"A Menina Que Entrou Molhada no Baile" Capítulo 2
O fecho cedeu com um estalo.
A parte traseira da safira se abriu, revelando um compartimento mínimo. Dentro havia uma fotografia desbotada: Helena mais jovem, sorrindo enquanto segurava um bebê embrulhado em branco.
Lívia nunca soubera que o pingente era um relicário.
— Minha mãe disse que pertenceu à minha avó — falou. — Um dia eu entenderia por que não podia mostrar.
Helena ergueu os olhos. Estudou o nariz da menina, o desenho das sobrancelhas e a forma como ela apertava os lábios para não chorar. Depois viu a pequena marca em forma de lua abaixo da orelha esquerda.
Clara nascera com a mesma marca.
A mãe de Helena também.
O colar escorregou para seu colo.
— Você é filha da Clara.
Não era pergunta.
Lívia assentiu.
Helena a puxou para um abraço. A menina ficou rígida. Minutos antes, aquela mulher jogara água em seu rosto e a chamara de ladra. Agora chorava contra seu cabelo como se tivesse recuperado alguém enterrado.
Roberto se agachou ao lado delas.
— Lívia, quer que ela solte você?
A pergunta deu à menina algo que o abraço tirara: escolha.
— Quero respirar.
Helena a soltou imediatamente.
— Desculpe. Meu Deus, desculpe.
Uma convidada filmava com o celular. Roberto pediu que todos guardassem os aparelhos, mas dezenas de telas já estavam erguidas. O momento em que a água atingiu Lívia provavelmente circulava antes de a safira parar de girar.
— Onde está Clara? — perguntou Helena.
Lívia apontou para as portas de vidro.
— Lá fora. Ela disse que ia entrar quando tivesse coragem. Eu devia esperar com Dona Marta, mas fiquei com medo.
Helena se levantou, segurou a mão da menina e começou a puxá-la.
Lívia parou.
— Meu joelho dói.
Roberto chamou a médica do evento. A profissional limpou o machucado, colocou curativo e envolveu Lívia numa manta. Helena tentou ajudar, mas a menina recuou quando viu a mão se aproximar.
A viúva recebeu o gesto sem protestar.
— Posso segurar o colar? — perguntou Lívia.
Helena devolveu a joia. Não pediu para ver a fotografia outra vez.
Quando chegaram ao saguão, fotógrafos já se aglomeravam perto da porta. Roberto organizou a saída lateral, mas Lívia insistiu na entrada principal.
— Foi ali que minha mãe ficou.
A chuva continuava forte. Clara estava debaixo de um poste, andando em círculos e torcendo as mangas da camisa creme. Ensaiava frases que não conseguia dizer havia vinte anos.
As portas se abriram.
Clara viu primeiro a filha: molhada, coberta por manta, com um curativo no joelho. Depois reconheceu a mulher de verde segurando sua mão.
— Lívia!
Correu e arrancou a menina de perto de Helena.
— O que aconteceu? Eu mandei você ficar com Dona Marta. Você se machucou? Quem fez isso?
Lívia olhou para Helena.
A avó não se escondeu.
— Eu joguei água nela. Pensei que tivesse entrado para roubar.
Clara parou de examinar o joelho da filha.
— Você fez o quê?
— Eu a julguei antes de perguntar. Então o colar caiu.
Helena mostrou o relicário aberto. Clara levou a mão ao peito. A corrente fora a única peça da antiga casa que mantivera durante anos, mesmo nos meses em que vender a safira pagaria aluguel e comida.
— Você reconheceu uma joia — disse Clara. — Não reconheceu uma criança com fome.
Helena chorava sem tentar secar o rosto.
— Eu não sabia que ela existia.
— E mesmo assim decidiu quem ela era.
Lívia segurou a mão da mãe. Depois, com hesitação, estendeu a outra para Helena. Não como perdão. Apenas não queria que ninguém fosse embora antes de ouvir a verdade.
— Vamos sair da chuva — pediu.
Dentro de uma sala reservada do hotel, Clara contou a frase que guardara desde os dezenove anos.
— Quando você trocou as fechaduras, eu já estava grávida.
Helena apoiou as duas mãos na mesa.
— Grávida?
— De nove semanas.
A conta se formou no rosto dela: vinte anos sem a filha; nove anos sem a neta.
Helena se sentou como se as pernas tivessem cedido.
— Eu perdi tudo isso.
Clara apertou a manta ao redor de Lívia.
— Você escolheu perder.
Um médico examinou Lívia numa sala reservada do hotel. Ela estava desidratada, com o açúcar baixo e os pés feridos pelo tênis molhado. Clara permaneceu junto à maca; Helena ficou perto da porta, autorizada a entrar apenas porque a neta disse que podia.
— Há quanto tempo ela não come direito? — perguntou o médico.
Clara corou.
— Comemos. Só estamos no fim do mês.
Helena abriu a bolsa, mas Clara percebeu o movimento.
— Guarde.
— O médico pode precisar de pagamento.
— Então pague ao hotel. Não coloque dinheiro na minha mão como se isso encerrasse a conversa.
Helena obedeceu. Lívia acompanhava a troca com atenção. Depois do exame, tirou do bolso o sanduíche amassado e o ofereceu à mãe. Clara tentou recusar; a menina insistiu. Dividiram o pão em três partes. A terceira ficou no guardanapo diante de Helena.
— Você também não jantou — disse Lívia.
Helena aceitou o pedaço. O alimento simples tinha mais peso do que todo o banquete no salão.
Quando saíram, fotógrafos aguardavam na entrada principal. Roberto abriu uma passagem discreta pela garagem. Clara deteve o grupo.
— Não vamos fugir como se Lívia tivesse feito algo errado.
As duas atravessaram o saguão juntas. Helena caminhou alguns passos atrás. As perguntas explodiram, mas Clara não respondeu. Lívia segurou o colar fechado e manteve a cabeça erguida até alcançar o carro.
Dentro do veículo, Clara pediu o endereço de Dona Marta. Helena oferecera a mansão, porém a filha não entraria naquela casa durante a madrugada, assustada e dependente. Roberto reservou um quarto simples num hotel próximo e entregou a chave diretamente a Clara. Helena não pediu o número do quarto. Ficou sob a marquise vendo o carro partir.
Lívia adormeceu com a cabeça no colo da mãe. Antes de fechar os olhos, perguntou se Helena era mesmo sua avó. Clara respondeu que sangue era uma resposta e convivência seria outra. A menina tocou o pingente.
— Ela pode aprender?
Clara observou a chuva correndo no vidro.
— Só se parar de achar que já sabe tudo.
Helena precisava começar.
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