"Quando Você Voltou, Eu Já Tinha Partido" Parte 4 — Ele Finalmente Descobriu Quem Era Davi
Parte 4 — Ele Finalmente Descobriu Quem Era Davi
Rogério lançou um olhar para a câmera instalada acima da entrada da farmácia.
Depois, fitou o celular na mão de Rafael.
"Você não sabe onde está se metendo."
"Sei que está violando uma medida protetiva", respondeu Rafael. "Também sei que acabou de agredir uma mulher diante de testemunhas."
Ao longe, uma sirene se aproximava.
Rogério recuou.
"Isso ainda não acabou, Helena."
"Para Marina, acabou", ela respondeu. "Mas o que você fez com ela ainda vai ser descoberto."
O rosto dele se contraiu.
Por um instante, Helena teve certeza de que Rogério diria alguma coisa. Em vez disso, ele atravessou a rua e desapareceu entre os carros.
Rafael não tentou persegui-lo.
Voltou-se imediatamente para Helena.
"Seu pulso está machucado."
"Não é grave."
Rafael examinou a marca vermelha deixada pelos dedos de Rogério, mas não tocou nela sem permissão.
"Você gravou a conversa?"
Helena mostrou o celular.
"Do início ao fim."
Um sorriso discreto surgiu no rosto dele.
"Você continua pensando mais rápido do que todos ao redor."
Os policiais chegaram minutos depois. Helena apresentou a medida protetiva, entregou a gravação e indicou as câmeras da farmácia.
Quando terminou o depoimento, Rafael ainda estava esperando.
Helena o observou com atenção.
"Você não estava morando em Lisboa?"
"Voltei há três semanas."
"Por quê?"
"Recebi uma proposta para assumir a área de risco e segurança de um grupo brasileiro."
Rafael abriu a porta da SUV para ela.
"E também estava cansado de viver longe de casa."
Helena entrou.
Durante o trajeto, contou apenas o necessário: Rogério era o pai biológico de Davi, tinha histórico de ameaças e queria contestar a guarda.
Rafael não perguntou por que o menino a chamava de mãe.
"Você já fez uma avaliação de segurança da escola e do prédio onde mora?"
"Acabei de voltar para São Paulo."
"Isso significa que não fez."
"Eu tenho uma medida protetiva."
"Um pedaço de papel não impede um homem desesperado de se aproximar."
Helena o encarou.
"Não preciso que volte depois de sete anos e organize minha vida por mim."
Rafael manteve os olhos na rua.
"Tem razão. Posso avaliar os riscos e entregar as informações. A decisão continuará sendo sua."
A resposta desarmou a irritação dela.
Ao chegarem ao prédio da família Duarte, Rafael lhe deu um cartão.
"Este é meu número pessoal. Não precisa usá-lo, mas guarde."
Helena olhou para o nome impresso: Rafael Montenegro, diretor de Gestão de Riscos e Compliance.
"Obrigada pelo que fez hoje."
"Eu faria de novo."
Ele esperou até que ela entrasse no edifício.
Na manhã seguinte, Caio bateu à porta dos Duarte.
Lúcia abriu com um pano de limpeza nas mãos.
"Caio? Aconteceu alguma coisa?"
"Helena está?"
"Já foi trabalhar."
Ele hesitou.
"Ontem à noite, um homem ameaçou Helena perto de um bar. Ela chegou bem?"
O rosto de Lúcia empalideceu.
"Rogério voltou a atacá-la?"
Caio ficou imóvel.
"Então foi ele."
Lúcia percebeu o que havia revelado.
Caio entrou e fechou a porta.
"Quem é Rogério? E quem é Davi?"
"Você deve perguntar à Helena."
"Perguntei. Ela não confia em mim o suficiente para responder."
Lúcia deixou o pano sobre a mesa.
"Talvez tenha motivos."
A frase o atingiu com precisão.
Davi apareceu no corredor arrastando um dinossauro de plástico.
"Tio Caio."
"Oi, Davi."
"Minha mãe está trabalhando."
"Eu sei."
O menino voltou para o quarto. Lúcia esperou até que a porta se fechasse.
"Davi é filho de Marina."
Caio sentiu o chão desaparecer.
Marina, a irmã mais velha de Helena, morrera quatro anos antes. Sônia lhe contara sobre o falecimento, mas ninguém explicara os detalhes.
"Ele é sobrinho dela?"
"Biologicamente, sim. Em todos os outros sentidos, é filho."
