"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 15
Olhou para o carro.
Ninguém saiu.
Ela permaneceu ali por alguns segundos.
Gabriel falou baixo.
"Ela está hesitando."
Helena não respondeu.
Então Teresa caminhou até o carro.
Abriu a porta.
E entrou.
Sozinha.
A porta fechou.
O veículo arrancou.
Helena ficou imóvel.
Nenhuma arma.
Nenhuma pessoa puxando Teresa.
Nenhum sinal de sequestro.
Ela entrara por vontade própria.
Pelo menos era o que a câmera mostrava.
Helena recuou na cadeira.
"Não."
Lívia se aproximou.
"Isso não prova que ela foi voluntariamente."
"Ela abriu a porta."
"Pode ter sido ameaçada antes."
"Ela caminhou até ele."
"Helena."
"Ela entrou."
Gabriel colocou a mão no ombro dela.
Helena afastou.
"Não."
Ele retirou imediatamente.
"Desculpa."
Helena respirou de forma irregular.
"O carro é de quem?"
Rafael consultou a placa.
"Locadora."
"Nome da reserva?"
"Empresa."
"Qual?"
O técnico respondeu:
"Prisma Gestão de Ativos."
O silêncio pesou.
A décima quinta empresa.
A empresa que controlava a saída do dinheiro.
A empresa de Marcelo.
Helena olhou novamente para a gravação.
"Tem imagem do motorista?"
O técnico ampliou.
Não havia rosto visível.
Mas, quando o carro passou por outra câmera, alguém estava no banco traseiro.
Uma silhueta masculina.
Gabriel se inclinou.
"Marcelo."
Rafael assentiu.
"Provavelmente."
Helena sentiu o peito apertar.
Sua mãe tinha entrado no carro dele.
Sem resistência.
Sem polícia.
Sem contar nada.
"Eu quero rastrear o celular dela."
Lívia respondeu:
"Já estamos."
"Quanto tempo?"
"Minutos."
"Não temos minutos."
Rafael virou.
"Temos uma ordem para bloquear o aeroporto."
"Então bloqueia."
"Já solicitei."
"Quero Congonhas fechado para esse jato."
"Vai estar."
Helena olhou para Gabriel.
"Vamos para lá."
Lívia imediatamente respondeu:
"Você não."
"Eu vou."
"Helena."
"Minha mãe está naquele avião."
"Ainda não sabemos se ela chegou."
"Então eu vou descobrir."
Rafael tentou intervir.
"Tem equipe suficiente."
"Eu não perguntei."
"Você é alvo de tentativa de homicídio."
"E minha mãe pode estar fugindo com o homem que mandou me matar."
Lívia ficou em silêncio.
Helena sustentou o olhar.
"Eu vou."
A promotora respirou fundo.
"Com escolta."
"Ótimo."
"Sem sair da área segura."
"Depende."
"Helena."
"Está bem."
Lívia sabia que não estava.
Mesmo assim, pegou o telefone.
O trajeto até Congonhas pareceu durar uma hora.
Levou vinte e três minutos.
Gabriel estava no banco ao lado de Helena.
Rafael seguia em outro carro.
Do lado de fora, São Paulo começava a acordar completamente.
Trânsito.
Motocicletas.
Ônibus lotados.
Pessoas indo trabalhar.
Para quase todo mundo, era uma manhã comum.
Para Helena, cada semáforo parecia uma provocação.
Gabriel olhou para o celular.
"Tem sinal."
Helena virou.
"Do telefone dela?"
"Sim."
"Onde?"
"Moema."
"Movendo?"
"Sim."
"Direção?"
Gabriel ampliou o mapa.
"Congonhas."
Helena sentiu o estômago cair.
"Então é ela."
"Ou o celular dela."
"Gabriel."
"Eu só estou dizendo."
"Eu sei."
Ele ficou em silêncio.
Helena encostou a cabeça no banco.
"Ela entrou no carro dele."
"Eu vi."
"Por quê?"
"Não sei."
"Você acha que ela estava envolvida?"
Gabriel demorou.
Helena percebeu.
"Pode falar."
"Eu acho que ela estava escondendo alguma coisa."
"Isso eu já sei."
