"“Ela Não É Minha Filha”… Até o DNA Revelar Um Segredo Pior" Capítulo 1
"ELA NÃO É MINHA FILHA."
A frase de Alexandre Montenegro atravessou o salão da mansão como um tiro.
Isabela ainda segurava Sofia contra o peito quando ouviu aquelas palavras. A menina de quinze meses chorava desesperadamente, com glacê branco preso nos cabelos, no nariz e nas pequenas mãos.
O aniversário deveria ter sido perfeito.
Na mansão dos Montenegro, no Jardim Europa, em São Paulo, tudo havia sido planejado para parecer perfeito.
Arranjos de flores brancas ocupavam as mesas. Taças de cristal refletiam a luz dos lustres. Um bolo de dois andares, decorado com pequenas flores lilases, dominava o centro do salão.
Sofia não entendia nada daquilo.
Para ela, era apenas um dia com muita gente olhando, sorrindo e tentando tirar fotografias.
Isabela havia saído por menos de um minuto.
Sofia derramara água sobre a toalha da mesa, e Isabela foi buscar outra toalha no lavabo ao lado.
Um minuto.
Talvez menos.
Quando voltou, ouviu o grito.
Não era o choro irritado que Sofia fazia quando estava com sono.
Era medo.
Isabela correu.
E o que viu fez seu sangue gelar.
Vitória Montenegro estava atrás da cadeira de Sofia.
Elegante como sempre.
Vestido vinho impecável. Colar de pérolas. Cabelos perfeitamente penteados.
Mas uma das mãos estava fechada nos cabelos da neta.
E com a outra, Vitória empurrava o rosto da menina contra o bolo.
"VITÓRIA!"
Isabela atravessou o salão correndo.
Arrancou a mão da sogra dos cabelos da filha e puxou Sofia para os braços.
A menina engasgava entre os soluços.
Havia glacê nas narinas.
Isabela limpou primeiro o nariz.
Depois os olhos.
Depois a boca.
"Calma, meu amor. Mamãe está aqui."
Sofia agarrou o vestido da mãe com tanta força que os pequenos dedos ficaram brancos.
Isabela ergueu os olhos.
Vitória ajeitava tranquilamente uma pulseira no pulso.
"O que você fez?"
Vitória franziu a testa.
"Não faça drama."
"Você estava segurando o cabelo dela!"
"Eu estava tentando tirar uma fotografia."
Isabela ficou sem reação por um instante.
"Uma fotografia?"
"Todo mundo faz isso em aniversário de criança. Coloca o rosto no bolo, tira uma foto, ri depois."
"Ela estava chorando."
"Ela é uma criança, Isabela. Crianças choram."
A naturalidade daquela resposta foi pior do que qualquer insulto.
Isabela olhou para Sofia.
Uma pequena mecha de cabelo permanecia presa ao glacê.
Então alguma coisa dentro dela se rompeu.
Isabela entregou Sofia rapidamente para uma das funcionárias que estava ao lado.
"Segura ela."
Vitória ainda teve tempo de erguer o queixo.
"Você deveria aprender a controlar essa sua..."
O tapa veio antes que terminasse.
O som ecoou pelo salão.
Vitória cambaleou e bateu contra a mesa.
Uma taça caiu no chão e se despedaçou.
Todos ficaram imóveis.
Os convidados não sabiam para onde olhar.
Vitória levou a mão lentamente ao rosto.
A marca dos dedos de Isabela começava a aparecer.
Isabela pegou Sofia novamente.
Sua voz saiu baixa.
"Encoste na minha filha outra vez e eu juro que você nunca mais chega perto dela."
Vitória abriu a boca.
Mas outra voz surgiu atrás delas.
"ISABELA!"
Alexandre Montenegro havia acabado de entrar.
Ele parou ao ver a mãe com a mão sobre o rosto.
Depois olhou para a esposa.
"O que você fez?"
Isabela respirava rápido.
"Pergunta primeiro o que sua mãe fez com Sofia."
