"Eles Pensavam Que Eu Era Uma Boneca Frágil… Até Ouvirem o Som do Gatilho" Capítulo 3
O coração de Victória deu um salto no peito, mas sua mão não hesitou. Com um movimento preciso, ela retirou a agulha da fechadura e recuou para as sombras do closet.
A porta do escritório abriu-se com um rangido suave, revelando a silhueta alta de Christian.
Ele entrou no recinto com o paletó jogado displicentemente sobre o ombro.
O silêncio reinou por alguns segundos antes que a voz dele cortasse o ar.
"Victória, eu sei que você está acordada." Sussurrou ele, com aquele tom aveludado que escondia garras afiadas.
Ela respirou fundo, endireitou os ombros e saiu da penumbra para encará-lo.
A fachada de recato e submissão estava perfeitamente montada em seu rosto.
"Apenas apreciando a vista da madrugada, Christian."
Respondeu ela com a voz firme, fingindo um tédio calculado.
Christian sorriu, um sorriso que nunca chegava aos olhos azuis e gélidos.
No dia seguinte, o sol de São Paulo despontou implacável sobre os jardins do Morumbi.
A rotina da mansão dos Von Stock exigia uma precisão suíça em cada detalhe.
Às oito da manhã em ponto, o salão de festas preparava-se para mais um compromisso público.
Desta vez, tratava-se de um jantar beneficente promovido pela alta cúpula paulistana.
Os fotógrafos da revista Caras e do Estadão já ocupavam a calçada externa.
Victória desceu a escadaria principal vestindo um modelo Dior verde-smeraldo impecável.
Seu cabelo platinado estava preso em um coque alto de aristocrata intocável.
Christian a esperava no patamar inferior, estendendo o braço com galanteria teatral.
"Você está deslumbrante, minha rainha. Todos vão nos olhar com inveja."
Disse ele em voz alta, para que os seguranças e assessores pudessem ouvir.
Victória encaixou a mão enluvada no braço dele, sorrindo com os dentes à mostra.
"Obrigada, meu amor. Você sabe como me fazer sentir a mulher mais feliz do mundo."
A mentira escorreu por seus lábios com a naturalidade de quem interpreta uma ópera trágica.
Dentro da limusine blindada que os conduzia ao Clube Paulistano, o clima mudou drasticamente.
O motorista mantinha o painel divisório levantado, isolando o banco traseiro.
Christian virou o rosto para ela, deixando a máscara de marido apaixonado evaporar.
"No banquete de hoje, evite falar com o ministro da economia por mais de dois minutos."
Avisou ele, com um timbre gélido que cortava como vidro quebrado.
"Ele é um homem casado e adora flertar com mulheres da sua estirpe. Eu detesto escândalos."
Victória manteve o olhar fixo na paisagem cinzenta da Avenida Marginal Pinheiros.
"Eu sei me comportar em público, Christian. Não sou nenhuma desmiolada."
"É bom que saiba mesmo, Victória. Afinal, qualquer deslize seu reflete diretamente no bem-estar da Camila."
O golpe certeiro atingiu o centro nervoso dela, mas ela não permitiu que um músculo sequer se movesse.
O nome da irmã caçula funcionava sempre como a coleira invisível que a puxava de volta.
Chegando ao salão nobre do clube, o casal foi recebido por flashes estourando sem parar.
Taças de cristal reluziam sob os lustres de cristal de Baccarat importados de Paris.
Victória desfilava entre mesas de empresários influentes e senadores da República.
Ela ria das piadas sem graça do prefeito e elogiava o vinho dos banqueiros.
Cada gesto seu era milimetricamente medido para parecer a esposa perfeita, submissa e feliz.
No entanto, por dentro, sua mente calculava friamente cada segundo daquela tortura social.
Christian observava cada passo dela de longe, conversando com o presidente de um grande banco.
Mesmo de costas, ela sentia o peso invisível daquela mira telescópica humana cravada em suas costas.
Por volta das dez horas da noite, durante o serviço de sobremesas, um contratempo aconteceu.
