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"Eles Pensavam Que Eu Era Uma Boneca Frágil… Até Ouvirem o Som do Gatilho" Capítulo 1

正文开头

O sol de São Paulo despontava pálido sobre os muros altos do Morumbi, tingindo de cinza as imponentes vidraças da mansão dos Von Stock.

Na suíte master, o silêncio era denso o bastante para se cortar com uma faca.

Christian von Stock ajeitava os punhos da camisa de alfaiataria com uma precisão cirúrgica, observando pelo reflexo do espelho veneziano.

Victória de Medeiros estava sentada diante da penteadeira de ébano, com o olhar fixo no próprio reflexo.

Os cabelos platinados caíam em ondas perfeitas sobre os ombros nus, contrastando com a pele de porcelana.

Christian aproximou-se em silêncio, seus passos abafados pelo tapete persa de grife.

Com dedos frios, ele tocou o colar de pérolas que adornava o pescoço dela, encaixando a última tarracha com um clique quase imperceptível.

No espelho, os olhos azul-gelo dele encontraram o cinza-metálico do olhar dela.

A expressão dele era de um marido devoto, o epítome da elegância corporativa que estampava as revistas de economia.

"Você está deslumbrante, minha querida."

Murmurou ele, com um timbre aveludado que carregava uma lâmina oculta.

"O mundo inteiro vai nos invejar esta noite. Como sempre."

Victória forçou os lábios a se curvarem em um sorriso polido, milimetricamente ensaiado.

"Obrigada, Christian. Você sabe como escolher os meus figurinos."

"Eu escolho tudo o que importa, Victória. É para o seu próprio bem."

Respondeu ele, afagando-lhe a bochecha com uma carícia que parecia mais a pata de um predador testando a presa.

Minutos depois, a imponente porta de carvalho se abriu para revelar o corredor revestido de mármore de Carrara.

À espreita perto da escada principal estava Mateus, o braço direito e conselheiro jurídico de Christian.

O homem vestia um terno impecável, mas o sorriso educado não alcançava os olhos estreitos e calculistas.

"Tudo pronto para a gala da câmara de comércio, senhor Von Stock. Os seguranças já posicionaram os veículos na alameda lateral."

Informou Mateus com voz baixa, lançando uma rápida e cúmplice olhadela para Victória.

"Perfeito, Mateus. Certifique-se de que a imprensa não tenha acesso à ala privativa da garagem. Detesto exibições vulgares antes da meia-noite."

Ordenou Christian, mantendo a mão firmemente apoiada na curva da cintura de Victória, um gesto que parecia afetuoso, mas que funcionava como uma coleira invisível.

Victória sentiu o tecido do vestido de grife colar-se ao suor frio que brotava em sua espinha.

Cada passo descendo aquela escadaria monumental parecia o trajeto rumo ao cadafalso.

Para a alta sociedade paulistana que os aguardava nos salões do Jockey Club, eles eram a própria definição do mito moderno.

O titã intocável dos negócios e sua herdeira de alta estirpe, unidos pelo destino e pela fortuna.

As câmeras dos fotógrafos disparavam rajadas incessantes assim que o sedã blindado estacionou no tapete vermelho.

Os quais estouravam em seus rostos como relâmpagos artificiais.

Christian puxou Victória para perto, encaixando o corpo dela ao seu com uma possessividade polida.

Ela acenou, sorriu, ergueu a taça de champagne oferecida por garçons atenciosos e trocou gentilezas com ministros e banqueiros influentes.

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Tudo sob o escrutínio implacável do marido, cujos olhos monitoravam cada microexpressão sua.

Durante o jantar, sentada à direita de um embaixador europeu influente, Victória permitiu-se rir de uma anedota diplomática, inclinando levemente o tronco para frente.

Foram três segundos de distração, três segundos em que ela esqueceu a regra fundamental daquele casamento construído sobre ruínas.

A mão de Christian sob a mesa deslizou pela coxa dela, apertando a carne com uma força brutal que fez os dedos dela travarem ao redor do talher.

O sorriso dele continuava impecável para o restante da mesa, mas o sussurro que cortou o ar ao pé do ouvido dela gelou-lhe o sangue.

"Você achou que eu não notaria o modo como olhou para o diplomata, Victória?"

Sibilou ele, sem mover os lábios de forma suspeita para quem assistia de fora.

"Se continuar com essa ousadia insolente, amanhã mesmo a sua querida irmã Camila será transferida para uma instituição bem menos confortável no interior do Mato Grosso. Você entende o que estou dizendo?"

O estômago de Victória despencou em um abismo de pavor e ódio reprimido.

O nome de Camila funcionava como a corrente elétrica que a mantinha paralisada.

A jovem, com sua vulnerabilidade e a síndrome de down que a tornava completamente dependente, era o calcanhar de Aquiles que Christian fizera questão de acorrentar junto à alma da esposa.

"Eu entendi, Christian."

Respondeu ela com a voz perfeitamente estável, embora as mãos tremessem debaixo da toalha de linho bordado.

"Não vai se repetir."

A festa prosseguiu em ritmo febril, uma valsa macabra de aparências e interesses bilionários.

Para os convidados, o casal respirava harmonia e poder.

Para Victória, cada minuto parecia durar uma eternidade, pesando toneladas sobre os ombros.

