"O Que Minha Esposa Estava Escondendo de Mim?" Capítulo 3
Henrique passou a manhã seguinte sem falar com Camila.
Não respondeu às mensagens.
Não retornou às ligações.
Também não contou a ninguém que havia pedido acesso às imagens de segurança do Hospital Santa Cecília.
Se Isabela realmente tentara avisá-lo de alguma coisa, ele precisava descobrir antes que alguém apagasse o resto.
Pouco depois das oito, Henrique desceu até o setor administrativo.
Um gerente do hospital o recebeu numa sala pequena, longe da ala dos pacientes.
"Senhor Vasconcelos, nós entendemos sua preocupação."
"Então me mostre as gravações."
O homem ajeitou a gravata.
"Existe um procedimento."
"Minha esposa está inconsciente."
"Mesmo assim..."
Henrique colocou o celular sobre a mesa.
"Eu posso ligar agora para o departamento jurídico do hospital. Ou você pode me ajudar sem transformar isso numa guerra."
O gerente ficou em silêncio.
Alguns minutos depois, uma funcionária da segurança entrou com um notebook.
Ela abriu os arquivos da câmera instalada no corredor do quarto de Isabela.
Henrique se inclinou para a frente.
As imagens começaram.
Pacientes.
Enfermeiros.
Carrinhos de medicação.
Às dez e onze, Dona Célia apareceu com Luna.
Henrique reconheceu imediatamente.
Pouco depois, elas saíram do enquadramento.
Então, às dez e dezessete, Camila surgiu no corredor.
Henrique sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
Ela carregava a mesma bolsa bege.
Parou diante da porta de Isabela.
Olhou para os dois lados.
Entrou.
Henrique apontou para a tela.
"Continua."
A funcionária clicou.
A imagem travou.
Depois ficou preta.
Henrique franziu a testa.
"O que aconteceu?"
"Nesse trecho houve uma falha."
"Que falha?"
"O sistema perdeu o sinal."
"Por quanto tempo?"
Ela consultou o registro.
"Dezessete minutos."
Henrique levantou os olhos.
"Dezessete?"
"Sim."
"Justamente quando ela entra no quarto da minha esposa?"
O gerente se apressou em responder.
"Pode acontecer."
Henrique virou lentamente.
"Pode?"
"Oscilação de rede. Problema de armazenamento. Falha de energia local."
"Quantas câmeras ficaram sem sinal?"
A funcionária hesitou.
Henrique percebeu.
"Quantas?"
"Apenas essa."
O silêncio ficou pesado.
"A câmera exatamente em frente ao quarto de Isabela."
"Senhor Vasconcelos..."
Henrique bateu a mão na mesa.
"Não me venha com coincidência."
O gerente empalideceu.
"Estamos verificando."
"Verificando desde quando?"
"Desde que fomos avisados."
"E quem avisou?"
"Nossa própria equipe."
Henrique não acreditou.
"Quero o relatório técnico."
"Não posso liberar sem autorização."
"Então consiga a autorização."
Ele se levantou.
"Hoje."
Quando voltou para o corredor, encontrou Dr. Rafael perto dos elevadores.
O médico percebeu seu rosto.
"Você conseguiu ver as imagens?"
Henrique parou.
"Como sabe que eu pedi?"
"Porque eu também pedi."
Henrique franziu a testa.
"Por quê?"
Rafael olhou para os lados antes de responder.
"Porque a história não está fechando."
"Você viu a falha?"
"Vi."
"Dezessete minutos."
"Exato."
"Você acha coincidência?"
Rafael demorou.
"Eu acho muita coincidência concentrada no mesmo lugar."
Henrique ficou em silêncio.
"Você está me dizendo que alguém pode ter mexido nas câmeras?"
"Estou dizendo que eu não descartaria."
"Isso é diferente."
"Eu sou médico. Não investigador."
"Mas está desconfiado."
Rafael sustentou o olhar.
"Estou."
Henrique respirou fundo.
"E os exames?"
"Alguns resultados ainda estão pendentes."
"Alguma novidade?"
"Não suficiente para eu afirmar nada."
"Mas suficiente para desconfiar?"
Rafael não respondeu diretamente.
"Proteja tudo o que puder."
Henrique entendeu.
