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"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 6

正文开头

Não riu.

Não pareceu confuso.

Não tentou entender.

Ele apenas ficou imóvel.

Os olhos mudaram.

E naquele instante Helena soube.

Ele conhecia o documento.

Sempre conhecera.

"Você sabia", ela sussurrou.

Osvaldo recuperou a expressão.

"Não sei do que está falando."

"Você sabia."

"Está louca."

"Você sabia que minha mãe deixou tudo para mim."

"Helena..."

"Você sabia desde o começo."

Ele avançou.

Ela recuou.

"Me dá a senha."

"Não."

"Você mora na minha casa."

"Não por muito tempo."

Osvaldo apertou os dentes.

"Não sabe viver sem mim."

Helena pegou a bolsa do chão.

"Vamos descobrir."

Ela entrou no quarto e trancou a porta.

Passou a noite sem dormir.

Às quatro e vinte da manhã, saiu de casa.

Precisava chegar cedo à cozinha.

Antes, porém, decidiu passar pelo carrinho.

A rua ainda estava escura.

Quando dobrou a esquina, viu luzes vermelhas refletindo nas fachadas.

Depois veio o cheiro.

Fumaça.

Plástico queimado.

Madeira carbonizada.

Helena começou a correr.

Um caminhão dos bombeiros ocupava parte da rua.

A fita de isolamento cortava a entrada do beco.

Ela parou.

Não conseguiu dar mais um passo.

O carrinho de Teresa estava no centro do beco.

Ou o que restava dele.

As rodas haviam derretido.

A madeira azul virara carvão.

A placa com o nome Mesa da Lena estava caída no chão, partida ao meio.

Helena levou a mão à boca.

Por oito anos, aquele carrinho fora mais do que trabalho.

Era a última coisa que ainda cheirava à mãe.

A última coisa que Teresa tocara todos os dias.

A última lembrança concreta de quando Helena ainda acreditava que a vida podia ser simples.

Agora era uma estrutura preta coberta de cinza.

"Que tragédia."

A voz veio atrás dela.

Helena se virou.

Osvaldo estava parado perto da caminhonete.

Calmo.

Limpo.

Quase satisfeito.

Ela olhou para ele.

Depois para o carrinho.

"Você fez isso."

Osvaldo abriu os braços.

"Está me acusando de quê?"

"Você queimou."

"Tem prova?"

Helena sentiu o estômago se revirar.

Ele se aproximou devagar.

"Coisas ruins acontecem quando a pessoa começa a achar que não precisa mais da família."

Helena fechou os punhos.

Osvaldo baixou a voz.

"Assina a empresa para mim..."

Ele olhou para os restos queimados do carrinho.

Depois sorriu.

"E talvez o seu azar acabe."

Parte 4 — Você Queimou a Coisa Errada

Helena ficou parada diante do que restava do carrinho.

A fumaça ainda subia em fios finos, misturada ao cheiro de madeira queimada, plástico derretido e café antigo.

Osvaldo mantinha o mesmo sorriso.

"Assina a empresa para mim... e talvez o seu azar acabe."

Helena olhou para ele por alguns segundos.

Depois voltou os olhos para a estrutura carbonizada.

A placa azul que Teresa havia pintado com as próprias mãos estava quebrada no chão.

Uma parte do nome ainda podia ser lida.

MESA DA...

O resto havia desaparecido no fogo.

Osvaldo esperou que Helena chorasse.

Esperou que ela implorasse.

Esperou que dissesse que faria qualquer coisa para ter de volta a última coisa que restava da mãe.

正文1

Mas Helena apenas respirou fundo.

"Você queimou a coisa errada."

O sorriso dele diminuiu.

"O quê?"

Helena se virou.

"Você ouviu."

Osvaldo deu um passo na direção dela.

"Não brinca comigo."

"Eu não estou brincando."

Ela apontou para os restos do carrinho.

