"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 16
"Ou tentando descobrir o que ela ainda sabia."
Helena assentiu.
"Ela foi com ele para chegar ao documento."
Lívia ficou irritada.
"Sem nos contar?"
"Ela sabia que temos vazamento."
O silêncio caiu.
Era verdade.
Rogério quase tinha sido morto porque alguém descobrira que falaria.
Se Teresa avisasse a polícia, talvez Marcelo soubesse antes mesmo de ela entrar no carro.
"Ela fez isso sozinha."
Gabriel parecia assustado.
Helena fechou os olhos.
"Ela passou vinte anos fugindo."
Abriu novamente.
"Agora decidiu voltar."
O sedã apareceu sete minutos depois.
As equipes já estavam posicionadas.
Não avançaram imediatamente.
Marcelo acreditava que as contas seriam desbloqueadas.
Precisavam deixá-lo chegar perto o suficiente do hangar.
Helena assistia tudo por câmeras internas.
O carro passou pelo primeiro portão.
Depois pelo segundo.
Um segurança ligado à operação levantou a cancela.
O veículo entrou.
Helena viu Teresa no banco traseiro.
Marcelo ao lado.
"Ele trouxe uma pasta."
Gabriel apontou.
Uma maleta preta estava no colo de Marcelo.
Helena sentiu o pulso acelerar.
"Pode ser."
Lívia olhou para Rafael.
"Esperamos."
"Mais alguns metros."
O carro parou próximo ao jato.
O motorista desceu.
Marcelo abriu a porta.
Teresa saiu pelo outro lado.
Helena inclinou-se para a tela.
Marcelo segurava a maleta.
"Agora."
Rafael falou pelo rádio.
As equipes começaram a fechar o perímetro.
Marcelo percebeu.
Virou o rosto.
O motorista gritou.
Teresa agiu antes de todos.
Agarrou a maleta.
Marcelo segurou.
"Teresa!"
Ela puxou com força.
Ele tentou recuperar.
Teresa abriu a porta do carro e empurrou a pasta pela janela oposta.
A maleta caiu no asfalto.
Abriu.
Papéis voaram.
Três discos rígidos bateram no chão.
Dois pen drives deslizaram para baixo do carro.
Uma pasta amarela se abriu.
Helena viu folhas antigas.
Assinaturas.
Extratos.
Contabilidade.
"O livro."
Ela quase não conseguiu falar.
"É o livro."
Rafael correu.
Policiais avançaram.
Marcelo tentou agarrar Teresa.
Gabriel saiu da área segura.
"Gabriel!"
Helena gritou.
Ele continuou.
Um agente alcançou Teresa primeiro e a puxou para longe.
Outro derrubou Marcelo contra o carro.
Ele não resistiu muito.
Não parecia desesperado.
Isso assustou Helena mais do que se estivesse gritando.
Rafael algemou uma das mãos.
"Marcelo Valença, você está preso."
Marcelo olhou para ele.
Depois para Teresa.
Então para Helena, que se aproximava com a cadeira protegida por dois agentes.
"Você realmente achou que eu ia fugir?"
Helena parou.
"Você tinha um avião."
"Um avião é uma distração maravilhosa."
Rafael puxou o outro braço.
Marcelo sorriu.
"Vocês congelaram contas."
Lívia se aproximou.
"Encontramos documentos."
"Documentos velhos."
Teresa levantou a voz.
"Documentos originais."
Marcelo olhou para ela.
"Você sempre foi mais corajosa quando já era tarde."
Teresa não abaixou os olhos.
"Dessa vez não."
Helena sentiu orgulho e raiva ao mesmo tempo.
Marcelo viu.
"Que cena bonita."
Rafael começou a levá-lo.
Então Marcelo parou.
"Meu telefone."
Um agente o retirou do bolso dele.
Helena sentiu algo errado.
"Não toca."
Mas Marcelo sorriu.
O aparelho acendeu sozinho.
Uma notificação apareceu.
Ele olhou para a tela.
"Já foi."
Helena sentiu o coração disparar.
"O quê?"
Marcelo não respondeu.
Lívia pegou o celular.
