"O Que Minha Esposa Estava Escondendo de Mim?" Capítulo 1
"Mamãe! Acorda!"
A voz pequena de Luna atravessou o quarto particular do Hospital Santa Cecília como um grito que ninguém ali estava preparado para ouvir.
A menina de dois anos estava ajoelhada sobre uma poltrona puxada para perto da cama, o rosto molhado de lágrimas, os cachos grudados nas bochechas e as duas mãos apertando os dedos imóveis de Isabela.
"Mamãe! Acorda!"
Isabela não reagiu.
O monitor ao lado da cama continuava marcando seus batimentos em um ritmo regular, quase cruel de tão indiferente ao desespero da criança.
Luna olhou para o rosto da mãe, depois para as mãos dela, como se esperasse que, a qualquer momento, Isabela abrisse os olhos e dissesse que tudo aquilo não passava de uma brincadeira ruim.
Mas nada aconteceu.
A menina começou a bater de leve no braço da mãe.
Primeiro devagar.
Depois com mais força.
"Mamãe! Acorda!"
A voz falhou no final.
O choro aumentou.
Luna tentou subir ainda mais na poltrona, quase perdendo o equilíbrio, até conseguir aproximar o rosto do de Isabela.
Encostou a testa na bochecha fria da mãe e soluçou.
"Por favor, mamãe..."
A porta do quarto se abriu naquele instante.
Henrique Vasconcelos entrou primeiro.
O homem que comandava reuniões com dezenas de executivos sem alterar o tom de voz parou no meio do quarto como se tivesse levado um golpe.
Atrás dele vinha Camila Albuquerque.
Camila segurava uma bolsa bege de couro estruturado junto ao corpo.
Henrique sequer percebeu o objeto.
Seus olhos estavam presos à filha.
"Luna..."
A menina se virou imediatamente.
Por um segundo, o choro pareceu parar.
Henrique abriu os braços.
"Vem com o papai."
Luna não foi.
Os olhos dela haviam passado pelo pai e parado em Camila.
Mais precisamente na bolsa.
O corpo pequeno da menina enrijeceu.
Ela arregalou os olhos e apontou com o dedo.
"Papai! A bolsa dela!"
Camila perdeu a cor.
Foi uma mudança tão rápida que Henrique percebeu.
A mulher apertou a alça da bolsa contra o antebraço e soltou uma risada nervosa.
"Ela está assustada. Nem sabe o que está dizendo."
Luna balançou a cabeça com tanta força que os cachos se agitaram.
"Não!"
Henrique franziu a testa.
"Luna, o que tem a bolsa?"
A menina apontou novamente.
"A bolsa dela!"
Camila deu um passo para trás.
"Henrique, pelo amor de Deus. Ela tem dois anos."
"Eu sei quantos anos minha filha tem."
A resposta saiu mais dura do que ele pretendia.
Camila ficou em silêncio.
Henrique caminhou até Luna e a pegou no colo.
A menina imediatamente agarrou a camisa do pai, mas continuou olhando por cima do ombro dele para Camila.
Ou para a bolsa.
Henrique passou a mão pelos cabelos da filha.
"Calma, meu amor. O papai está aqui."
"Mamãe..."
"Ela vai ficar bem."
Ele disse aquilo sem saber se era verdade.
E talvez por isso sua voz tenha soado tão baixa.
Desde que recebera a ligação do hospital naquela manhã, Henrique sentia como se estivesse vivendo dentro de uma cena que pertencia à vida de outra pessoa.
Isabela havia sido encontrada desacordada no próprio quarto de hospital poucas horas depois de chegar para realizar exames de rotina.
Segundo a primeira informação que Henrique recebera, ela havia passado mal repentinamente.
Nenhum acidente.
Nenhuma queda grave.
Nenhum sinal de violência.
Ainda assim, Isabela simplesmente não acordava.
Henrique se aproximou da cama com Luna nos braços.
Olhou para a esposa.
Mesmo desacordada, Isabela parecia diferente de tudo o que ele conhecia nela.
Ela sempre fora movimento.
Sempre fora resposta.
Sempre fora o tipo de mulher que encarava uma sala inteira quando discordava de alguma coisa.
Agora estava imóvel.
Silenciosa.
Vulnerável de uma maneira que Henrique nunca imaginara ver.
Ele segurou a mão dela.
"Isa..."
Nada.
Camila permaneceu perto da porta.
"Henrique, talvez seja melhor eu ir."
Ele ergueu os olhos.
"Por quê?"
Camila demorou um segundo para responder.
"Porque isso é um momento de vocês."
Henrique observou o rosto dela.
Havia algo estranho.
Não sabia dizer o quê.
Talvez fosse apenas nervosismo.
Talvez culpa por estar ali num momento tão íntimo.
Ou talvez aquela frase de Luna tivesse deixado todos desconfortáveis.
"Você disse que queria vir porque estava preocupada com a Isabela."
"E estou."
"Então fique."
