"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 10
"É uma chave criptográfica."
"Fica onde?"
"Normalmente comigo."
"Normalmente?"
"Às vezes no cofre do escritório."
"Quem tem acesso?"
"Eu."
"Mais ninguém?"
Gabriel hesitou.
Helena percebeu.
"Gabriel."
Ele olhou para ela.
"Responde."
Ele respirou fundo.
"Algumas pessoas podem acessar o cofre em situação de emergência."
Rafael perguntou:
"Quem?"
"Meu tio Marcelo."
Helena ficou imóvel.
"Mais alguém?"
"O diretor de segurança da informação."
"Nome?"
"Eduardo Faria."
"Mais alguém?"
"Vitória tinha acesso ao andar executivo, mas não deveria conseguir abrir aquele cofre."
"Não deveria?"
"Os privilégios dela eram menores."
Helena anotou.
Rafael continuou.
"Marcelo tinha cópia da sua chave?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Sim."
"Então como ele poderia usar sua autenticação?"
Gabriel respondeu:
"Se tivesse acesso físico por tempo suficiente, talvez fosse possível copiar o certificado."
Helena levantou a cabeça.
"Copiar?"
Gabriel olhou para ela.
"Não é simples."
"Mas é possível?"
"Com equipamento certo."
Lívia se aproximou.
"Quanto tempo levaria?"
"Não sei."
"Minutos?"
"Talvez."
"Horários?"
"Depende."
Helena sentiu uma linha se formar na cabeça.
"Quando foi a última vez que você deixou a chave no cofre?"
Gabriel pensou.
"Duas semanas atrás."
"Exatamente quando?"
"Na segunda-feira."
"Antes ou depois de descobrir minha investigação?"
"Depois."
"Por quê?"
"Eu tinha uma reunião fora."
"Quem ficou no escritório?"
"Metade da diretoria."
Helena se inclinou.
"Marcelo?"
"Sim."
O ambiente mudou.
Lívia percebeu.
"Helena?"
Ela já estava olhando para o notebook.
"Quero os registros de acesso do servidor."
Rafael perguntou:
"Já temos."
"Quero o horário exato."
Lívia puxou a pasta.
"Vinte e uma horas, quatorze minutos e cinquenta e dois segundos."
"Do dia da prisão de Lavínia?"
"Sim."
"Primeira operação?"
"Sim."
"E o apagamento completo?"
"Vinte e uma e dezessete."
Helena olhou para Gabriel.
"Onde você estava às vinte e uma e quatorze?"
"Na propriedade dos Albuquerque."
"Com quem?"
"Com Lavínia."
"Mais alguém?"
"Policiais."
Rafael assentiu.
"Temos câmeras corporais."
Helena virou-se para ele.
"Desde que horas?"
"Desde vinte horas e trinta."
"Sem intervalo?"
"Sem intervalo."
"Gabriel ficou sozinho em algum momento?"
Rafael pensou.
"Foi ao banheiro."
Helena estreitou os olhos.
"Quanto tempo?"
"Dois minutos."
"Com o celular?"
Gabriel respondeu.
"Não lembro."
"Com a chave?"
"Não."
"Estava com você?"
"Não."
"Onde?"
"No escritório."
Helena ficou imóvel.
Lívia percebeu.
"Você está pensando em alguma coisa."
Helena puxou o notebook para perto.
"Me mostra o log."
A promotora abriu o arquivo.
Helena começou a percorrer as linhas.
Horários.
IP.
Localização.
Dispositivo.
Certificado.
Ela parou.
"Isso aqui."
Rafael se aproximou.
"O quê?"
"Identificador físico."
Gabriel olhou.
"É o da minha chave."
Helena apontou para outra coluna.
"E o endereço de rede?"
Lívia respondeu:
"Sede do grupo."
"Então não foi feito da casa de Lavínia."
"Não."
"Nem remotamente da propriedade Albuquerque."
"Não."
Helena sentiu o pulso acelerar.
"Foi feito da Faria Lima."
Gabriel franziu a testa.
"Quem estava lá?"
Rafael abriu outra planilha.
"Segurança, equipe técnica, alguns executivos."
"Marcelo?"
Silêncio.
Rafael procurou.
"Entrou às dezoito e vinte."
"E saiu?"