Aquilo já não era apenas medo.
Era aviso.
Naquela tarde, ele voltou para a mansão da família em Jardim Europa.
Precisava pegar roupas e alguns documentos.
A casa parecia vazia demais.
Sem Isabela.
Sem Luna correndo pelo corredor.
Sem a música que Isabela costumava deixar tocando na cozinha.
Henrique entrou no quarto do casal.
Abriu o armário.
Pegou uma camisa.
Parou.
Na gaveta de Isabela havia uma pasta que ele não reconhecia.
Não pretendia abrir.
Pelo menos foi isso que disse a si mesmo.
Mas a frase inacabada no celular dela voltou.
"Não confie em..."
Henrique puxou a pasta.
Dentro havia recibos.
Comprovantes.
Cartões de visita.
E três anotações com o mesmo nome.
Dra. Renata Bastos.
Advogada.
Henrique sentiu a garganta secar.
Havia datas.
Quase todas das últimas três semanas.
Isabela consultara aquela mulher pelo menos quatro vezes.
Sem contar a ele.
Henrique sentou na beirada da cama.
Quatro consultas jurídicas.
Por quê?
A primeira ideia veio rápido demais.
Divórcio.
Ele tentou afastar.
Mas as lembranças começaram a aparecer.
Isabela mais distante no jantar.
Isabela levando o celular para outro cômodo.
Isabela perguntando sobre contas.
Isabela querendo saber detalhes do Grupo Vasconcelos.
Isabela evitando discutir o futuro.
Talvez Camila não tivesse mentido.
Talvez Isabela realmente estivesse escondendo alguma coisa.
Henrique fechou a pasta.
O celular tocou.
Era Camila.
Dessa vez, ele atendeu.
"O que você quer?"
"Conversar."
"Não estou com cabeça."
"Você nunca está quando a verdade te incomoda."
Henrique apertou o maxilar.
"Fala logo."
"Você encontrou alguma coisa dela?"
Henrique ficou em silêncio.
Camila percebeu.
"Encontrou."
"Você sabia que Isabela estava procurando advogada?"
Do outro lado, houve uma pausa.
"Sabia."
Henrique se levantou.
"Como?"
"Porque ela me contou."
"Quando?"
"Na semana passada."
"Sobre o quê?"
"Eu não sei tudo."
"Camila."
"Ela perguntou se eu conhecia alguém que entendesse de patrimônio."
Henrique sentiu o peito apertar.
"Patrimônio?"
"Sim."
"Ela queria se separar?"
Camila demorou o suficiente para tornar a resposta pior.
"Talvez."
Henrique fechou os olhos.
"Você está inventando isso."
"Eu não preciso inventar nada."
"Então por que ela falaria com você?"
"Porque talvez ela quisesse ouvir alguém que não fosse completamente parcial."
Henrique riu, sem humor.
"Você?"
"Você sempre achou que sabia tudo sobre ela."
"Não começa."
"Talvez você nunca tenha conhecido sua própria esposa."
A frase ficou no ar.
Henrique desligou.
Mas não conseguiu ignorar.
Foi até o closet.
Olhou para as roupas de Isabela.
Para os vestidos.
Para os livros.
Para uma foto dos dois em Trancoso, três anos antes.
Pareciam felizes.
Talvez tivessem sido.
Mas felicidade antiga não garantia verdade presente.
Ele começou a lembrar da última grande discussão.
Aconteceu duas semanas antes.
Isabela estava na biblioteca com documentos espalhados pela mesa.
Henrique entrou irritado depois de uma reunião.
"Você mexeu nos relatórios da empresa?"
Ela levantou os olhos.
"Eu li."
"Sem me perguntar."
"Eu sou sua esposa."
"Isso não te dá acesso a tudo."
Isabela ficou em silêncio.
Depois respondeu.
"Esse é exatamente o problema."
Naquela noite, Henrique não perguntou o que ela queria dizer.
Saiu.
Dormiu no quarto de hóspedes.
No dia seguinte, os dois fingiram que nada tinha acontecido.
Agora aquela memória parecia muito maior.
Henrique voltou ao hospital perto das sete.
Mariana já estava lá.
Ela o esperava no corredor.
"Preciso te mostrar uma coisa."