"Não acho que seja a mesma coisa que estar envolvida."
Helena fechou os olhos.
"Meu nome apareceu num esquema porque alguém queria me usar."
Gabriel continuou.
"O seu também apareceu."
Ela olhou.
"E o da sua mãe."
Ele respirou fundo.
"Marcelo constrói versões."
Helena lembrou.
Teresa como cúmplice.
Gabriel como ladrão.
Vitória como única responsável.
Lavínia como financiadora isolada.
Sempre havia alguém conveniente demais para carregar a culpa.
"Mas minha mãe foi até ele."
"Sim."
"Por escolha."
"Talvez."
"Você continua dizendo talvez."
"Porque foi isso que você me ensinou."
Helena ficou quieta.
"Prova primeiro."
Gabriel olhou para ela.
"Conclusão depois."
Helena soltou o ar.
"Eu odeio quando você aprende rápido."
Ele quase sorriu.
Quase.
O celular de Lívia tocou no banco da frente.
Ela atendeu.
"Fala."
Pausa.
"Repete."
Helena se inclinou.
"O que foi?"
Lívia ergueu a mão.
"Entendi."
Desligou.
"Rogério acordou."
Helena ficou imóvel.
"Está consciente?"
"Por poucos minutos."
"Falou?"
"Uma coisa."
"Marcelo?"
"Não."
Lívia olhou para ela.
"Disse que Teresa não era parte do grupo."
Helena sentiu o coração acelerar.
"O que mais?"
"Perguntaram como ele sabia."
"E?"
"Ele desmaiou antes de responder."
Helena fechou os olhos.
Uma pequena fresta se abriu dentro dela.
Talvez.
De novo aquela palavra.
O hangar da Vértice Aviação estava cercado quando chegaram.
Policiais federais e equipes do Ministério Público ocupavam as entradas.
O jato continuava estacionado.
Portas fechadas.
Motores desligados.
Helena sentiu alívio.
"Ele não saiu."
Rafael apareceu.
"Não vai sair."
"Onde está Marcelo?"
"Ainda não chegou ao hangar."
"E minha mãe?"
"Também não."
Helena mostrou o mapa.
"O telefone está perto."
"Estamos acompanhando."
Um agente se aproximou.
"Delegado, temos imagens de uma câmera de trânsito."
Rafael fez sinal.
O tablet mostrou o sedã preto.
Estava a menos de dois quilômetros.
"Fechem os acessos."
"Já fechamos."
Helena sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
Então o celular dela começou a tocar.
Número desconhecido.
Todos olharam.
Rafael levantou a mão.
"Não atende ainda."
Helena encarou a tela.
Chamada de vídeo.
Gabriel falou:
"Pode ser ele."
Helena respondeu:
"É ele."
Lívia ativou a gravação.
"Atende."
Helena tocou na tela.
Marcelo apareceu.
Estava dentro de um carro.
Calmo.
Camisa branca.
Óculos escuros.
"Bom dia, Helena."
Ela sentiu o sangue ferver.
"Onde está minha mãe?"
Marcelo sorriu.
"Sem educação de novo."
"Mostra ela."
"Você está em posição de pedir?"
"Mostra."
Marcelo virou lentamente a câmera.
Teresa estava sentada ao lado.
Viva.
Sem ferimentos visíveis.
Helena quase perdeu o ar.
"Mãe."
Teresa olhou para a tela.
"Helena."
"Você está bem?"
"Estou."
Marcelo voltou a câmera para si.
"Viu?"
Helena apertou o celular.
"O que você quer?"
"Você já sabe."
"Fala."
"Libere as contas."
"Não."
Marcelo riu.
"Você nem pensou."
"Não preciso."
"São contas privadas."
"São ativos ligados a dinheiro roubado."
"Segundo sua interpretação."
"Segundo documentos."
"Documentos podem ser interpretados."
"Servidor apagado também?"
O sorriso dele diminuiu.
"Você está ficando cansativa."
"Você tentou me matar."
"Vitória tentou."
"Porque você mandou."
Marcelo ficou em silêncio por um segundo.
Helena percebeu.
"Rogério falou."
A expressão mudou.
Pouco.
Mas mudou.
"Rogério está vivo?"
"Você parece decepcionado."