"Aquilo era importante."

A voz dela falhou por um instante.

"Era da minha mãe. Eu nunca vou fingir que não dói."

Osvaldo sorriu de novo.

"Então assina."

Helena balançou a cabeça.

"Mas você queimou a coisa errada."

A expressão dele endureceu.

Helena continuou.

"As receitas originais não estavam ali."

Silêncio.

"Os documentos do inventário não estavam ali."

Osvaldo não se mexeu.

"Meus registros financeiros também não."

Ela viu o maxilar dele apertar.

"E minhas provas muito menos."

Osvaldo aproximou o rosto.

"Que provas?"

Helena quase sorriu.

Foi naquele instante que ele percebeu o erro.

Ele perguntara rápido demais.

"Não sei", ela respondeu.

"Você me diz."

Osvaldo segurou o braço dela.

"Para de fazer jogo."

Helena olhou para a mão dele.

Depois para o rosto.

"Tem bombeiro a dez metros."

Ele soltou.

Helena ajeitou a manga.

"Está ficando descuidado."

Osvaldo se inclinou.

"Você acha que esse hotelzinho vai proteger você?"

"Não."

"E esse homem?"

"Também não."

"Então quem vai?"

Helena olhou para ele.

"Eu."

Por alguns segundos, Osvaldo pareceu não reconhecer a mulher diante dele.

Era o que Helena queria.

Um dos bombeiros se aproximou.

"Senhora Helena Duarte?"

"Sim."

"Esse carrinho é seu?"

"É."

Osvaldo abriu a boca.

Helena respondeu antes.

"Legalmente, é meu."

O bombeiro anotou.

"Precisamos de algumas informações sobre o incêndio."

"Claro."

Osvaldo interferiu.

"Ela está nervosa. Eu posso responder."

Helena se virou lentamente.

"Não pode."

"Eu conheço o carrinho melhor do que você."

"Não."

Osvaldo ficou vermelho.

O bombeiro percebeu a tensão.

"Senhor, qual é sua relação com a proprietária?"

"Sou padrasto."

"Então vamos falar primeiro com ela."

A palavra proprietária ficou no ar.

Helena sentiu algo estranho ao ouvi-la.

Não era apenas um termo técnico.

Era confirmação.

Pertencia a ela.

Mesmo queimado.

Mesmo destruído.

Ainda era dela.

Osvaldo recuou.

Mas não foi embora.

Ficou perto da caminhonete, observando.

Helena passou quase uma hora respondendo perguntas.

Quando chegou à cozinha compartilhada no Bom Retiro, já era quase sete da manhã.

Rosana veio correndo.

"Meu Deus, Helena."

A notícia já havia circulado entre alguns funcionários.

"Você está bem?"

"Estou."

"E o carrinho?"

Helena deixou a bolsa sobre uma cadeira.

"Acabou."

Rosana levou a mão à boca.

"Foi acidente?"

Helena ficou em silêncio.

Rosana entendeu.

"Você acha que foi ele."

"Eu não acho."

Helena abriu uma gaveta.

Pegou um avental limpo.

"Eu sei."

"Você vai continuar trabalhando?"

"Tenho entrega às oito."

"Helena..."

"Se eu parar hoje, ele ganha."

Ela amarrou o avental.

"E eu não vou dar isso para ele."

Rosana não insistiu.

Naquela manhã, a Mesa da Lena entregou todos os pedidos.

Sem atraso.

Sem produto faltando.

Sem cliente perceber que, poucas horas antes, o coração da empresa havia virado cinza.

正文2

Helena trabalhou até as mãos começarem a tremer.

Só parou quando Ricardo entrou na cozinha.

Ele não estava sorrindo.

"Eu fiquei sabendo."

Helena continuou fechando caixas.

"Notícia corre rápido."

"Júlia viu uma publicação de um cliente."

"Entendi."

Ricardo se aproximou.

"Helena."

