

"Seu advogado disse o quê?"

"Que Rogério tem pouca chance de conseguir a guarda definitiva, mas pode usar inconsistências antigas para atrasar o processo."

Helena abriu uma planilha.

"Preciso provar três coisas: que ele abandonou Davi, que representa risco físico e que o interesse dele sempre foi financeiro."

"Você já tem as ameaças."

"Tenho. Mas quero saber por que reapareceu agora."

Helena comparou a apólice com os extratos de Marina.

O seguro de vida pagara cento e oitenta mil reais após a morte dela. O dinheiro deveria ter sido dividido entre Rogério e Davi.

Nada chegara ao menino.

Uma empresa chamada RB Consultoria recebera quase todo o valor.

Camila leu o nome.

"RB. Rogério Bastos?"

"Provavelmente."

Helena solicitou os dados públicos da empresa. Ela havia sido criada dois meses antes da morte de Marina e encerrada seis meses depois.

Aquilo não era coincidência.

Durante a tarde, Rafael enviou informações sobre a antiga clínica. O estabelecimento fora fechado por irregularidades, mas seus arquivos haviam sido transferidos para um depósito contratado pela prefeitura de Curitiba.

Helena telefonou para o setor responsável, apresentou a autorização do processo de guarda e solicitou cópias certificadas.

Caio apareceu na Vértice Pay no fim do expediente.

Ela o recebeu no saguão, sem convidá-lo a subir.

"Se veio falar sobre o processo, meu advogado já está cuidando."

"Vim falar sobre nós."

"Não existe nós."

Caio retirou do bolso uma pequena corrente de prata.

Na ponta havia uma estrela.

Helena reconheceu o modelo. Não era o colar que perdera, mas parecia ter sido comprado para combinar com ele.

"Eu pretendia entregar isso a você na noite da formatura."

Ela não tocou na joia.

"Por que não entregou?"

"Ouvi Bruno dizendo que você havia se declarado para ele. Ele segurava seu colar."

Caio respirou fundo.

"Quando você apareceu com aquela carta, achei que tinha sido rejeitada por Bruno e me escolhido como segunda opção."

Helena sentiu uma dor antiga despertar.

"Então você mentiu quando disse que me via como irmã."

"Sim."

"Você gostava de mim?"

"Eu amava você."

Ela fechou os olhos por um instante.

Durante anos, imaginara que ouvir aquilo curaria a garota de dezoito anos que deixara São Paulo com o coração destruído.

Não curou.

"Uma frase de Bruno foi suficiente para apagar tudo o que sabia sobre mim?"

"Eu era orgulhoso e imaturo."

"E agora?"

"Agora sei que passei sete anos odiando uma traição que nunca aconteceu."

Caio aproximou-se.

"Helena, deixe-me tentar de novo."

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Ela recuou.

"Seu erro de sete anos atrás explica por que me rejeitou. Não explica o que fez agora."

"Eu estava com raiva."

"Você me chamou de problema. Disse que ninguém estável deveria assumir minha vida. Chamou meu amor de barato sem saber o que enfrentei."

"Eu sinto muito."

"Você sente muito porque descobriu que eu não me casei. Se Davi fosse meu filho biológico, suas palavras continuariam aceitáveis?"

Caio não respondeu.

Helena sorriu com tristeza.

"Esse silêncio é a minha resposta."

Ela se afastou.

"Não tente transformar seu arrependimento em responsabilidade minha."

Naquela noite, Caio contou à mãe que pretendia reconquistar Helena.

Sônia ficou pálida.

"Ela tem uma criança."

"Davi é filho de Marina."

"Isso muda a origem do menino, não o que todos pensam."

Caio encarou a mãe.

"O que todos pensam não me interessa."

"Deveria. Você é professor, coordena um departamento, aparece na imprensa. Vai assumir uma mulher conhecida como mãe solteira e ainda comprar uma briga judicial com um homem perigoso?"

"Helena não é uma vergonha."

"Não falei isso."

"Falou de outro modo."

Sônia levantou-se.

"Beatriz é inteligente, vem de uma boa família e não carrega esse tipo de escândalo."

"Não vou me casar com Beatriz."

"Então com quem?"

"Se algum dia eu me casar, será com Helena."

Sônia levou a mão ao peito.

"Você vai destruir sua vida por uma paixão adolescente."

"Não. Eu destruí minha chance com ela quando deixei que meu orgulho decidisse por mim."

No dia seguinte, Helena recebeu os arquivos de Curitiba.

Um documento chamou sua atenção.

A ficha original dizia que Marina apresentava hemorragia intensa às 18h40 e precisava ser transferida imediatamente.

No relatório entregue à polícia, o horário fora alterado para 21h15.

A ambulância só havia sido chamada às 22h03.

Havia também um termo declarando que a paciente recusara a transferência.

A assinatura no campo de responsável era de Rogério.

Helena ampliou a imagem.

O documento tinha sido digitalizado duas vezes. Sob a assinatura dele, ainda era possível enxergar parte de outra anotação.

Companheiro impede remoção. Alega que não pode envolver polícia ou hospital público.

Helena sentiu as mãos tremerem.

Marina não recusara atendimento.

Rogério impedira a transferência.

Ela levou o documento à advogada e solicitou uma perícia.

Em seguida, telefonou para a antiga recepcionista da clínica, cujo contato aparecia no processo administrativo.

A mulher atendeu com voz desconfiada.

"Não quero problemas."

"Minha irmã morreu naquela noite. Só preciso saber o que aconteceu."

Houve um longo silêncio.

"Seu cunhado estava desesperado", disse a mulher. "Mas não por ela."

"Por quê?"

"Ele dizia que, se Marina fosse para um hospital grande, descobririam os documentos falsos do seguro."

Helena ativou o registro da ligação depois de pedir autorização formal para usar a conversa.

"Ele sabia que ela podia morrer?"

"Todo mundo sabia."

"Por que ninguém chamou socorro?"

"O dono da clínica mandou que ficássemos calados. Rogério pagou para alterar os horários."

Antes de desligar, a mulher deu a Helena o nome do enfermeiro que guardara cópias dos prontuários originais.

Na audiência preliminar, Rogério apareceu com terno novo e expressão abatida.

Seu advogado o apresentou como um pai arrependido que passara anos procurando o filho.

Helena permaneceu em silêncio até a juíza pedir que sua defesa apresentasse os elementos iniciais.

A advogada entregou as gravações das ameaças, as imagens da farmácia e os documentos médicos.

Rogério perdeu a cor.

Ao sair da sala, aproximou-se de Helena apesar da ordem para manter distância.

"Você não sabe o que está fazendo."

"Sei exatamente."

"Esses papéis não provam nada."

"Então não deveria estar com medo."

Ele inclinou o rosto na direção dela.

"Se continuar procurando, vai perder Davi antes que consiga chegar à verdade."

Rafael, que esperava alguns metros atrás, começou a avançar.

Helena ergueu a mão, impedindo-o.

Olhou diretamente para Rogério.

"Aproxime-se do meu filho e usarei cada palavra que acabou de dizer para enterrá-lo."

Naquela noite, a perícia confirmou que o horário do prontuário fora adulterado.

Helena recebeu o resultado no celular enquanto colocava Davi para dormir.

Ao lado do laudo havia uma notificação da escola.

Um homem telefonara durante a tarde afirmando ser o pai do menino e pedindo informações sobre os horários de entrada e saída.

Helena abraçou Davi com força.

Rogério não estava apenas preparando outro processo.

Estava estudando a rotina do filho.

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