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"Ele Roubava Todo o Meu Dinheiro, Mas Eu Guardava Todas as Provas" Capítulo 2

正文开头

"Solta."

Ricardo não soltou.

"Pergunte a ela."

Osvaldo riu.

"Você é namorado dela agora?"

Helena se colocou entre os dois.

"Ricardo, vai embora."

"Ele está levando seu dinheiro."

"Eu sei."

Osvaldo arrancou a caixa de cima do carrinho.

Helena segurou a alça.

"Não."

A palavra saiu baixa.

Mas firme.

Osvaldo parou.

"Como é?"

"Eu preciso comprar ingredientes."

"Você precisa?"

"Tenho encomendas para amanhã."

"Então trabalha mais."

Ele puxou.

Helena não largou.

Por alguns segundos, os dois ficaram presos à mesma caixa.

Foi quando Osvaldo perdeu o sorriso.

"Solta."

"Deixa duzentos."

"Você está me dando ordem?"

"É dinheiro para comprar farinha, queijo e manteiga."

"É meu dinheiro."

"Eu trabalhei por ele."

O golpe veio rápido.

As costas da mão de Osvaldo atingiram a boca de Helena.

A cabeça dela virou para o lado.

Ricardo avançou imediatamente.

Helena segurou o paletó dele com as duas mãos.

"Não."

Havia sangue no canto de sua boca.

Ricardo encarou Osvaldo.

"Você acabou de bater nela."

"Problema de família."

"Isso não é problema de família."

Osvaldo abriu um sorriso debochado.

"Vai fazer o quê?"

Ricardo deu um passo.

Helena apertou ainda mais o tecido do paletó.

"Não aqui."

Ele olhou para ela.

"Helena..."

"Não aqui."

Osvaldo apontou para uma câmera instalada na fachada de uma pequena oficina.

"Vai lá, herói. Faz alguma coisa."

Helena falou quase sem mover os lábios.

"O dono da câmera é amigo dele."

Ricardo entendeu.

Osvaldo também.

E sorriu.

"Garota esperta."

Ele aproximou o rosto do dela.

"Pena que nunca foi esperta o suficiente."

Helena não baixou os olhos.

Isso pareceu irritá-lo ainda mais.

Osvaldo empurrou o carrinho com força.

Uma garrafa de café caiu e estourou no chão.

Alguns clientes recuaram.

Outros fingiram não ver.

Osvaldo pegou a caixa de dinheiro.

"Bonito rosto."

Ele limpou com o polegar uma gota de sangue no queixo de Helena.

"Cabeça vazia."

Ela permaneceu imóvel.

"Essa é a minha menina."

Osvaldo atravessou a rua e entrou na caminhonete.

Ricardo ficou olhando até o veículo desaparecer no trânsito.

Depois se virou.

"Você precisa ir à polícia."

Helena pegou um pano e começou a limpar o café derramado.

"Eu sei."

"Ele fez isso outras vezes."

Não era uma pergunta.

Helena não respondeu.

Ricardo tirou um cartão do bolso e colocou sobre o carrinho.

"Meu telefone pessoal."

Ela olhou.

GRUPO VALENÇA HOTÉIS.

Agora reconheceu o sobrenome.

Ricardo Valença.

Fundador de uma das redes de hotéis mais conhecidas do país.

Helena ergueu os olhos.

"Então era isso."

"Isso o quê?"

"O terno."

Ele quase sorriu.

"Deixe eu ajudar."

Helena pegou o cartão.

Por alguns segundos, Ricardo achou que ela finalmente aceitaria.

Mas ela colocou o cartão cuidadosamente no bolso do avental.

"Se quiser ajudar, venha amanhã."

"E faço o quê?"

"Compra o café pelo preço normal."

Ricardo ficou encarando-a.

"Só isso?"

"Por enquanto."

Naquela noite, Helena chegou em casa às nove e vinte.

Osvaldo já estava sentado diante da televisão.

正文1

A caixa de dinheiro estava aberta sobre a mesa.

Ele não disse boa-noite.

"Vinte reais."

Helena parou no corredor.

"Já falei. Foi manteiga."

"Eu contei os recibos."

"Não todos."

Ele desligou a televisão.

Helena percebeu tarde demais.

Osvaldo se levantou.

"Você escondeu dinheiro de mim."

"Não escondi."

"Mentira."

Ele segurou o braço dela.

"Solta."

"Quem era o homem?"

"Cliente."

"Cliente não segura meu braço."

"Você estava roubando a caixa."

Osvaldo apertou com mais força.

"Repete."

Helena sentiu a dor subir pelo ombro.

"Você estava roubando a caixa."

Por um instante, ela pensou que ele fosse bater.

Em vez disso, Osvaldo sorriu.

Era pior.

Ele a arrastou até o fundo da casa.

"Já que está tão corajosa, vai ter tempo para pensar."

Abriu a porta da lavanderia.

Empurrou Helena para dentro.

Ela bateu o ombro contra a máquina.

"Osvaldo."

"De manhã eu abro."

"Eu tenho que preparar a massa."

"Problema seu."

Ele fechou a porta.

A chave girou.

Helena permaneceu no chão.

Do outro lado, ouviu os passos dele se afastando.

Depois a televisão voltou a aumentar de volume.

Ela esperou.

Cinco minutos.

Dez.

Vinte.

Só então se levantou.

O rosto doía.

O braço doía.

A boca ainda tinha gosto de sangue.

Helena foi até o pequeno espelho acima do tanque.

Acendeu a luz do celular.

Fotografou o lábio inchado.

Depois o hematoma no braço.

Salvou as duas imagens numa pasta que não levava seu nome.