Outra pausa.
"Vinte e uma e quarenta e três."
Helena encostou-se na cadeira.
"Ele estava no prédio."
Lívia ergueu uma mão.
"Isso não prova nada."
"Não."
Helena continuou analisando.
"Mas prova que podia."
Gabriel ficou pálido.
"Meu tio sabia onde eu guardava a chave."
Helena olhou para ele.
"Ele também sabia que você estava com Lavínia naquela noite?"
"Sim."
"Como?"
"Ele participou da preparação do anúncio."
Helena sentiu outra peça encaixar.
"Então sabia que você estaria fora do prédio por horas."
Gabriel não respondeu.
Lívia cruzou os braços.
"Precisamos de mais."
Helena assentiu.
"Temos."
Todos olharam.
Ela ampliou outra parte do registro.
"Olha a sequência."
Rafael se aproximou.
"Login às vinte e uma e quatorze."
"Sim."
"Autenticação física validada."
"Sim."
"Mas veja o tempo entre validação e comando."
Lívia estreitou os olhos.
"Três segundos."
Helena assentiu.
"Gabriel, quando você usa esse sistema normalmente, quanto demora?"
"Para quê?"
"Entrar, navegar, selecionar o servidor e iniciar um apagamento avançado."
Ele pensou.
"Pelo menos dois ou três minutos."
"Se souber exatamente o caminho?"
"Talvez um."
Helena apontou.
"Três segundos."
Rafael entendeu.
"Script automático."
"Exatamente."
Gabriel se aproximou.
"Alguém preparou o comando antes."
"Sim."
Helena continuou.
"A chave foi usada apenas para autorizar algo que já estava configurado."
Lívia cruzou os braços.
"Isso significa planejamento."
"E acesso físico."
"Ou clonagem."
Helena assentiu.
Gabriel olhou para ela.
"Você acha que clonaram minha chave."
"É a hipótese mais forte."
"Quando?"
"Antes daquela noite."
"Quem?"
Helena não respondeu imediatamente.
Ela puxou outra planilha.
"O cofre da minha mãe."
Lívia percebeu.
"Você quer cruzar os acessos."
"Quero."
Rafael abriu o relatório bancário.
"A procuração usada foi emitida por uma holding vinculada ao Grupo Valença."
"Quem autorizou?"
"Assinatura digital de Gabriel."
Helena olhou para ele.
"Você assinou?"
"Não."
"Qual certificado?"
Rafael verificou.
Ficou em silêncio.
Helena já sabia.
"O mesmo?"
Ele assentiu.
"O mesmo."
Gabriel afastou-se da mesa.
"Meu Deus."
Helena sentiu o peito apertar.
A mesma chave digital aparecia em dois crimes.
O apagamento do servidor.
O acesso ao cofre.
E Gabriel estava comprovadamente em outro lugar durante pelo menos um deles.
"Isso limpa Gabriel?"
Rafael perguntou.
Helena balançou a cabeça.
"Não."
Gabriel olhou para ela.
"Não?"
"Prova que alguém pode usar sua identidade digital."
"E isso não basta?"
"Também pode significar que você entregou a chave para alguém."
A expressão dele fechou.
Lívia não interferiu.
Helena continuou.
"Eu não vou trocar uma conclusão precipitada por outra."
Gabriel soltou o ar.
"Claro."
A frieza na voz dele machucou.
Helena percebeu.
Mas não recuou.
"Precisamos saber quem teve acesso."
Rafael olhou para a lista.
"Marcelo."
"Eduardo Faria."
"Vitória talvez."
Helena falou:
"Vitória estava desesperada no hospital."
"Sim."
"Ela parecia ter medo quando perguntei sobre os fundos."
Lívia assentiu.
"E tentou impedir Lavínia de falar."
"Exatamente."
Gabriel cruzou os braços.
"Vitória sabia muito."
Helena respondeu:
"Mas talvez não soubesse tudo."
Rafael perguntou:
"E Lavínia?"
"Ela sabia sobre as transferências falsas."
"Mas?"
"Falava como quem conhecia o plano final."
Helena parou.
"Não como quem controlava a estrutura."
Lívia olhou para Gabriel.
"Marcelo é diretor financeiro há quanto tempo?"
"Dezoito anos."
