"O Que Minha Esposa Estava Escondendo de Mim?" Capítulo 4
Henrique passou os olhos pelo documento mais uma vez.
Quanto mais lia, menos entendia como algo daquele tamanho podia ter permanecido escondido dentro da própria família.
O sobrenome de Isabela aparecia onde ele jamais imaginara vê-lo.
No coração do Grupo Vasconcelos.
"Eu quero saber de onde vieram essas ações."
Mariana fechou a pasta.
"Então não procure nos documentos recentes."
Henrique levantou os olhos.
"Por quê?"
"Porque a origem disso é muito mais antiga do que o casamento de vocês."
Na manhã seguinte, os dois foram ao escritório de Dra. Renata Bastos, na região da Avenida Paulista.
A advogada os recebeu numa sala cercada por arquivos e pediu que Henrique se sentasse.
Ele permaneceu em pé.
"Minha esposa está inconsciente. Eu não tenho paciência para rodeios."
Renata cruzou as mãos sobre a mesa.
"Então vou ser direta."
Ela abriu uma pasta antiga.
"O Grupo Vasconcelos quase quebrou vinte e oito anos atrás."
Henrique franziu a testa.
"Isso não é verdade."
"É."
"Meu pai nunca mencionou."
"Esse parece ser um hábito da sua família."
Henrique não gostou da provocação.
Mas ficou calado.
Renata colocou diante dele cópias de contratos antigos.
Os papéis estavam amarelados.
No alto de um deles aparecia o nome de seu pai, Otávio Vasconcelos.
Logo abaixo, outro nome.
Antônio Martins.
Henrique conhecia aquele sobrenome.
"Martins..."
Renata assentiu.
"Avô materno de Isabela."
Henrique puxou o documento.
"O que ele tem a ver com isso?"
"Na época, seu pai precisava de capital para impedir que os bancos tomassem parte dos ativos da empresa."
"Meu pai conseguiu investidores."
"Conseguiu um investidor."
Henrique olhou novamente para o nome.
Renata continuou.
"Antônio Martins."
O silêncio tomou a sala.
"Isso não faz sentido."
"Ele colocou uma quantia muito significativa na empresa."
"Em troca de quê?"
"Participação futura."
Henrique virou outra página.
"Por que ele nunca apareceu como acionista?"
"Porque o acordo tinha condições específicas."
Renata apontou para uma cláusula.
Antônio não receberia imediatamente as ações.
Os direitos permaneceriam vinculados a um instrumento particular até que determinados eventos societários acontecessem.
Um deles era a reorganização acionária do grupo.
Outro, a morte dos signatários originais.
Otávio morrera dois anos antes.
Antônio já estava morto havia quase uma década.
"E ninguém fez nada?"
Renata balançou a cabeça.
"Alguém fez."
Henrique ergueu os olhos.
"Quem?"
"Augusto Ferraz."
O nome do advogado da família fez seu corpo enrijecer.
"Augusto encontrou o acordo durante uma revisão dos arquivos antigos."
"Quando?"
"Quase quatro meses atrás."
"E por que eu não fui informado?"
"Essa pergunta você precisa fazer a ele."
Henrique se levantou.
"Quem mais sabia?"
Renata hesitou.
"Isabela recebeu a notificação há três semanas."
"Antes disso."
"Eu não sei."
"Minha mãe?"
Renata não respondeu.
Henrique entendeu.
Saiu do escritório com uma raiva que mal conseguia controlar.
No carro, ligou para Augusto.
O advogado atendeu no terceiro toque.
"Henrique."
"Quero você na sede do grupo em meia hora."
"Estou numa reunião."
"Saia."
"Qual é o problema?"
"Antônio Martins."
Silêncio.
Henrique apertou o volante.
"Agora você tem tempo?"
Augusto respirou fundo.
"Eu posso explicar."
"Trinta minutos."
Henrique desligou.
Na sede do Grupo Vasconcelos, na região da Faria Lima, Augusto já o esperava.
