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"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 9

正文开头

Ricardo franziu a testa.

"Você não está sozinha. Você tem advogada."

"Que eu contratei."

"Tem perito."

"Que eu pago."

"Tem clientes."

"Porque meu produto vende."

Ela respirou fundo.

"Eu aceito que o Grupo Valença faça o que qualquer cliente faria."

"Que é?"

"Entregar documentos do contrato. Confirmar datas. Fornecer dados de venda se houver ordem judicial. Defender seus próprios interesses."

"E mais?"

"Nada."

Ricardo passou a mão pelo rosto.

"Você é teimosa."

"Eu sei."

"Isso não é elogio."

"Também sei."

Ele olhou para Camila.

A advogada não interferiu.

Ricardo voltou para Helena.

"Está bem."

Ela relaxou um pouco.

"Mas se essa ação ameaçar nossa operação, meu jurídico entra na parte que pertence ao grupo."

"Justo."

"E você não vai chamar isso de favor."

"Não vou."

"Ótimo."

Ricardo pegou o paletó.

Antes de sair, olhou para Helena.

"Eu não acho que você precise do meu nome para vencer."

Helena não respondeu.

Mas guardou a frase.

Naquela noite, Camila ficou no escritório até tarde.

Helena também.

As duas comparavam documentos.

Inventário.

Registro da empresa.

Pedido de marca.

Contratos de fornecimento.

Extratos.

Assinaturas antigas.

O suposto instrumento de cessão estava no centro da mesa.

"Vamos pedir perícia grafotécnica."

Camila disse.

"Demora?"

"Pode demorar."

"Não temos tempo."

"Eu sei."

Helena se levantou para buscar café.

Quando voltou, Camila ainda encarava o documento.

Sem piscar.

"Encontrou alguma coisa?"

Nenhuma resposta.

"Camila?"

A advogada puxou o papel para mais perto.

Depois pegou o certificado de constituição da Mesa da Lena.

Colocou um ao lado do outro.

Leu uma data.

Depois a outra.

E, de repente, começou a rir.

Helena franziu a testa.

"O que foi?"

Camila levantou os olhos.

"Helena... eles cometeram um erro."

Ela virou os documentos.

Apontou para a data da suposta cessão.

Depois para a data oficial de abertura da empresa.

Helena demorou alguns segundos.

Então entendeu.

O contrato falso afirmava que ela havia transferido a Osvaldo os direitos da Mesa da Lena Alimentos Ltda.

Só havia um problema.

Na data impressa naquele documento, a Mesa da Lena Alimentos Ltda. ainda não existia.

Parte 6 — A Assinatura Falsa

Helena continuou olhando para a data.

Depois olhou para Camila.

Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada.

O documento falso estava aberto sobre a mesa, ao lado do certificado oficial de constituição da Mesa da Lena Alimentos Ltda.

Camila foi a primeira a falar.

"Eles fizeram a empresa existir antes de ela existir."

Helena puxou a folha para mais perto.

A cessão dizia que, naquela data, ela havia transferido a Osvaldo os direitos comerciais da Mesa da Lena Alimentos Ltda., incluindo marca, receitas, produção e exploração econômica.

Só que o CNPJ havia sido registrado semanas depois.

"Isso derruba tudo?"

Camila apoiou as costas na cadeira.

"Ajuda muito."

"Mas não derruba sozinho."

"Não."

Helena esperava aquela resposta.

Já começava a aprender que nenhuma prova resolvia tudo sozinha.

Era sempre uma soma.

Datas.

Assinaturas.

Mensagens.

正文1

Movimentações.

Testemunhas.

Contradições.

Camila apontou para o documento.

"Isso enfraquece a narrativa deles. Também reforça nossa tese de falsificação."

Helena passou o dedo pela assinatura falsa.

"Então mostramos agora."

Camila não respondeu imediatamente.

Helena percebeu.

"O que foi?"

"Eu estava pensando justamente no contrário."

Helena franziu a testa.

