"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 2
Vitória agarrou o braço esquerdo de Helena.
A dor atravessou os músculos machucados.
Helena reprimiu um gemido.
"Solte."
"Você não sabe com quem está mexendo."
"Estou começando a descobrir."
Os olhos de Vitória se estreitaram.
Então sua mão foi até o acesso intravenoso.
Helena percebeu tarde demais.
Vitória puxou.
A agulha saiu da pele de uma vez.
Uma dor aguda percorreu o braço.
Sangue começou a escorrer.
Helena inspirou bruscamente.
Vitória jogou o tubo para o lado.
Algumas gotas caíram sobre o documento aberto.
O vermelho se espalhou lentamente sobre a cláusula de confidencialidade.
"Agora você vai assinar."
Helena olhou para o próprio sangue.
Depois para Vitória.
"Você acabou de arrancar meu acesso."
"Considere um aviso."
Helena sentiu o coração bater mais forte.
Não de medo.
Era a adrenalina.
Com a mão direita, ela cobriu o ponto onde o sangue escorria.
O polegar da mão esquerda deslizou discretamente pela lateral do relógio inteligente preso ao pulso.
Uma vez.
Duas.
Vitória achou que ela estava tremendo.
"Está vendo como é simples?", disse.
Helena manteve os olhos baixos.
"Você queria tanto me tirar do caminho?"
"Eu queria que você entendesse seu lugar."
"Por causa de Gabriel?"
"Por causa de tudo."
"Então foi você que mandou aquelas mensagens?"
Vitória não respondeu.
Helena continuou.
"E o dinheiro deixado na porta do meu apartamento?"
Vitória sorriu.
"Você deveria ter aceitado."
"Você deixou aquele envelope?"
"Dez vezes mais do que você merecia."
Helena sentiu a confirmação encaixar mais uma peça.
Mas ainda não era suficiente.
"Eu achei que o atropelamento fosse fazer você mudar de estratégia."
A expressão de Vitória mudou.
Muito pouco.
Helena fingiu não notar.
"Talvez tenha sido um sinal", acrescentou.
"Foi."
A palavra saiu rápido demais.
Helena ergueu os olhos.
Vitória já não parecia irritada.
Parecia satisfeita.
Helena deixou sua voz enfraquecer.
"Você acredita nisso?"
"Em sinais?"
"Que aquele carro apareceu justamente quando eu saí do apartamento de Gabriel?"
Vitória aproximou-se.
"Você realmente acha que coincidências acontecem com tanta precisão?"
Helena permaneceu em silêncio.
Vitória olhou para a cadeira de rodas.
Depois para o gesso.
Depois para os hematomas.
"Aquele carro só deveria assustar você."
Helena sentiu tudo dentro dela parar.
Ali estava.
A primeira rachadura.
Ela ergueu lentamente o rosto.
"Aquele carro?"
Vitória percebeu o erro.
Por dois segundos, nenhuma das duas falou.
O som da chuva se tornou ensurdecedor.
Então Vitória puxou a pasta do colo de Helena.
"Pare de fazer perguntas."
"Você acabou de dizer que o carro deveria me assustar."
"Eu não disse isso."
"Disse."
"Você está medicada."
"Não o suficiente para esquecer."
Vitória se inclinou sobre ela.
"Escute com atenção."
Helena encarou seus olhos.
"Estou escutando."
"Você não sabe o que está acontecendo."
"Então me explique."
"Assine o documento."
"Não."
Vitória segurou o queixo de Helena.
Desta vez com força.
"Você acha que Gabriel vai salvar você?"
Helena não respondeu.
"Ele nem veio."
Os dedos apertaram mais.
"Você não pertence àquela família. Nunca pertenceu."
Helena sentiu o sangue continuar descendo pelo braço.
"Então por que você está tão desesperada para que eu fique em silêncio?"
Vitória congelou.
Helena percebeu que havia ido longe demais.
