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"Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim" Capítulo 1

正文开头

A manhã começou com música alta, malas abertas e uma agitação que fazia a mansão dos Vasconcelos, em Jardim Europa, parecer mais viva do que de costume.

Patrícia atravessava a sala com o celular em uma mão e uma nécessaire de couro na outra, conferindo pela terceira vez o horário do motorista que os levaria até o Aeroporto de Guarulhos.

"Gabriel, desce logo com essa mala! O motorista chega em vinte minutos!"

Do andar de cima, a voz do rapaz veio preguiçosa.

"Já tô indo, mãe!"

Patrícia revirou os olhos.

Na sala, três malas grandes estavam alinhadas perto da porta principal. Uma preta, uma bege e uma azul-marinho.

Henrique apareceu vindo do escritório com a camisa ainda aberta no colarinho e um relógio caro preso ao pulso.

Ele parecia mais relaxado do que nos últimos meses.

A viagem para Trancoso tinha sido ideia dele.

Duas semanas longe de reuniões, contratos, diretores e telefonemas.

Duas semanas só com a família.

Era exatamente disso que precisava.

"Você ainda não terminou?" Patrícia perguntou.

"Eu terminei."

Henrique apontou para a pasta de couro sobre a mesa de centro.

"Só vou conferir os documentos."

Patrícia soltou um suspiro impaciente.

"Eu já conferi tudo ontem."

"Eu sei."

Henrique sorriu.

"Mas você me conhece."

"Infelizmente."

Ela respondeu com um meio sorriso e voltou a digitar no celular.

Naquele momento, Gabriel desceu as escadas arrastando uma mala enorme.

Aos dezenove anos, ele tinha a mesma altura do pai e o hábito irritante de deixar tudo para a última hora.

"Se isso estourar no aeroporto, eu não conheço você", Patrícia disse.

Gabriel riu.

"Relaxa, mãe."

"Você colocou protetor solar?"

"Não."

"Repelente?"

"Não."

"Documento?"

Gabriel parou.

"Documento?"

Patrícia fechou os olhos.

"Meu Deus."

Henrique riu enquanto abria a pasta.

"Deixa o garoto. Eu estou com os passaportes."

Lá em cima, ouviam-se passos rápidos.

Vitória corria de um lado para o outro no corredor.

Desde que Henrique anunciara a viagem, semanas antes, ela falava de Trancoso todos os dias.

Tinha procurado fotos das praias.

Escolhido roupas.

Perguntado se poderia experimentar stand-up paddle.

Até havia feito uma pequena lista de lugares que queria conhecer.

Henrique achava graça.

Vitória sempre se empolgava com tudo.

Aos doze anos, ela tinha um jeito expansivo de viver cada novidade como se fosse a coisa mais importante do mundo.

"Pai!" ela gritou lá de cima.

"O quê?"

"Pode levar livro no avião?"

"Pode!"

"E dois?"

Henrique sorriu.

"Pode levar dez se couber na sua mochila!"

"Oba!"

Patrícia apertou os lábios.

Henrique não percebeu.

Ele abriu a pasta.

Primeiro encontrou o cronograma impresso.

São Paulo.

Guarulhos.

Porto Seguro.

Transfer terrestre até Trancoso.

Hotel.

Passeio de barco.

Reserva para jantar.

Henrique passou os olhos pelo documento.

Tudo parecia organizado.

Muito organizado, na verdade.

"Você fez reserva no Jacaré do Brasil?" perguntou.

"Fiz."

"E naquele restaurante perto do Quadrado?"

"Também."

"Boa."

Patrícia guardou o celular na bolsa.

"Eu falei que estava tudo resolvido."

正文1

Henrique assentiu.

Então pegou os bilhetes.

Passagem um.

Henrique Vasconcelos Almeida.

Passagem dois.

Patrícia Montenegro Almeida.

Passagem três.

Gabriel Almeida Vasconcelos.

Henrique parou.

Virou a folha.

Não havia quarta passagem.

Franziu a testa.

Talvez estivesse em outro compartimento da pasta.

Ele procurou de novo.

Nada.

"Patrícia."

"Hm?"