"Não mostrar?"

"Ainda não."

O silêncio voltou.

Helena se levantou.

"Explica."

Camila pegou uma caneta.

"Hoje temos uma falsificação."

"Sim."

"Temos um documento possivelmente fraudulento sendo usado numa ação judicial."

"Sim."

"Temos um pedido de indenização."

"Sim."

Camila fez uma pausa.

"Mas se eles acreditarem que você não encontrou o erro..."

Helena começou a entender.

"...eles continuam."

"Exatamente."

Helena voltou a sentar.

"E quanto mais continuarem..."

"Mais rastros deixam."

Camila puxou uma folha em branco.

"Se Vinícius usar essa cessão para produzir, vender, anunciar, licenciar ou faturar produtos..."

Ela começou a escrever.

"Teremos pedidos."

Outra linha.

"Notas fiscais."

Outra.

"Extratos."

Outra.

"Embalagens."

Outra.

"Clientes."

Outra.

"Publicidade."

Ela levantou os olhos.

"E, principalmente, conhecimento."

Helena ficou em silêncio.

"Conhecimento?"

"Se notificarmos formalmente que os direitos são contestados e ele continuar explorando comercialmente, a posição dele fica pior."

Helena olhou para o documento.

A raiva começou a ceder espaço para outra coisa.

Estratégia.

"Então a gente avisa que contesta."

"Sim."

"Mas não entrega o erro da data."

"Exatamente."

Helena encostou na cadeira.

"Deixa ele achar que eu só estou tentando provar que a assinatura é falsa."

Camila sorriu.

"Agora você está pensando como eu."

Helena balançou a cabeça.

"Isso devia me preocupar."

"Um pouco."

As duas riram.

Foi um riso curto.

Mas necessário.

No dia seguinte, Camila apresentou a defesa inicial.

Contestou a cessão.

Negou a assinatura.

Requereu perícia.

Juntou parte dos documentos de titularidade.

Mas não destacou a inconsistência temporal.

Não ainda.

A resposta de Vinícius veio rápido.

Rápido demais.

Ele interpretou o silêncio como fraqueza.

No escritório da Braga Distribuidora Gourmet, abriu uma garrafa de espumante antes do almoço.

Osvaldo estava sentado diante dele.

"Ela não tem nada."

Vinícius ergueu o copo.

"Eu falei."

Osvaldo parecia menos animado.

"Ela contestou."

"Todo advogado contesta."

"Pediu perícia."

Vinícius bebeu.

"Perícia demora."

"Ela pode descobrir a data."

Vinícius soltou uma risada.

"Qual data?"

Osvaldo ficou em silêncio.

Vinícius estreitou os olhos.

"Tem mais alguma coisa que você não me contou?"

"Não."

"Então para de tremer."

"Eu não estou tremendo."

"Está."

Osvaldo se levantou.

"Você não conhece Helena."

"Você conhece?"

A pergunta irritou Osvaldo.

Vinícius percebeu.

"Porque, pelo que eu estou vendo, ela abriu empresa sem você saber, fechou contrato com hotel sem você saber, saiu da sua casa sem você impedir e agora está te processando."

Osvaldo bateu a mão na mesa.

"Ela só chegou até aqui por causa do Ricardo Valença."

"Ótimo."

Vinícius sorriu.

"Então a gente muda a história."

"Que história?"

"A história pública."

Ele girou o computador.

Na tela havia um arquivo de apresentação.

Fotografias antigas.

Imagens do carrinho.

Uma foto de Teresa.

正文2

Uma foto de Helena adolescente.

Osvaldo ficou olhando.

"Onde conseguiu isso?"

"Internet."

Vinícius abriu outro arquivo.

Título:

A VERDADEIRA RECEITA DA FAMÍLIA DUARTE.

Osvaldo leu duas vezes.

"Vai lançar isso?"

"Vamos lançar."

"Com que produto?"

Vinícius sorriu.

"Com o nosso."