Na tela havia um comando enviado segundos antes.
Execução remota confirmada.
Gabriel ficou pálido.
"Não."
Helena olhou para ele.
"O que foi?"
"Isso parece comando de manutenção do grupo."
"Que manutenção?"
Gabriel puxou o próprio celular.
Tentou acessar o sistema.
A tela travou.
Depois apareceu um alerta.
"Servidor central em processo de limpeza."
Helena sentiu o sangue gelar.
"Quanto tempo?"
Gabriel abriu o painel de emergência.
Um cronômetro apareceu.
00:59.
A contagem começou.
00:58.
00:57.
Teresa olhou para Helena.
"O que está acontecendo?"
Gabriel levantou os olhos.
"Ele acionou uma exclusão total."
Helena sentiu o mundo reduzir àqueles números.
00:54.
Lívia segurou o braço de Marcelo.
"Para isso."
Ele sorriu.
"Eu não posso."
"Qual é a senha?"
"Não existe."
"Marcelo."
"O comando já está rodando."
00:49.
Helena olhou para o jato.
Para os documentos no chão.
Para os discos rígidos.
Depois para o celular.
R$ 210 milhões.
Dezoito meses de investigação.
Décadas de fraude.
Tudo que ligava as empresas ao sistema atual podia desaparecer em menos de um minuto.
00:43.
Gabriel pegou o telefone.
"Eu preciso chegar à sede."
Helena olhou para ele.
"Você não tem tempo."
Ele respondeu:
"Então a gente vai ter que criar."
Parte 10 — Cinquenta e Nove Segundos
00:43.
O número vermelho pulsava na tela do celular de Gabriel.
Quarenta e três segundos.
Era tudo o que restava antes que o servidor central do Grupo Valença concluísse a limpeza automática.
Helena sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
A dor na perna desapareceu por alguns segundos.
O cansaço também.
Só existia o contador.
00:42.
Marcelo continuava algemado ao lado do carro.
E sorria.
"Vocês chegaram longe."
Rafael apertou o braço dele.
"Como interrompe?"
Marcelo olhou para o delegado.
"Não interrompe."
"Qual é a senha?"
"Não existe senha."
"Quem criou o comando?"
Marcelo deu de ombros.
"Talvez alguém da equipe técnica."
Gabriel levantou o celular.
"Mentira."
Marcelo virou o rosto.
Gabriel continuou.
"Esse protocolo exige autenticação de contingência."
"O sistema mudou muito desde que eu parei de cuidar pessoalmente dessas coisas."
"Você nunca parou."
Marcelo sorriu.
00:39.
Helena olhou para Lívia.
"Precisamos de acesso remoto."
"Já estou chamando perícia."
"Não temos tempo."
Gabriel digitava rapidamente.
"Eu consigo entrar pelo terminal de emergência."
Helena virou.
"De onde?"
"Do centro de servidores na sede."
"Você está no aeroporto."
"Existe acesso secundário."
"Onde?"
"Num terminal de manutenção ligado à rede interna."
Helena estendeu a mão.
"Me dá."
Gabriel entregou o celular.
"Não vai aceitar sua credencial fora da rede."
"Então coloca alguém lá dentro."
Ele parou.
Helena percebeu.
"Tem alguém?"
"Eduardo Faria."
"O diretor de segurança da informação?"
"Sim."
"Confiamos nele?"
Gabriel hesitou.
Helena sentiu o estômago apertar.
"Não temos escolha."
"Temos."
Ela olhou para Rafael.
"Bloqueia o acesso de Eduardo."
Marcelo riu.
"Vocês estão procurando inimigos em todo lugar."
Helena respondeu sem olhar para ele.
"Funcionou até agora."
00:35.
Gabriel ligou para a sede.
A chamada foi atendida.
"Centro de tecnologia."
"Sou Gabriel Valença."
Silêncio.
"Senhor Gabriel?"
"Quem está falando?"
"Caio Menezes, infraestrutura."
"Caio, preciso que você vá até o terminal de contingência no setor B."
"Senhor, o prédio está sob restrição."
"Eu sei."
"Recebemos ordem de não tocar em nenhum sistema."
