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"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 16

正文开头

O analista continuou escrevendo.

"E o segundo maior risco?"

"Grupo Valença."

A resposta surpreendeu até Camila.

"Seu principal cliente?"

"Exatamente."

Helena abriu a planilha.

"Hoje eles representam uma parte grande demais da receita."

"Isso não é positivo?"

"É positivo até o dia em que deixa de ser."

Ela marcou uma linha.

"Se um cliente tem poder demais sobre seu faturamento, ele pode ter poder demais sobre suas decisões."

O analista perguntou:

"Ricardo Valença sabe que você pensa assim?"

Helena respondeu:

"Vai saber quando ler o relatório."

Ricardo soube três dias depois.

E riu.

Estava sentado diante dela numa sala do próprio grupo.

"Então eu sou um risco."

"O Grupo Valença é."

"Eu quase fiquei ofendido."

"Quase?"

"Depois lembrei que você está certa."

Helena colocou o relatório sobre a mesa.

"A empresa precisa vender para outros clientes."

"Concordo."

"Hotéis menores."

"Sim."

"Cafeterias."

"Sim."

"Empresas."

"Sim."

"E talvez varejo mais para frente."

Ricardo apontou para a página.

"Isso aumenta seu valor."

"Não estou fazendo para aumentar valor."

"Então por quê?"

"Para poder dizer não."

Ricardo ficou quieto.

Helena continuou.

"Empresa saudável precisa sobreviver à perda de um cliente."

"E você quer sobreviver à perda do meu grupo."

"Quero sobreviver à perda de qualquer grupo."

Ricardo sorriu.

"Perfeito."

Helena estreitou os olhos.

"Você está feliz demais com a ideia de deixar de ser indispensável."

"Porque eu nunca quis ser indispensável."

A resposta fez Helena parar por um instante.

O relatório final chegou numa sexta-feira.

Helena abriu sozinha.

Leu cada página.

Depois chamou Camila.

A avaliação era maior do que ela havia imaginado.

Não por causa apenas da receita atual.

A Mesa da Lena tinha crescimento consistente.

Baixo endividamento.

Margem preservada.

Produto reconhecível.

História de marca.

Contratos recorrentes.

E, acima de tudo, capacidade de expansão ainda não totalmente explorada.

Camila observou o rosto dela.

"Esperava menos?"

"Sim."

"Ficou feliz?"

Helena ficou olhando para o número.

"Fiquei desconfiada."

Camila começou a rir.

"Helena."

"O quê?"

"Você pode ficar feliz por cinco minutos."

"Depois."

"Quando?"

"Depois de negociar."

A reunião com Ricardo aconteceu na segunda-feira.

Dessa vez, Helena não estava apenas com Camila.

Tinha contratado um advogado societário independente, Dr. Felipe Martins.

Felipe tinha quarenta e dois anos, falava pouco e fazia muitas perguntas.

Antes da reunião, perguntou a Helena:

"Qual é sua prioridade?"

"Controle."

"Retorno?"

"Depois."

"Crescimento?"

"Depois."

"Liquidez?"

"Depois."

Felipe fechou a caneta.

"Então escrevemos tudo a partir disso."

Quando Ricardo entrou, percebeu imediatamente.

"Você trouxe reforço."

Helena respondeu:

"Trouxe meu advogado."

"Ótimo."

Felipe apertou a mão de Ricardo.

"Quero deixar uma coisa clara."

Ricardo sentou.

"Pode falar."

"Mesmo que o investimento aumente."

Helena colocou o relatório no centro da mesa.

"Mesmo que a empresa cresça."

Ela abriu a minuta.

"Mesmo que exista nova rodada."

Olhou diretamente para Ricardo.

"Eu continuo sendo a dona."

Ricardo não hesitou.

"Sim."

Helena continuou:

"Controle societário comigo."

"Sim."

"Maioria das quotas."

"Sim."

"Decisão final sobre marca."

"Sim."

"Receitas."

正文1

"Sim."

"Produto."

"Sim."

"Expansão."

Ricardo levantou uma mão.

"Expansão com governança."

Helena arqueou a sobrancelha.

Felipe quase sorriu.