"Eu estou trabalhando."

"Eu sei."

"Então deixa."

Ele ficou diante dela.

"Você não precisa fingir que não aconteceu."

Helena finalmente parou.

"Eu não estou fingindo."

"Então por que está aqui?"

"Porque tenho pedido."

"Pode cancelar."

"Não."

"Eu cubro o prejuízo."

Helena soltou a fita adesiva.

"Não."

Ricardo respirou fundo.

"Não estou oferecendo esmola."

"Eu sei."

"Então qual é o problema?"

Helena olhou para ele.

"Se eu aceitar que você cubra toda vez que algo der errado, eu continuo dependendo de alguém."

"Isso é diferente."

"Para você."

Ela se afastou da bancada.

"Eu passei oito anos ouvindo que tinha teto porque Osvaldo deixava."

Ricardo ficou em silêncio.

"Comida porque ele deixava."

Helena apontou para si mesma.

"Trabalho porque ele deixava."

Ela respirou fundo.

"Eu não vou sair de uma casa onde um homem controla tudo para entrar numa vida onde outro homem resolve tudo."

Ricardo assentiu devagar.

Não houve ofensa em seu rosto.

"Entendi."

"Entendeu mesmo?"

"Sim."

Ele tirou o celular do bolso.

"Então vamos falar como empresários."

Helena ergueu uma sobrancelha.

"Estou ouvindo."

"Você precisa de endereço temporário."

"Preciso."

"Meu grupo mantém apartamentos locados para funcionários em transferência."

Helena já começou a negar.

"Ricardo..."

"Espera."

Ele levantou a mão.

"Você paga."

Ela parou.

"Valor interno normal."

"Quanto?"

"Eu verifico."

"Contrato?"

"Contrato."

"Prazo?"

"Trinta dias, renovável."

"Sem favor?"

"Sem favor."

Helena analisou a proposta.

"Posso ver o contrato antes?"

Ricardo sorriu pela primeira vez.

"Eu ficaria ofendido se você não pedisse."

Naquela tarde, Helena voltou à casa de Osvaldo.

Não sozinha.

Ricardo não foi.

Isso também foi escolha dela.

Camila foi.

A advogada esperou do lado de fora enquanto Helena entrava.

Osvaldo estava sentado na cozinha.

Parecia calmo demais.

"Resolveu voltar?"

Helena colocou duas malas no chão.

"Vim buscar minhas coisas."

Ele ergueu os olhos.

"Para onde você vai?"

"Não interessa."

Osvaldo riu.

"Vai morar com o ricaço?"

"Não."

"Mentira."

"Não preciso mentir."

Ela seguiu para o quarto.

Osvaldo veio atrás.

"Você não vai levar nada que é meu."

Helena abriu o armário.

"Minhas roupas."

"Eu paguei parte delas."

"Então me processa."

Ele segurou a porta do armário.

"Está achando que virou alguém porque recebeu dinheiro de hotel?"

Helena se virou.

"Não."

"Então o quê?"

"Eu só parei de acreditar no que você diz."

A frase atingiu Osvaldo com mais força do que um insulto.

Ele recuou um passo.

Helena começou a colocar documentos pessoais na bolsa.

CPF.

RG.

Certidão.

Comprovantes.

Osvaldo observava.

"Você vai voltar."

Ela não respondeu.

"Vai acabar o dinheiro."

Silêncio.

"Vai perder contrato."

Helena fechou a mala.

"Talvez."

"Vai descobrir que ninguém aguenta você."

Ela passou por ele.

"Talvez."

"Helena."

Ela parou na porta.

"Você não sabe viver sozinha."

Helena olhou por cima do ombro.

"Então eu aprendo."

Foi embora.

Osvaldo ficou na casa.

Sozinho.

Pela primeira vez, sem saber exatamente onde Helena dormiria naquela noite.

O apartamento ficava próximo à República.

Era pequeno.

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