"Minha Mãe Deixou Minha Esposa Desmaiada no Chão" Capítulo 2
Os socorristas entraram pela porta que Margaret havia bloqueado.
Uma técnica recebeu Leo dos braços de Arthur e o acomodou numa manta térmica. Outro profissional colocou Elena na maca, verificou a pressão duas vezes e pediu acesso venoso antes de removê-la da sala.
— A senhora é quem? — perguntou a técnica a Margaret.
— Avó da criança. Estou cuidando deles há três dias.
A mulher olhou para Elena, para o prato virado sobre a mesa e para o bebê chorando sem lágrimas.
— A senhora vai precisar responder algumas perguntas.
Arthur acompanhou a maca até a ambulância. Um policial o alcançou na calçada.
— Senhor Bennett, sua mãe afirmou que foi agredida.
Arthur parou com uma das mãos na porta traseira do veículo.
Ele havia erguido o braço quando Margaret tentou arrancar Leo de Elena. A palma acertara o rosto da mãe. O golpe a jogara contra uma cadeira. A imagem voltava inteira, sem a desculpa que sua raiva tentava acrescentar.
— Eu dei um tapa nela.
— Ela estava atacando alguém naquele momento?
— Não.
— O senhor conseguiria sair sem bater nela?
Arthur olhou para Elena sob a luz branca da ambulância.
— Sim.
O agente anotou. Entregou uma intimação por lesão corporal de menor gravidade e explicou os próximos passos. Arthur assinou no capô da viatura.
— Não vou fugir disso — disse.
O segundo policial permaneceu dentro da casa com uma câmera corporal ligada. Fotografou a mesa, o prato virado, a cesta vazia no quarto e os frascos encontrados na mala de Margaret. O ferro prescrito a Elena estava entre uma nécessaire e duas blusas dobradas. O analgésico aparecia dentro de um bolso com zíper.
— Eu guardei para ela não se confundir — disse Margaret.
— A senhora tem receita em seu nome? — perguntou o agente.
— Sou mãe de Arthur. Conheço esta família.
Ele lacrou os frascos em sacos separados e pediu a identificação dela. Margaret entregou a carteira sem olhar para a câmera.
No quarto de hóspedes, o moisés deixara marcas recentes no carpete. Sobre a cômoda, havia uma lata de fórmula, quatro mamadeiras usadas e um bloco com horários escritos pela mesma mão. Duas mamadas tinham intervalos de quase seis horas.
O policial fotografou o bloco e o colocou junto da pasta de couro. Quando os objetos saíram da casa, Margaret acompanhou cada saco com os olhos.
No hospital, Elena recebeu soro ainda na triagem. Dra. Maya Bento afastou o robe, examinou a incisão e pediu hemograma, glicemia, eletrólitos e avaliação obstétrica.
Arthur ficou junto ao berço aquecido onde uma enfermeira pesava Leo.
— Ele perdeu peso — disse a enfermeira. — Ainda dá para manejar, mas está levemente desidratado. Alguém mudou o horário das mamadas?
— Eu estava viajando.
— Quem ficou com ele?
Arthur apontou para o corredor. Margaret falava com um advogado ao telefone, acompanhada por um policial.
— Minha mãe.
Dra. Maya voltou com uma prancheta.
— Sua esposa está com desidratação importante, hipoglicemia, anemia pós-parto e pressão instável. A ferida está irritada. Até agora, sem sinais de infecção profunda ou hemorragia interna.
Dra. Maya trouxe o obstetra plantonista. Ele examinou o curativo, pediu uma imagem da região abdominal e perguntou a Elena sobre sangramento, febre e a última dose do analgésico. Ela respondeu a primeira pergunta, parou na segunda e não conseguiu situar o remédio.
— Minha sogra guardava — disse.
O médico registrou a frase sem comentar. A enfermeira trocou a bolsa de soro e ofereceu um biscoito salgado. Elena segurou metade na boca por alguns segundos antes de mastigar.
Arthur observou do corredor. Quis entrar e dar o alimento com a própria mão. Cláudia fechou parcialmente a cortina e disse que a equipe conseguiria ajudá-la.
Ele recuou. Pela primeira vez desde que chegara, permitiu que outra pessoa cuidasse de Elena sem tentar comandar o quarto.
