"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 8
Damião segurava o batente com uma mão. A gravata desaparecera, e o colarinho aberto revelava uma mancha de suor. Dois homens parados atrás dele usavam jaquetas escuras.
Helena pressionou o botão de emergência sob a mesa.
— Como você achou? — perguntou Bianca.
— Você nunca soube desligar localização.
Renata se colocou diante da cliente.
— Meu cliente está colaborando com investigação federal.
Damião riu.
— Sua cliente roubou a minha empresa.
Clara se levantou.
— Minha empresa.
Ele entrou. Os dois homens ficaram no corredor, atentos ao elevador.
— Você ganhou uma tarde de teatro, Clara. Artur vai embora quando o conselho contestar o fundo.
— O conselho já ouviu sua gravação.
O rosto dele endureceu. Bianca recuou até a janela.
— Você entregou?
— Entreguei tudo — respondeu ela.
Damião avançou um passo. Clara permaneceu entre ele e a mesa, a dois metros de distância.
— Para. A polícia está vindo.
— Você ainda acha que alguém vem quando chama?
— Hoje você já descobriu a resposta.
Ele olhou para a pasta de Helena.
— Me dá o telefone.
— Está fazendo outro pedido que devia reservar ao advogado — disse Helena.
Damião voltou-se para Clara. A voz baixou.
— A gente resolve. Você retira a denúncia, eu devolvo as ações e assino o divórcio.
— As ações nunca foram suas.
— Eu devolvo o dinheiro.
— Com qual parte? A que está na conta da Bianca ou a que saiu para fora do país?
Ele abriu as mãos.
— Seu pai me colocou à prova desde o começo. Você sabe como ele me tratava. Eu construí valor naquela empresa.
Clara tocou o relógio no pulso.
— Você fechou o galpão que ele construiu.
— Era deficitário.
— E pagou a diferença para uma empresa do seu primo.
Os elevadores soaram no corredor. Os homens de jaqueta se afastaram. Raul apareceu com três agentes e mostrou a ordem de prisão temporária.
Damião olhou para as portas laterais. Não havia outra saída.
— Clara, olha para mim.
Ela olhou.
— Você me ama.
Durante sete anos, ele usara a mesma inclinação de cabeça para pedir desculpa. Clara conhecia o perfume, a dobra junto aos olhos e o momento exato em que a mão buscaria seu braço.
Quando ele tentou tocá-la, ela deu um passo para trás.
— Eu amei o homem que você fingiu ser.
Raul colocou-se entre os dois.
— Senhor West, mantenha as mãos visíveis.
Damião deixou os braços caírem. Um agente recolheu seu celular; outro informou os direitos. A voz dele voltou a ficar fria.
— Você vai se arrepender de me humilhar.
— Converse com seu advogado — disse Raul.
As algemas fecharam. Bianca cobriu a boca. Clara acompanhou Damião até a porta sem segui-lo ao corredor.
Ele virou o rosto uma última vez.
— Você não sabe comandar sozinha.
A porta corta-fogo se fechou entre os dois.
Raul pediu que os agentes levassem também os dois homens que aguardavam no corredor. Um tinha contrato com a segurança particular de Celeste; o outro carregava a ferramenta usada para forçar o trinco.
— Eu só vim buscar o senhor Damião — alegou o primeiro.
— Ele chegou em carro por aplicativo — respondeu Raul. — Explique na delegacia.
Clara viu o grupo entrar no elevador. Damião manteve o rosto voltado para a parede espelhada.
Helena voltou à mesa e verificou o lacre da maleta.
— A gravação está intacta.
— E Bianca?
— Vai prestar depoimento em local protegido.
Clara recolheu a cadeira derrubada e devolveu passagem à sala. Então o telefone tocou com o nome de Celeste.
Antes de atender, entregou o aparelho a Helena para ativar o registro. Raul permaneceu junto ao elevador até confirmar que Damião deixara o prédio. Marcas profundas da ferramenta continuavam visíveis no trinco.
Renata conduziu Bianca a outra sala para formalizar a entrega. Helena sentou e soltou o ar. Clara percebeu que ainda apertava o próprio relógio.
— Artur sabia que ele viria?
— Suspeitava. A condição de ficar fora facilitou a vigilância do prédio.
— Então havia policiais desde o começo.
— Havia proteção no térreo. Você escolheu entrar.
Clara foi até a janela. Lá embaixo, uma viatura deixou a garagem e entrou no trânsito.
Seu telefone tocou. O número de Celeste apareceu na tela.
Helena acionou a gravação e fez sinal para atender.
— Clara — disse Celeste. — Eu tenho um documento que pode mandar seu marido para casa hoje.
— E o que a senhora quer?
— A chave do fundo e a retirada da acusação contra mim.
Clara colocou a ligação no viva-voz.
— Onde está o documento?
— Na casa do lago. Venha antes que eu mude de ideia.
Ao fundo, ouviu-se o estalo de um isqueiro.
Helena manteve Celeste na linha por mais alguns segundos.
— Que tipo de documento altera uma prisão decretada por fraude financeira? — perguntou.
— Um que demonstra que Clara autorizou a administração.
— Com qual assinatura?
Celeste riu.
— Venham conferir.
Depois que desligou, Raul analisou a gravação. A oferta podia indicar ocultação de prova e tentativa de obstrução. Ele enviou o trecho ao procurador responsável.
Bianca permaneceu no escritório sob proteção. Antes de sair, Clara parou diante dela.
— O aplicativo de localização será preservado. Não apague mais nada.
— Você acha que eu apaguei?
— Acho que você passou meses escolhendo o que queria enxergar.
Bianca abaixou a cabeça.
— Eu queria o lugar que era seu.
— A cadeira era do meu pai. O trabalho era meu.
No carro, Helena mostrou a Clara as condições de segurança. Colete sob a roupa, microfone, palavra de interrupção e nenhuma tentativa de tocar em objetos sem autorização.
— Se ela apresentar uma arma, você se afasta — disse.
— Celeste usa papéis.
— Papel também destrói gente, mas não muda o protocolo.
Artur aguardava no térreo. Clara contou o plano.
— Posso ir na equipe de apoio.
— Ela pediu a chave do fundo. Quero ouvir até onde vai.
Ele entregou um pequeno estojo.
— Seu pai guardava a chave digital aqui. Está vazio.
Clara abriu. O veludo interno conservava o formato de um cartão.
— Por que levar?
— Celeste conhece o estojo. Pode acreditar que você trouxe o que pediu.
Clara fechou a tampa.
— Desta vez, o segredo serve ao meu plano.
Artur assentiu e ficou no saguão enquanto ela entrava no carro com Helena.
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