"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 5
Onze dias separavam Clara do controle direto das ações. Damião precisava de sua assinatura antes que o fundo transferisse a ela o voto integral.
Helena explicou a cláusula com o documento aberto.
— Aos trinta e oito, você assumiria sem protetor. Uma cessão assinada antes disso poderia criar uma disputa longa. Ele contava com tempo, desgaste e um conselho já alinhado.
— E com um laudo dizendo que eu não sabia o que fazia.
— Exato.
Artur fechou as cortinas da sala de Augusto. Equipes federais passavam pelo corredor com caixas numeradas. A empresa inteira veria as notícias antes do amanhecer.
— Há outro lugar que você precisa conhecer — disse ele.
Foram de carro até a Mooca. A chuva deixara as ruas vazias, e o antigo galpão Hartmann surgia entre oficinas fechadas. Damião mandara retirar a placa meses antes. Restavam furos na parede de tijolos.
Jorge Nascimento esperava sob a marquise com um molho de chaves. Trabalhara com Augusto desde os primeiros anos, quando a frota cabia em uma garagem.
— Dona Clara.
— Sem “dona”, Jorge.
Ele abriu um sorriso cansado.
— Seu pai falava a mesma coisa e nunca adiantou.
Dentro, o cheiro de papelão e óleo permanecia preso ao piso. Três caminhões antigos ocupavam o fundo, restaurados para o aniversário de cinquenta anos da empresa. Clara passou a mão na porta azul do primeiro.
— Meu pai dizia que vendeu esse caminhão.
— Comprou de volta escondido — contou Jorge. — Não queria deixar a história virar decoração de restaurante.
Artur acendeu as luzes do escritório suspenso. Ali havia fotografias de dois homens jovens, cobertos de poeira, diante de uma placa pintada à mão. Augusto segurava uma chave inglesa. Artur apoiava o pé no para-choque.
— Você saiu da empresa pouco depois dessa foto? — perguntou Clara.
— Saí da vitrine. Suas ações foram transferidas ao fundo.
— Por que fingiram uma venda?
— Bancos tentavam obrigar seu pai a aceitar um grupo estrangeiro. Minha presença permitia o bloqueio. Quando desapareci dos registros públicos, deixaram de calcular meu voto.
Clara colocou a fotografia na mesa.
— Homens protegendo homens com segredos. Sobrou para mim decifrar.
Jorge baixou os olhos. Artur abriu um armário e retirou uma caixa metálica.
— Seu pai errou ao acreditar que teria tempo para explicar.
Dentro da caixa havia um selo de bronze, três cadernos de registro e um dispositivo de segurança.
— O servidor que você usou para guardar provas foi criado aqui — disse Artur. — Augusto deixou a chave-mestre.
Clara conectou o dispositivo ao notebook de Helena. As pastas apareceram em ordem cronológica. O sistema copiara cada arquivo que ela enviara e preservara as versões anteriores.
Um alerta vermelho surgiu no canto.
As pastas do servidor incluíam vídeos gravados por Augusto no escritório do galpão. Clara abriu o arquivo mais recente. O pai apareceu mais magro, sentado diante da parede de tijolos.
“Se você está vendo isto, alguma coisa saiu do controle. Leia o fundo inteiro. Questione Artur. Questione todo mundo.”
Ele tossiu, bebeu água e continuou.
“Damião gosta de atalhos. Eu vi isso nas aquisições. Você gosta de acreditar que as pessoas podem corrigir o rumo. Continue acreditando, mas guarde os documentos.”
Clara pausou.
— Ele gravou quando?
Artur conferiu a data.
— Três semanas antes da internação.
— E você guardou.
— O sistema só liberaria diante da ativação formal.
Ela deu dois passos pelo escritório suspenso. Do piso abaixo, Jorge fingia verificar o caminhão.
— Meu pai transformou a própria morte num quebra-cabeça jurídico.
— Ele tentou evitar que alguém usasse o quebra-cabeça contra você.
Clara retomou o vídeo.
Augusto descreveu o primeiro empréstimo recusado, o sócio que tentou comprar a empresa por dívida e a razão de separar benefício e controle temporariamente. Ao final, mostrou o selo de bronze.
“Isto não manda em ninguém. Só prova de onde a gente veio.”
A tela escureceu.
Jorge subiu com uma pasta de manutenção. Dentro havia cópias das ordens que fecharam o galpão. A justificativa financeira citava prejuízos criados por aluguéis pagos a um imóvel de propriedade do primo de Damião.
— Tiraram serviço daqui e cobraram aluguel de outro lugar — disse Jorge.
Helena fotografou as páginas.
Clara salvou o vídeo do pai em dois dispositivos e devolveu um a Artur.
— Depois vou assistir ao restante.
— Quando você quiser.
O alerta do servidor então informou a ordem de destruição em Guarulhos.
Helena imprimiu o protocolo e registrou o horário diante de Jorge. Clara guardou uma cópia com o selo. Se chegassem tarde, ficaria provado que alguém tentara apagar a contabilidade depois da ativação do fundo.
Jorge abriu o livro de manutenção e mostrou outra irregularidade. Durante três meses, caminhões da Mooca haviam sido registrados como indisponíveis, embora as oficinas confirmassem funcionamento normal.
— Eles precisavam justificar a contratação da Via Norte — disse.
Clara comparou placas e datas. Um veículo supostamente parado aparecia numa fotografia de entrega hospitalar feita pela própria equipe.
— Digitalize tudo antes de sairmos.
Helena montou um índice, e Jorge assinou a origem das cópias. Artur permaneceu junto à porta.
— Pode ajudar a carregar — disse Clara.
Ele pegou duas caixas.
— Essa ordem eu aceito.
Caio ligou por vídeo.
— A rotina de apagamento tinha um braço físico. Há uma ordem de descarte para o arquivo de Guarulhos, execução à meia-noite.
Clara olhou o relógio. Eram dez e quarenta e sete.
— Que arquivo?
— Livros de entrada de fornecedores, autorizações com assinatura manual e mídias de backup. O pedido foi feito há três dias.
Jorge pegou as chaves.
— O encarregado da noite responde ao Damião.
Helena telefonou para Raul enquanto Artur guardava os cadernos. Clara pegou o selo do pai. O metal frio pesou na palma.
— Ele queria que isso ficasse com você — disse Artur.
— Hoje vai servir como prova, não como coroa.
Ela o colocou num envelope acolchoado e assinou o lacre com a própria caneta.
Do lado de fora, Jorge já ligava uma caminhonete. A chuva voltara a engrossar. Clara entrou no banco traseiro com Helena, enquanto Artur seguia no carro de Raul.
Às onze e quatro, Caio enviou a imagem de uma câmera interna do depósito.
Dois homens empurravam caixas de arquivo em direção a uma trituradora industrial.
Na parede, o relógio marcava vinte e três horas e três minutos.
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