"Quando Você Voltou, Eu Já Tinha Partido" Parte 1 — A Criança Que Me Chamou de Mãe
Parte 1 — A Criança Que Me Chamou de Mãe
Durante sete anos, Helena Duarte acreditou que estava preparada para reencontrar Caio Valença.
Descobriu que estava errada no instante em que os olhos dele encontraram os seus no pátio lotado do Colégio São Gabriel.
A escola comemorava cem anos. Antigos alunos ocupavam o jardim, a quadra e os corredores decorados com fotografias de várias gerações.
No centro de uma roda formada por diretores, empresários e ex-alunos ilustres, Caio parecia pertencer a outro mundo.
Aos trinta e um anos, ele havia se tornado professor de Direito em uma das universidades mais respeitadas de São Paulo. Vestia um terno preto de corte impecável e ouvia os elogios do diretor com a serenidade de quem já estava acostumado a ser admirado.
Helena sentiu o peito apertar.
Caio continuava tão elegante e inacessível quanto na noite em que destruíra o primeiro amor dela com uma única frase.
"Você é maravilhosa, Helena, mas eu só consigo enxergá-la como uma irmã."
Ela desviou o olhar e procurou Davi entre as barracas do evento.
Antes que pudesse se afastar, Camila Nogueira segurou seu braço.
"Nem pense em fugir."
"Não estou fugindo."
"Claro que está. Você ficou branca assim que viu o Caio."
Helena forçou um sorriso.
"Estou procurando o Davi."
"Ele está com a sua mãe perto da barraca de sorvete."
Camila inclinou-se discretamente na direção do pátio.
"Caio está vindo para cá."
Helena mal teve tempo de respirar.
Quando ergueu a cabeça, ele já estava diante dela.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Helena não encontrou no rosto dele nenhum vestígio do rapaz que a esperava na saída das aulas, carregava seus livros e caminhava ao lado dela pelas ruas da Mooca.
Caio foi o primeiro a romper o silêncio.
"Helena. Quanto tempo."
A voz permanecia baixa e controlada.
Ela endireitou os ombros.
"Professor Valença."
Um brilho indecifrável atravessou os olhos dele.
"Não precisa me chamar assim."
"Sete anos é tempo suficiente para as pessoas mudarem."
Antes que Caio respondesse, antigos colegas se aproximaram.
"Olha só quem voltou para São Paulo!"
"Helena e Caio juntos de novo. Parece até que voltamos ao terceiro ano."
Bruno Salles apareceu entre eles com uma taça na mão.
"Naquela época, todo mundo tinha certeza de que vocês acabariam namorando."
O sorriso de Helena desapareceu.
Caio olhou para Bruno antes de responder:
"Vocês nunca entenderam nossa relação."
O tom frio fez a pequena roda silenciar.
Ele voltou os olhos para Helena.
"Nós éramos vizinhos. Eu sempre a considerei uma irmã."
A palavra atingiu exatamente o mesmo lugar de sete anos antes.
Helena apertou os dedos ao redor da bolsa, mas manteve o rosto sereno.
"Caio tem razão. Éramos apenas vizinhos."
Camila percebeu a tensão e tentou mudar de assunto.
"Helena voltou para assumir um cargo novo. Ela agora é diretora de operações."
"Na Vértice Pay?", perguntou um antigo colega. "Ouvi dizer que contrataram alguém de Curitiba para reorganizar toda a área."
Helena assentiu.
"Começo na segunda-feira."
"Então era você. Parabéns!"
Enquanto os colegas faziam perguntas, Caio permaneceu em silêncio.
Seu olhar percorreu o vestido azul-escuro de Helena, os cabelos castanhos presos em um coque baixo e a segurança com que ela falava sobre a própria carreira.
A menina tímida que o seguia pelos corredores já não existia.
De repente, uma voz infantil atravessou o pátio.
"Mamãe!"
Helena se virou.
Davi corria em sua direção segurando um balão vermelho. Atrás dele, Lúcia Duarte tentava acompanhar seus passos.
O menino se jogou contra as pernas de Helena.
"Mamãe, olha o que eu ganhei!"
Ela se abaixou imediatamente.
"Eu falei para não sair correndo, meu amor."
"Mas eu vi você."
Helena limpou com o polegar uma mancha de sorvete no rosto dele.
Todos ao redor haviam ficado em silêncio.
