"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 15
Primeiro vieram cortes.
Depois a venda de veículos.
Depois atraso com fornecedores.
O homem que tentara usar Helena como atalho para entrar no Grupo Valença terminou lutando para manter os próprios clientes.
Mas o momento que mais pesou para Helena aconteceu numa sala muito menor.
Não havia imprensa.
Não havia câmera.
Não havia festa.
Camila colocou uma decisão sobre a mesa.
"Está confirmado."
Helena leu.
A decisão reconhecia a titularidade dos ativos comerciais deixados por Teresa.
O carrinho.
Os utensílios remanescentes.
Os registros.
Os cadernos.
As receitas dentro do conjunto protegido pelos documentos apresentados.
Os direitos patrimoniais reconhecidos no inventário.
Tudo destinado à única herdeira.
Helena Duarte.
Ela passou os olhos pela página.
"Então acabou essa parte."
"Sim."
"Ele não pode mais dizer que era dele."
"Pode dizer."
Camila sorriu de leve.
"Só não vai ter um documento sério para sustentar."
Helena quase sorriu também.
"Já é bastante."
Havia ainda outro valor.
Parte dos ganhos obtidos com as vendas indevidas seria revertida no acordo civil.
Não era tudo.
Nunca seria.
Mas era dinheiro gerado a partir daquilo que tentaram tomar dela.
Dinheiro que agora retornava.
Quando a primeira parcela entrou na conta da Mesa da Lena, Helena ficou olhando o saldo.
R$ 92 mil tinha sido o primeiro valor que mudara sua percepção de futuro.
Aquilo agora era diferente.
Não parecia conquista.
Parecia devolução.
Ricardo descobriu dias depois que Helena recebera os primeiros valores.
Encontrou-a na cozinha.
"Vai comemorar?"
"Vou."
"Como?"
"Assinando um contrato."
Ele riu.
"Claro."
"Por que está rindo?"
"Porque eu imaginei exatamente essa resposta."
Helena mostrou o celular.
Na tela havia fotografias de uma cozinha industrial.
Maior.
Regularizada.
Com câmara fria.
Dois fornos profissionais.
Área separada para embalagem.
Estoque adequado.
"Bom Retiro?"
"Sim."
"Vai comprar?"
"Alugar."
"Por quê?"
"Não quero imobilizar caixa agora."
Ricardo olhou para ela.
"Faz sentido."
"Eu sei."
"Você não precisa parecer tão satisfeita quando diz isso."
"Preciso um pouco."
Ela assinou o contrato uma semana depois.
Não havia lustre.
Não havia apartamento de luxo.
Não havia carro novo.
O dinheiro que poderia ter virado símbolo virou estrutura.
A nova cozinha permitia dobrar produção sem sacrificar qualidade.
Helena contratou mais funcionários.
Entre as candidatas, duas chamaram sua atenção.
Patrícia Moreira tinha trinta e quatro anos.
Passara anos sem trabalhar formalmente porque o ex-marido não permitia.
Tinha experiência em padaria.
Mas nenhum registro recente.
Ela chegou à entrevista segurando a bolsa com as duas mãos.
"Eu sei que meu currículo tem um buraco."
Helena respondeu:
"Eu vi."
"Posso explicar."
"Não precisa explicar o que não altera sua capacidade."
Patrícia ficou sem resposta.
Helena apontou para a ficha técnica.
"Quero saber se você consegue trabalhar com pesagem exata."
"Consigo."
"E controle de temperatura?"
"Consigo."
"E organização de bancada?"
Patrícia respondeu imediatamente.
"Se a bancada estiver errada, a produção inteira começa errada."
Helena sorriu.
"Boa resposta."
A segunda era Daniela Cruz.
Quarenta anos.
Tinha trabalhado com alimentação antes de passar anos dependendo financeiramente do companheiro.
Saíra de casa havia pouco tempo.
Quando Helena perguntou disponibilidade, Daniela hesitou.
"Eu tenho audiência alguns dias."
