"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 5
A assinatura da mãe estava ali.
Beatriz Vasconcelos.
Não era Caio usando o nome dela.
Era a assinatura verdadeira.
"Minha mãe declarou que eu estava doente."
Marcelo assentiu.
Ricardo se afastou da mesa.
"Ela sabia."
Helena o observou.
"Ricardo..."
"Ela sabia de tudo."
Ele bateu a mão na parede.
A casa pareceu estremecer.
Helena se levantou.
"Olhe para mim."
Ricardo não respondeu.
"Ricardo."
Ele finalmente se virou.
"Não dê a eles essa versão de você."
A frase o atingiu.
Ele olhou para a própria mão fechada.
Depois para o falso relatório.
Agressividade.
Impulsividade.
Instabilidade.
Ricardo abriu os dedos lentamente.
"Você tem razão."
Voltou para a mesa.
"Marcelo, o que precisamos fazer antes das dez?"
O advogado mudou de postura.
"Primeiro, impedir qualquer transferência de ações ou ativos durante a reunião."
"Consegue?"
"Vou pedir uma tutela de urgência ainda esta madrugada."
"Faça."
"Segundo, precisamos preservar os registros internos antes que Caio perceba que estamos investigando."
Helena interveio.
"Já tenho cópias de parte deles."
"Precisamos dos servidores."
Ricardo pensou por alguns segundos.
"Há um servidor de contingência."
Marcelo olhou para ele.
"Onde?"
"Fora da sede. Foi criado depois do ataque cibernético de três anos atrás. Pouquíssimas pessoas sabem."
"Caio?"
"Não deveria."
Helena inclinou-se.
"Quem tem acesso?"
"Eu, o diretor de tecnologia e Marcelo."
O advogado assentiu.
"Vou solicitar a preservação imediata."
A investigação continuou.
Pouco antes das quatro da manhã, surgiu outra descoberta.
Caio havia solicitado mudanças temporárias nas regras de movimentação de uma estrutura patrimonial da família.
Marcelo leu duas vezes.
"Ele está tentando chegar ao fundo de proteção."
Ricardo franziu a testa.
"Isso não faz sentido. Ele não pode."
"Ele está alegando sua incapacidade."
"E minha mãe?"
"Assinou como familiar responsável."
Helena olhou para os dois.
"Que fundo?"
Ricardo hesitou.
"Uma estrutura criada anos atrás para impedir que uma crise pessoal de qualquer membro da família colocasse o grupo inteiro em risco."
"Quem controla?"
"Depende das circunstâncias."
Marcelo interrompeu.
"E isso pode ser importante amanhã."
Helena percebeu a troca de olhares.
"Importante como?"
"Depois", respondeu Ricardo.
Ela não gostou.
Mas não insistiu.
Ainda havia trabalho demais.
Às cinco e vinte, Marcelo conseguiu localizar o médico cujo nome aparecia na avaliação psiquiátrica.
Ele nunca havia atendido Ricardo.
Nunca o encontrara.
Nunca emitira diagnóstico algum.
A assinatura fora copiada de outro documento.
Às seis, o pedido de preservação dos registros estava pronto.
Às seis e quarenta, a equipe jurídica começou a preparar a tutela de urgência.
Às sete, Ricardo já não parecia furioso.
Parecia frio.
Helena conhecia aquela expressão.
Era a expressão que ele usava antes de uma negociação difícil.
"Agora você entendeu", ela disse.
Ricardo olhou para os documentos espalhados pela mesa.
"Entendi."
"Eles não expulsaram você apenas para me ferir."
"Não."
"Você era a primeira peça."
Ricardo encarou a assinatura de Beatriz.
Depois o nome de Caio.
"Primeiro tiraram você da mansão."
Helena assentiu.
"Depois cortaram nossas comunicações."
"Depois criaram a história de que nossa filha não era minha."
"Depois fabricaram sua doença."
