"Assinei o Documento Errado de Propósito" Capítulo 2
Mas ouviu na memória a voz do pai.
"Quem confere duas vezes dá menos espaço para ladrão."
Se Osvaldo soubesse que ela tinha percebido, o documento desapareceria.
Talvez surgisse outro.
Talvez nunca mais tivesse acesso às páginas.
Helena deixou os ombros caírem.
"Preciso de água."
Osvaldo estreitou os olhos.
"Agora?"
"Estou ficando tonta."
Marta se aproximou.
"Eu pego."
Helena olhou para o filtro no corredor.
"Gelada."
Marta soltou um suspiro e saiu.
Helena então olhou para Bruno.
"Você pode pegar meu remédio? Está no armário do banheiro."
Bruno fez uma careta.
"Eu não sou empregado."
Osvaldo apontou para o corredor.
"Vai. Quero acabar logo com isso."
Bruno saiu reclamando.
Por dois segundos, Helena ficou sozinha com Osvaldo.
Não servia.
Ela precisava de mais tempo.
A chuva explodiu num trovão.
As luzes piscaram.
Osvaldo virou a cabeça para a janela.
Helena fingiu assustar-se e deixou a caneta cair.
"Ótimo."
Osvaldo se abaixou para procurá-la.
Foi o suficiente.
Helena deslizou a mão para o bolso escondido na lateral do avental.
Seu celular tinha a tela rachada e a câmera ruim.
Mas funcionava.
Quando Osvaldo se levantou, ela já havia guardado novamente.
Marta voltou com água.
Bruno apareceu depois com o remédio.
Helena tomou um gole.
"Posso ir ao banheiro antes de assinar?"
Osvaldo soltou um som irritado.
"Você está enrolando."
"Se eu cair aqui, vai atrasar mais."
Ele apontou para o corredor.
"Vai."
Helena recolheu o documento.
Osvaldo segurou.
"Isso fica aqui."
"Eu só quero terminar de ler."
"Depois."
Ela soltou.
Foi até o banheiro lentamente.
Fechou a porta.
Esperou.
Contou até cinco.
Depois abriu o armário, pegou uma toalha pequena e voltou para a cozinha.
"Molhei o vestido."
Ninguém se importou.
Helena sentou outra vez.
Durante os quinze minutos seguintes, criou atrasos pequenos.
Uma pergunta.
Uma página que precisava reler.
Outra ida curta até o fogão.
Em cada momento em que os três se distraíam, o telefone aparecia por menos de dois segundos.
Clique.
Página quinze.
Clique.
Página dezesseis.
Clique.
Página vinte e três.
Seu coração parecia tão alto que Helena tinha certeza de que todos podiam ouvir.
Na última página, Osvaldo colocou uma caneta diante dela.
"Acabou."
Helena olhou para os campos do formulário.
Nome completo.
CPF.
Assinatura.
Ela sabia exatamente o que faria.
Seu nome legal era Helena Maria Duarte.
Escreveu Helena Marina Duarte.
Depois preencheu o CPF.
Mudou apenas um número.
Um único dígito.
Discreto o suficiente para parecer erro.
Importante o suficiente para deixar uma rachadura.
Por fim, assinou.
Osvaldo arrancou as folhas quase imediatamente.
O sorriso voltou ao rosto dele.
Era diferente agora.
Mais largo.
Vitorioso.
"Viu? Não morreu."
Marta soltou o ar, aliviada.
Bruno ergueu o celular.
"Parabéns, prima. Talvez agora consigam consertar você."
Helena colocou a caneta sobre a mesa.
"Quando vou para Belo Horizonte?"
Osvaldo não respondeu.
Começou a organizar as páginas.
"Osvaldo?"
Ele colocou tudo dentro de uma pasta marrom.
"Amanhã você descobre."
Helena sentiu algo frio na nuca.
Marta desviou os olhos.
Bruno sorriu.
Osvaldo caminhou até a porta da cozinha e a abriu.
A chuva batia de lado, empurrada pelo vento.
"Pode pegar suas coisas."
Helena demorou a entender.
"Minhas coisas?"
"Você não vai mais ficar aqui."
Ela olhou para Marta.
"Você disse que eu precisava assinar para continuar na casa até o tratamento."
Marta apertou os lábios.
"Helena, não complica."
"Vocês disseram que se eu assinasse..."
Osvaldo riu.
