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"Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada" Capítulo 3

正文开头

Trinta e nove anos antes, Beatriz Montenegro Sampaio não tinha sobrenome conhecido, motorista, empresa ou dinheiro guardado.

Tinha vinte e sete anos, dois pares de sapatos e uma barraca improvisada perto do Brás.

Vendia roupas durante o dia.

À noite, organizava caixas em um pequeno depósito para completar o aluguel de um quarto úmido numa vila antiga da região central de São Paulo.

Naquele mês, devia dois dias de aluguel.

Também devia dinheiro ao fornecedor de blusas.

Mesmo assim, naquela noite de chuva, quando ouviu um choro vindo perto de um monte de sacos de lixo, Beatriz parou.

Primeiro achou que fosse um gato.

Depois ouviu de novo.

Um choro fraco.

Humano.

Beatriz afastou duas caixas molhadas.

Ali, dentro de uma caixa de papelão parcialmente coberta por um pedaço de plástico, havia um bebê.

Uma menina negra.

Pequena demais.

Fria demais.

Sozinha.

Beatriz ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou ao redor.

Não havia ninguém.

"Meu Deus..."

Tirou o próprio casaco e envolveu a criança.

A menina abriu os olhos por um instante.

Beatriz sentiu alguma coisa mudar dentro dela.

"Quem fez isso com você?"

O bebê chorou.

Beatriz apertou a criança contra o peito.

"Eu mal consigo pagar meu aluguel."

Riu de nervoso.

"Você escolheu uma péssima pessoa para encontrar."

A menina segurou um dos dedos dela.

Beatriz deixou de rir.

Olhou para a chuva caindo sobre a rua.

Depois para a criança.

"Se eu tenho onde dormir, você também tem."

Foi assim que Lívia entrou na vida dela.

Não por sangue.

Não por casamento.

Não por conveniência.

Por acaso.

E por escolha.

Beatriz passou meses entre Conselho Tutelar, assistência social, entrevistas e documentos.

Muita gente disse que ela era louca.

"Você não tem dinheiro nem para você."

"Entrega para uma instituição."

"Você ainda pode mudar de ideia."

Beatriz não mudou.

Chamou a menina de Lívia.

Nos primeiros anos, as duas dormiram no mesmo quarto.

Quando faltava dinheiro, Beatriz comia menos.

Quando Lívia ficava doente, Beatriz faltava ao trabalho.

Quando Beatriz voltava tarde do depósito, encontrava a menina dormindo abraçada a uma boneca de pano costurada por uma vizinha.

Foi Lívia quem viu o primeiro imóvel que Beatriz conseguiu negociar.

Foi Lívia quem ficou sentada numa cadeira de plástico enquanto Beatriz discutia preço com um proprietário.

Foi Lívia quem comemorou quando elas finalmente saíram do quarto alugado e foram morar num apartamento pequeno, mas só delas.

Depois vieram os negócios.

Uma pequena imobiliária.

Depois duas.

Terrenos.

Prédios.

Investidores.

Contratos.

E então Beatriz conheceu Eduardo Sampaio.

Casou-se.

Teve Camila.

Anos depois, Augusto.

Foi aí que tudo começou a mudar.

Não de uma vez.

Devagar.

Com frases pequenas.

Olhares.

Silêncios.

"Ela é adotada?"

"É."

"Mas de onde veio?"

Beatriz respondia.

"Da minha vida."

A família de Eduardo nunca gostava dessa resposta.

Numa ceia de Natal, uma tia dele perguntou, diante de várias pessoas:

"É verdade que você encontrou Lívia no lixo?"

Lívia tinha nove anos.

正文1

Beatriz ficou tensa.

"Ela foi encontrada abandonada."

A mulher sorriu.

"Então é verdade."

Lívia abaixou a cabeça.

Mais tarde, no quarto, perguntou:

"Mãe, eu vim do lixo?"

Beatriz ajoelhou diante dela.

"Você veio para mim."

"Mas eu estava no lixo?"

Beatriz não conseguiu mentir.

"Estava perto de umas caixas."

Lívia ficou em silêncio.

Beatriz segurou o rosto da filha.

"Isso não diz quem você é."

Lívia assentiu.

Mas nunca esqueceu.

Camila também não.

Quando tinha onze anos, durante uma festa de aniversário na mansão recém-comprada no Jardim Europa, um fotógrafo chamou as crianças para uma foto.