Ricardo terminou:
"E amanhã tomariam a empresa."
Nenhum dos dois falou por alguns segundos.
Então Ricardo fechou o computador.
"Ninguém pode saber que eu voltei."
Helena assentiu.
"Até Caio terminar de mentir."
Enquanto isso, a quase quarenta quilômetros dali, as luzes da Mansão Vasconcelos ainda estavam acesas.
Beatriz atravessava o salão principal usando um vestido de seda claro.
Sobre a mesa havia garrafas de champanhe francês.
Lavínia estava diante de um espelho, ajustando um colar que pertencera a Helena.
Caio entrou no escritório do irmão.
Olhou para a cadeira de couro atrás da enorme mesa.
Sentou-se.
Beatriz apareceu na porta.
"Está nervoso?"
Caio sorriu.
"Por quê?"
"Amanhã muda tudo."
Ele abriu uma garrafa.
O estouro da rolha ecoou pelo escritório.
Lavínia entrou e ergueu sua taça.
Beatriz fez o mesmo.
Caio olhou para a cadeira em que estava sentado.
Depois para uma fotografia de Ricardo sobre a estante.
Pegou a moldura.
Virou-a para baixo.
E levantou a taça.
"Amanhã, tudo será nosso."
Parte 5 — Deixe os Ratos Comemorarem
Às sete e quinze da manhã, Caio Vasconcelos acordou na cama do irmão.
Não porque tivesse dormido ali.
Mas porque, antes mesmo de tomar café, entrou na suíte principal da Mansão Vasconcelos e ficou alguns segundos admirando o quarto que acreditava estar prestes a se tornar definitivamente parte de sua nova vida.
Lavínia saiu do closet usando um robe de seda.
No pescoço, carregava um colar de esmeraldas.
Caio reconheceu a joia.
"Isso era da Helena."
Lavínia tocou o colar.
"Era."
"Minha mãe deixou você pegar?"
"Beatriz disse que não fazia sentido manter essas coisas guardadas."
Caio sorriu.
"E você concordou, claro."
Lavínia caminhou até o espelho.
"Ela não vai voltar."
Caio aproximou-se por trás.
"Depois das dez, ninguém vai voltar."
Na sala de jantar, Beatriz já havia mandado preparar um café da manhã que parecia uma comemoração.
Flores frescas.
Louças de porcelana.
Frutas importadas.
Duas garrafas de champanhe permaneciam dentro de um balde com gelo.
Lavínia ergueu as sobrancelhas.
"Champanhe antes das oito?"
Beatriz serviu café.
"Hoje não é um dia comum."
Caio entrou vestindo um dos ternos mais caros do armário.
Beatriz olhou para ele com satisfação.
"Agora sim você parece um presidente."
Caio puxou a cadeira que tradicionalmente pertencia a Ricardo.
Sentou-se.
Lavínia observou.
"Você não tem medo de que ele volte?"
Caio pegou uma fatia de mamão.
"Ricardo ainda acredita que controla alguma coisa."
"E se aparecer?"
Beatriz soltou uma risada.
"Meu filho não sabe nem metade do que aconteceu aqui."
Lavínia passou os dedos pelo colar.
"E Helena?"
Beatriz fez uma expressão de desprezo.
"O que tem ela?"
"Ela ficou muito calma quando saiu."
"Mulheres pobres aprendem cedo a aceitar humilhações."
Caio riu.
"Ela tentou falar comigo algumas vezes."
"Pedindo dinheiro?"
"Não."
"Então o quê?"
Caio deu de ombros.
"Não respondi."
Beatriz bebeu um gole de café.
"Fez bem."
Uma funcionária entrou para retirar um prato.
Beatriz percebeu que ela havia olhado para o colar de Lavínia.
"Algum problema?"
A mulher baixou os olhos.
"Não, senhora."
"Então pare de encarar."
"Desculpe."
Beatriz esperou a funcionária se afastar.