Nas semanas seguintes, a Braga Distribuidora começou a produzir em escala.

Vinícius contratou uma cozinha industrial na Zona Oeste.

Comprou embalagem.

Criou identidade visual.

Mandou desenvolver uma marca semelhante o bastante para provocar associação, mas diferente o bastante para tentar parecer independente.

As caixas diziam:

TRADIÇÃO DUARTE.

RECEITA ORIGINAL DE FAMÍLIA.

Osvaldo aprovava cada detalhe.

"Tem que parecer antiga."

"O quê?"

"A marca."

"Por quê?"

"Porque a história é de família."

Vinícius chamou uma agência.

A agência escreveu textos sobre tradição.

Memória.

Receita de mãe.

Negócio familiar.

Tudo aquilo que Teresa havia construído foi transformado em material promocional por dois homens que nunca tinham produzido uma única empadinha.

Helena viu a primeira embalagem numa fotografia enviada por Camila.

Ficou olhando por alguns segundos.

Depois colocou o celular sobre a mesa.

Rosana estava diante dela.

"Eles copiaram."

"Eu sei."

"Até a goiabada com queijo."

"Eu sei."

"Você não vai fazer nada?"

Helena respirou fundo.

"Já estou fazendo."

"Como?"

"Esperando."

Rosana arregalou os olhos.

"Esperando?"

Helena abriu a geladeira.

"Você lembra quando eu disse que a gente não podia crescer rápido demais?"

"Sim."

"Porque crescer errado deixa rastro de problema."

"Sim."

Helena pegou uma caixa de queijo.

"Vinícius está fazendo o contrário."

Rosana começou a entender.

"Ele está crescendo rápido."

"Rápido demais."

"E você quer que ele continue."

Helena olhou para ela.

"Quero que ele coloque tudo no papel."

Naquela mesma semana, Camila conseguiu cópias de três notas fiscais emitidas pela Braga Distribuidora.

Depois vieram sete.

Depois doze.

Helena começou uma pasta nova.

VINÍCIUS.

Cada documento recebia data.

Cliente.

Quantidade.

Valor.

Produto.

Ela aprendeu a reconhecer o padrão das embalagens.

Aprendeu quais cafés estavam comprando.

Aprendeu quais distribuidores secundários estavam revendendo.

O que mais surpreendia Camila era a calma.

"Você não está com vontade de ligar para ele?"

"Estou."

"E dizer?"

"Que ele está vendendo receita roubada?"

"Sim."

Helena fechou a planilha.

"Mas aí ele para."

Camila sorriu.

"Exatamente."

Enquanto isso, Vinícius ganhava confiança.

Os primeiros pedidos foram pequenos.

Depois vieram caixas maiores.

Um restaurante nos Jardins.

Dois cafés em Moema.

Uma cafeteria perto da Avenida Paulista.

Uma rede pequena com quatro unidades.

Ele começou a enviar amostras para influenciadores.

Osvaldo aparecia nas fotografias.

Sempre sorrindo.

Sempre falando de Teresa.

"Minha falecida esposa criou tudo isso comigo."

Helena assistiu a um dos vídeos no celular.

Osvaldo estava sentado diante de uma mesa decorada com flores.

"Teresa era muito talentosa."

Helena apertou a mandíbula.

"A Helena era menina. Eu ensinei quase tudo o que ela sabe."

Ela parou o vídeo.

Não conseguiu continuar.

Ricardo estava diante dela.

Os dois estavam numa sala pequena de reunião do Grupo Valença.

Ele tinha visto o vídeo também.

"Não assiste."

Helena colocou o celular sobre a mesa.

"Preciso assistir."

"Por quê?"

"Porque ele está construindo narrativa."

"Camila pode ver."

"Eu também."

Ricardo se inclinou.

"Você não precisa se machucar para provar que é forte."

Helena levantou os olhos.

"Eu não estou tentando provar que sou forte."

"Então o que está tentando provar?"

"Que eu consigo terminar."

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