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"Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada" Capítulo 4

正文开头

Na manhã seguinte, Lívia voltou à sede do Grupo Montenegro antes mesmo de o sol aparecer por completo sobre a Avenida Faria Lima.

Otávio Braga já a esperava na sala de reuniões do financeiro, com três notebooks abertos, uma pilha de contratos e o rosto de quem não tinha dormido.

"Você conseguiu confirmar?"

Otávio assentiu.

"Mais do que eu gostaria."

Lívia fechou a porta.

"Me mostra tudo."

Ele abriu o primeiro arquivo.

A Vértice Participações tinha sido criada vinte e dois meses antes.

No papel, parecia uma empresa pequena de desenvolvimento imobiliário, com capital modesto e dois sócios sem relação aparente com a família Montenegro.

Na prática, recebia oportunidades que pertenciam ao grupo.

Otávio apontou para uma planilha.

"Este terreno foi comprado pelo Grupo Montenegro por vinte e oito milhões."

Lívia reconheceu o endereço.

"Moema."

"Seis meses depois, uma subsidiária vendeu por trinta e um milhões para uma empresa ligada à Vértice."

"Pouca margem."

"Exatamente."

Otávio abriu outro documento.

"Quatro meses depois, a Vértice revendeu por cinquenta e seis."

Lívia ficou em silêncio.

"Quem aprovou a primeira venda?"

Otávio virou a tela.

O nome dela apareceu.

Lívia respirou fundo.

"De novo."

"De novo."

Ele abriu um segundo caso.

Depois um terceiro.

Terrenos em Vila Mariana.

Um galpão em Santo Amaro.

Uma área próxima à Marginal Pinheiros.

Em todos, a lógica era quase idêntica.

O Grupo Montenegro vendia abaixo do potencial real.

Pouco tempo depois, a Vértice revendia com lucros milionários.

Lívia apoiou as duas mãos sobre a mesa.

"Camila tinha acesso às projeções de valorização."

"Sim."

"Ela sabia quais áreas receberiam novos projetos antes do mercado."

"Sim."

"E Augusto?"

Otávio abriu uma sequência de transferências.

"Ele cuidava da saída do dinheiro."

Os valores passavam por fundos, empresas de participações e contas vinculadas a investimentos privados.

Uma delas era controlada por Augusto.

Outra pertencia a um amigo dele.

A terceira tinha sido registrada em nome de um antigo motorista.

Lívia fechou os olhos por um instante.

"Então ela entregava os ativos."

"E ele transformava o lucro em dinheiro difícil de rastrear."

Otávio assentiu.

"Camila queria poder."

"Augusto queria liquidez."

"Funcionava para os dois."

Lívia caminhou até a janela.

São Paulo começava a acordar lá embaixo.

Durante anos, Camila e Augusto tinham brigado diante da mãe.

Discussões em almoços.

Gritos no escritório.

Insultos em reuniões.

Cada um acusando o outro de ser o problema da família.

Agora Lívia entendia.

"Era teatro."

Otávio não respondeu.

"Se minha mãe acreditava que eles se odiavam, nunca procuraria uma operação dos dois juntos."

"É o que parece."

Lívia virou.

"Não parece."

Sua voz endureceu.

"Foi planejado."

Otávio fechou a planilha.

"Tem algo pior."

Lívia já sabia que odiaria a próxima frase.

"O quê?"

"Os acessos."

Ele abriu os registros de autenticação.

Muitos documentos tinham sido aprovados com as credenciais de Lívia em horários em que ela não estava no prédio.

Alguns foram acessados de dentro do andar executivo.

正文1

Outros, por uma estação ligada ao departamento de Camila.

Mas havia mais.

"Olha esta sequência."

Uma aprovação falsa.

Depois outra.

Depois uma mensagem encaminhada ao jurídico.

Depois um relatório interno levantando dúvidas sobre a própria Lívia.

Ela leu em voz alta.

"Possível conflito de interesse em operações aprovadas pela diretoria de engenharia."

Parou.

"Quem escreveu isso?"

"Um analista de compliance."

"Por iniciativa própria?"

Otávio balançou a cabeça.

