"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 7
O arquivo tinha quarenta e sete segundos. Helena o reproduziu no carro parado dentro do galpão.
A voz de Damião surgiu abafada por música.
"A assinatura dela é só um desenho. O sistema aceita o certificado e pronto."
Bianca perguntou se Clara poderia contestar.
"Quando ela tentar, já vai estar internada."
O áudio terminou no som de copos. Clara pediu que tocassem outra vez.
— Preciso do original e do aparelho — disse Raul. — Um recorte ajuda a obter medida, mas a defesa vai questionar.
Bianca marcou o encontro para as nove da manhã num escritório alugado perto do Parque Ibirapuera. Exigiu Clara, Helena e sua advogada. Artur não poderia estar no prédio.
— Ela quer testar se você manda em mim — disse Clara.
Artur guardou as mãos no sobretudo.
— Então vá sem mim.
Às nove e doze, Bianca entrou na sala usando o mesmo terninho branco. O cabelo estava preso de qualquer jeito, e a maquiagem não escondia a noite sem dormir. Sua advogada, Renata Prado, carregava uma mochila e uma lista de condições.
— Imunidade integral — começou Renata.
Helena balançou a cabeça.
— A empresa não concede imunidade criminal. Podemos registrar cooperação, reparar valores e informar ao Ministério Público.
Bianca permaneceu perto da porta.
— Ele vai me matar.
Clara indicou a cadeira.
— Senta e entrega o que trouxe.
— Você quer me ver implorando.
— Quero saber se a gravação é inteira.
Bianca sentou sem tirar a bolsa do ombro. Pôs um telefone antigo sobre a mesa.
— Eu gravava nossas conversas depois que ele começou a me pedir assinaturas. Achei que era proteção para o caso de me trocar.
— E continuou recebendo dinheiro.
— Eu acreditava que eram comissões.
Clara deslizou a ficha da Mirante até ela.
— Você viu quatro milhões entrarem no seu nome.
— Eu fiquei com seiscentos mil.
— Isso não limpa o resto.
Renata tocou o braço da cliente.
— Responda apenas o que combinamos.
Bianca abriu o gravador. Havia vinte e três arquivos. Em um deles, Damião explicava como copiar a assinatura do formulário de viagem. Em outro, Celeste perguntava se o médico "seguraria a versão" diante do conselho.
O terceiro registrava o plano da reunião.
"Ela assina o divórcio, renuncia e transfere. Se chorar, melhor. A câmera do andar fica desligada."
Bianca perguntou por que ele precisava da assinatura se controlava o conselho.
"Daqui a onze dias o fundo acaba. Depois disso, ela pode expulsar todo mundo."
Clara fechou os olhos por um segundo. A data nunca estivera escondida de Damião. Ele tivera acesso ao anexo no arquivo pessoal de Augusto.
— Quem entregou o documento?
— Celeste. Disse que achou no cofre do seu pai.
Helena copiou os arquivos com verificação de integridade. Renata entregou comprovantes das transferências feitas por Bianca às contas indicadas por Damião.
— Tem mais — disse Bianca.
Ela retirou uma chave pequena do forro da bolsa.
— Cofre na casa do lago. Celeste guarda modelos de assinatura e o selo antigo da empresa.
— O selo está conosco — respondeu Clara.
Bianca apertou a chave.
— Então o que está lá é uma cópia.
Clara estudou o rosto da mulher que se sentara na cadeira do pai e rira enquanto Damião a chamava de peso morto.
— Por que você veio?
— Ele mandou eu calar a boca na frente de todo mundo.
— Só então entendeu?
Bianca enxugou o nariz com a manga branca.
— Entendi antes. Fingi que não.
Clara pediu detalhes sobre a noite em que a assinatura fora copiada. Bianca contou que Damião abriu o arquivo de viagem no notebook da casa e ampliou a imagem.
— Celeste trouxe um aparelho numa sacola de joalheria. Eles testaram em três documentos.
— Você ficou olhando?
— Tirei uma foto escondida.
A imagem mostrava a mão de Damião sobre o equipamento e, ao fundo, o estojo de pérolas de Celeste. O relógio do computador registrava a data.
Helena preservou o arquivo original e anotou o código de verificação.
— Essa fotografia liga pessoas, objeto e momento. Guarde sua explicação para o depoimento.
Bianca entregou ainda o comprovante de compra do aparelho, pago com cartão adicional em nome de Damião.
Renata conferiu a fatura e pediu que a cliente descrevesse a entrega. Bianca respondeu que Celeste passara o cartão durante o jantar, dentro da mesma sacola usada para transportar o aparelho.
— Ela disse que despesas de confiança não entram na contabilidade comum.
Helena anotou a frase sem comentar.
Um ruído forte sacudiu a porta corta-fogo do corredor. Renata levantou. Helena guardou o telefone original num envelope interno da pasta.
A porta abriu de novo, batendo contra a parede.
Damião estava no corredor.
Helena trancou o envelope com o telefone numa maleta numerada e a prendeu ao próprio pulso. Renata abriu a câmera do computador para registrar a sala.
— Bianca, fique atrás da mesa — orientou.
Bianca obedeceu. Derrubou uma cadeira e precisou segurá-la antes que caísse.
Clara manteve o telefone na mão.
— Você compartilhou a localização com ele?
— Eu desliguei tudo.
Renata pegou o aparelho pessoal da cliente. Um aplicativo de transporte permanecia conectado a uma conta familiar criada por Damião.
— Ele via as corridas — disse.
Bianca levou as duas mãos à cabeça.
— Eu usei o carro daqui.
Helena enviou a informação à equipe de Raul. No corredor, passos se aproximavam devagar.
— Há saída pelos fundos? — perguntou Clara.
— Escada de serviço, mas termina na garagem — respondeu Renata.
Bianca tentou recolher a bolsa.
— Vamos embora.
— Se ele já chegou, a garagem pode estar vigiada — disse Helena.
Clara foi até a porta interna que separava a sala da recepção e girou a chave. O vidro fosco deixava passar três sombras.
Uma delas parou junto ao sensor.
Damião bateu duas vezes.
— Abre, Bianca.
Ela encostou as costas na parede. O verniz de uma unha se partira, e um filete de sangue apareceu onde roía a cutícula.
— Ele fazia isso em casa — sussurrou. — Duas batidas e eu tinha que abrir.
Clara aproximou o celular do peito.
— Hoje não.
Helena confirmou que o alarme fora recebido. A equipe mais próxima levaria quatro minutos.
Damião bateu de novo. Em seguida, o trinco metálico rangeu sob uma ferramenta.
Na terceira tentativa, a porta corta-fogo se abriu com violência.
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