Enquanto erguia a taça de champagne perto da mesa principal, um garçom desajeitado esbarrou em seu ombro.
O líquido dourado espirrou, manchando a barra lateral do vestido Dior verde-smeraldo.
"Mil perdões, senhora Von Stock! Eu juro que não fiz por mal!"
Gaguejou o jovem garçom, pálido de pavor diante da fúria implacável da elite paulistana.
Victória manteve a calma, pegando um guardanapo de linho para tentar conter a mancha.
"Não se preocupe, meu jovem. São coisas que acontecem em eventos grandes."
Disse ela com serenidade, sorrindo para acalmar o rapaz que tremia dos pés à cabeça.
No entanto, Christian já havia cruzado o salão com passos largos e feição sombria.
Ele dispensou o garçom com um gesto seco e autoritário da mão direita.
"Vá embora antes que eu decida arruinar a sua vida profissional para sempre."
Sussurrou o magnata ao jovem, que fugiu correndo para a copa sem olhar para trás.
Christian virou-se para a esposa, pegando um lenço de seda limpo do próprio bolso.
Ele abaixou-se levemente, ajoelhando-se de maneira teatral diante de todos os convidados atônitos.
Com gestos lentos e calculados, ele começou a esfregar a mancha no vestido dela.
"Veja só o seu descuido, Victória. Você atrai o caos onde quer que vá."
Sussurrou ele com um sorriso doce nos lábios, visível apenas para ela e para quem estava muito perto.
"Até para manter a roupa limpa você precisa da minha ajuda constante. Você é tão desamparada sem mim."
O estômago de Victória revirou-se em uma mistura de repulsa física e fúria cega.
Aquilo era a essência pura do seu inferno particular: a violência disfarçada de galanteria.
Ela engoliu em seco, forçando um sorriso radiante para os fotógrafos que aplaudiam a cena.
"Obrigada por cuidar de mim tão bem, meu amor."
Respondeu ela, com os dentes trancados sob a maquiagem impecável.
Assim que retornaram à mansão do Morumbi, por volta da meia-noite, a atmosfera mudou de figura.
O mordomo abriu a porta principal em silêncio absoluto, curvando-se respeitosamente.
Christian dispensou os seguranças e caminhou direto para o seu escritório particular no piso térreo.
"Venha comigo, Victória. Temos assuntos pendentes sobre a sua falta de atenção hoje."
Ordenou ele, sem sequer olhar para trás enquanto subia os degraus em direção ao sancta sanctorum.
Victória seguiu-o com passos lentos, sentindo o cansaço físico misturar-se à adrenalina da revolta.
O escritório de Christian era um museu particular de mogno, couro escuro e livros antigos de direito internacional.
Ele sentou-se na cadeira de espaldar alto, servindo-se de uma dose de conhaque francês.
Victória permaneceu em pé diante da escrivaninha, com a postura ereta de uma prisioneira que se recusa a ajoelhar.
"Sente-se, querida. Vamos conversar sobre o seu comportamento no evento."
Convidou ele, apontando para a poltrona de couro em frente à mesa.
Ela recusou o aceno com a cabeça e manteve-se firme, encarando-o de cima.
"Não há nada para conversar, Christian. Foi apenas um acidente com um garçom desajeitado."
Christian soltou um suspiro teatral, como um pai desapontado diante de uma criança teimosa.
"Você insiste em negar a própria incompetência para viver no meu mundo, Victória."
Começou ele, com um tom de voz manso, quase acadêmico e analítico.
"Pense bem. Antes de me conhecer, você era apenas uma restauradora falida, vivendo de favores e dívidas."
"Eu resgatei você da sarjeta, dei-lhe um sobrenome de peso, protegi a sua irmã doente."
"E, mesmo assim, você continua agindo como uma rebelde ingrata e descontrolada."
O monólogo calculado avançava como uma serpente rastejante, destilando veneno psicológico.
A técnica do controle mental operava ali na sua forma mais pura e destrutiva.
Ele tentava reescrever a história dela, fazendo-a duvidar da própria sanidade e autonomia.
