"Três Dias Após o Funeral, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Herança" Capítulo 1
Eliza ainda carregava nas mangas o cheiro das rosas brancas quando atravessou a varanda da casa principal.
Três dias de chuva haviam deixado as colinas do Vale dos Vinhedos cobertas por uma névoa baixa. Entre as fileiras de uva, os funcionários voltavam ao trabalho em silêncio, como se o luto também tivesse horário.
Margaret Sullivan dizia que rosas brancas pareciam honestas. Limpas, diretas, sem segunda intenção. O arranjo sobre o caixão tinha ocupado quase toda a capela, e agora dezenas das mesmas flores enchiam a sala, o escritório e o corredor da casa.
Garrett tocou o cotovelo de Eliza quando o último carro deixou o pátio.
— Você precisa comer.
— Depois.
— Disse isso no café.
Ele não insistiu. Foi até a cozinha, voltou com uma xícara e a colocou perto da mão dela. Durante dez meses de casamento, aprendera a oferecer antes que Eliza pedisse. Café no hospital. Água durante as reuniões com médicos. Um casaco quando ela esquecia que estava frio.
Oito meses antes, David morrera numa curva molhada da estrada entre Bento Gonçalves e Farroupilha. A polícia entregara a aliança dele dentro de uma bolsa plástica transparente. Eliza guardara a bolsa no fundo da gaveta e passara semanas acordando quando algum carro freava na rodovia distante.
Margaret adoeceu logo depois. Exames, internações e especialistas ocuparam o espaço que a morte de David deixara. Garrett apareceu nesse intervalo, quando Eliza dormia em cadeiras de hospital e aceitava café de qualquer mão que não exigisse conversa.
Ele dizia visitar um colega no mesmo prédio. Duas semanas antes, tinham se encontrado num restaurante durante um jantar de fornecedores. A coincidência pareceu gentil. Garrett sabia quando falar de livros, quando calar e quando retirar o copo vazio da mesa.
Casaram no civil dez meses depois, com quatro testemunhas e um jantar discreto. Margaret compareceu. Sienna mandou uma mensagem dizendo que estava doente.
Agora a irmã permanecia junto à lareira, girando uma taça sem beber. Usava vestido preto, óculos escuros e um casaco largo demais. Parentes se aproximavam dela com cautela, diziam uma frase curta e seguiam para Eliza.
— Todo mundo já decidiu quem é a filha certa — Sienna comentou quando ficaram sozinhas.
Eliza colocou a xícara na mesa.
— Hoje não.
— Para você é fácil dizer.
— Enterramos nossa mãe há três horas.
Sienna olhou para Garrett, que conversava com Harrison Whitfield perto da porta do escritório. O advogado tinha uma pasta presa sob o braço. Garrett percebeu o olhar e sorriu de leve.
— Ele cuida bem de você — Sienna disse.
— Cuida.
— Que sorte.
A palavra saiu com uma borda que Eliza não quis tocar. Nos últimos anos, cada conversa com a irmã terminava em dinheiro, desaparecimento ou pedido de desculpas. Margaret pagara clínicas, aluguel, dívidas e cursos. Depois passara a depositar qualquer ajuda diretamente aos prestadores.
Sienna chamava aquilo de controle. Margaret chamava de manter a filha viva.
Harrison aproximou-se quando Garrett foi atender um funcionário no pátio.
— A leitura será amanhã, às dez — disse. — No meu escritório.
— Sienna sabe?
— Recebeu a convocação.
— Ela não está bem.
— A equipe dela foi avisada.
Eliza franziu a testa.
— Que equipe?
Harrison ajustou os óculos.
— O contato do programa de recuperação. Sua mãe deixou instruções.
Sienna ouviu. A taça parou entre os dedos.
— Até morta ela ainda organiza minha vida.
— Harrison só está fazendo o trabalho dele — Eliza respondeu.
— Você sempre traduz a mamãe para que ela pareça menos cruel.
Garrett voltou antes que Eliza respondesse. Posicionou-se entre as duas, uma mão nas costas da esposa, o corpo discretamente voltado para Sienna.
— Chega por hoje.
Sienna soltou a taça sobre a lareira. O cristal bateu na pedra.
— Claro. O marido perfeito decidiu.
Ela saiu pela porta do jardim. Garrett acompanhou sua passagem com os olhos, depois apertou o ombro de Eliza.
— Não absorve isso.
— Ela perdeu a mãe também.
— E você perdeu muito mais nos últimos meses.
Eliza queria agradecer. A frase encontrou um obstáculo. Margaret dissera algo semelhante uma semana antes de morrer: Garrett sempre sabe qual perda colocar na frente da outra.
Na ocasião, Eliza pediu que a mãe parasse. Garrett era a única parte da vida que ainda parecia simples.
À noite, a casa ficou vazia. Eliza entrou no antigo escritório de Margaret e acendeu apenas a luminária da mesa. Havia uma fotografia da primeira colheita, contratos marcados com lápis vermelho e uma rosa branca num copo de água.
Garrett apareceu à porta.
— Vem deitar.
— Preciso respirar aqui um pouco.
— Harrison comentou alguma coisa sobre o testamento?
Eliza ergueu os olhos.
— Só o horário.
— Sua mãe devia ter deixado tudo organizado.
— Ela organizava até o que não precisava.
Garrett entrou e passou os dedos pela lombada de uma pasta.
— Amanhã acaba essa parte.
— Que parte?
— A espera. Depois a gente decide o que fazer.
Eliza fechou a gaveta que ele observava.
— Amanhã a gente escuta.
Ele beijou sua testa e saiu. O passo dele diminuiu no corredor, perto da porta entreaberta, antes de seguir até o quarto.
Eliza retirou a fotografia da primeira colheita. Atrás dela, Margaret escrevera uma data e três palavras: tudo começou aqui.
Na manhã seguinte, Harrison abriu a porta da sala de reuniões. Sobre a mesa havia quatro cópias do testamento e uma pasta preta fechada.
— Entre, Eliza — disse. — Sua mãe deixou instruções específicas.
Ela atravessou a porta sozinha.
Antes de entrar, Eliza recebeu de uma funcionária uma caixa esquecida no carro do funeral. Dentro estavam o lenço de Margaret, um molho de chaves e a tesoura de poda que a mãe carregava na primeira fotografia da vinícola. Garrett estendeu a mão para pegar a caixa.
— Eu levo.
Eliza segurou-a contra o corpo.
— Fica comigo.
Ele recolheu a mão e abriu passagem. Sienna, já sentada atrás do vidro da sala, acompanhou o gesto. Harrison esperou Eliza guardar as chaves na bolsa antes de fechar a porta. A caixa permaneceu sob a cadeira dela durante toda a leitura, encostada em seus sapatos como um peso que nenhum número substituiria.
Garrett tentou empurrá-la para trás com a ponta do sapato. Eliza a trouxe novamente para perto.
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