Helena falou perto do telefone.
"Caio, aqui é Helena Duarte, da investigação financeira."
Houve outro silêncio.
"Senhora Helena?"
"Escuta com atenção."
00:32.
"O servidor está executando uma limpeza."
"Eu estou vendo."
"Quanto aparece aí?"
"Trinta e um segundos."
Helena fechou os olhos.
00:31.
"Vai até o terminal de contingência."
"Já estou indo."
Passos começaram a ecoar do outro lado da ligação.
Marcelo observava.
Ainda sorrindo.
"Mesmo que parem agora, uma parte já foi."
Helena virou o rosto.
"O que foi?"
"Arquivos temporários."
"Que arquivos?"
"Os que mostram a origem das transferências."
"Você está blefando."
Marcelo inclinou a cabeça.
"Você trabalha com números."
"Devia saber que, quando uma sequência começa a ser sobrescrita, não basta apertar cancelar."
Helena sentiu um frio.
Ele tinha razão em parte.
Dependendo do protocolo, o dano podia acontecer em etapas.
Mas ela não deixaria Marcelo perceber que aquilo a preocupava.
"Você parece muito confiante para alguém algemado."
"Porque algemas não apagam o que eu já fiz."
00:28.
Caio falou no telefone.
"Cheguei."
Gabriel respondeu:
"Liga o terminal."
"Está pedindo autenticação."
"Usa o código de contingência."
"Qual?"
Gabriel parou.
Marcelo riu.
Helena percebeu.
"Você sabe."
Gabriel olhou para ele.
"Meu código foi revogado."
"Quando?"
"Depois da prisão de Vitória."
Marcelo respondeu:
"Que descuido."
Rafael aproximou-se.
"Fala o código."
Marcelo virou o rosto.
"Não."
Rafael apertou as algemas.
Marcelo nem piscou.
"Você vai perder tudo."
"Não."
Ele sorriu.
"Vocês vão."
00:24.
Helena olhou para Teresa.
A mãe estava alguns metros atrás, protegida por dois agentes.
Ainda tremia.
Mas segurava uma das folhas que tinham caído da maleta.
Helena viu.
"Qual é essa?"
Teresa olhou.
"Uma lista antiga."
"De quê?"
"Autorizações."
Helena estendeu a mão.
Teresa entregou.
Os códigos estavam escritos à mão.
Sequências antigas.
Nomes.
Iniciais.
Um deles tinha três letras.
MVL.
Helena sentiu o pulso acelerar.
"Marcelo Vieira Valença."
Marcelo perdeu o sorriso por um segundo.
Só um.
Helena viu.
"Gabriel."
"Estou ouvindo."
"Seu tio usa iniciais em códigos?"
"Usava."
"Como eram montados?"
"Três letras e seis números."
Helena olhou para o papel.
Havia uma sequência.
MVL-071198.
"Caio."
"Sim."
"Tenta MVL071198."
Marcelo falou imediatamente.
"Não vai funcionar."
Helena sorriu.
Foi a primeira vez.
"Então por que respondeu tão rápido?"
Marcelo ficou quieto.
00:19.
Caio digitou.
"Entrou."
Gabriel fechou os olhos por um segundo.
Helena não teve tempo para comemorar.
00:18.
"Abre manutenção."
"Aberto."
"Procura limpeza programada."
"Tem um processo ativo."
"Cancelar."
"Não permite."
"Por quê?"
"Privilégio superior."
Helena perguntou:
"Qual usuário?"
Caio demorou.
"Gabriel Valença."
Todos olharam para Gabriel.
Marcelo voltou a sorrir.
Gabriel ficou pálido.
"Não sou eu."
Helena respondeu:
"Eu sei."
Marcelo riu.
"Tem certeza agora?"
Ela não respondeu.
00:15.
"Caio, desliga o servidor da rede."
"Não posso."
"Por quê?"
"Cluster redundante."
Gabriel entendeu.
"Tem réplica."
"Três."
Helena sentiu o estômago afundar.
"Se desligar um?"
"Os outros continuam."
"Desliga todos."
"Levaria mais de um minuto."
00:12.
Lívia falou:
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