"Eles Pensavam Que Eu Era Uma Boneca Frágil… Até Ouvirem o Som do Gatilho" Capítulo 5
A pergunta de Christian ecoou pelo escritório como o estalo de um chicote em uma catedral vazia.
Victória sentiu o coração congelar por uma fração de segundo, mas o treino de uma vida inteira sob pressão manteve seus traços imóveis.
Ela ergueu o queixo, encarando aquelas pupilas azul-gelo sem demonstrar o menor vestígio de pânico.
"Você deve estar imaginando coisas, Christian. Eu estava apenas lendo Machado de Assis."
Respondeu ela com a voz perfeitamente nivelada, devolvendo o livro à estante de mogno com gestos calmos.
Christian soltou uma risada curta, seca e desprovida de qualquer traço de humor genuíno.
Ele deu dois passos lentos para trás, deixando o ultrabook corporativo repousar sobre a mesa como uma evidência muda.
"A sua compostura é admirável, minha querida. Quase me convenceu."
Sussurrou ele, ajustando os punhos da camisa com uma elegância que evocava a frieza de um réptil.
"Mas o servidor central não mente. Alguém tentou extrair os registros de visitantes da escola de Campos do Jordão."
O nome da instituição soou na boca dele como uma lâmina raspando diretamente contra a espinha de Victória.
A noite avançava lá fora, trazendo consigo uma tempestade tropical que começava a fustigar as janelas do Morumbi.
Trovões estrondosos sacudiam a estrutura da mansão, enquanto a chuva torrencial transformava os jardins em um pântano escuro.
Christian não gritou, não bateu na mesa e não perdeu a compostura em nenhum momento daquela confrontação.
Essa calma absoluta era justamente o traço mais sádico e aterrorizante de sua personalidade controladora.
Ele a conduziu pelo cotovelo, sem usar força excessiva, mas com uma firmeza que impossibilitava qualquer resistência.
Subiram as escadas em silêncio até a suíte master, onde o painel digital brilhava em um tom rubro e opressor.
Fora das paredes daquele quarto, a tormenta castigava São Paulo com rajadas de vento implacáveis.
Christian sentou-se na beirada da cama king-size, segurando o tablet de última geração com os dedos finos.
A tela do dispositivo emitiu uma luz azulada que recortava as sombras de seu rosto emoldurado pelo cabelo preto.
"Venha cá, Victória. Sente-se aqui ao meu lado e assista ao espetáculo."
Convidou ele com um tom de voz aveludado, apontando para o espaço vazio no colchão de linho branco.
Ela hesitou por um segundo, mas obedeceu para não dar nenhum pretexto imediato à fúria dele.
Com um toque rápido na tela do tablet, Christian ativou o sistema de projeção a laser embutido no teto do quarto.
Uma imagem em alta definição começou a ser reproduzida na parede oposta, em tamanho real.
A cena mostrava o pátio interno da escola especial em Campos do Jordão, banhado pela neblina da montanha.
Eram gravações de circuito interno de segurança obtidas diretamente dos servidores da instituição de caridade.
O relógio digital no canto superior da projeção marcava as três horas da manhã de dois dias atrás.
Victória prendeu a respiração, observando a movimentação silenciosa na tela imensa.
As crianças e os monitores dormiam nos pavilhões, protegidos pela aparente calmaria da serra paulista.
De repente, uma silhueta encapuzada apareceu esgueirando-se pelos fundos do refeitório principal.
A figura vestia um casaco escuro com capuz puxado para baixo, ocultando grande parte do rosto.
O desconhecido moveu-se com precisão militar, evitando os feixes dos sensores de movimento das câmeras.
Ele parou exatamente sob a janela do quarto onde Camila dormia tranquilamente em sua camisola de algodão.
O invasor permaneceu ali por longos minutos, observando a janela com uma binóculo de visão noturna.
Nenhum alarme soou. Nenhuma equipe de segurança privada apareceu para interceptar o intruso mascarado.
Christian pausou a gravação com um toque leve, congelando a imagem do homem encapuzado na parede.
O silêncio na suíte tornou-se denso, pesado com a eletricidade estática da tempestade que despencava lá fora.
"Você reconhece esse visitante noturno, minha doce herdeira?"
Perguntou Christian, virando o rosto lentamente para encarar os olhos cinzentos da esposa.
"Não. Eu nunca o vi na vida."
Respondeu Victória com sinceridade genuína, pois aquele homem não pertencia ao círculo de seus conhecidos.
Christian sorriu de canto, um sorriso que carregava todo o peso de uma ameaça mortal e calculada.
"É claro que não conhece. Ou pelo menos finge muito bem não conhecer."
Comentou ele, voltando a tocar na tela para avançar o vídeo até outro ponto da gravação clandestina.
"Acontece que esse cavalheiro misterioso não é um funcionário meu. Meus homens usam crachás corporativos."
O estômago de Victória deu uma guinada violenta enquanto as engrenagens de sua mente começavam a girar.
Se o homem encapuzado não trabalhava para Christian, quem seria ele e o que pretendia com Camila?
Antes que ela pudesse formular uma hipótese plausível, Christian aproximou o rosto perigosamente do seu.