Então falou alto o suficiente para que todos ouvissem.
"Helena deveria agradecer por termos permitido que ela saísse viva desta casa."
A funcionária parou por um instante.
Lavínia perdeu o sorriso.
Até Caio olhou para a mãe.
Beatriz continuou com naturalidade.
"Depois de tudo que aquela mulher tentou fazer, ainda fomos generosos."
Caio ergueu a taça de suco.
"À generosidade da família."
Beatriz sorriu.
A quilômetros dali, numa casa onde a água ainda pingava do teto, ninguém estava brindando.
Helena tinha três computadores abertos sobre a mesa.
Ricardo falava com Marcelo Nogueira pelo canal criptografado.
Documentos cobriam praticamente todas as superfícies disponíveis.
A casa abandonada havia se transformado em um centro de guerra.
"Marcelo?"
Ricardo se inclinou para a tela.
"Quanto tempo para a tutela?"
"Já protocolamos."
"Isso não responde."
"Porque depende do juiz."
Helena não tirou os olhos de uma planilha.
"Pedimos bloqueio de quê exatamente?"
Marcelo respondeu:
"Qualquer alteração definitiva de controle societário, transferência relevante de ativos e movimentação extraordinária do patrimônio ligado à sucessão."
"Até quando?"
"Até que a autenticidade dos documentos apresentados por Caio seja verificada."
Ricardo bateu os dedos sobre a mesa.
"Precisamos conseguir isso antes das dez."
"Minha equipe está trabalhando."
Helena ergueu uma pasta.
"E o banco?"
Marcelo mudou a janela na tela.
"Recebemos a primeira confirmação."
Ricardo se aproximou.
"Sobre a mansão?"
"Sim."
Marcelo respirou fundo.
"A Mansão Vasconcelos foi oferecida como garantia de uma operação de crédito há pouco mais de dois meses."
Ricardo fechou os olhos.
"Sem minha assinatura."
"Há uma assinatura atribuída a você."
"Falsa."
"Vamos precisar de perícia."
Helena colocou outro documento ao lado.
"Não apenas perícia."
Os dois homens olharam para ela.
"Caio cometeu um erro."
"Qual?"
"O contrato cita uma reunião do conselho autorizando a garantia."
Marcelo assentiu.
"Eu vi."
"Essa reunião nunca aconteceu."
Ricardo franziu a testa.
"Como sabe?"
Helena virou o computador.
"Porque a data escolhida foi vinte e três de maio."
"E?"
"Naquele dia, três dos conselheiros estavam em Brasília numa audiência regulatória. Há registros públicos."
Marcelo sorriu pela primeira vez naquela manhã.
"Isso ajuda."
"Não."
Helena pegou outra folha.
"Isso destrói a ata."
Ricardo olhou para ela.
Helena já estava abrindo o próximo arquivo.
"Vamos continuar."
Às oito e cinco, a equipe de Marcelo confirmou que os dois antigos assistentes executivos de Ricardo haviam sido afastados por ordens fraudulentas.
Às oito e doze, encontraram os filtros usados para interceptar mensagens.
Às oito e vinte, conseguiram preservar cópias dos registros do servidor de contingência.
Às oito e vinte e sete, veio a confirmação mais importante sobre o falso relatório médico.
O médico de Nova York havia enviado uma declaração formal.
Ele nunca examinara Ricardo Vasconcelos.
Nunca diagnosticara qualquer transtorno.
Nunca recomendara seu afastamento.
Ricardo leu a declaração.
"Então acabou."
Helena levantou os olhos.
"Não."
"Temos o médico."
"Temos uma mentira."
"E uma mentira provada."
"Mas ainda precisamos deixar Caio usá-la."
Ricardo respirou fundo.
"Você realmente quer vê-lo apresentar isso diante de todos."
"Quero."
"Por quê?"
"Porque uma fraude escondida pode ser explicada."
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