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"Três Dias Após o Funeral, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Herança" Capítulo 3

正文开头

O primeiro impulso de Eliza foi descer os degraus. O segundo manteve seus pés no lugar.

Garrett continuava de costas. Entre ele e a escada havia o corredor, o aparador com as rosas do funeral e a ilha de pedra. Eliza retirou o celular do bolso devagar, cobriu a tela com a palma para esconder o brilho e abriu o gravador.

A onda vermelha começou a correr.

— Amanhã ela volta ao advogado — Garrett disse. — Depois eu preparo a procuração.

Uma voz metálica respondeu do outro lado, baixa demais para ser compreendida.

— Não complica, Mason. A trava não muda o plano. Só muda o documento.

Eliza aproximou o telefone do vão entre os balaústres. O nome ficou gravado com nitidez.

Garrett bebeu e caminhou até a janela. O reflexo dele se moveu no vidro, perto do lugar onde Eliza estava escondida. Ela recuou um degrau, mantendo o corpo atrás da coluna.

— Sienna fez a parte dela — ele continuou. — Agora preciso que fique calma.

Do pátio junto à fonte veio uma risada curta.

Eliza conhecia aquele som desde a infância. Sienna ria assim quando quebrava uma regra e tentava parecer corajosa. A silhueta da irmã atravessou a chuva, do abrigo da fonte em direção à garagem.

Garrett encerrou a chamada e pousou o telefone perto do copo. A aliança bateu no cristal.

Eliza parou a gravação. Enviou o arquivo para o próprio e-mail, para uma pasta protegida e para o número de Harrison com uma única mensagem: amanhã.

Subiu em silêncio. No quarto, trocou o casaco por uma blusa e abriu a torneira do banheiro para justificar a demora.

Garrett apareceu encostado no batente.

— Você chegou faz tempo?

Eliza secou as mãos.

— Agora.

— Não ouvi a porta.

— Entrei pela lateral.

Ele a observou pelo espelho.

— Como foi com Harrison?

— Papelada. Mais papelada.

— Ele falou de acesso às contas?

A pergunta veio com o mesmo tom usado para oferecer café.

— Disse que levaria algumas semanas.

Garrett soltou o ar e se aproximou. Colocou as mãos nos ombros dela.

— Se quiser, posso assumir essa parte. Você já está carregando coisa demais.

Eliza olhou os dedos dele sobre o tecido. As mãos que haviam segurado a sua no funeral calculavam uma procuração enquanto as flores ainda estavam frescas.

— Talvez — respondeu.

Ele beijou sua têmpora.

— Deixa comigo.

Naquela noite, Garrett dormiu ao lado dela. Eliza colocou o telefone para gravar no criado-mudo, escondido sob um livro. Nenhuma ligação aconteceu. Ele respirou com regularidade e, em certo momento, passou o braço pela cintura dela.

Eliza ficou imóvel até a mão dele relaxar.

O quarto tinha uma fotografia de David dentro da gaveta. Ela a retirou sem acender a luz. David sorria no vinhedo, com lama nas botas e uma tesoura de poda no bolso. Garrett nunca pedira que a fotografia fosse guardada; dizia respeitar o passado.

正文1

Agora até esse respeito parecia ensaiado.

Às seis da manhã, Eliza foi para a cozinha. A rosa mais próxima da janela havia soltado duas pétalas. Ela as recolheu e colocou num guardanapo.

Garrett entrou de meias, preparou chá e cortou pão.

— Dormiu?

— Um pouco.

— Harrison confirmou a reunião?

— Dez horas.

— Quer que eu vá?

— Ele pediu que eu fosse sozinha.

A faca parou sobre o pão. Meio segundo depois, Garrett continuou o corte.

— Estranho.

— Foi uma instrução da mamãe.

— Ela nunca gostou de dividir controle.

Eliza dobrou o guardanapo sobre as pétalas.

— Nem depois de morta.

Garrett sorriu. Pareceu ouvir apenas concordância.

No carro, Eliza ligou para Harrison usando o sistema de viva-voz.

— Recebeu o arquivo?

— Recebi. Fiz duas cópias autenticadas e preservei os metadados.

— Ele falou com Mason.

Harrison demorou um instante.

— Não mencione esse nome perto de Garrett.

— Você conhece?

— Conheço a empresa. Sua mãe também conhecia.

Quando Eliza chegou, Harrison a esperava no corredor. Trancou a sala depois que ela entrou e fechou as persianas de vidro voltadas para a recepção.

Sobre a mesa estava o tablet preto.

— Sua mãe pediu que eu mostrasse isto em particular — disse.

Margaret surgiu na tela, mais magra do que na semana de sua morte. Ergueu uma fotografia diante da câmera.

Garrett estava nela.

Sienna também.

A imagem fora feita no estacionamento lateral de um hotel em Porto Alegre. Sienna agarrava a lapela do casaco azul-marinho de Garrett. A distância entre os dois não deixava espaço para uma apresentação casual.

Margaret baixou a fotografia.

— Eliza, se você está vendo isto, eu não consegui fazer você me ouvir antes que eles percebessem que eu sabia.

No canto da gravação, a data confirmava que Margaret falara quinze dias antes de morrer.

Harrison entregou a Eliza uma folha com a cadeia de custódia do vídeo. Margaret gravara o depoimento diante de duas testemunhas, num dia em que ainda conseguia deixar o hospital. A fotografia fora obtida por investigador licenciado e acompanhada de data, localização e sequência completa.

— Ela não queria que Garrett dissesse que uma imagem isolada foi manipulada — explicou.

Eliza percorreu as miniaturas. Em uma, Sienna afastava-se. Em outra, Garrett segurava o braço dela e a conduzia para perto do carro. A intimidade estava no hábito dos movimentos, não num beijo conveniente para a câmera.

— Minha mãe fez tudo isso enquanto eu levava sopa para o quarto dela.

— Margaret começou depois de ver Garrett tentando fotografar um extrato sobre a mesa.

Eliza ergueu os olhos.

— Quando?

— Na noite em que vocês anunciaram o casamento.

O vídeo voltou a correr. Margaret abriu uma pasta idêntica à que Harrison mantinha diante de si e pediu que a filha escutasse até o fim antes de defender qualquer pessoa.

Eliza pediu água. Harrison colocou a garrafa ao alcance dela e voltou para o próprio lado da mesa. A distância respeitosa contrastava com Garrett, que costumava colocar objetos diretamente em sua mão e permanecer perto até que aceitasse.

— Minha mãe desconfiava até de você? — perguntou.

— Exigiu que outro escritório revisasse o fundo e que dois curadores independentes validassem minha atuação.

— Você aceitou?

— Era o modo correto de proteger você.

Eliza bebeu. Pela primeira vez naquela manhã, uma resposta simples não escondia pedido algum.

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