Por um instante, viu cautela surgir nos olhos da outra mulher.
Precisava devolver a sensação de controle.
Helena baixou a voz.
"Eu estou com medo, Vitória."
A cautela desapareceu.
Vitória sorriu novamente.
"Agora você está começando a entender."
Ela soltou o rosto de Helena.
"Isso tudo poderia ter sido evitado."
"Como?"
"Você poderia ter aceitado o dinheiro."
"E ido embora?"
"Sim."
"Mas eu fiquei."
"Você insistiu."
"Porque eu amo Gabriel."
Vitória soltou uma gargalhada.
"Amor."
Ela balançou a cabeça.
"Mulheres como você sempre acham que amor é um elevador social."
Helena baixou os olhos.
Por baixo da manga, a tela do relógio havia mudado.
Um pequeno círculo piscava.
Ainda não vermelho.
Esperando.
Vitória se aproximou outra vez.
"Você quer saber qual foi seu maior erro?"
Helena não respondeu.
"Acreditar que sobreviver ao atropelamento significava que você venceu."
O estômago de Helena se contraiu.
Vitória se inclinou até seus lábios quase tocarem o ouvido dela.
Sua voz saiu baixa.
Calma.
Quase carinhosa.
"Se Rogério tivesse feito o trabalho direito, você já estaria morta."
Helena não respirou.
Rogério.
Um nome.
Finalmente um nome.
Vitória se afastou com um sorriso.
Helena moveu discretamente o pulso.
Na tela rachada de reflexos, um pequeno símbolo mudou de cor.
Vermelho.
A transmissão estava ativa.
E Vitória ainda estava falando.
Parte 2 — Ela Confessou Tudo
O símbolo vermelho continuava aceso no pulso de Helena.
Vitória Valença não percebeu.
Ainda estava perto demais, satisfeita demais, convencida demais de que a mulher numa cadeira de rodas não representava ameaça alguma.
Helena baixou os olhos para o documento manchado de sangue.
Precisava continuar parecendo derrotada.
Precisava fazê-la falar.
O nome de Rogério já era importante.
Mas não bastava.
Um motorista podia ser contratado por qualquer pessoa.
Uma ameaça podia ser negada.
Um advogado caro podia transformar uma frase em interpretação.
Helena precisava de intenção.
Dinheiro.
Ordem.
Motivo.
E, se tivesse sorte, um segundo nome.
Vitória voltou a colocar a caneta sobre o colo dela.
"Assine."
Helena deixou os dedos tremerem levemente.
"Eu não quero morrer."
Vitória arqueou uma sobrancelha.
A reação foi imediata.
Era aquilo que ela queria ouvir.
Medo.
Submissão.
Desespero.
"Então pare de dificultar as coisas."
Helena respirou com cuidado.
"Você disse que o carro era só para me assustar."
Vitória não respondeu.
"Mas depois disse que, se Rogério tivesse feito o trabalho direito, eu estaria morta."
"Você está confundindo as coisas."
"Estou?"
"Está."
Helena abaixou a cabeça.
"Talvez seja a medicação."
Vitória relaxou os ombros.
"Provavelmente."
Helena levou a mão à testa, fingindo tontura.
"Eu só quero entender o que preciso fazer para isso acabar."
A arrogância voltou aos olhos de Vitória.
"Finalmente."
"Se eu assinar, vocês me deixam em paz?"
"Sim."
"Você promete?"
Vitória soltou uma risada curta.
"Não seja infantil."
Helena engoliu em seco.
"Eu não tenho ninguém como vocês."
Vitória inclinou a cabeça.
"Como nós?"
"Dinheiro."
Helena olhou para os diamantes.
"Advogados. Empresas. Gente importante. Eu moro num apartamento pequeno na Zona Leste."
Vitória sorriu.
Helena continuou.
"Minha mãe mal consegue pagar o seguro do carro."
