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"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 18

正文开头

"Vitória."

Ela olhou para ele.

O medo que Helena conhecera no hospital não estava mais ali.

Havia ódio.

"Você ia colocar tudo em mim."

Marcelo não respondeu.

Vitória riu.

"Como fez com Gabriel."

"Como fez com Teresa."

O juiz bateu o martelo.

"Silêncio."

Vitória apontou para o tio.

"Ele ainda não contou tudo."

Marcelo ficou imóvel.

Lívia levantou-se.

"O que exatamente a senhora pretende oferecer?"

Vitória respirou fundo.

Olhou para Helena.

Depois para Marcelo.

"Eu sei onde ele escondeu o dinheiro que ninguém encontrou."

Parte 11 — Eu Não Era a Mulher Errada

Por alguns segundos, ninguém no tribunal respirou direito.

Vitória Valença continuava de pé.

O braço estendido.

O dedo apontado para Marcelo.

"Eu sei onde ele escondeu o dinheiro que ninguém encontrou."

Marcelo não desviou os olhos.

Mas o rosto dele mudou.

Foi quase nada.

Um músculo na mandíbula.

Uma tensão no pescoço.

Para Helena, bastou.

Vitória tinha acabado de acertar onde doía.

O juiz ergueu a mão.

"Senhora Valença, qualquer proposta de colaboração deverá ser formalizada pelos meios adequados."

Vitória respondeu:

"Então formalize."

O advogado dela se levantou.

"Excelência, peço cinco minutos para conversar com minha cliente."

Vitória virou para ele.

"Você teve três meses."

"Vitória."

"Três meses me dizendo para ficar calada."

Ela olhou novamente para Marcelo.

"Enquanto ele preparava a própria defesa em cima de mim."

Marcelo falou pela primeira vez.

"Você está cometendo outro erro."

Vitória riu.

"Outro?"

A voz dela ficou mais alta.

"O primeiro foi confiar em você."

O salão começou a murmurar.

O juiz bateu o martelo.

"Silêncio."

Lavínia Albuquerque permanecia sentada alguns lugares adiante.

Seu rosto estava pálido.

Helena percebeu quando ela olhou para Vitória.

Depois para Marcelo.

Depois para o próprio advogado.

Medo.

Não o medo de ser descoberta.

O medo de ser a última a falar.

Lívia se aproximou da bancada da acusação.

"Excelência, o Ministério Público não se opõe à suspensão temporária da sessão para avaliar eventual colaboração."

Marcelo virou.

"Isso é ridículo."

O juiz respondeu:

"O senhor não foi consultado."

Marcelo ficou em silêncio.

Helena observava.

Durante meses, aquele homem controlara horários, contas, pessoas, servidores, advogados, narrativas.

Agora estava sentado entre dois agentes.

E não decidia nem quando a audiência fazia intervalo.

Talvez fosse pouco.

Mas Helena gostou.

A primeira reunião de Vitória com o Ministério Público durou seis horas.

Ela falou sobre contas.

Empresas.

Senhas.

Intermediários.

Políticos que haviam recebido doações legais misturadas a estruturas financeiras ilegais.

Executivos que assinaram documentos sem perguntar.

Outros que perguntaram e foram pagos para esquecer.

Mas o principal veio no fim.

"Marcelo nunca deixava todo o dinheiro na mesma estrutura."

Lívia perguntou:

"Por quê?"

"Porque ele dizia que banco não tem lealdade."

"Então onde?"

Vitória respirou fundo.

"Parte estava fora do sistema que vocês encontraram."

"Quanto?"

"Eu não sei exatamente."

"Estimativa."

"Entre vinte e cinco e quarenta milhões."

Helena estava atrás do vidro, acompanhando.

Gabriel permanecia ao lado dela.

正文1

Ele soltou o ar devagar.

"Ainda tinha tudo isso?"

Helena respondeu:

"Provavelmente."

Vitória continuou.

"Havia uma fundação privada no Uruguai."

Lívia perguntou:

"Nome?"

"Fundación Mar de Plata."

"Beneficiário?"

"Não aparecia Marcelo."

