"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 12
"Não interessa."
"Uma dívida de quase vinte e sete mil reais."
Helena deu mais um passo.
"E um empréstimo empresarial de setenta e quatro mil."
Osvaldo começou a respirar mais rápido.
"Fecha a boca."
"O dinheiro saiu de uma empresa ligada a você."
"Helena."
"E foi para sua conta."
"Eu mandei fechar a boca."
A voz ecoou pelo salão.
Por um instante, Helena voltou a sentir o mesmo frio de todos aqueles anos.
A lavanderia.
O cinto.
A caminhonete do outro lado da rua.
A mão segurando seu braço.
A voz dizendo que tudo era dele.
Mas, dessa vez, havia gente olhando.
E ela não tinha de esconder.
"Não."
Osvaldo avançou.
Ricardo deu um passo.
Helena ergueu a mão sem olhar para ele.
Ricardo parou.
Osvaldo chegou perto.
"Você acha que ganhou?"
"Não."
"Você acha que esses papéis mudam quem você é?"
Helena respondeu:
"Mudam quem você consegue fingir que é."
Ele perdeu o controle.
Segurou o pulso dela.
Com força.
"Osvaldo."
Camila avançou.
Ele ignorou.
Apertou mais.
"Diz para eles que você assinou!"
Helena sentiu a dor subir pelo braço.
"Diz!"
"Diz que me passou a empresa!"
Os jornalistas recuaram.
Uma câmera continuou filmando.
Ricardo avançou outra vez.
Helena puxou o braço.
Osvaldo não soltou.
Então ela girou o pulso com força e conseguiu se libertar.
Deu dois passos para trás.
Osvaldo apontou para ela.
"Mentira!"
Helena não respondeu.
Olhou para a marca vermelha que começava a surgir no pulso.
Depois levou a mão à manga.
Subiu o tecido devagar.
No antebraço havia marcas antigas.
Algumas já quase apagadas.
Outras ainda visíveis.
Osvaldo parou.
Helena levantou a manga um pouco mais.
"Essas fotografias já estão registradas."
O salão inteiro ficou quieto.
"Datas."
Ela respirou fundo.
"Horários."
A voz não tremia.
"Relatos."
Osvaldo tentou rir.
"Você sempre se machucou sozinha."
Helena olhou diretamente para ele.
"Você me ensinou a ficar em silêncio."
Ninguém se mexeu.
Ela baixou lentamente a manga.
"Só esqueceu de me ensinar a me render."
O rosto de Osvaldo se deformou de raiva.
Ele deu um passo à frente.
Ricardo se posicionou entre os dois.
Dessa vez Helena não o impediu.
Não porque precisasse ser salva.
Mas porque já tinha dito o que precisava dizer.
Vinícius começou a se afastar da mesa.
Camila percebeu.
"Senhor Vinícius."
Ele parou.
"Não saia."
"Você não manda em mim."
"Não."
Camila olhou para a porta.
"Mas talvez alguém queira conversar com o senhor."
As portas do salão se abriram novamente.
Desta vez, ninguém precisou perguntar quem estava entrando.
Delegado André Farias atravessou o salão acompanhado por dois policiais civis.
Atrás deles vieram mais dois agentes.
As conversas desapareceram.
Osvaldo olhou para Helena.
Depois para André.
Então abriu um sorriso debochado.
"É isso?"
André continuou caminhando.
Osvaldo soltou uma risada.
"Ela chamou a polícia para me assustar?"
André parou diante dele.
Retirou um documento de uma pasta.
"Não."
O sorriso de Osvaldo diminuiu.
André abriu a folha.
"Eu trouxe um mandado."
Parte 8 — Algemas
O salão inteiro ficou em silêncio.
Osvaldo olhou para o documento nas mãos do delegado André Farias.
Por um segundo, ainda tentou sorrir.
"Mandado de quê?"
André não respondeu imediatamente.
Abriu a folha.
Conferiu o nome.
Depois ergueu os olhos.
"Osvaldo Duarte."
O rosto dele endureceu.
"Sou eu."
"Mandado de prisão preventiva."
Vinícius deu um passo para trás.
Osvaldo não.
Ainda parecia convencido de que tudo aquilo fazia parte de uma encenação montada por Helena.
"Por causa dessa palhaçada?"
Ele apontou para as pastas sobre a mesa.
"Por causa de uma briga de família?"
André fechou o documento.
"Não."
A resposta foi curta.
Fria.
"Por causa de uma investigação criminal."
As câmeras voltaram a se mover.
Alguns convidados levantaram os celulares.
Camila se aproximou de Helena.
Falou baixo.
"Fica aqui."
Helena assentiu.
Osvaldo olhou ao redor.
"Investigação de quê?"
André respondeu:
"Fraude de identidade."
O sorriso desapareceu um pouco.
"Falsificação documental."
Osvaldo apertou os maxilares.
"Contratação de crédito com documentos de terceiro."
Mais um passo dos policiais.
"E indícios relacionados ao incêndio do carrinho pertencente a Helena Duarte."
Osvaldo finalmente perdeu o controle.
"Mentira!"
Sua voz explodiu no salão.
"Isso é mentira!"
André não mudou de expressão.
"O mandado foi expedido hoje pela manhã."
Helena levantou os olhos.
Hoje pela manhã.
Então não tinha sido o espetáculo daquela noite.
Não tinha sido o vídeo.
Não tinha sido a discussão diante das câmeras.
Aquilo já estava em andamento antes de ela entrar no salão.
Osvaldo olhou para Helena.
"Você fez isso."
Ela não respondeu.
"Você fez isso!"
André deu um passo para o lado.
"Senhor Osvaldo, coloque as mãos para trás."