"Com antecedência?"
"Sim."
"A gente organiza escala."
Daniela pareceu surpresa.
"Isso não é problema?"
"Problema é faltar sem avisar."
"Eu aviso."
"Então resolvido."
As duas foram contratadas.
No primeiro dia, Rosana as apresentou à equipe.
Helena reuniu todos antes da produção.
Patrícia parecia nervosa.
Daniela também.
Quando os demais se dispersaram, Patrícia ficou.
"Helena."
"Oi."
"Eu soube um pouco da sua história."
Helena permaneceu quieta.
"Queria agradecer."
"Por quê?"
"Por dar oportunidade para mulheres como a gente."
Daniela assentiu.
"Tem lugar que olha para nosso passado e acha que a gente vai dar problema."
Helena respirou fundo.
A frase poderia ter sido recebida como elogio.
Mas havia algo nela que Helena não queria alimentar.
Ela olhou para as duas.
"Eu não estou salvando vocês."
Patrícia ficou surpresa.
Helena continuou.
"Estou contratando profissionais."
Silêncio.
"Vocês passaram por coisas difíceis. Eu também."
Ela apontou para a cozinha.
"Mas ninguém aqui recebe salário por pena."
Daniela ergueu o queixo.
Helena falou:
"Recebe porque trabalha."
Patrícia sorriu devagar.
"Isso eu consigo fazer."
"Ótimo."
Helena entregou dois aventais.
"Então vamos trabalhar."
Naquela tarde, o cheiro de goiabada quente tomou a nova cozinha.
Pela primeira vez, Helena caminhou entre bancadas que não cabiam num carrinho.
Havia espaço.
Havia estoque.
Havia gente.
Havia pedidos.
Ela parou diante de uma parede vazia.
Rosana se aproximou.
"Vai colocar o quê aí?"
"Não sei ainda."
"Uma placa?"
"Talvez."
"Foto da sua mãe?"
Helena olhou para a parede.
"Talvez mais para frente."
O celular tocou.
Ricardo.
"Você está ocupada?"
"Estou."
"Ótimo."
"Por quê?"
"Porque preciso marcar uma reunião."
Helena franziu a testa.
"Sobre o contrato dos hotéis?"
"Não."
"Novo ponto?"
"Não."
"Então fala."
"Prefiro mostrar."
Helena soltou um suspiro.
"Isso parece suspense de executivo."
"É porque você não deixa ninguém ter um pouco de dramaticidade."
"Depois de tudo que aconteceu, meu limite acabou."
Ricardo riu.
"Quarenta minutos."
"Tenho produção."
"Às sete."
Helena olhou para a agenda.
"Às sete."
Ricardo chegou pontualmente.
Não trouxe flores.
Não trouxe champanhe.
Não trouxe presente.
Carregava uma pasta.
Helena percebeu assim que viu.
"Mais contrato?"
"Possivelmente."
Ela apontou para a sala pequena ao lado da cozinha.
"Entra."
Ricardo colocou a pasta sobre a mesa.
Helena sentou diante dele.
"É sobre expansão?"
"Sim."
"Mais hotéis?"
"Também pode ser."
"Então?"
Ricardo girou a pasta.
Na capa havia um documento preparado por assessoria financeira.
Helena leu o título.
PROPOSTA DE INVESTIMENTO.
Ela levantou os olhos.
"Você quer investir na Mesa da Lena."
"Quero."
"Como pessoa física?"
"Por uma holding de investimento."
"Quanto?"
"Está na proposta."
"Por qual participação?"
"Também."
Helena abriu.
Ricardo esperou.
Ela leu a primeira página.
Depois a segunda.
Não houve sorriso.
Não houve surpresa romântica.
Não houve agradecimento.
Na terceira página, pegou uma caneta.
Fez uma anotação.
Ricardo começou a rir.
Helena ergueu os olhos.
"O que foi?"
"Nada."
"Você está rindo."
"Estou."
"Por quê?"
"Porque eu trouxe uma proposta de investimento e você já está corrigindo."