"Ele recebeu orientação superior."

"De quem?"

Otávio não precisou responder.

Lívia entendeu.

Camila.

O plano não era apenas usar sua assinatura.

Era deixar rastros.

Criar suspeitas.

Construir lentamente uma narrativa.

Otávio falou baixo.

"Se isso estourasse, eles poderiam dizer que você tinha acesso técnico aos projetos, sabia quais terrenos valorizariam e usou empresas externas para lucrar."

Lívia riu sem humor.

"Perfeito."

"Lívia..."

"É perfeito."

Ela apontou para a tela.

"A filha adotiva. A que nunca foi aceita. A que supostamente passou a vida inteira olhando para uma fortuna que não era dela."

Otávio ficou calado.

Lívia completou:

"A menina encontrada no lixo roubou setenta e dois milhões para garantir a própria herança."

A frase ficou no ar.

Era cruel.

E justamente por isso funcionaria.

Havia gente demais disposta a acreditar nela.

Naquela tarde, Beatriz já tinha deixado o hospital.

Por orientação de Henrique, o retorno à mansão foi apresentado como parte de um tratamento domiciliar.

Ela entrou em casa numa cadeira de rodas.

Marina caminhava ao lado.

Lívia vinha logo atrás.

Camila tinha organizado tudo.

Quarto adaptado.

Equipamentos.

Enfermeiros de plantão.

Câmeras.

Até uma cama hospitalar havia sido instalada na antiga suíte de hóspedes do térreo.

"Ela não deveria ficar no quarto dela?" perguntou Lívia.

Camila respondeu sem levantar os olhos do celular.

"Escadas."

"Existe elevador."

"Não vou discutir logística."

Beatriz continuou imóvel.

A própria casa parecia diferente quando ninguém acreditava que ela ainda mandava nela.

Funcionários cochichavam.

Advogados entravam e saíam.

Camila usava a biblioteca como escritório.

Augusto apareceu apenas no fim da tarde.

Não veio sozinho.

Uma mulher loira, alta e muito bem vestida entrou com ele.

Beatriz a reconheceu.

Renata Vasconcelos.

A namorada com quem Augusto estava havia seis meses.

"Você trouxe visita?" perguntou Lívia.

Augusto tirou os óculos.

"Ela não é visita."

"Para a mamãe, é."

Renata tentou sorrir.

"Eu só queria dar um oi."

Lívia olhou para Beatriz.

Depois para Augusto.

"Cinco minutos."

Augusto soltou um suspiro.

"Você virou dona da casa agora?"

"Não."

"Então para de agir como se fosse."

Lívia não respondeu.

Saiu com Marina para falar com Henrique ao telefone.

Augusto esperou alguns segundos.

Depois olhou para a mãe.

Beatriz estava perto da janela.

Cabeça inclinada.

Mãos imóveis no colo.

Ele sorriu.

"Viu?"

Renata se aproximou devagar.

"Ela realmente não entende?"

Augusto fez um gesto diante dos olhos da mãe.

Nada.

"Praticamente não reage."

Renata baixou a voz.

"Isso é horrível."

"É."

Mas o tom dele não combinava com a palavra.

Renata começou a observar a sala.

正文2

Quadros.

Esculturas.

Objetos antigos.

Até parar diante de uma fotografia de Beatriz usando um colar de esmeraldas.

"Esse colar é lindo."

Augusto olhou.

"Era da minha avó."

"Deve valer uma fortuna."

"Vale."

Renata sorriu.

"Eu nunca vi ao vivo."

Augusto ficou olhando para ela.

Então teve uma ideia.

"Quer ver?"

Renata arregalou os olhos.

"Augusto."

"O quê?"

"Não."

Ele já caminhava em direção ao corredor.

Voltou alguns minutos depois com uma pequena caixa de veludo verde.

Beatriz reconheceu imediatamente.

Seu estômago se contraiu.

Aquele colar nunca ficava exposto.

Era guardado no cofre particular da suíte principal.

Augusto abriu a caixa.

As esmeraldas brilharam.

Renata levou a mão à boca.

"Meu Deus."

"Experimenta."

"Você enlouqueceu?"