Camila hesitou.
Depois assentiu.
"Claro."
Luna enterrou o rosto no pescoço do pai.
Henrique percebeu que a filha tremia.
Aquilo doeu mais do que qualquer palavra.
Ele beijou a testa da menina.
"Vamos lá fora tomar uma água."
"Não."
"Luna..."
"Com mamãe."
Henrique fechou os olhos por um instante.
"Você vai ficar com ela. Eu prometo."
Uma enfermeira entrou pouco depois e verificou os equipamentos.
Henrique perguntou pela terceira vez em menos de vinte minutos quando o médico voltaria.
"Dr. Rafael está revendo os exames, senhor Vasconcelos."
"Quanto tempo?"
"Ele pediu alguns minutos."
"Ele já teve horas."
A enfermeira baixou os olhos.
"Eu entendo."
"Não. A senhora não entende."
Camila se aproximou.
"Henrique."
Ele virou o rosto.
"O quê?"
"Não desconte nela."
Henrique soltou a mão de Isabela.
A culpa veio imediatamente.
"Desculpe."
A enfermeira apenas assentiu e saiu.
O silêncio voltou.
Camila colocou a bolsa sobre uma cadeira.
Luna imediatamente levantou a cabeça.
Os olhos dela acompanharam o movimento.
Henrique percebeu.
Dessa vez, percebeu de verdade.
"Por que ela está olhando para a sua bolsa desse jeito?"
Camila cruzou os braços.
"Eu já disse. Ela está nervosa."
"Ela nem costuma reparar nas suas coisas."
"Henrique, crianças fixam em qualquer objeto."
Luna apontou outra vez.
"A bolsa."
Henrique olhou para a filha.
"O que aconteceu com a bolsa, meu amor?"
Luna abriu a boca, mas não conseguiu formar uma frase.
"Mamãe..."
Henrique esperou.
"Sim, mamãe."
Luna apontou para a bolsa.
Depois para Isabela.
Camila respirou fundo.
"Chega."
Henrique ergueu os olhos.
"Como assim, chega?"
"Você está pressionando uma criança de dois anos como se ela fosse uma testemunha."
A palavra ficou no ar.
Testemunha.
Henrique sentiu alguma coisa mudar dentro dele.
"Eu não disse isso."
"Mas está agindo assim."
"Você está nervosa."
"Claro que estou nervosa. Minha amiga está inconsciente numa cama de hospital."
Sua amiga.
Henrique quase perguntou desde quando Camila chamava Isabela de amiga.
As duas nunca haviam sido próximas.
Educadas, sim.
Cordiais quando necessário.
Mas amigas?
Nunca.
Antes que pudesse responder, a porta se abriu novamente.
Dr. Rafael Menezes entrou com uma pasta nas mãos.
Henrique colocou Luna no colo da poltrona e foi até ele.
"Então?"
O médico olhou primeiro para Isabela.
Depois para Camila.
"Prefiro conversar em particular com o senhor."
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Pode falar aqui."
"Senhor Vasconcelos..."
"Ela é da família."
Camila pareceu quase surpresa com a frase.
Dr. Rafael assentiu, embora sem parecer confortável.
"Os exames iniciais não mostraram hemorragia cerebral, trauma importante nem alterações que expliquem completamente o nível de inconsciência da sua esposa."
Henrique ficou imóvel.
"Isso é bom ou ruim?"
"Neste momento, significa que precisamos investigar mais."
"Investigar o quê?"
"Todas as possibilidades."
"Seja específico."
O médico respirou fundo.
"A forma como Isabela perdeu a consciência e alguns sinais clínicos não combinam perfeitamente com um desmaio espontâneo."
Camila moveu discretamente a mão até a alça da bolsa.
Henrique não viu.
Dr. Rafael continuou.
"Também encontramos alterações que não estavam presentes nos exames anteriores dela."
"Que alterações?"
"Ainda não quero fazer afirmações sem confirmação laboratorial."
"Minha esposa está inconsciente e o senhor está escolhendo palavras?"
"Estou tentando não acusar ninguém sem provas."
A frase fez Henrique gelar.
"Acusar?"
Dr. Rafael fechou a pasta.
"Eu não disse que houve crime."
"Mas pensou."
O médico sustentou o olhar dele.
"Eu disse que o quadro merece investigação."
Camila interveio rapidamente.
"Ela não poderia ter tomado algum remédio por engano?"
Henrique virou o rosto para ela.
A pergunta pareceu surgir cedo demais.
Rafael respondeu com cautela.
"É uma hipótese entre várias."
Camila assentiu.
"Claro."
Henrique voltou a olhar para o médico.
"Quero todos os exames feitos novamente."
"Já solicitei."
"Quero outra equipe."
"Também podemos providenciar."
"E ninguém entra neste quarto sem minha autorização."
Camila levantou as sobrancelhas.
"Henrique..."
"Ninguém."
Dr. Rafael assentiu.
"Entendido."