Camila conhecia a verdade. Os demais, não.
Bruno foi o primeiro a falar:
"Esse menino chamou você de mãe?"
Helena se levantou, mantendo Davi junto ao corpo.
"Chamou."
"Você se casou?"
Ela sentiu o olhar de Caio sobre seu rosto.
"Minha vida mudou bastante desde que fui embora."
Davi puxou sua mão.
"Mamãe, estou com sede."
"Já vamos buscar água."
Caio finalmente olhou para o menino.
Davi tinha cabelos castanhos, olhos grandes e uma expressão curiosa. Não parecia intimidado pelo homem alto à sua frente.
"Quantos anos você tem?", Caio perguntou.
Davi mostrou quatro dedos.
"Quatro."
"E como você se chama?"
Helena tentou interromper:
"Caio, ele precisa—"
"Davi Duarte", respondeu o menino. "Igual à minha mãe."
O maxilar de Caio se contraiu.
Helena segurou a mão da criança com mais força.
Um dos colegas soltou uma risada sem graça.
"Então o pai adotou o sobrenome da Helena?"
Davi olhou para ela, confuso.
Helena sabia que precisava encerrar aquilo antes que o menino começasse a fazer perguntas.
"Não existe um pai presente na nossa vida."
Caio continuou observando-a.
"Você se divorciou?"
"Sim."
A mentira saiu firme.
"Casei pouco depois de me mudar. O relacionamento não funcionou e eu fiquei com a guarda de Davi."
Caio não demonstrou surpresa. Apenas voltou a atenção para o menino.
"Parabéns."
Uma palavra simples.
Ainda assim, Helena sentiu como se uma lâmina enferrujada atravessasse seu peito.
Durante anos, uma parte infantil dela imaginara como Caio reagiria ao vê-la novamente. Talvez lamentasse tê-la rejeitado. Talvez perguntasse por que ela desaparecera. Talvez demonstrasse que, em algum momento, sentira sua falta.
Mas ele apenas lhe dava os parabéns por uma vida que nunca existira.
"Obrigada", respondeu.
Ela se despediu dos colegas, pegou Davi no colo e caminhou em direção à saída.
Lúcia aproximou-se.
"Você está bem?"
"Estou."
"Não parece."
Helena beijou a testa de Davi.
"Eu sabia que ele estaria aqui. Só não esperava que fosse tão estranho."
Lúcia não insistiu.
Naquela noite, Helena voltou com os pais e Davi para o antigo apartamento da família na Mooca. Caixas ainda ocupavam parte da sala, pois haviam chegado de Curitiba havia apenas dois dias.
Depois que Davi adormeceu, ela foi até a cozinha buscar água.
Lúcia estava sentada à mesa.
"Você contou que Davi é seu filho?"
"Era isso ou explicar a história de Marina no meio da comemoração."
"E Caio acreditou?"
"Por que não acreditaria?"
Lúcia segurou a mão da filha.
"Você não precisa passar o resto da vida carregando uma mentira para proteger todo mundo."
"Não estou protegendo todo mundo. Estou protegendo Davi."
O telefone de Helena vibrou sobre a mesa.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
Ela abriu.
Havia uma fotografia tirada naquela tarde. Helena aparecia saindo do colégio com Davi no colo.
A mensagem abaixo fez seu sangue gelar.
Você pode mudar de cidade, mas ele continua sendo meu filho.
Helena bloqueou o número e salvou uma captura de tela na pasta de provas que mantinha na nuvem.
Não contou nada à mãe.
No apartamento em frente, Caio estava parado junto à janela da sala quando viu a luz da cozinha dos Duarte se apagar.
A lembrança do menino não saía de sua cabeça.
Davi tinha quatro anos. Helena partira havia sete.
As datas podiam fazer sentido, mas alguma coisa na história parecia errada.
Na manhã seguinte, ao sair para trabalhar, Caio encontrou Helena no corredor. Ela carregava uma sacola enquanto Davi tentava fechar o zíper da pequena mochila.
O menino levantou o rosto.
"Oi, tio."
Caio respondeu com um aceno e olhou diretamente para Helena.
"Se o pai dele desapareceu depois do divórcio, por que Davi usa o seu sobrenome?"
Helena ficou imóvel.
Caio deu um passo na direção dela.
"E por que você parece tão assustada sempre que alguém pergunta quem ele é?"
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