"Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada" Capítulo 1
Aos sessenta e seis anos, Beatriz Montenegro Sampaio acreditava que já tinha aprendido a reconhecer o perigo.
Estava errada.
Naquela noite, sua mansão no Jardim Europa brilhava como se São Paulo inteira tivesse sido convidada para celebrar sua vitória. Lustres de cristal iluminavam o salão, garçons circulavam com bandejas de champanhe e, através das portas de vidro, o jardim parecia uma extensão silenciosa da festa.
Era o aniversário de Beatriz.
Também eram quarenta anos desde a primeira vez em que ela vendera alguma coisa para sobreviver.
Naquela época, não existia Grupo Montenegro Urbanismo. Não existiam prédios na Faria Lima, terrenos no litoral, motoristas, seguranças ou uma fortuna estimada em bilhões.
Existia apenas uma jovem vendendo roupas numa barraca improvisada no Brás.
Agora, empresários, arquitetos, políticos e investidores erguiam taças em sua homenagem.
Na mesa principal estavam seus três filhos.
Camila Montenegro Sampaio, quarenta e dois anos, ocupava a cadeira à direita da mãe. Vestia um conjunto branco impecável e passara metade do jantar respondendo mensagens do conselho administrativo.
Augusto Montenegro Sampaio, trinta e sete, estava do outro lado. Chegara quarenta minutos atrasado num carro esportivo novo e ainda encontrara tempo para reclamar do vinho.
Lívia Duarte Montenegro, trinta e nove, sentava-se mais distante.
Não tinha o sangue de Beatriz.
Tinha algo que os outros dois jamais conheceriam.
A memória da pobreza.
Beatriz ainda era uma camelô quando encontrou Lívia, recém-nascida, abandonada dentro de uma caixa de papelão perto de um amontoado de lixo numa noite de chuva.
Ela própria quase não tinha o que comer.
Mesmo assim, levou a menina para casa.
Anos depois vieram o casamento, a fortuna, Camila e Augusto.
E vieram também os cochichos.
"A menina que ela encontrou no lixo."
"A adotada."
"A que não é Montenegro de verdade."
Beatriz ouvira algumas dessas frases.
Outras preferira não ouvir.
Na época, dizia a si mesma que o silêncio evitava conflitos.
Aos sessenta e seis anos, ainda não sabia quanto aquele silêncio lhe custaria.
"Mãe."
Camila tocou discretamente no braço dela.
"Você está me ouvindo?"
Beatriz piscou.
"Estou. Por quê?"
"Você ficou olhando para o nada."
Augusto riu.
"Ela está calculando quanto cada pessoa nesta mesa quer dela."
Beatriz ergueu uma sobrancelha.
"E você facilita bastante o cálculo."
Alguns convidados riram.
Augusto levantou a taça.
"Eu pelo menos sou transparente."
"Você chama dívida de transparência agora?"
O sorriso dele desapareceu por um instante.
Camila interveio.
"Hoje não."
"Foi ele quem começou."
"Eu só fiz uma piada."
Lívia observava em silêncio.
Era assim havia anos.
Camila queria controlar tudo.
Augusto transformava tudo em brincadeira até alguém tocar no dinheiro.
E Beatriz mantinha os dois orbitando ao redor dela como se administrar os próprios filhos fosse apenas outra reunião de diretoria.
Um garçom se aproximou.
Trazia uma única taça de champanhe.
"Para a senhora, dona Beatriz."
Ela estranhou.
"Eu já tenho uma."
"O serviço pediu para trocar. Esta é da garrafa reservada para o brinde."
Beatriz olhou rapidamente para a bandeja.
Nada pareceu fora do normal.
Pegou a taça.
Camila já havia voltado ao celular.
Augusto conversava com uma mulher do outro lado da mesa.
Lívia discutia discretamente com um garçom porque um funcionário idoso estava carregando sozinho uma bandeja pesada.
Beatriz bebeu.
O gosto parecia normal.
Trinta segundos depois, sentiu um calor estranho subir pela garganta.
Levou a mão ao pescoço.
Respirou.
O ar não entrou como deveria.
"Lívia..."
A filha virou imediatamente.
"Mãe?"
A taça escapou dos dedos de Beatriz.
O cristal explodiu contra o mármore.
O salão inteiro silenciou.
Beatriz tentou se levantar.
As pernas não responderam.
"Mãe!"