"Quem aparecia?"

Vitória olhou para a mesa.

"Um procurador."

"Nome."

"Álvaro Rios."

Helena franziu a testa.

Gabriel perguntou:

"Conhece?"

"Não."

Ele pensou.

"Eu conheço."

Helena virou.

"De onde?"

"Foi consultor do grupo há anos."

"Área?"

"Patrimônio familiar."

Helena sentiu a peça encaixar.

"Claro."

Lívia continuou o interrogatório.

"Há outras estruturas?"

Vitória assentiu.

"Uma em Lisboa."

"Nome."

"Oriente Participações."

"Mais."

"Uma truste nas Ilhas Virgens."

"Mais."

Vitória fechou os olhos.

"Uma carteira de ativos digitais."

Helena se inclinou.

"Ela sabia disso?"

Gabriel respondeu:

"Pelo jeito."

Vitória continuou.

"Marcelo dividia tudo."

"Por quê?"

"Se uma parte caísse, as outras continuavam."

"Quem tinha as chaves?"

"Ele."

"Mais alguém?"

Vitória hesitou.

"Eu tinha uma."

Lívia parou.

"Você tinha acesso?"

"Parcial."

"Então por que não movimentou?"

Vitória deu uma risada amarga.

"Porque ele me fazia acreditar que eu era importante."

Ela levantou os olhos.

"Eu não era."

Helena sentiu a frase atravessar.

Vitória sempre parecera a mulher que mandava em todos.

No hospital, entrara como se fosse dona do quarto.

Dona do dinheiro.

Dona de Gabriel.

Dona até do destino de Helena.

Agora admitia que também tinha sido uma peça.

Uma peça cruel.

Uma peça criminosa.

Mas ainda assim, peça.

Lívia perguntou:

"Por que está falando agora?"

Vitória demorou.

"Porque ele ia me deixar apodrecer na prisão."

"Isso não é arrependimento."

"Eu não disse que era."

Pela primeira vez, a resposta foi honesta.

Lavínia pediu para falar no dia seguinte.

Quando soube que Vitória entregara as estruturas internacionais, chamou o advogado antes mesmo do café da manhã.

Lívia entrou na sala com Helena.

Lavínia olhou para ela.

"Ela contou sobre o Uruguai?"

Helena não respondeu.

Lívia disse:

"Você está aqui para falar do que sabe."

Lavínia apertou os lábios.

"Vitória sempre foi impulsiva."

Helena quase sorriu.

"Você mandou R$ 300 mil para pagar meu atropelamento."

Lavínia perdeu a expressão.

Helena continuou.

"Talvez não seja uma boa hora para discutir impulsividade."

Lavínia desviou o olhar.

"Eu não mandei atropelar você."

"Você pagou."

"Vitória disse que seria intimidação."

"Rogério ouviu outra coisa."

Lavínia ficou em silêncio.

"Marcelo também estava envolvido."

"Eu sei."

Helena percebeu.

"Quanto?"

Lavínia respirou fundo.

"Mais do que eu contei."

Lívia puxou uma cadeira.

"Começa."

Lavínia falou por quase quatro horas.

Confirmou que o noivado com Gabriel tinha função financeira.

A união pública entre as famílias facilitaria uma incorporação.

Criaria estabilidade para investidores.

Permitiria reorganizar ativos sem provocar suspeita imediata.

Depois, quando o rombo aparecesse, os documentos falsificados colocariam Gabriel como responsável.

"Por que Gabriel?"

Lívia perguntou.

Lavínia respondeu:

"Porque era perfeito."

Helena sentiu a ironia.

"O herdeiro perfeito."

Lavínia assentiu.

"Conhecido."

"Visível."

"Com assinatura em quase tudo."

"Uma pessoa que o mercado acreditaria ter poder suficiente para fazer."

Helena perguntou:

"E Marcelo?"

正文2

Lavínia olhou para ela.

"Marcelo nunca queria aparecer."

"Então usou vocês."

Lavínia deu um sorriso fraco.

"Nós também o usamos."

"Para quê?"

"Para chegar ao Grupo Valença."