Henrique reconheceu a urgência no rosto dela.
"O celular?"
"Não."
"Então o quê?"
"Eu fui ao escritório da advogada."
Henrique endureceu.
"Sem autorização?"
"Eu tinha autorização da Isabela."
"Como assim?"
Mariana abriu a bolsa.
"Ela me colocou como contato de emergência para documentos jurídicos."
Henrique sentiu o sangue subir.
"Desde quando?"
"Há quase um mês."
Ele ficou olhando para ela.
"Todo mundo sabia alguma coisa menos eu?"
"Não faz isso."
"Fazer o quê?"
"Transformar medo em raiva."
Henrique desviou o rosto.
Mariana tirou uma pasta fina.
"Eu também achei que era sobre separação."
Henrique olhou para o documento.
"E não era?"
"Não."
A resposta saiu firme.
Henrique sentiu o coração desacelerar por um segundo.
"Então o que era?"
Mariana abriu a pasta.
"Isabela pediu uma análise patrimonial."
"Por quê?"
"Porque recebeu uma notificação."
"De quem?"
Mariana apontou para a primeira página.
Henrique pegou.
Leu uma vez.
Depois outra.
O nome da esposa aparecia ao lado de uma sequência de termos jurídicos.
Participação societária.
Direito sucessório.
Proteção patrimonial.
Acordo de acionistas.
Henrique ergueu os olhos.
"Isso é do Grupo Vasconcelos."
"Sim."
"Por que o nome dela está aqui?"
Mariana respirou fundo.
"Foi isso que eu também perguntei."
Henrique virou as páginas.
Havia percentuais.
Cláusulas.
Referências antigas.
Uma assinatura incompleta.
Isabela Martins Vasconcelos.
Ele sentiu as mãos ficarem frias.
"Ela estava tentando comprar ações?"
"Não."
"Então explica."
Mariana fechou a porta da pequena sala ao lado.
"Essas ações já estavam vinculadas a ela."
Henrique ficou sem entender.
"Isso é impossível."
"Não parece."
"Minha família controla esse grupo há décadas."
"Eu sei."
"Nunca houve participação da família dela."
Mariana o encarou.
"Talvez você esteja errado."
Henrique apontou para o papel.
"Isso é um acordo de proteção."
"Sim."
"Por quê?"
"Porque alguém tentou impedir Isabela de exercer um direito sobre essas ações."
Henrique sentiu o estômago revirar.
"Quem?"
"Eu ainda não sei."
"Quanto?"
Mariana hesitou.
"Quanto o quê?"
"Quanto ela tinha?"
Mariana mostrou outra página.
Henrique leu o número.
Parou.
Leu de novo.
Aquilo não era uma participação simbólica.
Era suficiente para alterar votações.
Suficiente para incomodar o conselho.
Suficiente para mudar alianças dentro da empresa.
Henrique olhou para Mariana.
"Quando ela soube disso?"
"Três semanas atrás."
As datas bateram imediatamente com as consultas jurídicas.
Henrique levou a mão à testa.
Então tudo voltou.
As perguntas de Isabela.
Os relatórios.
As discussões.
O silêncio.
Talvez ela não estivesse preparando uma separação.
Talvez estivesse tentando entender por que seu nome aparecia dentro da empresa da família do marido.
Henrique sentiu uma nova pergunta nascer.
Uma muito pior.
"Mariana..."
"O quê?"
"Se essas ações eram dela..."
"Sim?"
Henrique olhou novamente para a assinatura inacabada.
"...por que ninguém nunca me contou?"
Mariana não respondeu.
Ele continuou olhando o documento.
Até perceber uma anotação no rodapé.
Havia uma data para formalização definitiva.
A mesma data em que Isabela perdera a consciência.
Henrique levantou os olhos lentamente.
"Ela ia assinar isso ontem."
"Sim."
"Ontem?"
"Sim."
Ele sentiu o ar faltar.
Naquele momento, Henrique deixou de pensar apenas em Camila.
Porque aquela informação mudava tudo.
Se Isabela assinasse aquele documento, alguém dentro do Grupo Vasconcelos perderia poder.
E Henrique precisava descobrir quem.
Antes que Isabela acordasse.
Ou antes que alguém garantisse que ela nunca acordaria.
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