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"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 1

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Parte 1 — A Mulher na Casa Abandonada

A primeira coisa que Ricardo Vasconcelos viu ao descer do carro foi a própria esposa, grávida de sete meses, carregando um balde de plástico rachado debaixo de uma chuva fria em Cotia.

Por alguns segundos, ele simplesmente não conseguiu respirar.

Helena estava no quintal de uma casa quase em ruínas. Uma das janelas não tinha vidro, parte das telhas havia cedido e uma lona azul cobria um buraco enorme no teto.

A água escorria pelas paredes manchadas de umidade e formava pequenas poças ao redor dos pés descalços dela.

Ricardo deixou a mala cair no chão.

Seis meses antes, ele havia partido para Nova York para concluir a maior aquisição internacional da história do Grupo Vasconcelos.

Na manhã da viagem, Helena ainda estava no início da gravidez.

Ele se lembrava perfeitamente de ter se ajoelhado diante dela no quarto da mansão do Morumbi, beijado sua barriga quase imperceptível e colocado a mão sobre a dela.

"Quando eu voltar, você e nossa filha não vão precisar se preocupar com absolutamente nada."

Helena havia rido.

"Não faça promessas de homem rico. Faça promessas de marido."

Ricardo sorrira e a puxara para perto.

"Então eu prometo voltar para vocês."

Agora ele estava de volta.

E sua esposa parecia ter sido abandonada pelo mundo inteiro.

"Helena?"

A voz saiu rouca.

Ela parou no mesmo instante.

O balde quase escapou de suas mãos.

Por um momento, Helena ficou de costas, imóvel sob a chuva, como se tivesse medo de se virar e descobrir que aquela voz existia apenas em sua cabeça.

Então ela virou lentamente.

Ricardo sentiu o estômago afundar.

O rosto dela estava mais fino. Havia olheiras profundas sob seus olhos. O vestido azul que usava estava gasto nas barras e esticado sobre a barriga já grande.

Ricardo reconheceu aquela roupa.

Era o mesmo vestido que Helena vestia na última fotografia que ele recebera antes de suas mensagens começarem a desaparecer.

Ela levou uma das mãos ao ventre por puro instinto.

Os lábios tremeram.

"Você está vivo..."

Ricardo ficou sem reação.

"Como assim?"

Helena não respondeu.

Ele atravessou o quintal enlameado em poucos passos e segurou seu rosto entre as mãos.

"Olhe para mim. O que você acabou de dizer?"

Os olhos dela ficaram úmidos, mas Helena não chorou.

"Você está vivo."

"É claro que eu estou vivo."

"Foi isso que me disseram."

Ricardo recuou apenas o suficiente para enxergá-la melhor.

"Quem disse?"

Helena soltou um riso curto e sem humor.

"Sua mãe."

O nome não precisou ser pronunciado.

Ricardo entendeu imediatamente.

"Beatriz?"

Helena assentiu.

"E não foi só ela."

A chuva aumentou.

Ricardo tirou o próprio paletó e colocou sobre os ombros da esposa, mas ela imediatamente tentou devolver.

"Vai estragar."

Ele a encarou, incrédulo.

"Helena, eu estou olhando para minha esposa grávida descalça no meio da chuva, numa casa que parece prestes a desabar, e você está preocupada com o meu paletó?"

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Ela desviou os olhos.

"Eu aprendi a me preocupar com coisas menores."

A frase o atingiu com uma violência que nenhum grito conseguiria causar.

Ricardo pegou o balde da mão dela e o jogou para o lado.

"Entre."

"Ricardo..."

"Entre agora."

Helena percebeu que ele estava à beira de perder o controle.

Ela caminhou para dentro da casa.

Ricardo foi atrás.

E tudo ficou ainda pior.

Na sala havia apenas um sofá velho coberto por um lençol, duas cadeiras diferentes e uma pequena mesa de madeira.

Uma goteira caía dentro de uma panela no canto.

No cômodo ao lado, Ricardo encontrou um colchão estreito no chão, coberto por uma manta fina.

Perto dele havia vitaminas pré-natais, garrafas de água, latas de comida, um fogareiro portátil e uma caixa preta fechada.

Ele se virou lentamente para Helena.

"Você está dormindo aqui?"

"Estou."

"Sozinha?"

Helena demorou um pouco para responder.

"Sim."

A mandíbula de Ricardo endureceu.

"Onde estão os funcionários?"

"Nenhum."

"E o segurança que eu deixei com você?"

"Demitido."

"O motorista?"

"Demitido."

"A equipe da casa?"

"Os que eram leais a mim também foram embora."

"Por ordem de quem?"

Helena o encarou.

"Da sua mãe."

Ricardo puxou o celular do bolso.

Helena segurou seu pulso.

"Não."

Ele olhou para a mão dela sobre a sua.

"Não o quê?"

"Não ligue para ninguém."

"Eles colocaram minha esposa grávida nesta casa."

"Eu sei."

"Você está vivendo com um fogareiro, Helena."

"Eu sei."

"E alguém vai me explicar isso agora."

"Não."

A voz dela saiu firme.

Ricardo ficou imóvel.

Helena raramente levantava o tom, mas havia algo diferente nela.

Não era medo.

Também não era resignação.

Era controle.

"Se você ligar agora, vai estragar tudo."

"Que tudo?"

Ela soltou o pulso dele.

"Primeiro, você precisa entender o que aconteceu."

