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"Meu Marido Tirou Tudo de Mim" Capítulo 2

正文开头

O indicador do elevador mudou do vigésimo terceiro para o vigésimo quarto andar. Damião viu o número acender através da parede de vidro e agarrou o instrumento de transferência.

— Essa reunião acabou.

Clara afastou o telefone do ouvido sem encerrar a chamada. A voz de Artur sumiu entre passos e o sinal metálico do elevador.

Celeste contornou a mesa.

— Quem autorizou a entrada dele?

— O sobrenome Vale ainda assusta você? — perguntou Clara.

— Artur Vale vendeu as ações há quinze anos.

A resposta veio rápida. Bianca encarou a sogra, buscando explicação. Damião amassou uma ponta do documento sem notar.

— Assunto de família — ele disse. — Não muda um acordo conjugal.

Clara apontou para o anexo.

— Mudou quando você copiou minha assinatura.

Bianca riu pelo nariz.

— Lá vem a teoria da conspiração.

— Você recebeu acesso ao sistema dois dias antes da primeira autorização falsa.

O rosto dela perdeu o movimento por um instante. Damião bateu a palma na mesa.

— Chega. — Virou-se para os seguranças. — Levem minha mulher para fora. Ela está tendo outro episódio.

Os dois homens permaneceram junto à porta.

— Vocês não ouviram?

O mais alto tocou o ponto eletrônico.

— Recebemos ordem para preservar a sala, senhor.

— Ordem de quem?

Clara ergueu o queixo. A pequena luz vermelha da câmera no teto piscava acima de Damião.

Ele seguiu o olhar dela.

— Você gravou isso?

— Isso e o que veio antes.

Damião caminhou até o painel. Um segurança deslocou o corpo e bloqueou a passagem sem tocá-lo.

— Sai da frente.

— Não posso permitir alteração no sistema.

As portas do elevador se abriram.

Artur Vale saiu primeiro, de sobretudo grafite apesar do calor abafado da rua. Aos sessenta e quatro anos, conservava o porte de quem passara a juventude carregando caixas em galpões antes de aprender a negociar com bancos. Os cabelos prateados estavam cortados rente, e uma pasta de couro ocupava sua mão esquerda.

Atrás dele vinham Helena Siqueira e Raul Nogueira. Helena carregava um tablet e dois envelopes lacrados. Raul usava terno sem gravata; o distintivo preso ao cinto apareceu quando afastou o paletó.

Artur entrou sem olhar para Clara. Parou do outro lado da mesa e encarou Damião.

— Senhor West, o senhor está há muito tempo em uma casa que nunca foi sua.

Damião soltou uma risada seca.

— Isso é ridículo.

Artur abriu a pasta e retirou um documento com selo de cartório.

— O controle da Hartmann Logística permanece no Fundo de Proteção Patrimonial Hartmann. Sou o protetor nomeado pelo instituidor.

— O fundo pertence à minha mulher.

— O benefício pertence a ela. A administração extraordinária obedece ao instrumento de constituição.

Helena colocou o tablet no centro. A tela mostrava um relógio e uma sequência de protocolos.

— Às dezessete horas e doze minutos — disse ela —, o sistema recebeu prova de tentativa de transferência sob coação. A cláusula de emergência foi acionada automaticamente.

正文1

Clara conferiu o relógio da parede. Dezessete minutos haviam passado.

Damião apontou para ela.

— Foi manipulado. Ela está instável. Tenho laudos.

Raul fechou a porta.

— O senhor tem documentos médicos obtidos sem autorização, pelo que consta no pedido de busca.

O silêncio atingiu Celeste primeiro. Ela segurou o encosto de uma cadeira.

— Busca?

Raul entregou uma cópia a Damião.

— Equipamentos corporativos, registros financeiros, mensagens e documentos ligados às empresas listadas no anexo.

Damião leu a primeira página e olhou para Clara.

— Você chamou a Polícia Federal para o escritório do seu pai?

Ela moveu a renúncia para longe de si.

— Você trouxe a polícia quando começou a usar a empresa para roubar.

— Cuidado com o que fala.

Artur pousou a mão sobre a pasta.

— O acesso do senhor aos sistemas Hartmann foi revogado. Seu mandato no conselho está suspenso por justa causa. Os contratos de consultoria sob sua indicação foram bloqueados para auditoria.

Damião puxou o celular. A tela não reconheceu a senha.

Tentou outra vez.

— Vocês não podem fazer isso.

— Já fizemos — respondeu Artur.

Bianca levantou-se. O salto bateu contra a cadeira.

— Damião, o que está acontecendo?

— Senta.

— As minhas contas estão nesse bloqueio?

Helena abriu o primeiro envelope e espalhou quatro fichas cadastrais.

— Três empresas receberam vinte e quatro milhões e oitocentos mil reais da Hartmann em onze meses. A primeira está registrada em nome de um primo do senhor West. A segunda usa o endereço da funcionária doméstica da senhora Celeste. A terceira pertence à senhorita Bianca Leme.

Bianca pegou a folha. Seus dedos deixaram uma marca úmida.

— Ele disse que eram bônus de desempenho.

— Cala a boca — disse Damião.

Ela recuou como se a voz tivesse alcançado seu rosto.

Celeste ergueu o queixo para Artur.

— Nossa família tem relações em Brasília, nos bancos e na imprensa.

Artur fechou a pasta vazia.

— Relação não é imunidade.

Raul fez um gesto para os seguranças. Um deles recolheu o notebook de Damião; o outro fotografou os papéis antes de tocar neles.

Clara olhou para a cadeira do pai. Bianca já não estava sentada ali.

Raul pediu que Damião ficasse afastado da mesa enquanto a equipe fotografava o ambiente. Ele obedeceu até Caio apontar a câmera para o aparador onde ficavam os certificados digitais.

— Isso contém propriedade pessoal — protestou.

— Identifique o que é pessoal e registramos — disse Raul.

Damião apontou uma caixa preta. Ao abri-la, o agente encontrou cartões de acesso de três funcionários afastados, inclusive Marina. Clara reconheceu o adesivo azul no verso do próprio cartão antigo.

— Você disse que o meu tinha sido destruído.

— Segurança interna recolhe credenciais.

— Por que estão na sua caixa particular?

Ele pediu para chamar seu advogado. Raul anotou a solicitação e permitiu uma ligação monitorada. Damião virou de costas, mas a parede de vidro devolvia o reflexo de seu rosto.

Celeste aproximou-se de Clara enquanto todos olhavam para os equipamentos.

— Ainda dá tempo de não transformar isso em guerra.

— A senhora ajudou a escrever um laudo falso.

— Eu tentei impedir que você derrubasse o patrimônio do seu pai.

Clara apontou para os documentos no saco de evidências.

— Então explique por que ele precisava da minha assinatura hoje.

Celeste deixou o olhar correr até Artur. Uma conta de pérola se desprendeu e caiu no carpete.

— Seu pai confiava demais naquele homem.

— E a senhora confiou demais no seu filho.

O telefone de Damião voltou para o bolso após a ligação. O advogado chegaria em vinte minutos. Raul informou que ninguém sairia antes do inventário inicial.

Bianca assistiu a tudo em pé, agora distante da cadeira. Quando Helena empurrou a ficha da Mirante, ela já procurava uma rota que não passasse por Damião.

Helena separou uma das fichas e a empurrou até a borda da mesa.

No cabeçalho, sob o nome Mirante Gestão Estratégica Ltda., aparecia a assinatura de Bianca.

Ela leu a primeira linha e levou a mão à boca.

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