O médico saiu poucos minutos depois.
Camila ficou em silêncio.
Henrique caminhou até a janela.
São Paulo já começava a escurecer.
As luzes dos prédios se acendiam uma após outra enquanto o trânsito seguia lá embaixo, indiferente à vida que parecia ter parado naquele quarto.
"Você devia levar a Luna para casa."
Camila falou atrás dele.
"Não."
"Ela está exausta."
"Eu sei."
"Dona Célia pode ficar com ela."
Henrique virou devagar.
"Você está com pressa para ela sair daqui?"
Camila o encarou.
"Que pergunta é essa?"
"Uma pergunta."
"Eu estou tentando ajudar."
Henrique passou as mãos pelo rosto.
"Desculpa."
Camila se aproximou.
"Você não dormiu. Está assustado."
"Minha mulher pode ter sido... eu nem sei o quê."
A voz dele falhou.
Camila tocou seu braço.
"Você não precisa carregar isso sozinho."
Por um instante, Henrique deixou a mão dela ali.
Então ouviu Luna resmungar atrás deles.
A menina estava quase dormindo na poltrona.
Ainda segurava dois dedos de Isabela.
Henrique se afastou de Camila imediatamente.
"Vou ligar para a Célia."
Uma hora depois, Dona Célia chegou ao hospital.
Tinha trabalhado para a família Vasconcelos desde antes do casamento de Henrique e Isabela.
Para Luna, era quase uma avó.
Assim que entrou no quarto, seus olhos se encheram de lágrimas.
"Meu Deus..."
Ela correu até Luna.
A menina reconheceu sua voz e levantou os braços.
"Célia..."
"Vem cá, meu amor."
Dona Célia pegou a menina no colo e a abraçou.
Henrique explicou que precisava que ela levasse Luna para a mansão.
"Eu fico com dona Isabela se o senhor quiser."
"Não. Eu vou ficar."
Dona Célia assentiu.
Foi então que viu Camila.
Seu rosto mudou.
Quase imperceptivelmente.
Mas Henrique percebeu.
"Boa noite, dona Célia."
Camila falou.
"Boa noite."
A resposta foi seca.
Luna começou a se agitar novamente.
"A bolsa."
Dona Célia olhou para ela.
"Que bolsa, meu anjo?"
Luna apontou para Camila.
Dona Célia seguiu o dedo da criança.
Seus olhos pararam na bolsa bege.
Ela empalideceu.
Henrique viu.
"Célia?"
A mulher apertou Luna contra o peito.
"Senhor Henrique..."
"O que foi?"
Dona Célia olhou para Camila.
Camila também estava olhando para ela.
"Depois."
Henrique deu um passo à frente.
"Não. Agora."
"Henrique, a Célia está cansada."
Camila falou rápido demais.
Ele nem olhou para ela.
"Célia."
A mulher respirou fundo.
"Eu preciso falar com o senhor sozinho."
Camila soltou uma pequena risada.
"Isso está ficando ridículo."
Henrique apontou para a porta.
"Camila, me dá cinco minutos."
Ela ficou parada.
"Você está me expulsando?"
"Estou pedindo cinco minutos."
O rosto de Camila endureceu.
Ela pegou a bolsa da cadeira.
Luna imediatamente começou a chorar.
"Não! Não!"
Camila congelou.
Dona Célia fechou os olhos.
Henrique sentiu o coração bater mais forte.
"Vai, Camila."
Sem responder, ela saiu.
A porta fechou.
Henrique virou para Dona Célia.
"Fala."
A mulher colocou Luna novamente na poltrona.
Depois olhou para Isabela.
Quando falou, sua voz estava baixa.
"Ela mentiu para o senhor."
Henrique sentiu um frio percorrer as costas.
"Quem?"
"A dona Camila."
"Sobre o quê?"
Dona Célia engoliu em seco.
"Ela disse que chegou aqui com o senhor, não disse?"
"Disse."
"Então ela mentiu."
Henrique ficou imóvel.
"Como você sabe?"
"Porque eu vi."
"Viu o quê?"
Dona Célia apertou as mãos.
"Eu trouxe a Luna mais cedo para ver a mãe. Antes de tudo acontecer."
Henrique não respirava direito.
"E?"
"Quando nós chegamos ao corredor, dona Camila estava saindo deste quarto."
O silêncio pareceu engolir o ambiente.
Henrique olhou para Isabela.
Depois para a porta.
"Tem certeza?"
"Absoluta."
"Que horas?"
"Pouco antes de dona Isabela passar mal."
Henrique sentiu o sangue sumir do rosto.
Dona Célia continuou.
"E ela estava com a mesma bolsa."
Henrique virou lentamente.
Do outro lado da porta de vidro, através da pequena abertura da persiana, Camila estava parada no corredor.
A bolsa bege estava apertada contra o corpo.
E, pela primeira vez naquela noite, Henrique não olhou para o rosto dela.
Olhou apenas para a bolsa.
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