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"Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada" Capítulo 2

正文开头

Na manhã seguinte, Camila Montenegro Sampaio entrou na sede do Grupo Montenegro Urbanismo antes das sete.

Não passou pela recepção.

Não perguntou se alguém tinha notícias da mãe.

Subiu direto para o último andar da torre na Avenida Faria Lima e mandou convocar uma reunião extraordinária do conselho.

A mensagem foi curta.

"Às nove. Presença obrigatória."

Otávio Braga recebeu o aviso ainda no carro.

Era diretor financeiro do grupo havia onze anos e conhecia Camila o suficiente para entender quando uma urgência era real e quando era apenas uma tentativa de ocupar espaço.

Naquela manhã, parecia as duas coisas.

Às nove e cinco, Camila já estava sentada na cadeira que pertencia à mãe.

Ninguém comentou.

Mas todos perceberam.

Na ponta da mesa, o presidente independente do conselho, Roberto Falcão, abriu a pasta diante de si.

"Antes de qualquer deliberação, precisamos de um relatório médico formal."

Camila deslizou uma cópia pela mesa.

"Minha mãe sofreu intoxicação grave. O comprometimento neurológico pode ser permanente."

"Pode ser não significa que seja."

"Enquanto vocês discutem semântica, temos contratos, obras e investidores esperando decisão."

Otávio permaneceu calado.

Conhecia aquele tom.

Beatriz usava exatamente o mesmo quando queria vencer uma sala.

Camila aprendera bem.

"Qual é a proposta?" perguntou Roberto.

Camila não hesitou.

"Quero assumir a presidência executiva interinamente até que minha mãe tenha condições de retornar."

O silêncio durou alguns segundos.

Então uma voz surgiu perto da porta.

"Claro que quer."

Augusto entrou sem gravata, óculos escuros presos na camisa.

Camila nem olhou para ele.

"Você está atrasado."

"Não sabia que o enterro da mamãe tinha começado."

Alguns conselheiros desviaram os olhos.

Camila fechou a mandíbula.

"Ela está viva."

"Então por que você já está sentada na cadeira dela?"

"Porque alguém precisa trabalhar."

Augusto puxou uma cadeira.

"Eu também sou acionista."

"Minoritário."

"Filho."

"Isso não é cargo."

"Engraçado você lembrar disso agora."

Roberto bateu a caneta na mesa.

"Chega."

Augusto se inclinou para a frente.

"Eu não vou votar em Camila sem condições."

Camila finalmente o encarou.

"Condições?"

"Sim."

"Você não tem competência para impor condições."

"Tenho ações suficientes para complicar sua manhã."

Otávio observou os dois.

Pareciam irmãos em guerra.

Como quase sempre.

Camila respirou fundo.

"O que você quer?"

Augusto sorriu.

"Conversamos em particular."

"Não."

"Então conversamos aqui."

Camila ficou em silêncio.

Augusto apoiou os braços sobre a mesa.

"Eu quero a liberação antecipada da minha parte no fundo familiar."

"Não."

"Quero também a casa do Guarujá."

"Não."

"Liquidez de parte das minhas ações."

"Nem pensar."

Augusto deu de ombros.

"Então não tem meu voto."

Camila inclinou-se na direção dele.

"Nossa mãe ainda respira e você está negociando imóvel."

"Você está negociando a presidência."

"Eu mantenho o grupo funcionando."

"E eu mantenho meu padrão de vida."

Otávio viu Roberto fechar os olhos por um instante.

Ninguém naquela sala precisava ouvir mais.

A reunião terminou sem decisão definitiva.

Camila conseguiu apenas poderes administrativos limitados por quarenta e oito horas.

正文1

Para qualquer mudança societária, precisaria de nova votação.

Ela saiu da sala furiosa.

Augusto foi atrás.

"Você vai precisar de mim."

Camila entrou no elevador.

"Eu preferia precisar de um tumor."

Augusto entrou antes que a porta fechasse.

"Ótimo. Tumor não pede casa no Guarujá."

A porta se fechou.

Otávio ficou olhando para o painel.

Aquilo deveria parecer apenas uma disputa vulgar por herança.

Mas havia alguma coisa errada.

Camila tinha pressa demais.

Augusto estava calmo demais.

No hospital, Beatriz continuava imóvel.

Henrique havia conseguido impedir o uso de sua impressão digital na noite anterior, alegando ausência de autorização judicial específica.

Camila não gostara.

Sérgio Tavares gostara menos ainda.

Por isso, naquela tarde, os dois voltaram.

Augusto chegou quinze minutos depois.

Lívia estava na cafeteria.

Marina organizava os medicamentos no posto de enfermagem.

Beatriz ficou sozinha com os três.

Camila fechou a porta.

"Eu tenho quarenta e oito horas."

Augusto sentou no sofá.

"Problema seu."

"Problema nosso."