— Pode ter acontecido por acaso?
A médica fechou a caneta.
— Quero ouvir Elena quando ela conseguir falar. Uma cesárea recente, perda de sangue, poucas calorias, pouca água e privação de sono derrubam uma pessoa rápido.
— Quanto ela teria que ficar sem comer?
— Não existe um número que responda isso. O corpo dela acabou de passar por uma cirurgia. Cada fator empurrou o seguinte.
Arthur olhou para o filho. Leo sugava a mamadeira com pequenos ruídos apressados.
— Os dois chegaram desidratados.
Maya não respondeu. Pediu que a enfermeira registrasse o volume ingerido e retornou para a sala de Elena.
Uma assistente social chamada Cláudia Reis apareceu vinte minutos depois. Trazia um crachá do hospital e um bloco sem logotipo.
— Preciso conversar com sua esposa sem familiares presentes.
— Eu não fiz nada com ela.
— Então o senhor pode ajudá-la respeitando esse espaço.
Arthur abriu a boca, fechou e saiu. Sentou-se ao lado de três máquinas de venda. O corredor tinha cheiro de café requentado e antisséptico.
Margaret não estava mais ali. O policial informou que ela fora levada para prestar esclarecimentos e receber atendimento pelo tapa.
Quarenta e dois minutos depois, uma mulher de terno azul-marinho se aproximou. Trazia o celular de Elena dentro de um saco transparente.
— Arthur Bennett?
— Sim.
— Delegada Mara Elias. Sua esposa diz que sua mãe controlava a comida dela.
Arthur levantou.
— Controlava como?
— Margaret dizia que Elena precisava merecer refeições completas. Chamava repouso de preguiça. Quando o bebê chorava, tirava o menino dos braços dela.
— Por que Elena não me ligou?
Mara levantou o saco de provas.
— O telefone desapareceu na primeira noite. Sua mãe disse que o senhor tinha levado por engano.
— Eu não levei.
— Elena encontrou o aparelho dentro da bolsa de Margaret.
Arthur passou a mão pela gravata e a afrouxou. O nó parecia ter diminuído durante a conversa.
— Tem mais?
— Tem.
Mara desbloqueou um tablet. Três mensagens enviadas pelo portal médico de Elena apareceram na tela.
Tenho medo de machucar meu bebê quando fico sobrecarregada.
Acho que existem pessoas me observando.
Por favor, não contem a Arthur. Ele vai reagir de forma exagerada.
— Elena nega ter escrito qualquer uma delas — disse Mara. — O hospital marcou uma avaliação psiquiátrica para amanhã de manhã.
— Quem pediu?
Mara virou a tela.
Solicitante: Margaret Bennett.
A porta da sala de Elena continuava fechada. Arthur deu um passo naquela direção.
Cláudia apareceu no vão e ergueu a mão.
— Ela ainda está falando.
Arthur parou. Tirou do bolso o controle digital da casa e o colocou sobre o tablet da delegada.
— Minha mãe tem acesso administrativo às câmeras, às portas e ao meu escritório. Trave tudo antes que ela volte.
Mara recolheu o aparelho.
— Já pedimos preservação dos registros.
Cláudia fechou a porta outra vez.
Mara apontou para o celular dentro do saco.
— Sua mãe escondeu isto dentro da própria bolsa.
Mara mostrou uma fotografia tirada durante a busca. O aparelho estava desligado sob um lenço, no bolso interno, junto ao carregador de Elena. Margaret carregava o próprio telefone na mão.
— Ela afirma que encontrou e guardou para devolver — disse a delegada.
— Elena perguntou pelo aparelho várias vezes.
— Foi o que ela relatou.
Arthur pediu uma folha e escreveu todas as senhas que a mãe poderia conhecer: portão, escritório, alarme, armazenamento em nuvem, contas de serviço. A lista ocupou frente e verso.
Mara recebeu o papel sem expressão.
— Trocar senha depois não apaga registro — explicou. — Vamos preservar primeiro.
Arthur parou de escrever. Havia passado anos chamando aquele acesso de praticidade. Naquela noite, cada linha se transformou em um caminho usado contra Elena.
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