Marcelo ignorou.
"Libere as contas."
"Não."
Ele virou a câmera novamente.
Teresa apareceu.
"Helena."
A voz da mãe estava trêmula.
"Faz o que ele está pedindo."
Helena sentiu uma dor profunda.
"Você quer que eu solte R$ 210 milhões?"
"Eu quero ir para casa."
"Por que entrou no carro dele?"
Teresa fechou os olhos.
"Eu não tive escolha."
Helena ficou imóvel.
A câmera do prédio dizia o contrário.
Marcelo sorriu.
"Finalmente uma resposta sensata."
Teresa continuou.
"Filha, por favor."
Helena observava.
O rosto.
As mãos.
A postura.
A mãe parecia assustada.
Mas alguma coisa estava errada.
"Você está machucada?"
"Não."
"Ele te ameaçou?"
Marcelo respondeu:
"Não desperdice nosso tempo."
Helena ignorou.
"Mãe."
Teresa ergueu a mão direita.
Tocou o anel no dedo.
Uma vez.
Helena parou.
Teresa continuou falando.
"Eu só quero que isso acabe."
Os dedos tocaram novamente o anel.
Duas vezes.
Helena sentiu o coração mudar de ritmo.
Não.
Não era nervosismo.
Ela conhecia aquele gesto.
Anos atrás, quando Helena ainda era adolescente, Teresa havia criado pequenos sinais para situações desconfortáveis.
Nada dramático.
Coisas de mãe e filha.
Se Teresa tocasse repetidamente o anel, significava uma frase.
"Não acredite no que estou dizendo."
Helena ficou imóvel.
Teresa tocou uma terceira vez.
Agora tinha certeza.
Sua mãe não estava pedindo para liberar o dinheiro.
Estava interpretando.
Helena controlou a expressão.
"Está bem."
Gabriel olhou para ela.
Lívia também.
Marcelo sorriu.
"Finalmente."
Helena continuou.
"Eu posso tentar."
Teresa não reagiu.
Mas parou de tocar o anel.
Marcelo se acomodou no banco.
"Não tente."
"Preciso de tempo."
"Você tem vinte minutos."
"É impossível."
"Então sua mãe talvez não volte."
Helena sentiu a raiva.
Mas manteve a voz fraca.
"Eu preciso falar com Lívia."
"Fale."
"Ela está comigo."
"Ótimo."
Helena olhou para a promotora.
"Vou precisar que ela retire o bloqueio."
Lívia entendeu que havia algo acontecendo.
"Quanto?"
Marcelo respondeu pelo telefone.
"Todo."
Lívia fingiu indignação.
"Isso não acontece em vinte minutos."
"Faça acontecer."
Helena voltou para Teresa.
"Mãe."
"Sim?"
"Você trouxe o caderno?"
Teresa congelou por uma fração de segundo.
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Os dedos foram para o anel.
Uma vez.
Helena entendeu.
Marcelo não.
"Então está bem."
Ele encerrou a chamada.
A tela apagou.
Rafael imediatamente perguntou:
"O que foi?"
Helena respirou fundo.
"Ela está fingindo."
Gabriel franziu a testa.
"Como sabe?"
"O anel."
"Que anel?"
"É um código nosso."
Lívia perguntou:
"Qual código?"
"Quando ela toca três vezes daquele jeito, significa que eu não devo acreditar no que ela está falando."
Rafael ficou sério.
"Então ela não foi sequestrada?"
"Não exatamente."
"Você acha que entrou voluntariamente?"
Helena assentiu.
"Sim."
"Por quê?"
Ela pensou no caderno.
No cofre vazio.
Nos documentos desaparecidos.
Na história antiga.
Então percebeu.
"O livro-caixa."
Lívia ficou imóvel.
"Qual?"
"O original."
"Aquele que devia estar no cofre?"
"Sim."
Helena sentiu tudo se encaixar.
"Minha mãe sabia que Marcelo tinha tirado."
Gabriel perguntou:
"Como?"
"Talvez tenha lembrado de outra coisa."
Helena olhou para a tela apagada.
"Ou talvez Marcelo tenha entrado em contato com ela."
Rafael entendeu.
"Oferecendo uma troca."
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