"Exatamente."
"Eu não conseguiria enfrentar uma família como a sua."
"Não conseguiria."
Cada resposta fazia Vitória se sentir maior.
Era isso.
Helena conhecia aquele tipo de pessoa.
Não precisava confrontá-la.
Precisava apenas oferecer um espelho.
Quanto mais Vitória admirasse o próprio poder, mais falaria.
Helena tocou a borda do documento.
"Então por que vocês tiveram tanto trabalho comigo?"
O sorriso desapareceu por um instante.
"Porque você não sabia quando ir embora."
"Eu podia ter ido."
"Podia."
"Quando?"
Vitória bufou.
"Você está mesmo fazendo essa pergunta?"
Helena ergueu os olhos devagar.
"Eu quero saber em que momento estraguei tudo."
Vitória cruzou os braços.
"Um mês atrás."
Helena sentiu o coração acelerar.
"Quando apareceu aquele envelope na minha porta?"
Vitória não percebeu a mudança em sua respiração.
"Sim."
Helena fingiu confusão.
"Eu achei que fosse de Gabriel."
"Gabriel nem sabia."
"Então foi você?"
Vitória sorriu.
"Claro que fui eu."
A frase entrou limpa na transmissão.
Helena quase sentiu o peso dela.
Na portaria do prédio onde morava, a câmera havia registrado apenas uma pessoa deixando o envelope.
Boné.
Máscara.
Óculos.
Nenhuma identificação.
Mas o pacote fora manuseado sem luvas antes de ser colocado numa sacola plástica.
As digitais encontradas na aba interna haviam sido parcialmente preservadas.
A investigação ainda não tinha uma comparação oficial.
Agora talvez tivesse.
Helena manteve a expressão frágil.
"R$ 50 mil."
Vitória deu de ombros.
"Era mais do que suficiente."
"Para quê?"
"Para você desaparecer."
"Da vida de Gabriel?"
"Da nossa vida."
Helena ficou em silêncio.
Vitória se aproximou.
"Você deveria ter comprado outro apartamento. Mudado de bairro. Viajado. Feito qualquer coisa que pessoas como você fazem quando recebem dinheiro de verdade."
Helena levantou os olhos.
"R$ 50 mil é dinheiro de verdade para você?"
Vitória soltou uma gargalhada.
"Para mim, não."
"Para mim deveria ser."
"Exatamente."
"Mas eu devolvi."
"Esse foi seu segundo erro."
Helena lembrou-se do envelope intacto sendo entregue à promotora Lívia Sampaio.
Lembrou-se das fotografias.
Das luvas.
Do laudo preliminar.
Vitória não fazia ideia.
"Você ficou com raiva?"
"Fiquei irritada."
"Por isso mandou Rogério atrás de mim?"
Vitória apertou os lábios.
Helena percebeu que havia avançado rápido demais.
Baixou os olhos novamente.
"Desculpa."
Vitória franziu o cenho.
"Por quê?"
"Eu estou tentando entender."
"Então entenda uma coisa simples."
Vitória se aproximou até ficar diante dela.
"Quando alguém oferece uma saída, você aceita."
Helena assentiu devagar.
"Eu achei que Gabriel me amava."
Vitória revirou os olhos.
"Isso de novo."
"Ele dizia."
"Homens dizem muitas coisas."
"Ele falou em casamento."
A expressão de Vitória endureceu.
Helena percebeu.
"Ele falou?"
"Falou."
"Quando?"
"Isso importa?"
"Não."
Vitória respirou fundo.
"Não importa mais."
Helena deixou uma lágrima se formar nos olhos.
Não precisou forçar muito.
A dor no braço ajudava.
"Ele vai se casar com Lavínia hoje?"
Vitória olhou para o relógio.
"O anúncio deve começar em menos de duas horas."
"Ele concordou?"
"É o que a família precisa."
"Então ele não escolheu."
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