A voz dele desceu a um sussurro ríspido, gélido e cortante como um bisturi cirúrgico.
"Se você continuar tentando abrir portas digitais e brincando de espia na minha casa..."
Sussurrou o magnata, cravando os olhos azuis nas pupilas dilatadas dela.
"O próximo visitante na janela da sua irmã não trará apenas binóculos para observar o sono dela."
A ameaça sutil e envenenada atingiu Victória com a força de um soco no plexo solar.
A respiração dela travou na garganta, transformando-se em um ardor doloroso no peito.
Ele estava dizendo, com todas as letras, que a vida de Camila dependia exclusivamente da obediência cega da esposa.
O medo, que até então funcionava como um freio prudente, começou a transmutar-se em outra coisa.
Uma fúria densa, negra e inextinguível começou a ferver nas profundezas de sua alma ferida.
Contudo, enquanto Christian desfilava sua onipotência sádica, um detalhe técnico passou a atormentar a mente de Victória.
Enquanto a câmera de segurança da escola dava um close digital na figura encapuzada, a resolução aumentou.
Na aba lateral do casaco escuro, bem na altura do ombro esquerdo, havia um distintivo metálico semi-oculto.
Era um broche corporativo em formato de balança estilizada, usado exclusivamente por uma elite específica.
Não pertencia à diretoria de investimentos dos Von Stock. Nem tampouco ao alto escalão de advogados de Mateus.
Tratava-se do brasão oficial do Ministério Público Federal de São Paulo.
O cérebro de Victória conectou os pontos em uma fração de segundo, unindo as peças do quebra-cabeça.
Aquele homem na janela de Camila não era um capanga de Christian, tampouco um assassino enviado por ele.
Trata-se de um investigador disfarçado, talvez enviado por alguém ligado ao passado da justiça federal.
Alguém que conhecia os segredos da família e que estava farejando os crimes ocultos do magnata.
Um nome específico ecoou em sua memória como um relâmpago cortando a tempestade da serra.
Tomás.
O ex-procurador da república que fora seu pretendente na juventude, antes de o pai dela vendê-la ao clã Von Stock.
Tomás havia jurado, anos atrás, que investigaria as ligações escusas do império corporativo até ver todos ruírem.
Se Tomás estava rondando a escola de Camila, significava que a guerra havia ultrapassado os limites daquela mansão.
Significava que havia uma força externa tentando romper a muralha, e Christian já estava ciente disso.
Christian interpretou o silêncio prolongado de Victória como o sinal definitivo de rendição e terror psicológico.
Ele recostou-se nos travesseiros, satisfeito por ver a esposa aparentemente paralisada diante da grandiosidade de seu poder.
"Viu só como é simples mantermos a paz?"
Disse ele, acariciando os cabelos platinados dela com uma falsa ternura repugnante.
"Basta você aceitar o seu lugar ao meu lado, ser a minha esposa perfeita e obediente em tempo integral."
"Nunca mais ouse desafiar o meu sistema, Victória. A próxima cartada não será apenas um aviso visual."
A cada palavra pronunciada pelo marido, o ranço e a repulsa acumulados transbordavam nos olhos cinzentos dela.
O reflexo da projeção na parede continuava a iluminar o quarto com a imagem estática do investigador federal disfarçado.
Christian levantou-se da cama, pegando o tablet e desligando o projetor com um gesto displicente.
A penumbra voltou a reinar na suíte master, cortada apenas pelos relâmpagos que iluminavam a cortina de chuva.
"Agora, descanse, minha rainha. Amanhã teremos convidados importantes para o almoço de negócios."
Ordenou ele, caminhando em direção à porta secundária que dava para o escritório privativo.
As trancas eletrônicas dispararam com o habitual estalido metálico automático, isolando-a novamente.
Sozinha no escuro daquela prisão de luxo, Victória levou as mãos trêmulas até o rosto molhado de suor frio.
O desespero inicial havia evaporado completamente, dando lugar a uma clareza mental gélida e cortante.
Ela sabia que Tomás estava lá fora, tentando cavar uma cova para o império de Christian.
E sabia também que o monstro usaria Camila como escudo humano para proteger a própria pele a qualquer custo.
A única saída viável para salvar a irmã e destruir o carrasco não era esperar passivamente pelo resgate.
Era preciso transformar-se na lâmina que cortaria a garganta de ambos os lados daquela mesa de xadrez macabra.
Ela sentia o gosto de ferro do sangue em seus lábios, feridos de tanto morder para conter os gritos de revolta.
A ponta da agulha de aço escondida na bainha do vestido roçava levemente contra a sua coxa, como um lembrete.
A tempestade lá fora rugia com fúria ensurdecedora, sacudindo as árvores seculares do Morumbi.
Victória levantou-se da cama com movimentos felinos, absolutamente silenciosos e livres de qualquer vacilo.
Ela caminhou até a janela blindada que dava para o jardim frontal, onde a chuva desabava sem trégua.
Encarando o próprio reflexo distorcido no vidro escuro, ela sentiu a última fibra de medo desintegrar-se.
Não havia mais espaço para lágrimas, recantos seguros ou esperanças ingênuas em príncipes salvadores.
A campainha de serviço do hall inferior começou a soar de maneira insistente e cortante.
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