Lívia foi a primeira a alcançá-la.
Beatriz apertou o peito.
Seu coração disparava.
O rosto de Camila perdeu a cor.
Augusto empurrou a cadeira para trás.
"Chama uma ambulância!"
Beatriz tentou falar.
Nenhum som saiu.
O teto pareceu girar.
Viu Lívia ajoelhada diante dela.
Depois Camila.
Depois dezenas de rostos.
A última coisa que ouviu antes de perder a consciência foi a voz de Lívia.
"Olha para mim! Mãe, olha para mim!"
E então tudo ficou escuro.
Quando Beatriz abriu os olhos novamente, não estava na mansão.
Reconheceu o teto branco da suíte particular do Hospital Santa Cecília.
Tentou mexer os dedos.
Conseguiu.
Mexeu os pés.
Também conseguiu.
"Não se levante."
A voz vinha da poltrona.
Dr. Henrique Valverde levantou-se imediatamente.
Era neurologista de Beatriz havia doze anos e uma das poucas pessoas que ousavam contrariá-la.
"Quanto tempo?"
"Sete horas."
"Meus filhos?"
"Lá fora."
Beatriz tentou se sentar.
Henrique ajudou.
"O que aconteceu comigo?"
O médico hesitou.
"Você foi intoxicada."
Beatriz ficou imóvel.
"Intoxicada?"
"Encontramos uma substância no sangue. Ainda estamos tentando determinar exatamente a origem, mas a dose não foi suficiente para provocar dano neurológico permanente."
"Minha taça."
"Já pedi que fosse preservada."
Beatriz olhou para as próprias pernas.
"Então eu posso andar?"
"Pode."
"Falar?"
Henrique quase sorriu.
"Você está falando."
Beatriz não respondeu.
O médico percebeu a mudança em seu rosto.
"Beatriz."
"Quem sabe que estou bem?"
"Eu. Marina, porque estava comigo durante os exames. Mais ninguém."
Ela olhou para a porta.
Do outro lado estavam seus três filhos.
Um deles podia ter tentado matá-la.
Ou talvez nenhum.
"Quero que continue assim."
Henrique franziu a testa.
"Assim como?"
"Não diga que estou bem."
"Você sofreu uma intoxicação. Isso não é brincadeira."
"Justamente."
Beatriz baixou a voz.
"Diga que houve comprometimento neurológico."
Henrique demorou alguns segundos para entender.
"Não."
"Henrique."
"Não."
"Dez dias."
"Você acabou de ser envenenada e quer transformar isso num teste de família?"
"Quero saber o que acontece quando eles acharem que eu não posso mais controlar nada."
"Você quer saber quem ama você?"
Beatriz encarou a porta.
"Quero saber quem eles são quando acreditarem que eu não estou olhando."
Henrique caminhou até a janela.
"Isso pode destruir sua família."
"Se dez dias forem suficientes para destruí-la, então ela já estava destruída."
Uma hora depois, os três filhos entraram.
Beatriz estava deitada.
Os olhos semicerrados.
As pernas imóveis.
A boca entreaberta.
Henrique explicou lentamente.
"Há sinais de comprometimento neurológico importante. Neste momento, dona Beatriz apresenta perda de movimento nos membros inferiores e ausência de fala."
Lívia levou a mão à boca.
"Ela entende a gente?"
"Não sabemos."
Camila ficou pálida.
"Isso é permanente?"
"É cedo para afirmar."
Augusto passou a mão pelos cabelos.
"Quanto tempo até saber?"
"Dias. Talvez semanas."
Lívia aproximou-se da cama.
"Mãe?"
Beatriz não reagiu.
Lívia tocou seu rosto.
"Sou eu."
Nada.
Beatriz sentiu os dedos da filha tremerem contra sua pele.
Camila permaneceu afastada.
Depois de alguns segundos, tirou o celular da bolsa.
"Preciso ligar para o Sérgio."
Lívia virou.
"Sério?"
"Ele é o advogado da família."
"Nossa mãe acabou de acordar."
"Exatamente. Existem decisões que precisam ser tomadas."
Camila saiu para o corredor.
Beatriz sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Não demorou nem cinco minutos.
Quando Camila voltou, estava acompanhada de Augusto.
Os dois ficaram perto da janela.
Falavam baixo.
Não baixo o suficiente.
"Ela ainda pode votar no conselho?" perguntou Camila.