Helena levantou o rosto.
"Antes disso?"
"Diretor de planejamento."
"E antes?"
"Controladoria."
Helena sentiu o estômago apertar.
"Controladoria."
Gabriel percebeu.
"O que foi?"
"Minha mãe disse que ele já trabalhava com finanças quando ela encontrou o primeiro esquema."
Silêncio.
Rafael endireitou-se.
"Vinte e poucos anos atrás."
"Sim."
"Ele já estava lá."
"Sim."
Lívia pegou o telefone.
"Vou pedir busca e apreensão."
Gabriel ficou tenso.
"Na casa do meu tio?"
"Sim."
"Vocês têm base?"
Lívia olhou para ele.
"Registro de presença no prédio, acesso potencial ao dispositivo, histórico funcional e conexão com a estrutura antiga."
Gabriel baixou os olhos.
"Faça."
Helena observou.
Aquilo parecia doer mais nele do que qualquer manchete.
Marcelo fora, durante anos, o adulto calmo da família.
Quando Vitória criava crises, era Marcelo quem resolvia.
Quando Gabriel brigava com o pai, era Marcelo quem ligava depois.
Quando o grupo enfrentava imprensa, era Marcelo quem aparecia dizendo que a família permaneceria unida.
O homem que nunca levantava a voz.
O homem que parecia nunca perder o controle.
Talvez porque estivesse controlando muito mais do que todos imaginavam.
Às quatro e vinte da tarde, a ordem foi autorizada.
Rafael saiu com duas equipes.
Helena insistiu em acompanhar até a rua, mas Lívia proibiu.
"Você ainda está em recuperação."
"Eu estou sentada."
"Você levou um atropelamento há menos de uma semana."
"Eu lembro."
"Então fica."
Gabriel estava no corredor.
"Eu vou."
Helena olhou para ele.
"Não."
"É a casa do meu tio."
"Por isso mesmo."
"Eu conheço o lugar."
"Rafael também consegue abrir uma porta."
Gabriel ficou irritado.
"Você está me tratando como suspeito."
"Você ainda é."
A frase caiu entre os dois.
Gabriel apertou a mandíbula.
"Entendi."
Ele virou.
Helena chamou.
"Gabriel."
Ele parou.
"Eu não estou fazendo isso para te machucar."
"Mas está."
Helena sentiu o peito apertar.
"Eu sei."
Ele não respondeu.
Foi embora pelo corredor.
Helena ficou olhando até desaparecer.
Quarenta e cinco minutos depois, o telefone de Lívia tocou.
Ela atendeu.
"Rafael?"
Helena imediatamente levantou os olhos.
A expressão da promotora mudou.
"O quê?"
Pausa.
"Tem certeza?"
Outra pausa.
"Não toca em nada."
Helena se aproximou com a cadeira.
"Encontraram ele?"
Lívia desligou.
"Não."
"Então?"
"A casa está vazia."
"Vazia como?"
"Sem Marcelo."
"Funcionários?"
"Nenhum."
"Carros?"
"Um na garagem."
"Bagagem?"
Lívia respirou fundo.
"Parece que ele saiu com pressa."
Helena sentiu um frio na nuca.
"Ele sabia."
"Provavelmente."
"Tem câmera?"
"Sim."
"E gravação?"
"Apagada."
Helena fechou os olhos.
"Claro."
O telefone vibrou novamente.
Dessa vez era uma chamada de vídeo de Rafael.
Lívia atendeu.
A imagem apareceu mostrando a sala de Marcelo.
Tudo impecável.
Um sofá cinza.
Livros.
Uma mesa de madeira.
No centro, um notebook aberto.
Rafael apareceu na câmera.
"Vocês precisam ver isso."
Helena aproximou-se.
"O quê?"
"Quando entramos, isso já estava ligado."
Ele virou o telefone para o notebook.
Na tela havia um vídeo pausado.
Marcelo estava sentado diante de uma parede escura.
Vestia camisa azul clara.
Sem gravata.
Parecia calmo.
Calmo demais.
Rafael falou:
"Tem um arquivo configurado para reprodução automática."
Lívia perguntou:
"Já verificaram se há risco?"
"Equipe técnica isolou a máquina da rede."
"Pode tocar."
Rafael apertou a barra de espaço.
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