Alexandre não perguntou.
Nem sequer olhou direito para a filha.
Vitória percebeu.
E imediatamente mudou de expressão.
Seus olhos ficaram úmidos.
"Alexandre, eu só estava brincando com Sofia."
"Brincando?"
Isabela quase gritou.
"Ela estava esmagando o rosto da sua filha contra o bolo!"
Vitória levou a mão ao peito.
"Isso é mentira."
"Eu vi!"
"Ela entrou descontrolada, me atacou e agora está tentando justificar."
Alexandre caminhou até a mãe.
"Você está bem?"
Isabela ficou imóvel.
A pergunta doeu mais do que deveria.
Sofia ainda chorava em seus braços.
Mesmo assim, Alexandre não perguntou se a menina estava bem.
"Olha para sua filha."
Alexandre finalmente olhou.
Sofia tinha os olhos vermelhos.
O vestido estava sujo de glacê.
As mãos agarravam o pescoço da mãe.
Por um segundo, algo passou pelo rosto dele.
Culpa.
Talvez dúvida.
Mas Vitória falou primeiro.
"Você sabe como Isabela anda."
Isabela virou lentamente o rosto.
"Como eu ando?"
"Paranoica."
"Vitória."
"Há semanas ela acha que todo mundo está contra ela."
Alexandre fechou os olhos.
"Chega."
Isabela sentiu o estômago apertar.
Ela conhecia aquele tom.
Nas últimas duas semanas, Alexandre estava diferente.
Frio.
Distante.
Observava Sofia de uma maneira estranha.
Perguntava datas que já conhecia.
Fazia comentários sobre os olhos da menina.
Sobre o cabelo.
Sobre um antigo namorado de Isabela.
Tudo começara depois de uma longa conversa entre ele e Vitória.
Isabela sabia.
Só não sabia até onde aquilo tinha ido.
"Alexandre, me responde uma coisa."
Ele permaneceu em silêncio.
"Por que você está olhando para Sofia desse jeito?"
Vitória prendeu a respiração.
Alexandre desviou os olhos.
"Não faça isso aqui."
"Fazer o quê?"
"Esse espetáculo."
Isabela riu sem humor.
"Sua mãe quase machucou Sofia e o espetáculo é meu?"
"Você bateu nela."
"Porque ela colocou a mão na minha filha."
"Nossa filha?"
A pergunta fez Isabela congelar.
O salão inteiro pareceu diminuir.
Alexandre respirou fundo.
Vitória permaneceu atrás dele.
Quase escondida.
Quase satisfeita.
Isabela apertou Sofia contra o peito.
"Repete."
Alexandre não respondeu.
"Repete o que você acabou de insinuar."
Ele finalmente a encarou.
Sua voz veio fria.
"Ela não é minha filha."
O silêncio foi absoluto.
Até Sofia parou de chorar por alguns segundos.
Isabela olhou para o homem com quem havia dividido quatro anos de casamento.
O homem que havia segurado sua mão durante o parto.
O homem que havia chorado quando Sofia abriu os olhos pela primeira vez.
Agora ele olhava para a própria filha como se ela fosse uma fraude.
Atrás dele, Vitória sorriu.
Foi pequeno.
Rápido.
Mas Isabela viu.
E naquele instante entendeu tudo.
"Então era isso."
Alexandre franziu a testa.
"Do que você está falando?"
"Há duas semanas você me trata como uma criminosa."
"Eu só estou tentando descobrir a verdade."
"Não. Você escolheu uma mentira."
Vitória se aproximou.
"Isabela, talvez seja melhor você ir embora antes de causar mais vergonha."
Isabela olhou para ela.
E, para surpresa de todos, sorriu.
Vitória perdeu parte da segurança.
"Você tem razão."
Isabela caminhou até o sofá próximo.
Colocou Sofia cuidadosamente no colo da babá.
"Vou embora."
Abriu sua bolsa.
"Mas antes..."
Retirou um envelope branco.
Vitória empalideceu.