"Cadê a outra passagem?"

Ela não respondeu imediatamente.

Henrique levantou os olhos.

"Patrícia."

"O quê?"

"A passagem da Vitória."

Ela ficou imóvel por um segundo.

Foi quase imperceptível.

Mas Henrique conhecia aquela mulher havia mais de vinte anos.

Percebeu.

"O que tem?"

"A passagem dela não está aqui."

Patrícia desviou o olhar.

"Depois eu vejo isso."

Henrique não gostou da resposta.

Ele voltou à pasta.

Pegou os passaportes.

Um.

O dele.

Dois.

O de Patrícia.

Três.

O de Gabriel.

Henrique abriu o outro compartimento.

Vazio.

Desta vez sua expressão mudou de verdade.

"Cadê o passaporte da Vitória?"

Gabriel, que até então mexia no celular, ergueu a cabeça.

Patrícia continuou perto do sofá.

"Henrique..."

"Cadê o passaporte dela?"

"Não começa."

Henrique estreitou os olhos.

"Não começa o quê?"

Patrícia respirou fundo.

"Você está atrasando todo mundo."

"Eu só perguntei onde está o passaporte da minha filha."

O silêncio ficou diferente.

Gabriel baixou os olhos.

Henrique percebeu.

Mas ainda não disse nada.

Ele puxou a confirmação do hotel.

Leu rapidamente.

Apartamento família premium.

Três hóspedes.

Henrique franziu ainda mais a testa.

Pegou a confirmação do transfer.

Três passageiros.

A reserva do passeio de barco.

Três pessoas.

O jantar.

Mesa para três.

Ele foi colocando cada folha sobre a mesa.

Uma ao lado da outra.

Três.

Três.

Três.

Três.

Então levantou a cabeça devagar.

"Patrícia."

Ela cruzou os braços.

"O quê?"

Henrique segurou as três passagens.

"Por que tudo aqui está reservado para três pessoas?"

Ela não respondeu.

"Hotel para três."

Ele apontou.

"Transfer para três."

Outra folha.

"Passeio para três."

Outra.

"Restaurante para três."

Patrícia fechou os olhos por um instante.

"Henrique, a gente conversa sobre isso depois."

"Não."

A voz dele perdeu toda a leveza.

"A gente conversa agora."

Gabriel se mexeu, desconfortável.

"Pai..."

Henrique levantou uma mão.

"Um minuto, Gabriel."

Então voltou os olhos para a esposa.

"Onde está a passagem da Vitória?"

Patrícia soltou o ar lentamente.

"A Vitória não vai."

Henrique permaneceu parado.

Por alguns segundos, pareceu não entender o significado da frase.

"O quê?"

"A Vitória não vai viajar com a gente."

Henrique soltou uma pequena risada sem humor.

"Você está brincando."

"Não."

"Como assim ela não vai?"

"Exatamente o que eu disse."

Henrique colocou as passagens sobre a mesa com força.

"Quem decidiu isso?"

Patrícia sustentou o olhar dele.

"Eu."

A palavra caiu pesada no meio da sala.

Henrique piscou.

"Você?"

"Sim."

"Você decidiu que a nossa filha não vai numa viagem em família?"

"Henrique, não dramatiza."

"Eu estou dramatizando?"

Patrícia passou a mão pelos cabelos.

"A Vitória caiu de rendimento na escola."

Henrique riu, incrédulo.

"Você está falando das notas?"

正文2

"Também."

"Também o quê?"

"Ela precisa aprender que existem consequências."

Henrique apontou para Gabriel.

"O Gabriel quase repetiu cálculo no semestre passado."

"Mãe, não me coloca nisso."

"Eu não estou colocando você em nada."

Henrique deu um passo na direção da esposa.

"Ele vai."

Patrícia ficou em silêncio.

"Então não são as notas."

"Vitória é mais nova."

"Doze anos."

"Exatamente."

"E?"

"Uma viagem dessas cansa."

Henrique olhou para ela como se estivesse ouvindo um absurdo.

"Você está dizendo que ela não pode viajar porque pode ficar cansada?"

"Ela pode ficar com a sua mãe."

Henrique endureceu.