"Você quer a cadeira."

"Eu quero impedir que o grupo pare."

"Você sempre fala bonito quando quer alguma coisa."

Beatriz escutava.

Cada palavra.

Camila puxou uma cadeira para perto da cama.

"Se eu assumir interinamente, consigo liberar parte do fundo."

Augusto ergueu as sobrancelhas.

"Quanto?"

"Depende."

"De quê?"

"Do seu voto."

Augusto levantou.

Aproximou-se da cama.

Olhou para a mãe como se ela fosse um objeto armazenado ali.

Depois voltou para Camila.

"Você fica com a empresa."

A frase saiu simples.

Fria.

"Eu quero dinheiro."

Beatriz sentiu uma dor que não tinha relação com o veneno.

Camila cruzou os braços.

"Você sempre quis dinheiro sem trabalhar."

"Eu não tenho vocação para fingir que amo planilha."

"Você também não tem vocação para pagar o que deve."

Augusto mudou de expressão.

"Baixa a voz."

"Por quê?"

"Porque isso não é assunto seu."

"Quando você pede dinheiro do fundo, vira assunto meu."

"Eu tenho direito."

"Você tem uma dívida maior que sua capacidade de raciocínio."

Augusto deu um passo à frente.

"Você acha que vai ficar com tudo."

Camila riu.

"Eu fiquei vinte anos ao lado dela."

"Você ficou vinte anos esperando ela morrer."

A frase cortou o quarto.

Beatriz quase abriu os olhos.

Camila ficou completamente imóvel.

"Repete."

"Você ouviu."

"Eu estava na empresa enquanto você estava em Ibiza, Miami, Trancoso ou qualquer outro lugar gastando dinheiro."

"Eu nunca disse que era santo."

"Você nunca precisou dizer. Todo mundo sabe."

Augusto apontou para a cama.

"Ela sabia também."

Camila seguiu o gesto.

Os dois olharam para a própria mãe.

Beatriz permaneceu sem reação.

Augusto falou mais baixo.

"Se ela não voltar, o testamento vai decidir muita coisa."

Camila respondeu imediatamente.

"O testamento não muda a estrutura de controle enquanto ela estiver viva."

"E se ficar assim por anos?"

Camila não respondeu.

Augusto sorriu.

"Você já pensou nisso."

"Eu penso em cenários."

"Eu também."

"Seu único cenário é saldo bancário."

"Então vamos simplificar."

Augusto contou nos dedos.

正文2

"A casa do Guarujá."

"Não."

"Minha parte do fundo liberada."

"Parcial."

"Dinheiro."

"Quanto?"

"Vinte milhões."

Camila riu.

"Você está delirando."

"Então quinze."

"Cinco."

"Doze."

"Sete."

"Dez."

Camila ficou em silêncio.

Beatriz ouviu tudo.

A casa do Guarujá.

O fundo familiar.

Dinheiro.

A própria vida dela sendo transformada numa negociação de corredor.

Augusto estendeu a mão.

Camila não apertou.

"Primeiro o voto."

"Primeiro a garantia."

A porta se abriu.

Lívia entrou carregando uma garrafa de água e uma sacola com roupas limpas.

Os dois se afastaram imediatamente.

Ela parou.

Olhou para Camila.

Depois para Augusto.

"Interrompi alguma coisa?"

"Nada que diga respeito a você", respondeu Camila.

Lívia colocou a sacola sobre a poltrona.

"Se é sobre a mamãe, diz respeito."

Augusto pegou o celular.

"Eu vou embora."

"Você acabou de chegar."

"Tenho coisa para fazer."

Lívia soltou uma risada curta.

"Claro."

Augusto se virou.

"O que foi?"

"Nada."

"Fala."

"Você só aparece quando tem documento, advogado ou dinheiro envolvido."

Augusto estreitou os olhos.

"Não começa."

"Eu não comecei nada."

Camila interveio.

"Lívia, não transforma isso num teatro."

Lívia encarou a irmã.

"Teatro?"

"Você fica aqui vinte e quatro horas, troca roupa, passa creme, segura a mão dela e de repente todo mundo precisa acreditar que você é a única filha de verdade."

Beatriz sentiu o estômago apertar.

Lívia ficou em silêncio por alguns segundos.

"Eu nunca disse isso."

"Não precisa."

"Então o que exatamente está incomodando você?"

Camila aproximou-se.

"Não confunda trocar fralda com fazer parte desta família."

O quarto ficou imóvel.

Até Augusto parou de mexer no celular.

Lívia não respondeu imediatamente.

Seus olhos se encheram de algo que não era surpresa.

Era memória.

"Você fala isso desde criança."

Camila desviou o rosto.

"Não dramatiza."

"Não estou dramatizando."

Lívia respirou fundo.

"Você tinha onze anos quando me disse que eu não devia aparecer na foto porque eu não era Montenegro de verdade."