Tinha cinquenta e dois anos e passara mais da metade da vida trabalhando para aquela família.
Henrique colocou as cópias sobre a mesa.
"Quanto tempo?"
Augusto não tocou nos papéis.
"Henrique..."
"Quanto tempo você sabia?"
"Alguns meses."
"E não me contou."
"Eu precisava confirmar a validade."
"Confirmou?"
"Sim."
"Então por que continuou calado?"
Augusto ajeitou os óculos.
"Porque isso poderia criar uma crise."
Henrique riu, incrédulo.
"Minha esposa está numa cama de hospital e você está preocupado com uma crise?"
"Uma coisa não tem relação comprovada com a outra."
Henrique bateu a mão na mesa.
"Eu não perguntei isso."
Augusto ficou em silêncio.
Henrique apontou para os documentos.
"Quantas ações?"
"Você já viu o percentual."
"Quero ouvir da sua boca."
Augusto respirou fundo.
"Após a conversão dos direitos previstos no acordo, Isabela teria uma participação relevante."
"Relevante?"
"Com direito a voto suficiente para influenciar decisões estratégicas."
"Ela poderia bloquear operações?"
"Algumas."
"Troca de diretoria?"
"Dependendo das alianças, sim."
"Auditoria?"
Augusto hesitou.
"Sim."
Henrique percebeu.
"Era isso."
"O quê?"
"Vocês estavam com medo de uma auditoria."
Augusto endureceu.
"Não faça acusações sem fundamento."
"Então me dê fundamento."
"Seu pai passou décadas construindo esse grupo."
"Com dinheiro do avô da minha esposa."
A frase atingiu Augusto.
Henrique se aproximou.
"Essa é a parte que todo mundo esqueceu de mencionar?"
"Otávio devolveu aquele investimento muitas vezes."
"Não segundo o contrato."
Augusto desviou o olhar.
Henrique sentiu nojo.
"Quem mandou esconder isso de mim?"
"Eu não escondi."
"Quem?"
Augusto não respondeu.
Henrique já sabia.
Havia apenas uma pessoa dentro da família cuja autoridade Augusto ainda tratava como superior à dele.
Vitória Vasconcelos.
Henrique encontrou a mãe naquela noite na mansão de Jardim Europa.
Ela estava na sala de jantar, sozinha, bebendo café como se o mundo não estivesse desmoronando.
"Você sabia."
Vitória nem levantou os olhos.
"Boa noite para você também."
Henrique jogou os documentos sobre a mesa.
"Você sabia."
Dessa vez, ela olhou.
"Sobre o quê?"
"Não faça isso comigo."
Vitória observou a primeira página.
Nenhuma surpresa.
Henrique sentiu a confirmação antes que ela falasse.
"Sim."
Uma única palavra.
Fria.
"Desde quando?"
"Há alguns meses."
"E decidiu não me contar."
"Decidi resolver."
"Resolver o quê? O direito da minha esposa?"
Vitória largou a xícara.
"Não seja ingênuo."
"Ingênuo?"
"Você não faz ideia do que estava acontecendo."
"Então me explica."
Vitória se levantou.
Mesmo aos sessenta e um anos, havia nela a mesma presença que fizera conselheiros experientes se calarem durante décadas.
"Seu pai deixou aquela empresa nas suas mãos."
"Não muda de assunto."
"Estou falando exatamente do assunto."
Ela apontou para os papéis.
"Uma cláusula esquecida por quase trinta anos aparece de repente e entrega poder de voto a alguém que nunca construiu nada dentro do grupo."
Henrique encarou a mãe.
"Alguém?"
"Não distorça."
"Ela tem nome."
"Isabela."
"Minha esposa."
"Eu sei perfeitamente quem ela é."
"Às vezes parece que esquece."
Vitória se aproximou.
"Eu ofereci um acordo."
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Você falou com ela?"
"Sim."
"Quando?"
"Na semana passada."
"Sem me contar."
"Era uma questão societária."
"Ela é minha mulher!"
