"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 9
Raul pediu que Clara mantivesse Celeste falando.
— Se esse documento ajuda Damião, por que ainda não entregou ao advogado?
— Porque advogados enxergam papel. Eu enxergo família.
— A senhora falsificou meus laudos.
— Cuidado com o que afirma numa linha gravada.
Clara olhou para Helena, que confirmou a localização aproximada do aparelho em Ibiúna.
— Chego em duas horas.
— Sozinha.
— A senhora quer negociar o fundo. Minha advogada vai.
Celeste desligou.
A ordem de busca para a casa do lago saiu às duas e vinte da tarde. Raul organizou uma entrada discreta, deixando Clara e Helena chegarem primeiro. A polícia permaneceria na estrada particular até o sinal.
A casa ficava no alto de um terreno cercado por eucaliptos. O lago refletia um céu branco. Celeste abriu a porta usando o mesmo conjunto bege da reunião, agora sem o colar de pérolas.
— Onde está Artur?
— A senhora pediu que ele não viesse.
Clara entrou com Helena. O cheiro de fumaça vinha da biblioteca.
Sobre a lareira, uma bandeja de prata segurava cinzas recentes. Celeste seguia seus olhares.
— Cartas antigas.
— O documento está no fogo? — perguntou Helena.
— Está no cofre.
Ela conduziu as duas até um escritório com painéis de madeira. Um retrato de Damião aos vinte anos ocupava a parede. Celeste retirou um quadro menor e revelou o teclado.
— Quero a suspensão imediata da investigação patrimonial — disse. — Meu filho responde ao que for necessário em liberdade. Meu nome fica fora.
— A Polícia Federal não trabalha para mim — respondeu Clara.
— Mas a empresa pode declarar que não houve prejuízo.
— Houve vinte e quatro milhões e oitocentos mil reais.
Celeste digitou seis números. O cofre abriu.
Pastas azuis ocupavam a prateleira superior. Na inferior havia carimbos, certificados digitais e um aparelho de captura de assinatura igual ao fotografado no escritório de Damião.
Helena aproximou-se sem tocar.
— Isso tudo será apreendido.
Celeste segurou uma pasta contra o peito.
— Esta não.
Clara reconheceu o selo dourado do fundo.
— Abra.
— Seu pai assinou uma carta dizendo que Damião poderia administrar em caso de incapacidade.
— Depois de avaliação independente.
— O laudo estava pronto.
— Forjado.
Celeste abriu a pasta sobre a mesa. O documento começava com a assinatura de Augusto, mas a data fora preenchida meses depois da morte.
Helena fotografou sem se aproximar.
— O papel tem validade nenhuma. Pode acrescentar fraude documental.
Celeste fechou a pasta e deu um passo para trás.
— Você vai arrastar o nome Hartmann pela lama por causa de uma briga de casal.
— Foi assim que explicou para si mesma?
— Eu protegi uma empresa de uma mulher que herdou poder sem preparo.
Clara tirou o relógio do pulso e o colocou sobre a mesa.
— Meu pai me levou ao primeiro centro de distribuição aos doze anos. Aos vinte e seis, eu redesenhei as rotas hospitalares que sustentaram a empresa na crise. A senhora me viu trabalhar.
— Vi você chorar.
— Quarenta e três famílias tinham acabado de perder renda.
Celeste passou o polegar pelo fecho da pasta.
— Sentimentalismo custa caro.
— O roubo custou mais.
O rosto da mulher se contraiu. Ela recuou até a lareira, abriu a pasta e puxou o documento.
Helena levantou a voz pela primeira vez.
— Não faça isso.
Celeste aproximou a borda do papel da chama de uma vela. Clara avançou e segurou seu pulso. A folha tocou o fogo por um segundo, deixando uma marca preta no canto.
As duas ficaram imóveis.
Celeste tentou puxar o braço.
— Solta.
Clara retirou o documento da mão dela e o colocou sobre a mesa.
— Entre — disse Helena.
A porta do escritório abriu. Raul e dois agentes apareceram. Outro policial filmava a partir do corredor.
Celeste olhou para Clara.
— Você armou isso.
— A senhora trouxe a prova para perto do fogo.
Os agentes fotografaram o cofre antes de remover qualquer item. Encontraram os fragmentos de prontuário, contratos com Gustavo Meirelles, planilhas de repasse e uma agenda de Celeste.
Na página da reunião, havia uma frase sublinhada: "Clara sem telefone; câmera desligada; assinatura antes das 18h."
Raul mostrou a anotação a ela.
— Quer chamar seu advogado?
Celeste procurou as pérolas no pescoço e encontrou apenas pele.
— Meu filho precisa de mim.
— Ele teve a senhora durante todo o plano — respondeu Clara.
Do lado de fora, agentes conduziram Celeste até um carro sem identificação. Ela pediu alguns minutos para trocar de roupa. Raul recusou até a conclusão da busca.
Clara observou as caixas saírem. O estojo vazio da chave digital continuava em sua bolsa.
— Ela nunca perguntou pela chave — disse a Helena.
— Queria o documento mais do que o acordo.
— Queria queimá-lo diante de mim.
Helena conferiu o microfone preso à blusa de Clara.
— Agora há som, imagem e uma folha queimada só no canto.
Ao sair, ela recolocou o relógio do pai. O fecho travou no pulso com um clique.
No dia seguinte, a porta da sala do conselho abriu às nove. Todos os lugares estavam ocupados, menos a cadeira da cabeceira.
Clara parou diante dela.
Otávio pediu que as câmeras fossem desligadas antes do voto. Clara apontou para a ata projetada.
— A reunião que tentou me retirar do cargo não teve gravação. Hoje terá.
— Conselheiros precisam de liberdade para deliberar.
— E acionistas precisam saber quem votou com conflito.
A conselheira independente, Ana Paula Teles, apoiou Clara.
— O estatuto permite registro integral em investigação de fraude.
Otávio retirou o pedido. Um a um, os membros declararam relações com fornecedores. Duas consultorias adicionais entraram na auditoria.
Durante o intervalo, Ana Paula encontrou Clara perto da copa.
— Seu pai me convidou para o conselho, mas Damião adiou minha posse por seis meses.
— Por quê?
— Disse que você não suportava outra mulher questionando suas decisões.
Clara recebeu um copo de água.
— Ele usava a mesma mentira em direções opostas.
Ana Paula entregou três cartas que enviara a Augusto sobre governança. Damião as mantivera fora do sistema.
— Se eu for eleita, quero você presidindo o comitê independente — disse Clara.
— Primeiro seja eleita. Depois me entregue autonomia de verdade.
Na volta à sala, Helena informou que o banco recuperara doze milhões e bloqueava outros ativos. Contratos hospitalares não sofreriam interrupção.
Clara colocou essa informação na mesa antes do voto. Os conselheiros já não podiam alegar que a investigação destruiria a operação.
— Há uma empresa funcionando atrás desses documentos — disse. — Motoristas saíram às cinco da manhã enquanto nós discutíamos poder. A decisão de hoje precisa devolver segurança a eles.
O secretário iniciou a chamada nominal.
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