"Eu era criança."

"E agora?"

Camila não respondeu.

Lívia olhou para a cama.

Por um segundo, Beatriz teve a sensação de que a filha falava com ela também.

"Algumas pessoas crescem."

Ela voltou para Camila.

"Outras só ficam mais caras."

Augusto riu.

Camila lançou um olhar para ele.

"Vamos."

Os dois saíram.

Beatriz permaneceu imóvel.

Mas por dentro estava novamente em uma sala de jantar de muitos anos antes.

Lívia tinha quinze anos.

Uma tia de Beatriz pedira uma foto "só da família".

Lívia havia dado um passo para trás.

Beatriz percebeu.

E não disse nada.

Na época, havia pensado que discutiria depois.

Nunca discutiu.

Agora, deitada numa cama sem poder defender a própria filha porque escolhera fingir que não falava, finalmente entendeu a crueldade do próprio silêncio.

Lívia ajeitou a manta.

"Não precisa ficar nervosa."

Beatriz quase sorriu com a ironia.

"Eu sei que talvez você nem esteja entendendo."

Lívia tocou a mão dela.

"Mas eu estou entendendo por nós duas."

Naquela noite, depois que Marina assumiu o quarto, Lívia voltou para a mansão.

正文3

Não foi dormir.

Foi para a sala de segurança.

Pediu as imagens completas da noite do aniversário.

O chefe da segurança, Marcelo Nunes, mostrou os arquivos.

Lívia assistiu à entrada dos convidados.

Ao serviço do jantar.

Aos garçons.

Ao momento em que a taça foi levada à mãe.

"Quem é esse?" perguntou.

Marcelo aproximou a imagem.

"Júlio. Garçom terceirizado."

"Quero falar com ele."

"Já tentei."

"Por quê?"

"Ele não voltou para a empresa."

Lívia virou.

"Como assim?"

"Sumiu depois da festa."

Antes que ela respondesse, seu celular vibrou.

Mensagem de Otávio Braga.

"Preciso falar com você. Sem Camila. Sem Augusto."

Vinte minutos depois, encontraram-se no estacionamento subterrâneo da sede do grupo.

Otávio estava com um notebook.

"Isso não tem relação apenas com sua mãe."

"Então com o quê?"

"Dinheiro."

Ele abriu uma planilha.

Lívia viu dezenas de pagamentos.

Empresas de engenharia.

Consultorias.

Aquisições de terrenos.

Adiantamentos.

"Quanto?"

"Até agora?"

Otávio respirou fundo.

"Setenta e dois milhões de reais."

Lívia perdeu o sorriso.

"Desviados?"

"Não consigo provar ainda."

"Então por que me chamou?"

Otávio abriu outra pasta.

"Porque alguém deixou um caminho muito conveniente."

Na tela apareceram aprovações digitais.

Uma.

Depois outra.

Depois outra.

Lívia aproximou o rosto.

"Isso está errado."

"Eu também achei."

Otávio abriu o registro de autenticação.

Nome do responsável.

Lívia Duarte Montenegro.

Número funcional.

Certificado digital.

Assinatura eletrônica.

Tudo parecia legítimo.

"Tem mais."

Ele rolou a tela.

Cinco contratos.

Onze aditivos.

Três autorizações de pagamento.

Todos aprovados como se tivessem passado por ela.

Lívia ficou pálida.

"Eu nunca vi essas empresas."

Otávio não disse nada.

Ela abriu um dos documentos.

Olhou a data.

Depois outro.

Então mais um.

"Não."

"Lívia..."

"Eu estava em Salvador nessa data."

"Eu sei."

"Fiquei quatro dias numa vistoria."

"Eu sei."

Ela levantou os olhos.

"Então alguém usou minha assinatura."

Otávio fechou parcialmente o notebook.

"Não só sua assinatura."

"O quê?"

"Seu certificado digital."

Lívia sentiu um frio atravessar o corpo.

"Isso exigiria acesso interno."

"Sim."

"Quem tinha?"

Otávio demorou a responder.

"Pouquíssimas pessoas."

Lívia voltou a olhar para os documentos.

R$ 72 milhões.

Pagamentos que nunca aprovara.

Empresas que nunca conhecera.

E seu nome em todas as páginas.

Ela sussurrou:

"Eu nunca assinei isso."

Otávio permaneceu imóvel.

Lívia finalmente percebeu o tamanho da armadilha.

Alguém não estava apenas roubando o Grupo Montenegro.

Alguém tinha começado muito antes da intoxicação de Beatriz a construir uma história perfeita.

Se a fraude viesse à tona, a empresa teria uma culpada pronta.

A filha adotiva.

A menina encontrada no lixo.

Aquela que, segundo metade da família, nunca pertencera ali.

E agora o nome dela estava exatamente onde um criminoso precisaria que estivesse.

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