Em seguida, ajoelhou-se perto da parede.

Havia uma grade de ventilação antiga quase escondida atrás de um cesto.

Helena soltou dois parafusos com uma moeda que guardava dentro da barra da calça.

Retirou a grade.

Enfiou a mão no espaço escuro.

Puxou um envelope plástico impermeável.

Ali dentro havia oito meses de uma vida que Osvaldo desconhecia.

Fotografias de hematomas.

Datas.

Horários.

Extratos.

Recibos.

Cópias de três cartões de crédito abertos em nome de Helena sem autorização.

Uma proposta de empréstimo que carregava uma assinatura parecida com a dela.

Parecida.

Não igual.

Havia também dois cadernos.

Num deles, Helena anotava tudo o que realmente vendia.

No outro, copiava os valores que Osvaldo obrigava a declarar.

A diferença entre os dois crescia mês após mês.

Mas foi o documento seguinte que fez as mãos dela tremerem.

Ordem de partilha.

Espólio de Teresa Duarte.

Helena passou os dedos pelo papel.

Já havia lido aquelas linhas dezenas de vezes.

Mesmo assim, ainda sentia a garganta fechar.

O carrinho.

Os utensílios.

Os cadernos de receitas.

Os registros comerciais.

Tudo deixado exclusivamente para Helena Duarte.

Nada para Osvaldo.

Nada.

Durante anos, ele dissera que Teresa havia morrido devendo dinheiro.

Durante anos, repetira que havia "permitido" que Helena continuasse trabalhando.

Durante anos, fizera questão de lembrar que sem ele ela não teria nada.

A verdade estava naquela folha.

Helena sempre tivera alguma coisa.

Osvaldo apenas escondera isso dela.

Ela respirou fundo e puxou o último documento.

Era novo.

Tão novo que ainda conservava o vinco do envelope em que chegara.

正文2

Helena acendeu novamente a tela do celular.

Leu devagar.

MESA DA LENA ALIMENTOS LTDA.

Sócia única: Helena Duarte.

Ela fechou os olhos.

Na sala, Osvaldo riu alto de alguma coisa na televisão.

Ele não sabia da empresa.

Não sabia da conta bancária.

Não sabia da pasta na nuvem.

Não sabia que cada machucado havia sido fotografado.

Não sabia que Helena possuía cópias dos documentos que ele acreditava ter escondido para sempre.

Ela tirou uma nova fotografia do lábio.

Enviou para a pasta protegida.

Depois guardou tudo novamente no envelope.

Antes de colocá-lo de volta dentro da parede, Helena encarou o documento da empresa por mais alguns segundos.

Do outro lado da porta, Osvaldo continuava tranquilo.

Na cabeça dele, Helena ainda era a garota de dezoito anos que perdera a mãe, perdera a faculdade, perdera o dinheiro e aprendera a obedecer.

Ele acreditava que o medo a mantinha naquela casa.

Helena recolocou a grade de ventilação e apertou os parafusos.

Então se sentou no chão frio da lavanderia.

Osvaldo achava que a assustava havia oito anos.

Não fazia ideia de que, nos últimos oito meses, enquanto ele contava o dinheiro dela, Helena contava as provas contra ele.

Parte 2 — A Herança Que Ele Escondeu

Ricardo voltou na manhã seguinte.

Helena percebeu sua presença antes mesmo de vê-lo, porque dona Célia, que esperava o café de sempre, abriu um sorriso curioso e olhou por cima do ombro dela.

"Seu cliente elegante chegou."

Helena não respondeu.

Continuou embalando uma empadinha de maçã.

Quando levantou os olhos, Ricardo já estava diante do carrinho.

Sem motorista.

Sem segurança.

Sem advogado.

Sem a nota de quinhentos reais da manhã anterior.

Ele usava camisa branca, paletó cinza e segurava uma nota de vinte reais entre os dedos.

"Bom dia."

Helena olhou para a nota.

Depois para ele.

"Aprendeu rápido."

"Um café e duas empadinhas."

"Doze reais."

Ricardo colocou o dinheiro sobre o balcão.

"Troco de oito."

"Agora está normal."

"Normal o suficiente?"

Helena tentou não sorrir.

Falhou.

Foi um sorriso pequeno, quase involuntário.

Mas foi o primeiro sorriso verdadeiro que Ricardo viu nela.

"Quase."

Ela lhe entregou o café e duas empadinhas de goiabada com queijo.

Ricardo se afastou apenas o necessário para dar espaço aos clientes que chegavam.

Não tentou conversar enquanto Helena trabalhava.

Não perguntou pelo hematoma.

Não perguntou se ela tinha ido à polícia.

Não perguntou quem era Osvaldo.

E, por isso mesmo, Helena começou a prestar mais atenção nele.

Durante quarenta minutos, Ricardo ficou encostado perto de um poste, tomando café enquanto respondia mensagens no celular.

Quando a fila diminuiu, ele se aproximou outra vez.

"Posso fazer uma pergunta?"

"Depende."

"Você sempre responde assim?"

"Depende da pergunta."

Ricardo riu.

"Seu fluxo de clientes aumenta entre sete e oito e cai depois das nove."

"Sim."

"Você já pensou em mudar o horário?"

"Já."

"E?"

"Não compensa."

"Por quê?"

Helena apontou para os prédios ao redor.

"Quem compra antes das oito está indo trabalhar. Compra rápido, normalmente leva café e alguma coisa para comer no caminho."

Ela apontou para um grupo de pessoas do outro lado da rua.

"Depois das nove, aumenta o número de turistas e aposentados. Eles ficam mais tempo, mas gastam menos."

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