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"Assinei o Documento Errado de Propósito" Capítulo 3

正文开头

Helena baixou os olhos.

Doze anos ouvindo promessas tinham transformado gentileza em sinal de perigo.

Marta dizia que controlava seu dinheiro para protegê-la.

Osvaldo dizia que decidia por ela porque ela não entendia do mundo.

Bruno dizia que as piadas ajudavam Helena a criar "casca".

Toda crueldade naquela casa vinha embrulhada em alguma justificativa.

Por isso, quando Eli perguntou para onde ela gostaria de ir, Helena respondeu sem pensar muito.

"Para algum lugar onde ninguém seja meu dono."

Ele virou o rosto.

Dessa vez, olhou diretamente para ela.

Não havia sorriso.

"Isso eu consigo entender."

Quarenta minutos depois, a caminhonete entrou no estacionamento de uma pousada simples às margens da estrada estadual.

O letreiro dizia Pousada Horizonte.

Havia vasos de samambaia na entrada, uma máquina de refrigerante quebrada junto à recepção e uma televisão pequena ligada num programa policial.

Helena olhou para o lugar.

"Não tenho dinheiro para ficar aqui."

"Eu não perguntei quanto você tem."

"Mas eu estou dizendo."

Eli desligou o motor.

"Vamos entrar primeiro."

"Não."

Ele a encarou.

Helena apertou a bolsa contra o peito.

"Eu não aceito dívida."

"Isso não é dívida."

"Todo mundo diz isso no começo."

A resposta saiu mais dura do que ela pretendia.

Eli não pareceu ofendido.

"Então paga quando puder."

"Quanto?"

"Depois você vê."

"Não. Eu quero saber agora."

Ele inclinou a cabeça.

"Você sempre negocia hospedagem enquanto está quase tremendo de frio?"

"Sim."

"Entendi."

Eli saiu da caminhonete.

Helena ficou um instante parada, irritada por ele simplesmente encerrar a discussão.

Quando tentou descer, a perna falhou.

Sua mão agarrou a porta.

Eli percebeu.

Parou.

Mas não a tocou.

Aquilo fez Helena erguer os olhos.

Quase todos que viam sua perna ceder faziam uma de duas coisas.

Ou corriam para segurá-la sem pedir.

Ou fingiam que não tinham visto, constrangidos.

Eli apenas esperou.

"Quer ajuda?"

Helena respirou fundo.

"Não."

"Então eu espero."

Ela conseguiu se apoiar no degrau e descer sozinha.

Levou tempo.

Ele não apressou.

Na recepção, uma senhora de cabelos grisalhos chamada Dalva levantou os olhos do balcão.

"Boa noite."

"Tem quarto?" perguntou Eli.

"Tem dois."

"Uma semana."

Helena virou imediatamente.

"Uma noite."

Eli ignorou.

"Uma semana."

"Eu disse uma noite."

Dalva olhou de um para outro.

"Vocês querem decidir antes?"

Helena cruzou os braços.

"Eu pago uma noite."

Eli colocou dinheiro no balcão.

"Uma semana."

Helena sentiu o sangue subir ao rosto.

"Eu não autorizei."

"Então pode me devolver quando quiser."

"Você está fazendo exatamente o que eu disse que não queria."

Eli recolheu o troco e colocou sobre o balcão diante dela.

"Não. Estou pagando sete noites num quarto. O que você faz amanhã é problema seu."

Ela ficou olhando.

"Se quiser ir embora de manhã, vai."

Ele empurrou a chave na direção dela.

"Se quiser ficar, fica."

Helena não respondeu.

Eli abriu a porta da pousada.

Antes de sair, voltou-se.

"Seu café esfriou."

Depois desapareceu na chuva.

正文1

Helena dormiu apenas duas horas.

Às seis da manhã, já estava sentada na cama, examinando as fotografias do contrato.

Algumas estavam tortas.

Outras, escuras.

Mas as páginas principais estavam legíveis.

A matrícula da fazenda aparecia com clareza.

Assim como seu nome.

E a assinatura.

Helena ampliou a imagem até os pixels se abrirem.

Helena Marina Duarte.

CPF com um número errado.

Ela fechou os olhos.

Funcionara.

Ao menos aquela parte.

O resto era um abismo.

Helena não tinha advogado.

Não tinha dinheiro suficiente para ficar semanas na pousada.

Não sabia se Osvaldo já havia apresentado os documentos.

E ainda precisava descobrir o que exatamente estavam tentando fazer com a terra.

Às oito, alguém bateu à porta.

Helena segurou o celular com força.

"Quem é?"

"Dalva."

Ela abriu.

A dona da pousada segurava uma bandeja com pão de queijo, café e mamão.

"Seu amigo disse que você provavelmente não tinha comido."

Helena franziu a testa.

"Ele não é meu amigo."

Dalva sorriu.

"Melhor ainda. Amigo geralmente dá trabalho."

Helena quase sorriu também.

"Ele deixou telefone?"

"Não."

"Nome completo?"

"Também não."

Helena sentiu uma irritação estranha.

"Claro que não."

Dalva colocou a bandeja sobre a mesa.

"Mas deixou isso."

Era um papel dobrado.

Helena abriu.

Havia um endereço.

Cooperativa Agropecuária do Cedro.

Abaixo, apenas uma frase escrita à mão.

"Pergunte por Seu Américo. Estão precisando de alguém que saiba organizar contas."

Helena leu duas vezes.

Na terceira, ficou furiosa.

Ele tinha arranjado trabalho para ela sem sequer perguntar.

Quase amassou o papel.

Depois olhou para sua bolsa.

Havia pouco dinheiro.