"Talvez o problema não seja a minha rebeldia, Christian, mas sim a sua necessidade doentia de controle."
Retrucou Victória, cruzando os braços sobre o peito para conter o tremor das mãos.
Christian não se alterou. Pelo contrário, seu sorriso alargou-se em uma expressão de pura condescendência.
"Viu só? É exatamente isso que eu digo. Você começa a alucinar coisas, a distorcer a realidade."
Afirmou ele, ajeitando os punhos da camisa com uma calma aterradora.
"Ninguém além de mim amaria uma mulher quebrada e instável como você, Victória."
"Se você sair por aquela porta sozinha, o mundo te despedaçará em segundos. Você não é nada sem a minha proteção."
O peso daquelas palavras esmagava o peito dela, mas por dentro, uma chama fria começou a arder.
Ela percebeu que discutir com um narcisista patológico era uma batalha perdida no campo da lógica.
A única resposta cabível para um monstro daquela estirpe não eram palavras, mas sim ações definitivas.
"Você tem razão, Christian. Eu preciso aprender a ser mais grata."
Sussurrou ela, abaixando os olhos para simular uma rendição que jamais aconteceria em sua alma.
Christian pareceu satisfeito com a aparente capitulação da esposa, relaxando os ombros na poltrona.
"Fico feliz que finalmente tenha compreendido a sua posição, minha boneca."
Disse ele, estendendo um lenço de seda branca para limpar uma mancha imaginária no dedo dela.
"Agora, vá para o quarto. Amanhã teremos uma longa conversa sobre o futuro da sua mesada."
Victória deu meia-volta em direção à porta, sentindo o ranço daquela farsa impregnar sua pele.
Horas mais tarde, quando a mansão inteira mergulhou no mais profundo silêncio da madrugada, ela aproveitou a folga dos seguranças.
Subiu até o escritório de Christian fingindo buscar um livro de poesias antigas para ler na insônia.
O escritório estava vazio, banhado apenas pela luz prateada da lua que entrava pelas cortinas de veludo.
Ela aproximou-se da imensa escrivaninha de mogno onde o poderoso magnata deixava seus equipamentos de trabalho.
Lá estava o ultrabook corporativo de última geração, conectado à base de carregamento magnético.
Victória tocou o teclado com extrema cautela, acionando a tela de login protegida por criptografia de nível militar.
O sistema exigia a leitura de biometria facial ou uma senha de doze dígitos que ela obviamente desconhecia.
Uma onda de frustração quase a fez desistir, mas um detalhe técnico chamou sua atenção na lateral da interface.
Devido a uma recente atualização do sistema operacional corporativo, o modo de recuperação de rede estava ativado.
Um pequeno ícone cinzento brilhava no canto inferior esquerdo da tela escura.
Modo Visitante de Emergência - Acesso Limitado à Rede Interna.
O coração dela deu um pulo violento contra as costelas ao constatar a falha imperdoável no software de segurança do marido.
Christian deixara uma brecha digital aberta, confiando cegamente na própria onipotência.
Com os dedos trêmulos de adrenalina pura, Victória pressionou o trackpad para abrir o diretório de arquivos locais.
A tela piscou levemente, abrindo uma janela de comando com códigos em verde fosforescente.
Ela tinha apenas alguns minutos antes que o alarme de movimento disparasse ou que o próprio Christian retornasse ao escritório.
Seu olhar fixou-se na pasta raiz nomeada com iniciais enigmáticas e dados de transações financeiras internacionais.
Era a chance de ouro que ela esperava desde o dia em que cruzara aquelas portas de ferro pela primeira vez.
Mas, bem no momento em que o cursor do mouse estava prestes a clicar no arquivo principal, a tela inteira travou de repente.
Um pop-up vermelho-sangue expandiu-se por todo o monitor, emitindo um bipe estridente e mudo para o exterior.
Uma mensagem em letras garrafais surgiu no centro do visor, acompanhada pela silhueta de um sorriso irônico desenhado em código.
Eu estava esperando você cair nessa armadilha, minha doce prisioneira.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4