"Minha mãe sabe disso?"

Patrícia não respondeu.

"Patrícia."

"Eu ia falar com ela."

"Você ia?"

Henrique olhou para o relógio.

"O motorista chega em vinte minutos."

Ela perdeu a paciência.

"Henrique, pelo amor de Deus, para de transformar isso numa tragédia!"

Ele a encarou.

"Você comprou três passagens."

"Sim."

"Fez uma reserva para três."

"Sim."

"Planejou tudo para três pessoas."

"Henrique..."

"Há quanto tempo?"

Patrícia ficou em silêncio.

"Há quanto tempo você sabe que a Vitória não vai?"

"Nós podemos discutir isso quando voltarmos."

Henrique ficou ainda mais irritado.

"Quando voltarmos?"

"Sim."

"Você está realmente achando que eu vou entrar naquele carro, pegar um avião e passar duas semanas na Bahia enquanto minha filha fica aqui sem nem saber o motivo?"

Patrícia olhou para Gabriel.

"Eu sabia que você faria isso."

Henrique percebeu a escolha das palavras.

"Sabia?"

"Você sempre exagera quando o assunto é ela."

A frase fez Henrique parar.

"Ela é minha filha."

"Eu sei."

"Então repete isso para você mesma antes de continuar falando."

Patrícia apertou o maxilar.

"Não é sobre ela ser ou não sua filha."

"Então é sobre o quê?"

Ela demorou a responder.

Henrique estava prestes a insistir quando ouviu um barulho vindo da escada.

Rodinhas.

Uma mala batendo levemente em cada degrau.

Gabriel levantou a cabeça.

Patrícia ficou pálida.

Henrique virou-se.

Vitória apareceu no alto da escada.

Usava uma camiseta amarela, calça clara e um par de tênis novos que Henrique comprara especialmente para a viagem.

Nas costas, uma mochila.

Numa das mãos, um pequeno chapéu de palha.

Na outra, puxava uma mala amarela cheia de adesivos.

O sorriso dela ocupava o rosto inteiro.

"Pai!"

Henrique não conseguiu responder.

Vitória desceu mais dois degraus.

"Minha mala está pronta!"

Ela ergueu a mão, orgulhosa.

"Eu consegui fechar sozinha!"

Henrique sentiu alguma coisa apertar seu peito.

Vitória continuou descendo.

"Quase não fechou porque eu coloquei roupa demais."

Ela riu.

"Mas a Mariana sentou em cima e deu certo."

Ninguém riu.

Vitória finalmente chegou ao último degrau.

Olhou para a mãe.

Depois para o pai.

Depois para Gabriel.

"Que foi?"

Silêncio.

Ela aproximou-se do irmão.

"Gabriel, eu coloquei meu biquíni azul na sua mala."

O rapaz ficou branco.

"Vitória..."

"Porque a minha ficou cheia."

Ela deu um sorriso.

"Não perde, tá?"

Gabriel abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Henrique olhou para o filho.

A maneira como Gabriel evitava os olhos da irmã fez uma suspeita atravessar sua cabeça.

Uma suspeita desagradável.

"Gabriel."

O rapaz olhou para o pai.

Henrique falou devagar.

"Você sabia?"

Patrícia se intrometeu imediatamente.

"Henrique, não."

Vitória franziu a testa.

"Sabia o quê?"

Henrique não tirou os olhos do filho.

"Você sabia disso?"

Gabriel engoliu em seco.

Vitória olhou de um para o outro.

A animação começou a desaparecer de seu rosto.

"Pai?"

Foi então que ela viu os papéis sobre a mesa.

As passagens.

Vitória aproximou-se.

Henrique sentiu vontade de esconder tudo.

Já era tarde.

Ela começou a ler os nomes.

Henrique.

Patrícia.

Gabriel.

Os olhos dela passaram pelas folhas outra vez.

Depois olhou para a mão do pai.

Três passaportes.

Vitória ficou completamente imóvel.

Seu sorriso desapareceu.

Ela olhou para a própria mala amarela perto da escada.

Depois novamente para os documentos.

Sua voz saiu mais baixa.

"Cadê a minha?"

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