Muito pouco.

Uma hora mais tarde, estava diante da cooperativa.

O prédio ficava na entrada da cidade, cercado por caminhões, sacos de sementes e tratores usados.

Helena conhecia aquele ambiente melhor que muita gente.

O cheiro de diesel, terra seca e fertilizante parecia quase familiar.

Seu Américo era um homem de sessenta anos, barriga grande e óculos que escorregavam pelo nariz.

Ele a recebeu com desconfiança.

"Você é a moça que o Eli mandou?"

"Não sei se ele me mandou."

"Mas veio."

"Vim."

Américo apontou para uma cadeira.

"Ele disse que você entende de conta rural."

Helena sentou.

"Entendo."

"Quanto?"

Ela olhou para uma pilha de notas fiscais sobre a mesa.

"Depende do tamanho da bagunça."

Américo riu.

"Gostei."

Ele entregou três planilhas impressas.

"Tem erro aí. Meu contador disse que está tudo certo."

Helena levou menos de quatro minutos.

"Essa compra de adubo foi lançada duas vezes."

Apontou a linha.

"E aqui o frete está somado no custo unitário e depois lançado novamente como despesa separada."

Virou a página.

"Essa nota tem data posterior ao pagamento."

Américo deixou de sorrir.

Pegou os papéis.

"Você viu isso agora?"

"Sim."

"Trabalhou onde?"

"Na fazenda da minha família."

"Contabilidade?"

"Fazia de tudo."

Ele ficou em silêncio.

"Pode começar hoje?"

Helena respirou fundo.

"Quanto paga?"

Américo abriu um sorriso.

"Agora sim você parece alguém que entende de negócio."

正文2

Três dias depois, Helena já havia reorganizado parte das contas da cooperativa.

Pela primeira vez em anos, alguém perguntava sua opinião antes de tomar decisões.

Ninguém mandava que ela se sentasse porque sua perna "dava má impressão".

Ninguém ria quando ela demorava mais para atravessar o galpão.

Seu Américo reclamava apenas quando ela corrigia demais.

"Você vai acabar descobrindo até pecado antigo."

Helena respondia:

"Se estiver registrado, descubro."

Eli apareceu no quarto dia.

Estava com a mesma caminhonete velha.

A mesma jaqueta.

As mesmas mãos com marcas de graxa.

Helena o viu pela janela da cooperativa e sentiu uma mistura desconfortável de alívio e irritação.

Saiu para encontrá-lo.

"Você desapareceu."

Eli fechou o capô de um trator que estava ajudando a examinar.

"Você pareceu ocupada."

"Você conseguiu esse emprego sem me perguntar."

"Consegui uma conversa."

"É diferente?"

"Se você não fosse boa, Américo teria mandado você embora em quinze minutos."

Helena cruzou os braços.

"E a pousada?"

"Você ainda está lá?"

"Estou."

"Então aparentemente não foi a pior ideia."

Ela queria continuar brava.

Era mais seguro ficar brava.

"Eu vou pagar."

"Quando quiser."

"Não quando eu quiser. Quando receber."

"Está bem."

Helena o observou.

"Você não vai discutir?"

"Sobre você pagar uma coisa que quer pagar? Não."

Era irritante.

Porque ele respeitava seus limites rápido demais.

Helena ainda não sabia como reagir a isso.

Enquanto ela tentava reconstruir a própria vida, Osvaldo tinha pressa.

Na Fazenda Santa Helena, a pasta marrom já não estava sobre a mesa da cozinha.

Estava aberta diante de dois homens de terno.

Um deles se chamava Vicente Braga e representava a MinasVale Recursos Minerais.

O outro era advogado.

Osvaldo serviu café.

"Está tudo assinado."

Vicente examinou os documentos.

"Precisamos concluir a cessão antes do próximo trimestre."

"Vai concluir."

"E sua sobrinha?"

Osvaldo sorriu.

"Ela não entende nada."

Bruno entrou na sala girando uma chave no dedo.

"Nem sabe o que assinou."

Marta lançou um olhar nervoso.

"Não fala assim."

Vicente observou os três.

"A empresa não quer problema familiar."

"Não existe problema", respondeu Osvaldo.

"Existe uma proprietária."

"Existe uma menina manca que passou a vida dependendo da gente."

O advogado ergueu os olhos.

"Ela é maior de idade."

Osvaldo se inclinou.

"E assinou."

Vicente fechou a pasta.

"Se os documentos passarem pela análise cadastral, avançamos."

Bruno abriu um sorriso.

"Quando sai a primeira parcela?"

O pai o fulminou com os olhos.

Vicente percebeu.

"Depois do registro."

Bruno se recostou.

Na semana seguinte, apareceu em Santa Rita do Cedro dirigindo uma caminhonete importada, preta, brilhante, muito acima do padrão da família.

Helena a viu primeiro pelo celular de uma colega da cooperativa.

"Não é seu primo?"

Ela olhou para a tela.

Bruno aparecia encostado no veículo, usando óculos escuros.

A legenda dizia que alguns herdavam problemas e outros sabiam transformar terra em futuro.

Helena sentiu um nó no estômago.

"Me manda isso."

A colega hesitou.

"Vocês brigaram?"

"Me manda."

À noite, Helena ampliou a fotografia.

No reflexo da porta do veículo, havia uma placa comercial.

MinasVale Recursos Minerais.

Ela pesquisou o nome.

Leu.

Depois leu de novo.

A empresa atuava com extração mineral em várias regiões de Minas Gerais.

Calcário agrícola.

Calcário industrial.

Reservas de alta pureza.

Helena sentiu o corpo esfriar.

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