Lívia perguntou:

"Seu pai sabia?"

Lavínia ficou em silêncio.

"Meu pai sabia que existiam operações agressivas."

"Sabia que eram ilegais?"

"Não sei."

"Você sabe."

Lavínia abaixou os olhos.

"Ele escolheu não perguntar."

Helena conhecia aquela resposta.

Era o idioma preferido de famílias poderosas.

Não vi.

Não perguntei.

Não assinei.

Não sabia.

Até o dinheiro chegar.

Nas semanas seguintes, as informações de Vitória e Lavínia abriram novas portas.

Contas que pareciam mortas voltaram a aparecer.

Procurações antigas foram localizadas.

Bancos estrangeiros responderam às ordens.

A fundação uruguaia foi congelada.

A estrutura em Lisboa também.

A carteira de ativos digitais foi apreendida depois que um dos códigos entregues por Vitória foi validado.

R$ 8,4 milhões.

Depois R$ 13 milhões.

Depois R$ 6,7 milhões.

Valores que Marcelo acreditava enterrados começaram a voltar.

Helena acompanhava cada recuperação.

Não porque gostasse de ver o número crescer.

Mas porque sabia de onde tinha saído.

Uma tarde, Lívia colocou uma nova planilha diante dela.

"Quer ver?"

Helena olhou.

O total recuperado já permitia cobrir quase integralmente o déficit identificado nos fundos diretamente afetados.

Ela ficou em silêncio.

"Quanto falta?"

"Menos do que imaginávamos."

"Com juros?"

"Parte."

"E os aposentados?"

"Começam a receber a recomposição em fases."

Helena apoiou as mãos na mesa.

"Tem data?"

"Primeiro lote no mês que vem."

Ela fechou os olhos.

Durante tanto tempo, tudo havia sido investigação.

Crimes.

Servidores.

Ameaças.

Prisões.

Por alguns segundos, finalmente apareceu o outro lado.

Reparação.

Lívia percebeu.

"Você devia estar feliz."

"Estou."

"Não parece."

Helena sorriu de leve.

"É que eu ainda lembro de quando eram só linhas numa planilha."

"E agora?"

"Agora têm nomes."

O primeiro grupo a receber ressarcimento reuniu-se numa agência bancária em São Paulo.

Não havia tapete vermelho.

Nenhum executivo do Grupo Valença apareceu.

Helena preferiu assim.

Dona Célia, setenta e dois anos, segurava um envelope com o novo extrato.

Trabalhara trinta e oito anos numa empresa ligada ao grupo.

"Eu pensei que nunca ia ver esse dinheiro."

Helena respondeu:

"Eu sei."

A senhora apertou a mão dela.

"Você fez isso?"

Helena balançou a cabeça.

"Muita gente fez."

"Mas foi você que achou."

"Eu comecei uma parte."

Dona Célia olhou para Teresa, que estava atrás.

"Ela é sua mãe?"

"É."

Teresa sorriu.

A senhora estendeu a mão.

"Obrigada também."

Teresa se emocionou.

"Eu devia ter falado antes."

Dona Célia apertou os dedos dela.

"Mas falou."

Teresa ficou em silêncio.

Helena observou.

Durante meses, tinha lutado com a raiva.

A mãe havia escondido tudo.

Tinha se calado.

Tinha deixado anos passarem.

Mas também era verdade que Teresa fora uma jovem ameaçada.

Uma mulher grávida colocada diante de uma estrutura criada para esmagar quem não tivesse poder.

Helena não precisava transformar a mãe em santa.

Nem em criminosa.

Podia enxergá-la inteira.

Com medo.

Com falhas.

Com coragem tardia.

Mas coragem.

O julgamento principal começou oito meses depois.

Rogério entrou sob proteção.

Vitória não conseguiu olhar para ele.

Ele sentou diante do juiz e confirmou cada detalhe.

O encontro em Moema.

As ordens.

O dinheiro.

A voz de Vitória.

A presença de Marcelo.

A instrução para fazer Helena desaparecer.

O advogado de Marcelo tentou destruí-lo.

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