"Experimenta."

Augusto ficou atrás dela e colocou o colar em seu pescoço.

Renata olhou-se no espelho.

Por alguns segundos, esqueceu completamente que Beatriz estava ali.

"É maravilhoso."

"Combina com você."

Renata tocou as pedras.

Depois olhou para a cadeira de rodas.

"E se sua mãe descobrir?"

Augusto seguiu o olhar.

Beatriz continuava imóvel.

Ele riu.

"Ela nem sabe mais quem é."

A frase atravessou Beatriz.

Não pelo colar.

Nem pelo cofre violado.

Mas pela facilidade com que o filho já falava dela como alguém que tinha deixado de existir.

Renata tirou a joia rapidamente.

"Guarda isso."

Augusto deu de ombros.

"Em algum momento vai ser nosso mesmo."

Beatriz sentiu os dedos formigarem de raiva.

Se dependesse apenas dela, levantaria naquele instante.

Arrancaria o colar das mãos do filho.

Mandaria os dois para fora.

Mas então lembrou dos setenta e dois milhões.

Da Vértice.

Das assinaturas de Lívia.

E ficou parada.

Ainda precisava saber até onde aquilo ia.

Mais tarde, Camila chegou.

Encontrou Augusto saindo.

"Você mexeu no cofre dela?"

Ele parou.

"Como sabe?"

"Porque o sistema registrou abertura."

"Então por que perguntou?"

Camila se aproximou.

"Você é incapaz de passar dois dias sem fazer alguma idiotice."

"Eu só peguei uma joia."

"Não toca em nada sem falar comigo."

Augusto riu.

"Agora você manda até no que eu herdo?"

"Eu mando no que pode chamar atenção."

A expressão dele mudou.

"Relaxa."

"Não quero polícia olhando para dentro desta casa por motivo nenhum."

Beatriz ouviu.

Aquilo importava.

Muito.

À noite, Marina preparou os medicamentos.

Era meticulosa.

Conferia nome, dose e horário duas vezes.

Quando abriu o sistema do hospital, franziu a testa.

"Houve alteração."

Lívia estava ao lado.

"Em quê?"

"Na prescrição."

Marina aproximou a tela.

Uma nova medicação aparecia na lista.

Lívia leu o nome.

"Isso é para quê?"

"Sedação."

"Henrique pediu?"

"Não."

Marina pegou o celular imediatamente.

Ligou.

Henrique atendeu no segundo toque.

"Henrique, você acrescentou midazolam no protocolo da Beatriz?"

Silêncio.

Depois a voz dele mudou.

"Não."

Marina ficou séria.

"Tem uma prescrição nova."

"Não administre nada."

"Foi incluída hoje."

"Por quem?"

Marina abriu os detalhes.

O nome apareceu.

Dr. Álvaro Meireles.

Lívia franziu a testa.

"Quem é ele?"

Henrique respondeu pelo viva-voz.

"Neurologista."

"Da mamãe?"

"Não."

Lívia olhou para Marina.

"Então por que está prescrevendo para ela?"

Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.

"Ele não deveria estar."

Marina abriu o histórico.

"Tem autorização familiar anexada."

Lívia sentiu o corpo gelar.

"Quem autorizou?"

Marina rolou a tela.

Parou.

Olhou para Beatriz.

Depois para Lívia.

"Camila."

Beatriz permanecia deitada.

Mas seus olhos, agora abertos, estavam completamente lúcidos.

Henrique falou do outro lado da linha:

"Não deem essa medicação."

Lívia respirou fundo.

"Por quê?"

Henrique respondeu:

"Porque, no estado em que sua família acredita que ela está, uma sedação forte pode parecer apenas piora neurológica."

Marina ficou imóvel.

Lívia olhou para a mãe.

Beatriz entendeu antes das duas.

Camila não estava apenas tentando assumir a empresa.

Não estava apenas roubando.

Não estava apenas construindo uma armadilha contra Lívia.

Agora havia trazido um médico para dentro da casa.

E alguém acabara de colocar na prescrição de uma mulher que fingia não conseguir acordar direito um medicamento capaz de garantir exatamente isso.

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