Ele riu.
Dessa vez, o som saiu estranho.
Seco.
"Vocês vão me prender porque uma menina mimada ficou rica?"
"Coloque as mãos para trás."
"Eu criei essa menina!"
André continuou parado.
"Último aviso."
Osvaldo apontou para Helena.
"Tudo que ela tem saiu da minha casa!"
Helena sentiu o coração bater mais forte.
Osvaldo se virou para os convidados.
"Vocês estão ouvindo?"
Ninguém respondeu.
"Eu dei comida!"
Ele apontou para o caderno azul.
"Eu paguei aquilo!"
Helena sentiu uma pontada no peito.
Mas não recuou.
Osvaldo avançou um passo.
"Essa empresa é minha!"
Um dos policiais se aproximou.
Osvaldo levantou a voz.
"Tudo isso é meu!"
A frase ecoou.
Helena já tinha ouvido versões dela durante oito anos.
A casa era dele.
O carrinho era dele.
O dinheiro era dele.
O trabalho dela era dele.
Até a memória de Teresa ele tentara transformar em propriedade.
Agora repetia a mesma frase diante de policiais.
"Tudo isso é meu!"
O agente segurou o braço dele.
Osvaldo tentou puxar.
"Solta!"
O segundo policial se aproximou.
André falou com firmeza:
"Não dificulte."
"Eu não fiz nada!"
As mãos de Osvaldo foram levadas para trás.
O primeiro clique das algemas pareceu alto demais.
Helena sentiu o corpo inteiro ficar imóvel.
O segundo clique veio em seguida.
Por anos, quando ouvia uma porta sendo trancada, ela sabia que perdera a liberdade.
A lavanderia.
O quarto.
A casa.
Agora era outra pessoa sendo impedida de sair.
Osvaldo se debateu.
"Helena!"
Ela não respondeu.
"Olha para mim!"
Helena olhou.
Ele parecia menor.
Não fisicamente.
Mas toda aquela autoridade que construíra dentro de casa tinha desaparecido.
Ninguém ali obedecia à voz dele.
Ninguém baixava a cabeça.
Ninguém entregava dinheiro.
"Você vai se arrepender."
André interrompeu.
"Não ameace."
"Ela é minha filha."
Helena respondeu pela primeira vez:
"Não."
Osvaldo parou.
Ela continuou.
"Eu nunca fui sua."
O salão ficou quieto outra vez.
Osvaldo respirava com força.
"Você não teria nada sem mim."
Helena olhou para as algemas.
Depois para ele.
"Talvez."
Fez uma pausa.
"Mas eu quase não tive nada por sua causa."
Os policiais começaram a conduzi-lo.
Osvaldo ainda tentou virar o corpo.
"Ricardo comprou você!"
Helena não respondeu.
"Essa advogada encheu sua cabeça!"
Silêncio.
"Você vai perder tudo!"
A porta se aproximava.
"Helena!"
Ela ficou parada.
Não sorriu.
Não levantou o queixo em triunfo.
Não sentiu a explosão de felicidade que imaginara tantas vezes.
Sentiu outra coisa.
Alívio.
Um alívio tão profundo que quase parecia dor.
Como se alguém tivesse finalmente aberto uma porta que estivera fechada por oito anos.
Osvaldo atravessou a saída ainda gritando.
As portas se fecharam.
Por alguns segundos, Helena continuou olhando para elas.
Ricardo se aproximou.
"Você está bem?"
Helena demorou a responder.
"Não sei."
Ele assentiu.
Não tentou tocar nela.
Camila entregou um copo de água.
Helena bebeu.
As mãos tremiam.
"Eu achei que ia sentir alguma coisa diferente."
Camila perguntou:
"Como o quê?"
"Vitória."
"Talvez venha depois."
Helena olhou para a porta.
"Eu só estou cansada."
"Isso também faz sentido."
Do outro lado do salão, Vinícius tentava sair.
André voltou antes que ele chegasse à porta.
"Senhor Vinícius Braga."
Ele parou.
"Eu não tenho nada a ver com o que aquele homem fez."
André se aproximou.
"Não estou prendendo o senhor."
Vinícius soltou o ar.
"Ótimo."
"Mas o senhor será intimado."
A respiração dele travou outra vez.
"Para quê?"
"Prestar esclarecimentos."
"Sobre o contrato?"
"Sobre o que o senhor sabia."
Vinícius olhou para Camila.
Depois para Helena.
"Eu fui enganado."
Helena não disse nada.
"Ele mentiu para mim."
Camila respondeu:
"Isso o senhor pode explicar formalmente."
Vinícius apertou os lábios.
André continuou:
"E sugiro que preserve todos os registros da sua empresa."
Vinícius ficou pálido.
"Registros?"
"Mensagens. E-mails. Notas. Contratos. Arquivos de produção."
"Claro."
André o encarou.
"Qualquer tentativa de apagar informação pode piorar sua situação."
Vinícius assentiu.
Não parecia mais o homem que, horas antes, brindava diante do palco.
O evento acabou sem anúncio formal.
Os convidados foram embora aos poucos.
A agência começou a recolher material.
As caixas da Tradição Duarte continuaram sobre as mesas.
Ninguém mais queria fotografá-las.
Helena pegou o caderno azul.
Fechou a capa.
Ricardo observou.
"Quer que eu leve você para casa?"
"Não."
Ele assentiu.
"Vai de carro por aplicativo?"
"Camila vai comigo."
"Está bem."
Helena percebeu que ele queria dizer mais alguma coisa.
"Fala."
Ricardo hesitou.
"Você fez tudo isso sem usar meu nome."
Ela olhou para ele.
"Eu sei."
"Eu só queria que você percebesse."
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