Lúcia contou sobre a clínica irregular, a hemorragia e as horas perdidas antes de Rogério pedir socorro.
Contou que Helena, recém-formada e sem dinheiro, viajara para Curitiba, procurara a Defensoria Pública e lutara para retirar o bebê daquele homem.
"Rogério queria o seguro de Marina e os benefícios que poderia conseguir usando Davi. Helena assumiu tudo. Consultas, noites sem dormir, crises de asma, advogados."
"Por que ela disse que foi casada?"
"Porque as pessoas são cruéis. Era mais fácil suportar a fama de divorciada do que deixar Davi crescer ouvindo que a mãe morreu e que o pai o tratava como moeda."
Caio se lembrou de cada palavra que dissera.
Divorciada. Cheia de problemas. Um amor sem valor.
Sentiu náusea.
"Ela nunca se casou?"
"Helena nunca namorou ninguém desde que foi embora."
Caio levou a mão ao rosto.
Durante sete anos, acreditara que ela o substituíra sem hesitar. Quando finalmente a reencontrara, escolhera puni-la por uma traição que jamais existiu.
"E o homem de ontem?"
"Rafael encontrou Helena por acaso e a ajudou."
O nome produziu um incômodo imediato.
Às seis da tarde, Caio aguardava no térreo da Vértice Pay.
Quando Helena saiu, Rafael estava ao lado dela.
Ele havia entregado uma análise com os pontos vulneráveis da rotina de Davi, os contatos de emergência e recomendações para o prédio.
Helena segurava a pasta contra o peito.
"Vou revisar tudo antes de decidir."
"É exatamente o que espero que faça", respondeu Rafael.
Caio aproximou-se.
"Rafael."
Os dois homens se encararam.
"Caio", respondeu Rafael. "Faz tempo."
"Você voltou e não avisou."
"Não sabia que precisava da sua autorização."
Helena soltou o ar, impaciente.
"Vou para casa."
"Espere", pediu Caio. "Preciso conversar com você."
"Não temos nada para conversar."
"Eu descobri a verdade sobre Davi."
Ela parou.
A expressão em seu rosto mudou da surpresa para a revolta.
"Você interrogou minha mãe?"
"Eu estava preocupado."
"Você estava curioso."
Caio baixou a voz.
"Eu não sabia o que você enfrentou."
"Porque nunca perguntou antes de me julgar."
"Eu errei."
"Isso não desfaz o que disse."
Rafael permaneceu em silêncio, sem tentar intervir.
Caio olhou para ele.
"Você sabia?"
"Soube ontem."
"E já está envolvido na segurança dela?"
"Helena decide até onde posso ajudar."
Caio percebeu a diferença escondida na resposta.
Rafael oferecia ajuda. Ele próprio sempre oferecera julgamento.
"Vamos jantar", sugeriu Rafael. "Nós três. Faz anos que não nos encontramos."
Helena deveria ter recusado. Porém, queria evitar uma discussão na entrada do trabalho.
Meia hora depois, estavam sentados em um restaurante da Alameda Santos.
Quando Helena se afastou para atender uma ligação, Caio encarou o antigo amigo.
"Você quer ficar com ela?"
Rafael não fingiu surpresa.
"Quero."
"Desde quando?"
"Desde o colégio."
Caio apertou os dedos ao redor do copo.
"Então por que foi embora?"
"Porque ela amava você."
Rafael inclinou-se para a frente.
"Agora responda à mesma pergunta. O que você quer com Helena?"
Caio não hesitou.
"Quero uma chance de corrigir o que fiz."
"Isso não foi o que perguntei."
"Eu quero ficar com ela."
Do lado de fora da sala reservada, Helena havia voltado.
Sua mão permaneceu sobre a maçaneta.
Rafael continuou:
"Você teve a chance de conhecê-la por toda a vida. Eu não vou me afastar novamente apenas porque decidiu olhar para ela tarde demais."
Helena abriu a porta.
Os dois homens se calaram.
Ela entrou, pegou a bolsa e olhou para ambos.
"Não sou um prêmio que vocês podem disputar."
"Helena, eu—", começou Caio.
"Minha prioridade é Davi. Se algum de vocês não entender isso, não existe lugar para vocês na minha vida."
O celular vibrou.
Helena abriu o e-mail e sentiu o sangue abandonar seu rosto.
Era uma notificação do Tribunal de Justiça.
Rogério Bastos havia ingressado com um pedido de revogação de sua guarda.
A audiência preliminar aconteceria em dez dias.
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