Ricardo explicou:

"Se eu colocar capital, quero direito de informação e participação em decisões extraordinárias."

"Participação não é veto geral."

"Concordo."

"Nem controle operacional."

"Concordo."

"Nem direito de usar meu nome sem autorização."

"Concordo."

"Nem direito sobre as receitas fora da empresa."

Ricardo parou.

"Isso precisa ser definido."

Felipe entrou na conversa.

"Precisamos separar propriedade intelectual pessoal preexistente e ativos licenciados à sociedade."

Ricardo assentiu.

"Faz sentido."

Helena olhou para ele.

"Minha mãe criou essas receitas antes da empresa."

"Eu sei."

"Então elas não entram simplesmente como propriedade do investidor."

"Eu não pedi isso."

"Estou garantindo que nunca precise discutir depois."

Ricardo sorriu.

"É por isso que estou aqui."

A negociação durou três horas.

Depois mais duas reuniões.

Depois uma semana de revisões.

Ricardo aceitou reduzir a participação inicialmente proposta.

Helena aceitou metas de governança.

Foi criado conselho consultivo.

Acordaram regras para novas rodadas.

Direitos de preferência.

Limites de endividamento.

Política de distribuição.

Proteção da marca.

Uso de imagem.

Saída de sócios.

Felipe questionou cada cláusula.

Camila revisou as partes ligadas à marca.

Helena leu tudo.

Na última reunião, Ricardo colocou a caneta sobre a mesa.

"Mais alguma coisa?"

Helena folheou a versão final.

"Sim."

Ricardo riu.

"Claro."

"Se houver conflito entre expansão rápida e qualidade..."

"Qualidade."

"Quero escrito."

Felipe já estava alterando.

Ricardo perguntou:

"Mais?"

Helena pensou.

"Não."

"Tem certeza?"

"Tenho."

Ricardo assinou primeiro.

Depois passou o documento.

Helena segurou a caneta.

Por um instante, lembrou do falso contrato de Osvaldo.

Da assinatura imitada.

Do documento que tentara tirar dela tudo que construíra.

Agora ninguém estava falsificando nada.

Ninguém escondia página.

Ninguém dizia que ela precisava confiar sem ler.

Ela assinou.

Helena Duarte.

Sócia controladora.

Quando terminou, Ricardo estendeu a mão.

"Parabéns."

Helena apertou.

"Agora pode."

"Demorou."

"Você sobreviveu."

"Por pouco."

Camila fechou a pasta.

Felipe guardou uma cópia.

A reunião terminou.

Ricardo permaneceu.

Helena percebeu.

"Você não vai embora?"

"Agora talvez eu possa fazer uma pergunta que não seja de negócios."

Ela ficou em silêncio.

"Pode."

"Você quer jantar comigo?"

Helena olhou para a porta.

Depois para ele.

"Jantar de reunião?"

"Não."

"Cliente e fornecedora?"

"Não."

"Investidor e sócia?"

"Também não."

Helena cruzou os braços.

"Então qual é a categoria?"

Ricardo sorriu.

"Ricardo e Helena."

Ela ficou quieta.

Durante meses, alguma coisa havia crescido entre eles.

Mas Helena sempre mantivera distância.

Não porque não sentisse.

Porque não queria confundir gratidão com afeto.

Proteção com dependência.

Oportunidade com dívida.

Agora o contrato estava assinado.

A disputa principal estava resolvida.

Ela tinha sua empresa.

Sua advogada.

Seu dinheiro.

Sua casa.

Sua decisão.

Pela primeira vez, podia responder sem sentir que devia alguma coisa.

"Hoje não."

Ricardo assentiu.

"Está bem."

"Quinta-feira."

Ele demorou um segundo.

"Quinta?"

"Às oito."

"Eu busco você."

"Não."

Ricardo sorriu.

"Claro que não."

"Eu encontro você lá."

"Perfeito."

Na quinta-feira, Helena chegou primeiro.

正文2

O restaurante ficava em Pinheiros.

Não era do Grupo Valença.

Ricardo percebeu isso assim que recebeu o endereço.

Quando chegou, ela já estava sentada.