Ricardo respirou fundo, tentando conter a raiva.

"Tudo bem. Então me faça entender."

Helena abriu uma gaveta velha da mesa e retirou um celular.

A tela estava rachada.

Ela desbloqueou o aparelho e abriu uma sequência de mensagens.

"Essas chegaram três semanas depois que você viajou."

Ricardo pegou o telefone.

A primeira mensagem parecia ter sido enviada pelo número internacional que ele usava em Nova York.

"Nosso casamento foi um erro."

Ricardo franziu a testa.

A segunda dizia:

"Saia da minha casa antes que eu volte."

Ele sentiu os dedos apertarem o aparelho.

A terceira foi pior.

"A criança pode nem ser minha."

Ricardo ergueu os olhos.

Helena estava absolutamente quieta.

"Eu nunca escrevi isso."

"Eu sei."

Ele passou para a mensagem seguinte.

Havia outras.

Curtas.

Cruéis.

Todas escritas de uma forma que tentava imitar seu jeito direto de falar.

"Não quero escândalo."

"Minha família vai cuidar da separação."

"Não me procure em Nova York."

"Entregue tudo o que pertence aos Vasconcelos."

Ricardo sentiu o sangue ferver.

"Isso é falsificação."

"Sim."

"Por que você não me ligou?"

"Eu liguei."

"Não recebi nenhuma chamada."

"Eu tentei dezenas de vezes."

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"Meu telefone ficou comigo durante toda a viagem."

"Então alguém impediu minhas chamadas de chegar até você."

Ricardo ficou em silêncio.

Helena pegou o aparelho de volta.

"Depois disso, seu irmão apareceu."

"Caio?"

"Ele chegou à mansão com dois advogados e documentos que supostamente tinham sua assinatura."

Ricardo cerrou os punhos.

"O que diziam?"

"Que, durante sua ausência, Caio assumiria a administração das propriedades da família. Também diziam que meu acesso às contas seria suspenso."

"Eu nunca assinei nada disso."

"Eu sei."

"Pare de dizer que sabe!"

A voz dele explodiu dentro da casa.

Helena não se moveu.

Ricardo imediatamente se arrependeu.

Passou as mãos pelo rosto e virou de costas.

"Desculpe."

Ela continuou em silêncio.

"Eu não estou bravo com você."

"Eu sei disso também."

Ele soltou uma respiração amarga.

"Então me diga como você terminou aqui."

Helena olhou para a chuva do lado de fora.

"Depois que bloquearam os cartões, Beatriz começou a demitir os funcionários. Primeiro o motorista. Depois os seguranças. Depois a governanta."

"E você deixou?"

"Eu ainda acreditava que era uma disputa de poder."

"Não era?"

Helena virou o rosto para ele.

"Então Lavínia Albuquerque apareceu."

Ricardo franziu a testa.

"Quem?"

"Uma mulher que sua mãe apresentou como a futura senhora da casa."

O silêncio entre os dois mudou.

Ricardo parecia não ter entendido.

"Minha mãe fez o quê?"

"Ela trouxe Lavínia para o nosso quarto."

Ricardo ficou pálido.

"Nosso quarto?"

"Sim."

"Por quê?"

Helena passou a mão sobre a barriga.

"Porque Lavínia estava grávida."

Ricardo encarou a esposa.

"De quem?"

"Segundo Beatriz, do primeiro herdeiro realmente digno do nome Vasconcelos."

Por um instante, Ricardo não reagiu.

Então uma fúria quase física atravessou seu rosto.

"Ela disse isso na sua frente?"

"Na frente dos funcionários que ainda restavam."

"Você estava grávida."

"Eu continuo grávida."

"Você sabe o que eu quis dizer."

Helena assentiu.

Ricardo começou a andar pela pequena sala.

"Minha mãe enlouqueceu."

"Não."

A resposta veio rápida.

Ricardo parou.

"Não?"

"Ela sabia exatamente o que estava fazendo."

Helena caminhou até uma pequena bolsa sobre a mesa.

De dentro, retirou um envelope transparente.

Dentro havia apenas a borda queimada de uma fotografia.

Ricardo reconheceu imediatamente.

Era uma imagem de ultrassom.

Ou o que restava dela.

"O que aconteceu com isso?"

Helena demorou alguns segundos antes de responder.

"Eu mostrei a ela."

"Por quê?"

"Porque Beatriz disse que minha filha não existia para a família."

Ricardo pegou o plástico com cuidado.

"Helena..."

"Ela tirou a fotografia da minha mão e jogou na lareira."

Ele fechou os olhos.

O silêncio que veio depois parecia pesado demais para aquela casa.

"Depois disso", Helena continuou, "ela me deu uma hora para sair."

Ricardo abriu os olhos.

"Uma hora?"

"Com o que eu conseguisse carregar."

"Você estava grávida."

"Eu sei."

"E ninguém te ajudou?"

"Alguns queriam."

"Então por que não ajudaram?"

"Porque Caio avisou que qualquer funcionário que me acompanhasse seria demitido e nunca mais trabalharia para nenhuma empresa ligada ao Grupo Vasconcelos."

Ricardo abaixou lentamente a mão que segurava a fotografia queimada.

"Eu vou destruir os dois."

Helena o observou.

"E é exatamente por isso que você não pode aparecer na mansão hoje."

Ele riu, mas não havia humor algum no som.

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