Helena voltou ao documento.
"Tem uma premissa de crescimento aqui que eu acho otimista."
"Eu sabia."
"E essa projeção de margem não considera uma possível expansão da cozinha."
"Podemos ajustar."
"Também quero avaliação independente."
"Claro."
"Meu advogado revisa."
"Com certeza."
"Camila escolhe o escritório."
"Sem problema."
Helena fechou a pasta.
Ricardo observou.
"Então?"
Ela segurou o documento entre as mãos.
Dezoito meses antes, talvez tivesse pedido permissão para ler.
Oito meses antes, teria escondido.
Semanas antes, teria perguntado se Ricardo realmente acreditava nela.
Agora nenhuma dessas perguntas importava.
Ela sabia quanto trabalhava.
Sabia quanto a empresa vendia.
Sabia quanto custava produzir.
Sabia o que possuía.
E, acima de tudo, sabia o que não estava disposta a entregar.
Helena colocou a proposta de volta sobre a mesa.
"Então vamos falar de avaliação."
Ricardo sorriu.
Não porque tivesse vencido uma negociação.
Mas porque percebeu que, diante dele, já não estava a mulher que precisava olhar para uma caminhonete do outro lado da rua antes de decidir quanto do próprio dinheiro podia guardar.
Agora, antes de aceitar qualquer centavo, Helena Duarte queria saber exatamente quanto valia o que era dela.
Parte 10 — Eu Continuo Sendo a Dona
Helena não assinou a proposta de Ricardo naquele dia.
Também não assinou na semana seguinte.
A pasta permaneceu fechada sobre a mesa do pequeno escritório da nova cozinha durante dois dias inteiros antes que ela voltasse a abri-la.
Não porque estivesse em dúvida sobre o dinheiro.
Estava em dúvida sobre o preço do dinheiro.
Na terceira manhã, Camila chegou com duas indicações de empresas especializadas em avaliação de negócios.
Helena já tinha pesquisado uma terceira.
"Quero alguém que nunca tenha trabalhado para o Grupo Valença."
Camila colocou a bolsa sobre a cadeira.
"Eu imaginei."
"E que não tenha ligação com a holding do Ricardo."
"Também imaginei."
Helena empurrou uma folha.
"Consegui três propostas."
Camila leu.
"Você fez isso ontem à noite?"
"Depois da produção."
"Você dorme?"
"Às vezes."
Camila sorriu.
"Qual delas você prefere?"
"Essa."
Helena apontou para a empresa menor.
"Por quê?"
"Não prometeu o maior valor."
Camila levantou os olhos.
"Interessante."
"As outras duas tentaram me agradar."
"Como?"
"Uma falou em potencial extraordinário antes de ver os números."
Helena cruzou os braços.
"A outra disse que investidores estratégicos costumam aceitar prêmio de marca."
"E isso incomodou?"
"Antes de saber quanto a marca realmente vende? Sim."
Camila assentiu.
"Então usamos a terceira."
"Quero avaliação de verdade."
"Mesmo que venha menor do que você espera?"
Helena respondeu sem hesitar:
"Principalmente se vier menor."
Duas semanas depois, três analistas entraram na Mesa da Lena.
Pediram faturamento.
Custos.
Margem.
Contratos.
Capacidade produtiva.
Taxa de recompra.
Dependência de clientes.
Risco de concentração.
Valor da marca.
Projeções de expansão.
Helena entregou tudo.
Não escondeu problema.
Não aumentou resultado.
Quando um analista perguntou qual era o maior risco atual da empresa, ela respondeu:
"Eu."
O homem ergueu os olhos.
"Você?"
"A operação ainda depende demais de mim."
Ele anotou.
"Produção?"
"Menos do que antes."
"Comercial?"
"Mais."
"Receita?"
"Controle final."
"Qualidade?"
"Também."
Helena apontou para Rosana, do outro lado da cozinha.
"Estou formando pessoas para que isso deixe de acontecer."
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