Alexandre percebeu.
"O que é isso?"
Isabela se aproximou dele.
"Você queria descobrir a verdade, não queria?"
Entregou o envelope.
"Descobre."
Alexandre rasgou a lateral.
Dentro havia um relatório de laboratório.
Seus olhos correram pelas primeiras linhas.
Exame de vínculo genético.
Sofia Oliveira Montenegro.
Possível pai biológico: Alexandre Augusto Montenegro.
Ele continuou lendo.
A cor começou a desaparecer de seu rosto.
Vitória deu um passo à frente.
"O que está escrito?"
Alexandre não respondeu.
"Alexandre?"
Os dedos dele começaram a tremer.
Isabela cruzou os braços.
"Leia em voz alta."
Ele levantou os olhos.
"Isabela..."
"Leia."
Alexandre olhou novamente para o papel.
"Probabilidade de paternidade: 99,9998%."
Vitória ficou imóvel.
Alexandre encarou Sofia.
A menina estava abraçada à babá, ainda com pequenas manchas de glacê no cabelo.
"Ela é minha..."
A voz dele quase não saiu.
Isabela sentiu lágrimas queimarem seus olhos.
Mas não deixou nenhuma cair.
"Sim."
Alexandre levantou a cabeça.
"Por que você fez esse exame?"
"Porque sua mãe estava fazendo perguntas demais."
Vitória reagiu.
"Isso é absurdo."
"Perguntas sobre o dia em que Sofia foi concebida. Sobre o meu ex-namorado. Sobre a cor dos olhos dela."
Alexandre virou lentamente para a mãe.
Vitória balançou a cabeça.
"Eu só estava tentando proteger você."
"De quê?"
Vitória não respondeu.
Isabela pegou Sofia novamente.
"Agora você sabe que ela é sua filha."
Alexandre deu um passo na direção delas.
"Isabela, espera."
Ela recuou.
"Não toca em mim."
Ele parou.
A frase o atingiu.
"Eu preciso conversar com você."
"Não hoje."
"Eu errei."
"Você não errou uma data."
A voz de Isabela tremeu pela primeira vez.
"Você olhou para nossa filha chorando e decidiu acreditar que ela não era sua."
Alexandre abaixou os olhos.
"Eu..."
"Não."
Isabela interrompeu.
"Você não vai pedir desculpas agora porque ainda nem entendeu o que fez."
Ela se virou.
Vitória pareceu recuperar a coragem.
"Alexandre, não deixe essa mulher transformar você contra sua própria família."
Isabela parou perto da porta.
Olhou por cima do ombro.
"Eu também achava que você era a família dele."
Então saiu.
Alexandre ficou parado no meio do salão.
Os convidados começaram a se afastar discretamente.
Vitória tentou pegar o documento.
"Me dá isso."
Alexandre afastou a mão.
"Não."
"Alexandre."
"Eu disse não."
Foi a primeira vez em muitos anos que Vitória ouviu aquele tom dirigido a ela.
Alexandre voltou a olhar o exame.
Então percebeu uma coisa.
Havia uma segunda página.
"Que página é essa?"
Vitória congelou.
Alexandre puxou a folha.
Era outro exame genético.
Outro nome.
Augusto Montenegro.
Seu pai.
O homem que havia comandado o Grupo Montenegro durante décadas.
O homem que Alexandre enterrara seis anos antes.
Ele leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Depois leu novamente porque seu cérebro se recusava a aceitar.
Relação biológica pai-filho:
Excluída.
Alexandre sentiu as pernas perderem força.
"Não..."
Vitória começou a recuar.
Ele levantou os olhos.
"Augusto não era meu pai."
"Alexandre..."
"Não era."
Vitória tentou falar.
Nenhuma palavra saiu.
Alexandre olhou para a mulher que o havia criado repetindo durante trinta e sete anos que ele era o herdeiro Montenegro.
Depois ergueu a segunda página.
Seus olhos estavam cheios de choque.
"Então... quem é meu pai?"
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