"Você escolheu um lugar onde eu não tenho influência."

"Escolhi um lugar onde o dono nem deve saber quem você é."

"Isso está ficando ofensivo."

"Você aguenta."

O jantar começou estranho.

Nenhum dos dois sabia exatamente como abandonar meses de planilhas, contratos e crises.

Ricardo tentou.

"Qual sua comida favorita?"

Helena ficou olhando.

"Essa é sua primeira pergunta?"

"Estou sem relatório."

"Percebi."

"Então?"

Ela pensou.

"Arroz, feijão, bife acebolado e batata frita."

Ricardo sorriu.

"Finalmente uma informação não estratégica."

"E a sua?"

"Moqueca."

"Baiana?"

"Capixaba."

Helena fez uma expressão séria.

"Isso pode acabar com a relação antes de começar."

Ricardo riu.

Foi a primeira noite em que Helena o ouviu rir sem que houvesse incêndio, processo, fornecedor ou contrato em volta.

Não falaram de Osvaldo.

Quase não falaram de empresa.

No fim, cada um pagou a própria parte.

Ricardo não discutiu.

Quando saíram, ele perguntou:

"Posso acompanhar você até o carro?"

"Pode."

Na calçada, ficaram alguns segundos sem saber o que fazer.

Ricardo não avançou.

Helena percebeu.

Aquele cuidado importava.

Ela se aproximou primeiro.

O beijo foi curto.

Sem promessa.

Sem resgate.

Sem dívida.

Quando se afastaram, Ricardo sorriu.

"Quinta-feira que vem?"

Helena respondeu:

"Depende."

"De quê?"

"Do seu desempenho."

"Então estou sendo avaliado."

"Você já devia estar acostumado."

Os meses seguintes passaram em velocidade.

A Mesa da Lena entrou em mais quatro unidades do Grupo Valença.

Três viraram sete.

Helena contratou um gerente de produção.

Rosana passou a coordenar turnos.

Patrícia assumiu controle de uma linha.

Daniela ficou responsável por qualidade e registros.

Helena começou a sair da bancada.

Não completamente.

Mas o suficiente.

Depois vieram outros clientes.

Uma rede regional de cafeterias.

Dois centros empresariais.

Uma empresa de eventos.

Uma pequena rede de mercados premium.

A dependência do Grupo Valença caiu.

Helena comemorou mais esse número do que o crescimento do faturamento.

"Agora vocês representam menos da metade."

Disse a Ricardo.

Ele levantou uma taça.

"Finalmente estou perdendo importância."

"Como cliente."

"Obrigado pelo esclarecimento."

Sete hotéis viraram quinze.

Quinze unidades espalhadas por São Paulo.

Depois Campinas.

Santos.

Ribeirão Preto.

Curitiba entrou em teste.

Belo Horizonte pediu amostras.

A produção precisou de um segundo turno.

Helena recusou duas expansões porque não havia capacidade.

Aceitou uma terceira depois de comprar novos equipamentos.

Quando chegaram a vinte unidades, Ricardo mandou apenas uma mensagem.

"Vai comemorar?"

Helena respondeu:

"Quando chegar a vinte e sete."

Três meses depois, chegou.

Vinte e sete cafés recebiam produtos da Mesa da Lena.

Nem todos pertenciam ao Grupo Valença.

Era exatamente como ela queria.

Numa manhã de segunda-feira, Camila entrou na sala de Helena com uma notícia.

"Tenho uma coisa que você vai querer ver."

Helena levantou os olhos do computador.

"Processo?"

"Não."

"Osvaldo?"

"Não."

"Vinícius?"

Camila sorriu.

"Indiretamente."

Abriu um anúncio.

Era um imóvel comercial em Pinheiros.

Helena reconheceu.

O antigo espaço de apresentação da Braga Distribuidora Gourmet.

O lugar onde Vinícius recebia clientes importantes.

O mesmo salão que aparecia em fotografias de lançamentos e reuniões.

"Está para locação."

"Eu vi."

"Liquidação empresarial?"

"Parte da reorganização e venda de ativos."

Helena ficou olhando.

"Quanto?"

Camila mostrou.

Helena assobiou.

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