"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 4
Ricardo, sem saber, estava destruindo aquela medida.
"Eu fiz cursos", ela disse.
"Quais?"
"Contabilidade básica. Formação de preço. Gestão de estoque. Compras."
"Faculdade?"
"Biblioteca."
Ele sorriu.
"Biblioteca?"
"Curso gratuito, apostila, vídeo, qualquer coisa que eu encontrasse."
"E você fazia quando?"
"À noite."
"Depois de trabalhar?"
"Sim."
"Osvaldo sabia?"
"Não."
Ricardo riu baixo.
"Claro que não."
Helena quase riu também.
Depois ficou séria.
"Eu precisava entender para onde o dinheiro ia."
"E entendeu?"
"Parte."
Ela olhou para a rua.
"Quanto mais eu aprendia, mais percebia que os números não fechavam."
Ricardo ficou observando-a.
"Helena."
"Hum?"
"Você quer vender empadinhas..."
Ela levantou os olhos.
Ele completou:
"Ou quer construir uma empresa?"
A pergunta ficou entre os dois.
Helena não respondeu imediatamente.
O barulho dos ônibus pareceu ficar distante.
Durante anos, seu plano de futuro tinha sido simples.
Sobreviver até sexta-feira.
Pagar ingredientes.
Evitar Osvaldo.
Esconder provas.
Não deixá-lo descobrir a conta.
Não deixá-lo descobrir a empresa.
Não deixá-lo descobrir que ela sabia.
Empresa.
Helena repetiu a palavra mentalmente.
Nunca imaginara uma fachada.
Funcionários.
Fornecedores.
Contratos.
Uma cozinha grande.
Seu nome numa nota fiscal.
Até aquele momento, Mesa da Lena era apenas uma proteção jurídica.
Um CNPJ.
Uma conta que Osvaldo não conhecia.
Mas Ricardo falava como se pudesse ser muito mais.
"Eu não sei", ela admitiu.
"Boa resposta."
"Boa?"
"Quem responde rápido demais normalmente não sabe o tamanho da pergunta."
Helena ficou em silêncio.
Ricardo olhou para o relógio.
"Tenho uma reunião."
"Então está atrasado de novo."
"Por sua culpa."
"Não pedi para você ficar."
"Também não mandei você descobrir desperdício em três páginas."
Ele pegou o celular.
"Posso voltar amanhã?"
Helena olhou para ele.
"Se pagar."
"Seis reais?"
"Agora são sete."
"Inflação?"
"Cliente inconveniente."
Ricardo riu.
No dia seguinte, ele não apareceu sozinho.
Veio com uma pasta preta.
Helena viu aquilo e imediatamente ficou desconfiada.
"Eu sabia que o café estava barato demais."
Ricardo colocou a pasta sobre o balcão.
"Não é cobrança."
"Então o que é?"
"Uma proposta."
Helena não tocou na pasta.
"De quê?"
"Grupo Valença."
O coração dela acelerou.
Ricardo abriu a pasta.
"Tenho três hotéis em São Paulo com café aberto ao público."
Helena olhou para as folhas.
"Pinheiros, Jardins e Paulista."
"Sim."
"Eu conheço."
"Quero colocar seus produtos nos três."
Helena ergueu os olhos.
"Não."
Ricardo parou.
"Não?"
"Eu não tenho capacidade."
"Tem."
"Não para três hotéis."
"Por isso é teste."
Ele virou uma página.
"Sessenta dias."
Helena continuou olhando.
"Quantidade limitada."
Outra página.
"Pagamento para a empresa."
Ela congelou.
"Qual empresa?"
Ricardo respondeu sem mudar o tom.
"Mesa da Lena Alimentos Ltda."
Helena sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
"Como você sabe?"
"Seu CNPJ é público."
Ela ficou em silêncio.
Ricardo percebeu o medo.
"Eu não falei com ninguém."
"Nem com Osvaldo?"
"Nem sei o sobrenome dele."
"É Duarte."
Ricardo assentiu.
"E não falei com ele."
Helena respirou melhor.
Só um pouco.
Ele deslizou a pasta em direção a ela.
"O contrato é com a sua empresa."
Helena tocou a capa.
"Pagamento direto na conta empresarial."
Ela abriu a primeira página.
"Sem intermediário."
Os olhos dela percorreram as cláusulas.
Preço unitário.
Volume mínimo.
Prazo.
Qualidade.
Marca.
Rescisão.
Responsabilidade.
Tudo parecia grande demais.
"Ricardo..."
"Você não precisa responder agora."
Helena continuou lendo.
"Você fez isso por causa de ontem?"
"Não."
"Por causa do Osvaldo?"
"Não."
"Então por quê?"
Ricardo apontou para o carrinho.
"Porque você tem produto."
Depois apontou para as planilhas dobradas ao lado dela.
"E porque sabe administrar."
Helena apertou a pasta.
"Você nem me conhece."
"Conheço os números que você me mostrou."
"Isso não é a mesma coisa."
"Para um contrato comercial, às vezes é melhor."
Helena olhou para ele por alguns segundos.
Depois baixou os olhos novamente.
Virou uma página.
Depois outra.
Ricardo esperou.
"Eu vou ler tudo."
Um sorriso apareceu devagar no rosto dele.
"Eu esperava que você dissesse isso."
Helena fechou a pasta.
Pela primeira vez desde a morte da mãe, segurava alguma coisa que parecia maior do que sobreviver.
Parecia futuro.
Do outro lado da rua, porém, uma caminhonete estava parada havia quase dez minutos.
Atrás do para-brisa, Osvaldo observava Ricardo diante do carrinho.
Depois olhou para a pasta preta nas mãos de Helena.
Seu rosto perdeu qualquer traço de tédio.