Quando o relógio marcou duas horas da manhã, o sedã preto finalmente cruzou os portões de ferro batido da mansão no Morumbi.

A carruagem havia se transformado novamente em calabouço.

Assim que o motorista trancou as portas da cabine de separação e o veículo parou no pátio interno, a máscara polida de Christian desabou por completo.

O silêncio dentro do carro tornou-se irrespirável.

Ele virou o rosto lentamente para encará-la na penumbra, a luz dos postes externos cortando o vidro fumê e revelando o brilho sádico em suas pupilas azuis.

"Saia."

Ordenou ele secamente, empurrando a porta lateral antes que o segurança pudesse abri-la.

Victória desceu com a postura rígida, o vestido arrastando-se pelo calçamento de paralelepípedos.

Subiram os degraus em silêncio absoluto.

Mateus já havia sumido para os aposentos de serviço, deixando apenas a atmosfera pesada do hall principal para recebê-los.

Christian abriu a pesada porta da suíte master com um empurrão firme, acionando o painel digital de segurança na parede.

O visor piscou em verde escuro, emitindo um bipe eletrônico que soou como a sentença de um juiz corrompido.

Victória cruzou o limiar do quarto, sentindo o ar rarefeito.

Antes que ela pudesse dar mais dois passos em direção ao closet, uma mão forte envolveu seu braço com firmeza cirúrgica e a puxou para trás, contra o peito dele.

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"Aonde pensa que vai, minha boneca? A noite ainda não terminou para nós."

Sussurrou Christian, colando os lábios no lóbulo da orelha dela, enquanto sua outra mão digitava rapidamente uma nova sequência no painel interno.

O som metálico dos trincos automáticos disparando ecoou pelas paredes.

A porta blindada do quarto fechou-se com um baque abafado, e o visor externo mudou para o vermelho sangue.

Ele a trancara pelo lado de fora e pelo lado de dentro.

O sistema de travamento inteligente havia isolado a suíte do resto da mansão, transformando o espaço em uma cela de segurança máxima.

Victória sentiu o coração bater descompassado contra as costelas, mas forçou cada músculo do rosto a manter a frieza gélida que aprendera a cultivar desde o dia do casamento.

Ela virou o rosto lentamente, encontrando o olhar magnético e doentio do marido a centímetros do seu.

"Você acha que essas paredes de aço e senhas eletrônicas podem me manter algemada para sempre, Christian?"

Perguntou ela, com um sussurro cortante que desafiava a autoridade dele.

Christian soltou uma risada baixa, um som gutural que vibrou no peito dele e ecoou no quarto vazio.

Ele ergueu a mão livre, com os dedos frios traçando o contorno exato da mandíbula de Victória, pressionando a pele com força suficiente para deixar marcas vermelhas.

"Elas não precisam durar para sempre, Victória. Apenas o tempo suficiente para você aprender que fora deste quarto, fora do meu alcance, o mundo lá fora não passa de um abismo onde a sua irmã frágil não duraria um único dia."

Murmurou ele, com os olhos vidrados de um fanatismo controlador.

O polegar dele pressionou o lábio inferior dela até sangrar levemente.

"Durma bem, minha rainha. Lembre-se de que cada suspiro seu pertence a mim."

Com um último empurrão suave, ele a soltou e deu um passo para trás, saindo pela porta secundária que dava para o escritório privativo adjacente, cujas trancas também se fecharam com um estalido metálico automático.

O silêncio voltou a reinar na suíte escura, cortado apenas pelo zumbido imperceptível do sistema de ventilação central.

Sozinha na penumbra, Victória respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para conter a onda de náusea e fúria que ameaçava sufocá-la.

As lágrimas que se recusavam a cair nos salões de festa agora queimavam em suas pálpebras, mas ela as conteu com um esforço de pura vontade.

Não havia espaço para fraqueza.

Não ali.

Devagar, com movimentos milimetricamente calculados para não ativar nenhum dos sensores de vibração espalhados pelo chão de madeira nobre, ela caminhou na ponta dos pés em direção ao canto mais escuro do closet.

Seus dedos deslizaram pelo forro aveludado do fundo de uma gaveta de joias falsas, tateando a fita adesiva que fixava o objeto na madeira bruta.

Com um puxão firme e silencioso, ela descolou a pequena agulha de aço temperado e a agulha de metal ultrafina que havia contrabandeara semanas antes, escondendo-a na bainha do vestido.

Era apenas um fragmento insignificante de metal.

Uma chave rudimentar feita à base de paciência e ódio.

Ela olhou para a agulha brilhando fracamente sob a luz da lua que entrava pela fresta das cortinas blackout, e um sorriso perverso, livre de qualquer vestígio de medo, desenhou-se em seus lábios.

Ele achava que tinha construído a fortaleza perfeita.

Mas Christian ignorava um detalhe fundamental sobre a mulher que escolhera para destruir.

As grades mais fortes do mundo são também as que geram os prisioneiros mais perigosos.

Com as mãos firmes, Victória escondeu a agulha na palma da mão e virou-se lentamente para encarar a escuridão da porta do escritório, pronta para o próximo passo do jogo.

O visor do painel digital na parede interna emitiu um brilho azulado repentino, indicando que a rede de comunicação externa havia sido ativada por alguém no andar de baixo.

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