Beatriz sentiu o sangue ferver.
Augusto nem olhou para a cama.
"E o fundo da família? Ela ainda pode bloquear meu dinheiro?"
Camila encarou o irmão.
"Nossa mãe está numa cama de hospital e você está pensando no seu fundo?"
"Você perguntou do conselho."
"Porque três mil funcionários dependem da empresa."
"E eu dependo do fundo."
"Isso explica muita coisa sobre você."
"Não posa de filha preocupada. Você está contando votos desde que ela caiu."
Beatriz queria abrir os olhos.
Queria mandar os dois para fora.
Não fez nada.
Dez dias.
Ela havia pedido dez dias.
Já estava arrependida antes do primeiro terminar.
Camila saiu dizendo que precisava organizar uma reunião emergencial.
Augusto foi embora pouco depois.
Tinha um jantar marcado.
Lívia ficou.
À noite, ajudou Marina a trocar a roupa da mãe.
Passou creme em suas pernas.
Molhou os lábios dela com água.
Arrumou a manta.
Nenhuma câmera.
Nenhum convidado.
Nenhuma postagem.
Apenas ela.
"Você sempre odiou depender dos outros."
Lívia sorriu com tristeza.
"Talvez por isso tenha criado filhos tão ruins em pedir ajuda."
Beatriz quase sorriu.
Lívia segurou sua mão.
Ficou em silêncio por algum tempo.
Então sua voz mudou.
"Você me encontrou quando ninguém me queria."
Beatriz sentiu os dedos dela apertarem os seus.
"Eu sei que todo mundo acha que eu devia ter esquecido aquela história."
Lívia respirou fundo.
"Mas eu nunca esqueci."
Uma lágrima caiu sobre a mão de Beatriz.
"Então eu não vou embora agora que todo mundo acha que você não serve mais para nada."
Beatriz sentiu os próprios olhos arderem.
Por um segundo, quase apertou a mão da filha.
Quase abriu os olhos.
Quase disse seu nome.
Não teve tempo.
A porta se abriu.
Camila entrou acompanhada de um homem de terno escuro.
Dr. Sérgio Tavares.
Lívia levantou.
"O que ele está fazendo aqui a esta hora?"
"Trabalhando", respondeu Camila.
Sérgio colocou uma pasta sobre a mesa.
"Precisamos resolver uma questão urgente."
"Minha mãe não consegue falar."
"Eu sei."
"Nem assinar."
"Também sei."
O advogado abriu a pasta.
"Por isso existe outra possibilidade."
Retirou uma pequena almofada de tinta.
Lívia olhou para o objeto.
"Você está brincando."
"Uma impressão digital pode ser utilizada em determinadas formalizações, desde que acompanhada da documentação adequada."
"Você quer pegar o dedo dela?"
"Quero proteger os interesses dela."
Camila cruzou os braços.
"Sem alguém no comando, podemos perder contratos importantes."
Lívia puxou a pasta.
"Então espera ela melhorar."
Sérgio segurou o documento antes que ela fechasse.
"Não sabemos se isso vai acontecer."
Beatriz permaneceu imóvel.
Mas conseguia enxergar parte da primeira página.
Leu uma linha.
Depois outra.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Não era uma autorização para tratamento.
Não era tutela médica.
Não era sequer uma procuração comum.
No alto da página estava escrito:
TRANSFERÊNCIA PROVISÓRIA DE CONTROLE SOCIETÁRIO — GRUPO MONTENEGRO URBANISMO S.A.
Camila aproximou-se da cama.
Pegou a mão direita da mãe.
Beatriz sentiu os dedos da própria filha envolvendo os seus.
Sérgio abriu a almofada de tinta.
"É só o polegar."
Camila levou a mão da mãe em direção ao documento.
Beatriz não se mexeu.
Não falou.
Não abriu os olhos.
Naquela manhã, ela acreditava estar fingindo uma paralisia para descobrir quais filhos permaneceriam ao seu lado.
Agora entendia que havia cometido um erro.
Camila não estava esperando a mãe melhorar.
Augusto não estava esperando a mãe morrer.
Eles já tinham começado.
E, enquanto todos acreditavam que Beatriz Montenegro Sampaio não podia andar, falar ou compreender uma única palavra, sua própria filha estava usando a mão imóvel dela para tomar o império que levara quarenta anos para construir.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4