Ele pegou o celular.
Ampliou a câmera.
Na capa do documento, conseguiu ler apenas duas palavras.
GRUPO VALENÇA.
Osvaldo ficou imóvel.
Então aproximou ainda mais a imagem.
Viu Helena sorrindo.
Viu Ricardo apontando para o contrato.
E percebeu algo que não deveria estar acontecendo.
Helena estava fazendo negócios sem ele.
Osvaldo desligou a câmera.
Apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Durante oito anos, ele controlara cada nota que passava pelas mãos dela.
Agora, pela primeira vez, havia dinheiro entrando num lugar que ele não conseguia alcançar.
E Osvaldo Duarte não tinha a menor intenção de permitir que isso continuasse.
Parte 3 — R$ 92.000
Helena leu o contrato inteiro três vezes.
Na primeira, procurou qualquer cláusula que pudesse esconder uma armadilha.
Na segunda, marcou tudo o que poderia colocá-la em desvantagem.
Na terceira, começou a escrever perguntas nas margens.
Ricardo esperava uma resposta rápida.
Recebeu seis páginas de observações.
Na manhã seguinte, ele chegou à Mesa da Lena pouco depois das oito e encontrou Helena com a pasta preta aberta sobre uma caixa de ingredientes.
"Você realmente leu tudo."
"Eu disse que ia ler."
"Eu achei que você estava exagerando."
Helena ergueu uma sobrancelha.
"Então já começamos mal."
Ricardo sorriu.
"Está bem. O que você quer mudar?"
Ela virou a primeira página.
"Preço."
"Já está acima do que você cobra aqui."
"Aqui eu vendo direto para o cliente. No hotel, vou ter embalagem, transporte, emissão de nota, produção antecipada e risco de perda."
Ricardo puxou uma cadeira de plástico.
"Continue."
"O reajuste de matéria-prima está mal definido."
"É um contrato de sessenta dias."
"E manteiga pode subir em sessenta dias."
"Quanto você quer de margem?"
"Não quero margem garantida."
Helena fechou a pasta por um instante.
"Quero direito de renegociar se meus três principais insumos subirem acima de dez por cento."
Ricardo ficou olhando para ela.
"Você pensou nisso sozinha?"
"Quem compra ingrediente toda semana aprende rápido."
Ela abriu outra página.
"Pagamento em trinta dias também não serve."
"É o padrão do grupo."
"Então o padrão do grupo favorece quem já tem caixa."
Ricardo se recostou.
"Qual é a sua proposta?"
"Quinze dias durante o período de teste."
"Por quê?"
"Porque eu vou precisar aumentar produção antes de receber."
"Você pode usar crédito."
"Não quero começar minha empresa devendo."
A resposta saiu tão rápida que Ricardo não insistiu.
Helena virou mais uma folha.
"Marca."
"Está escrito que o produto será identificado como Mesa da Lena."
"Está."
"Mas aqui diz que o grupo pode usar nome, imagem e descrição do produto em material promocional."
"É normal."
"Sem prazo."
Ricardo pegou a caneta.
"Podemos limitar ao período do contrato."
"E por trinta dias depois, só para material já publicado."
"Fechado."
Helena fez uma marca.
"Receitas."
Ricardo levantou os olhos.
"Isso é importante para você."
"É a coisa mais importante."
Ela apontou para a cláusula de confidencialidade.
"As receitas são minhas. O grupo compra o produto, não o método."
"Ninguém quer sua receita."
"Então não vai ser difícil escrever isso."
Ricardo segurou o sorriso.
"Você sempre negocia assim?"
"Eu nunca negociei um contrato desse tamanho."
"Não parece."
Helena passou à página seguinte.
"Tem mais."
"Claro que tem."
"Rescisão."
Ricardo cruzou os braços.
"O que você quer?"
"Se vocês encerrarem o teste antes do prazo sem problema de qualidade ou descumprimento meu, precisam pagar os pedidos já programados."
"E se você desistir?"
"Eu aviso com dez dias de antecedência e entrego o que já estiver confirmado."
Ricardo ficou alguns segundos em silêncio.
"Você não quer uma oportunidade."
"Quero."
"Mas?"
"Não quero uma oportunidade que possa destruir o que estou tentando construir."
A expressão dele mudou.
Não havia pena no olhar.
Havia respeito.
"Vou mandar revisar."
Helena balançou a cabeça.
"Não."
"Não?"
"Você vai mandar revisar. Eu também."
Ricardo sorriu de lado.
"Tem advogado?"
"Ainda não."
"Posso indicar."
"Pode indicar três."
"Três?"
"Eu escolho."
Ele soltou uma risada.
"Helena, você é impossível."
"Você ainda pode ir embora."
"Agora eu quero ver até onde isso vai."
Dois dias depois, Helena sentou-se numa pequena sala de reunião no centro de São Paulo com uma advogada que escolhera entre três nomes.
Dra. Camila Nogueira tinha trinta e sete anos, fala calma e o hábito de circular de caneta vermelha qualquer frase que considerasse perigosa.
"Você fez boas observações."
Helena observava cada anotação.
"Boas o suficiente?"
"Boas o suficiente para eu perguntar onde você aprendeu."
"Apanhando de número errado."
Camila ergueu os olhos.
Helena percebeu a própria frase e desviou o olhar.
"Quero dizer, aprendendo na prática."
Camila não forçou a conversa.
"Há duas cláusulas que eu mudaria."
"Quais?"
"Responsabilidade por devolução e exclusividade."
"Exclusividade?"
Camila apontou.
"A redação não impede você de vender para outros hotéis, mas pode gerar interpretação ruim."
Helena sentiu um arrepio.
"Então muda."
"Vou propor uma redação clara."
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