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"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 6

正文开头

A caminhonete atravessou o portão de Guarulhos às onze e vinte. Uma viatura descaracterizada entrou logo atrás.

Jorge reduziu diante da guarita. O vigilante ergueu a cancela até a metade, reconheceu Clara e apertou o botão para fechá-la. A caminhonete avançou antes que a barra descesse.

— Ordem da presidência — gritou o homem pela janela.

Clara abriu a porta.

— A presidência está suspensa.

Raul mostrou a ordem judicial. Dois agentes permaneceram na entrada enquanto ele seguia até o depósito com Clara, Helena, Artur e Jorge.

O ruído da trituradora atravessava a parede metálica.

Jorge correu ao quadro de força. O encarregado da noite, Sérgio, bloqueou seu caminho.

— Se desligar, queima o motor.

— Melhor o motor que a prova — respondeu Jorge.

Ele puxou a alavanca principal. As lâmpadas se apagaram e a trituradora perdeu força num gemido longo. Luzes de emergência tingiram o corredor de vermelho.

Duas caixas haviam sido abertas. Tiras de papel cobriam o chão. Outras nove continuavam empilhadas sobre um palete.

Raul separou os homens e recolheu seus celulares.

— Quem mandou iniciar antes da meia-noite?

Sérgio apontou para a tela de uma empilhadeira.

— A ordem atualizou sozinha.

Caio chegou com a equipe técnica. Fotografou cada caixa, o painel e o papel cortado. Depois examinou a ordem no sistema.

— Atualizada às dez e cinquenta e oito por acesso remoto.

— Damião estava sem aparelho — disse Helena.

— Celeste ainda tinha um segundo telefone? — perguntou Clara.

Raul consultou um agente pelo rádio. A busca no escritório encontrara apenas um celular com ela.

Mirela Costa saiu de trás de uma estante. A jovem usava crachá da contabilidade e segurava uma pasta contra o peito.

— Eu liguei para o Jorge — confessou.

Jorge franziu a testa.

— Você não me ligou.

— Deixei mensagem na linha antiga do galpão. Vi as caixas chegando de tarde.

Mirela trabalhava na Hartmann havia quatro anos. Damião a transferira para o turno noturno depois que ela questionou divergências nas notas da Via Norte.

— Mandaram assinar o descarte — disse. — Eu recusei. O Sérgio falou que iam me demitir por insubordinação.

Sérgio abriu as mãos.

— Eu só cumpri a ordem.

Clara recolheu do chão uma folha ainda inteira. Era o recibo de uma carga atribuída a um caminhão parado para manutenção naquela data.

— Você sabia o que estava destruindo?

Ele evitou responder.

Raul o levou para uma sala lateral. Helena orientou Mirela a não entregar a pasta antes do registro formal. A jovem continuou apertando o objeto até os dedos perderem a cor.

— Tem cópias aqui. Eu guardava quando aparecia assinatura estranha.

Clara parou diante dela.

— Por que não me procurou?

— Seu andar não aceitava mais nosso crachá. E o senhor Damião dizia que a senhora estava doente.

A frase saiu sem acusação. Ainda assim, Clara precisou apoiar a mão no palete.

正文1

Jorge viu e se aproximou.

— Quando fecharam a Mooca, pedimos uma reunião. A resposta dizia que a senhora não podia receber ninguém.

— Eu nunca vi o pedido.

— A gente sabe agora.

Quarenta e três funcionários apareceram numa lista presa sob elástico. Ao lado de cada nome, havia uma justificativa padronizada de corte. Clara reconheceu motoristas que haviam comparecido ao velório do pai.

— Quero localizar todos.

Helena anotou.

— Primeiro preservamos a investigação. Depois fazemos contato sem prometer o que o conselho ainda precisa aprovar.

— Podemos prometer que serão ouvidos.

Artur observava o depósito, mantendo distância. Quando Clara passou por ele, recebeu apenas um aceno. A decisão permanecia com ela.

Caio desmontou a tampa lateral da trituradora. Fragmentos podiam ser recuperados, embora levassem semanas para remontar. Nos computadores, encontrou o arquivo que gerara as ordens.

— Tem um certificado digital acoplado — disse. — Pertence à administração familiar West.

Celeste usava uma estrutura própria para gerir imóveis e empregados. O certificado fora renovado da casa no lago, em Ibiúna, na manhã anterior.

— Ela programou um acesso de contingência — concluiu Helena.

Raul pediu a ampliação da busca. O juiz analisaria ao amanhecer.

À uma e quinze, as caixas preservadas foram lacradas. Mirela entregou a pasta. Dentro, planilhas mensais mostravam o mesmo trajeto do dinheiro: Hartmann, fornecedores falsos, Mirante, contas pessoais e aplicações no exterior.

Um documento tinha a assinatura de Clara.

Ela comparou o "H". O traço alto vinha do formulário de viagem que mencionara na reunião.

— Minha assinatura virou carimbo.

Caio ampliou uma fotografia do escritório de Damião. Sobre uma prateleira, aparecia um aparelho de captura digital.

O celular de Helena vibrou. Mensagem de número desconhecido, encaminhada ao canal seguro do fundo.

Havia um arquivo de áudio e uma frase.

"Eu tenho a voz dele. Se quiser a gravação inteira, venha sem Artur."

Antes de saírem, Clara percorreu as fileiras de caixas preservadas. Cada etiqueta trazia mês, unidade e responsável. As de dois anos anteriores estavam marcadas com tinta vermelha.

Mirela explicou que o vermelho indicava documentos dispensados de digitalização.

— Quem definiu isso?

— O diretor financeiro. Ele saiu três meses atrás.

— Pediu demissão?

— Disseram que sim. O crachá dele parou de funcionar no meio do expediente.

Helena anotou o nome, Paulo Brandão, e pediu localização. Raul enviou uma equipe para conversar com ele.

Jorge encontrou um envelope preso sob a gaveta da mesa de Sérgio. Dentro havia cinco mil reais em notas e uma instrução impressa: antecipar descarte, remover câmeras do corredor C e confirmar por aplicativo.

Sérgio, já acompanhado de defensor, alegou que desconhecia o envelope. A filmagem mostrava sua mão escondendo algo na gaveta duas horas antes.

— Não precisa responder agora — avisou Raul. — A imagem será periciada.

Clara voltou ao fragmento que segurara. O motorista citado, Edson Ribeiro, estava na lista dos demitidos. Ela ligou para o número do cadastro antigo.

Uma mulher atendeu.

— Ele está dirigindo. Quem fala?

Clara se apresentou. A linha ficou silenciosa.

— Meu marido tentou falar com a senhora por meses.

— Eu não recebi.

— Disseram que ele roubou combustível. Perdeu o plano de saúde quando nossa filha estava internada.

Clara fechou os olhos e pediu o contato atual. Não prometeu readmissão; prometeu que a acusação seria revista imediatamente e que as despesas ligadas à demissão fraudulenta entrariam no processo de reparação.

Ao desligar, viu a mensagem de Bianca no aparelho de Helena.

Agora o arquivo de áudio tinha uma duração visível: vinte e três minutos e oito segundos.

Bianca assinara apenas com a inicial B.

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