Camila segurou Augusto pela mão.

Lívia se aproximou.

Camila disse:

"Você não é irmã de verdade."

Lívia parou.

Beatriz ouviu.

Todos esperaram.

Ela poderia ter interrompido tudo.

Poderia ter obrigado Camila a pedir desculpas.

Poderia ter chamado Lívia de volta.

Em vez disso, aproximou-se da filha depois.

"Ignore."

Lívia não respondeu.

"Não vamos criar conflito."

Anos depois, Beatriz repetiria essa mesma frase muitas vezes.

Quando uma prima chamou Lívia de "a menina do lixo".

Quando um tio perguntou se ela deveria mesmo usar o sobrenome Montenegro.

Quando Camila insinuou que Lívia só tinha cargo no grupo por gratidão da mãe.

"Ignora."

"Não compra briga."

"Você sabe quem é."

Na época, Beatriz acreditava que estava protegendo Lívia.

Agora sabia que apenas estava deixando a filha lutar sozinha.

Naquela tarde no hospital, décadas depois, Beatriz voltou a ouvir a mesma crueldade.

Ela estava imóvel na cama quando Camila entrou com Sérgio Tavares.

Augusto veio logo atrás.

Pensavam que ela não compreendia nada.

Camila falou baixo.

"O conselho está desconfortável com a proximidade da Lívia."

Sérgio respondeu:

"Porque ela está o tempo todo ao lado da sua mãe."

"Exatamente."

Augusto soltou uma risada.

"Ela sempre soube se posicionar."

Camila olhou para a cama.

Depois disse:

"Ela nunca foi Montenegro."

A frase atingiu Beatriz com mais força do que qualquer efeito do veneno.

Augusto não respondeu.

Camila continuou.

"Se alguma coisa acontecer com minha mãe, eu quero cada documento revisado."

Sérgio assentiu.

"Principalmente qualquer alteração recente de testamento."

"Não vou deixar uma mulher que apareceu numa caixa de papelão sair daqui dona do que meu pai e minha mãe construíram."

Beatriz sentiu raiva.

Depois sentiu vergonha.

Camila era adulta.

Mas aquela frase não tinha nascido naquela tarde.

Tinha crescido dentro daquela casa durante anos.

E Beatriz tinha permitido.

Quando os três saíram, ela manteve os olhos fechados.

Só abriu quando ouviu a porta novamente.

Lívia entrou.

Trazia uma pasta.

Fechou a porta.

Caminhou até a cama.

"Eu preciso conversar com você."

Beatriz não reagiu.

Lívia ficou olhando.

"Pode parar."

O coração de Beatriz disparou.

Silêncio.

Lívia cruzou os braços.

"Eu vi."

Beatriz continuou imóvel.

"Ontem à noite."

Mais silêncio.

"Quando Camila saiu, você mexeu o pé."

Beatriz abriu os olhos.

Lívia não se assustou.

Não sorriu.

Não chorou.

Apenas ficou ali.

Beatriz sentou lentamente.

"Lívia..."

A filha deu um passo para trás.

正文2

"Então é verdade."

"Eu posso explicar."

"Você está fingindo."

"Sim."

"Desde quando?"

"Desde que acordei."

Lívia ficou alguns segundos sem falar.

"Você está me testando também?"

A pergunta atingiu Beatriz imediatamente.

"Não."

"Tem certeza?"

"Tenho."

"Porque parece."

Beatriz afastou o lençol.

"Eu fui envenenada. Isso é real."

"Eu sei."

"Henrique disse que eu não tinha dano permanente. Eu quis observar."

"Observar quem?"

"Vocês."

Lívia soltou uma risada sem humor.

"Claro."

"Eu precisava saber o que eles fariam."

"E o que eu faria."

Beatriz tentou responder.

Lívia não deixou.

"Você queria descobrir quem ficaria."

"Eu não sabia em quem confiar."

"E agora sabe?"

Beatriz olhou para ela.

"Em você."

Lívia fechou os olhos por um instante.

Quando abriu, havia dor.

"Que conveniente."

"Lívia..."

"Não."

Beatriz ficou em silêncio.

A filha apontou para a cama.

"Você ficou deitada ouvindo Camila falar de mim."

"Eu precisava manter a encenação."

"Você ficou anos ouvindo Camila falar de mim antes dessa encenação existir."

Beatriz empalideceu.

Lívia continuou.