"E o Grupo Vasconcelos não é seu casamento!"
A voz de Vitória ecoou pela sala.
Henrique ficou imóvel.
Ela respirou fundo.
"Eu ofereci uma compensação financeira justa para que Isabela renunciasse aos direitos."
"E ela recusou."
"Recusou."
Henrique quase sorriu.
Conhecia Isabela o suficiente para imaginar a cena.
"Quanto você ofereceu?"
"Não importa."
"Quanto?"
"Quarenta milhões."
Henrique encarou a mãe.
"E ela disse não?"
"Disse."
"Por quê?"
Vitória apertou os lábios.
"Porque dinheiro não era o que ela queria."
Henrique sentiu algo mudar.
"O que ela queria?"
"Acesso."
"A quê?"
"À contabilidade completa do grupo."
Henrique lembrou imediatamente dos relatórios na biblioteca.
"Por quê?"
"Ela dizia ter encontrado inconsistências."
"Que inconsistências?"
Vitória desviou os olhos.
Foi suficiente.
"Você sabe."
"Eu sei que empresas desse tamanho têm operações complexas."
"Não foi o que eu perguntei."
"Henrique..."
"Isabela encontrou alguma coisa?"
Vitória se calou.
Henrique sentiu a raiva crescer.
"Foi por isso que você tentou comprar a parte dela?"
"Eu tentei proteger nossa família."
"De quê?"
"Da sua esposa."
A frase saiu sem hesitação.
Henrique ficou olhando para a mãe.
Vitória continuou.
"Sua esposa estava prestes a destruir tudo o que seu pai construiu."
O silêncio que veio depois pareceu interminável.
Henrique se aproximou lentamente.
"Minha esposa está inconsciente."
"Eu sei."
"E você está falando dela como se fosse uma inimiga."
"Porque você está pensando como marido."
"E você está pensando como o quê?"
Vitória não respondeu.
Henrique sentiu uma pergunta terrível nascer.
"O que você fez?"
Pela primeira vez, a expressão da mãe mudou.
"Tenha cuidado."
"O que você fez com Isabela?"
Vitória levantou o queixo.
"Eu nunca encostei um dedo nela."
"Isso não foi o que eu perguntei."
"Então pergunte direito."
"Você sabia que ela estaria no hospital ontem?"
Vitória ficou em silêncio.
Henrique deu outro passo.
"Sabia?"
"Sim."
O coração dele disparou.
"Como?"
"Ela me contou."
"Por quê?"
"Porque nós discutimos."
Henrique sentiu o chão desaparecer.
"Quando?"
"Na noite anterior."
Vitória caminhou até a janela.
"Ela disse que faria os exames pela manhã e depois iria ao escritório da advogada."
Henrique congelou.
"Para assinar."
Vitória não respondeu.
"Ela disse que ia assinar os documentos?"
"Sim."
Henrique ficou sem ar.
Até aquele momento, ele ainda podia fingir que o colapso de Isabela fora uma coincidência terrível.
Agora não.
A própria mãe sabia.
Augusto provavelmente sabia.
A advogada sabia.
Talvez Camila soubesse.
Isabela deveria sair do Hospital Santa Cecília e seguir diretamente para a formalização que transformaria sua posição dentro do Grupo Vasconcelos.
Mas nunca chegou lá.
O celular de Henrique vibrou.
Era Mariana.
"Henrique, encontrei a agenda da Isabela."
Ele olhou para a mãe.
"O que tem nela?"
"A reunião com a advogada estava marcada para as duas da tarde."
"Eu sei."
"Tem mais."
Henrique apertou o aparelho.
"Fala."
"Isabela anotou quatro nomes ao lado do compromisso."
O coração dele acelerou.
"Quais?"
Mariana respirou fundo.
"Augusto. Vitória. Camila."
Henrique fechou os olhos.
"E o quarto?"
Do outro lado da linha, Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
"Henrique."
"Qual é o quarto nome?"
A resposta fez seu sangue gelar.
"O seu."
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