"Quando eu era criança, você dizia para eu ignorar."

"Eu achava que..."

"Você achava que evitar conflito era proteger."

Beatriz baixou a cabeça.

"Eu errei."

"Errou."

A resposta veio sem hesitação.

Beatriz respirou fundo.

"Eu posso corrigir muita coisa."

Lívia riu novamente.

"Agora?"

"Sim."

"Como?"

Beatriz olhou para a bolsa sobre a poltrona.

"Meu testamento pode ser alterado."

Lívia parou.

Beatriz continuou.

"Também posso rever a distribuição das ações."

O rosto de Lívia mudou imediatamente.

"Não."

"Você nem sabe o que eu ia dizer."

"Sei exatamente."

"Lívia, você ficou."

"Então é isso?"

"Não."

"Camila e Augusto mostraram quem são e agora você vai me pagar por ser melhor que eles?"

"Não é pagamento."

"É culpa."

Beatriz ficou calada.

Lívia se aproximou da cama.

"Não me transforme em filha agora só porque seus filhos decepcionaram você."

"Você sempre foi minha filha."

"Quando era conveniente."

Beatriz sentiu os olhos arderem.

"Isso não é justo."

"Também não foi justo crescer ouvindo que eu era a menina do lixo."

Beatriz não conseguiu responder.

Lívia apontou para si mesma.

"Eu não fiquei para comprar uma herança com banho, comida e remédio."

A voz dela tremeu pela primeira vez.

"Eu fiquei porque, quando eu não tinha ninguém, você ficou."

Beatriz começou a chorar.

Lívia desviou o rosto.

"Mas isso não apaga o resto."

O celular de Lívia vibrou.

Otávio.

Ela atendeu.

"O que aconteceu?"

A voz dele estava tensa.

"Você precisa vir para a empresa."

"Agora?"

"Agora."

"Encontrou alguma coisa?"

Uma pausa.

"Encontrei para onde foi o dinheiro."

Duas horas depois, Lívia estava novamente no escritório de Otávio, na Faria Lima.

As persianas estavam fechadas.

Ele bloqueou a porta.

"Setenta e dois milhões."

"Eu sei."

"Agora sei onde foram parar."

Abriu um arquivo.

Na tela apareceu o nome de uma empresa.

Vértice Participações Ltda.

Lívia franziu a testa.

"Nunca ouvi falar."

"Esse é o problema."

Otávio mostrou a sequência.

Terrenos vendidos abaixo do valor.

Contratos de consultoria.

Adiantamentos.

Sociedades intermediárias.

"Essa empresa foi usada para receber ativos do grupo e revendê-los depois."

"Quem é o dono?"

"No papel, dois laranjas."

"Então não sabemos."

"Sabemos."

Otávio abriu outra pasta.

"Eu fui atrás da cadeia societária."

Lívia se inclinou.

"Quem está por trás?"

Otávio virou o notebook.

Primeiro nome.

Camila Montenegro Sampaio.

Lívia ficou imóvel.

"Eu sabia."

Otávio não respondeu.

Ela percebeu.

"Tem mais alguém."

Ele abriu o segundo documento.

Outro beneficiário oculto.

Outro sobrenome conhecido.

Augusto Montenegro Sampaio.

Lívia levantou os olhos devagar.

"Não."

"Sim."

"Mas eles vivem brigando."

"Talvez seja exatamente por isso."

Lívia releu os nomes.

Camila.

Augusto.

Os dois filhos biológicos.

Os dois que discutiam em público sobre poder e dinheiro.

Os dois que pareciam incapazes de permanecer cinco minutos na mesma sala sem se atacar.

E os dois eram donos, em segredo, da mesma empresa usada para retirar milhões do Grupo Montenegro.

Otávio fechou a pasta.

"Isso começou há quase dois anos."

Lívia sentiu um frio subir pelos braços.

Dois anos.

Muito antes do envenenamento.

Muito antes da falsa paralisia.

Muito antes de qualquer disputa aberta por herança.

Ela olhou novamente para a tela.

Então entendeu.

Camila e Augusto nunca tinham começado a conspirar depois que a mãe caiu.

Eles apenas tinham parado de esconder.

E, se estavam juntos havia tanto tempo, havia uma pergunta muito pior esperando por ela.

O desvio de setenta e dois milhões talvez não fosse o plano principal.

Talvez fosse apenas a preparação.

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