"Eu disse que, se não assinasse, você dormiria na estrada."
Ele abriu mais a porta.
"Nunca disse que, se assinasse, não dormiria."
Helena ficou olhando para ele.
Bruno começou a rir.
Foi então que alguma coisa dentro dela se quebrou.
Não sua perna.
Não daquela vez.
A última esperança de que, em algum canto escondido, aquelas pessoas ainda se considerassem sua família.
Helena se levantou.
A dor atravessou o quadril.
Ela não demonstrou.
Foi até o quarto onde dormira por doze anos e colocou duas mudas de roupa, o caderno de contas do pai, um casaco e o carregador do celular dentro de uma bolsa velha.
Quando voltou, Marta estava perto da porta.
"Você deveria agradecer."
Helena parou.
"Pelo quê?"
"Por tudo que fizemos por você."
Helena olhou para a mulher que havia aberto suas cartas durante anos.
Depois para Osvaldo.
Depois para Bruno.
"Nunca mais me peçam gratidão."
Saiu.
A chuva a atingiu imediatamente.
Em poucos minutos, seu cabelo estava grudado no rosto e a roupa pesava sobre o corpo.
A estrada de terra virou lama.
Cada passo exigia esforço.
Helena caminhou mesmo assim.
Um quilômetro.
Depois outro.
A perna começou a travar.
Ela parou junto a uma cerca, respirou, esperou a dor diminuir e continuou.
Não sabia para onde estava indo.
Só sabia que não voltaria.
Quando alcançou a rodovia, já passava da meia-noite.
Os faróis dos poucos carros cortavam a chuva e desapareciam sem reduzir a velocidade.
Helena apertou o casaco contra o corpo.
Seu celular tinha vinte e três por cento de bateria.
Dentro dele estavam as fotografias.
Talvez estivessem borradas.
Talvez algumas páginas tivessem ficado cortadas.
Mas havia provas.
Isso bastava para continuar andando.
A dor ficou tão forte que sua visão escureceu por alguns segundos.
Helena se apoiou numa placa.
"Não cai."
Falou para si mesma.
"Não agora."
Foi então que ouviu um motor.
Uma caminhonete velha reduziu a velocidade.
Helena levantou a cabeça.
Era uma picape antiga, com a lataria marcada pelo tempo e um dos faróis um pouco mais fraco que o outro.
O veículo parou alguns metros à frente.
Depois deu ré.
A janela do motorista desceu.
Um homem estava ao volante.
Parecia ter pouco mais de trinta anos. Usava uma jaqueta desbotada, botas de trabalho e tinha manchas de graxa nos dedos.
Ele não olhou primeiro para a perna dela.
Olhou para seu rosto.
"Você quer uma carona?"
Helena não se mexeu.
Doze anos vivendo com Osvaldo haviam ensinado uma regra diferente daquelas que seu pai deixara.
Favor quase sempre vinha com cobrança.
"Depende."
O homem esperou.
Helena apertou a alça da bolsa.
"Você vai querer alguma coisa em troca?"
Por alguns segundos, apenas a chuva respondeu.
Então o desconhecido apoiou uma mão no volante.
"Nada."
Helena estreitou os olhos.
"Ninguém faz nada por nada."
Ele a observou sem sorrir.
"Então talvez esteja na hora de você conhecer alguém que faça."
Helena ficou em silêncio.
O homem destravou a porta do passageiro.
"Meu nome é Eli."
Naquele momento, Helena ainda não sabia que entrar naquela caminhonete mudaria muito mais do que o destino daquela noite.
E também não fazia ideia de que Eli Monteiro escondia um segredo quase tão grande quanto o que sua própria família acabara de tentar roubar dela.
Parte 2 — O Homem da Caminhonete
A primeira coisa que Helena percebeu dentro da caminhonete foi o cheiro de café.
Não era perfume caro, nem desinfetante, nem aquele odor doce de carro novo que Bruno adorava exibir. Era café forte, guardado havia horas numa garrafa térmica amassada entre os bancos.
Eli pegou um copo de plástico no porta-luvas e serviu.
"Está quente."
Helena hesitou.
A água ainda escorria de seus cabelos, e a roupa molhada grudava no corpo. A perna esquerda pulsava num ritmo cruel, como se cada músculo tivesse sido torcido por dentro.
Mesmo assim, ela não aceitou de imediato.
Olhou para o copo.
Depois para ele.
"Você sempre pega mulheres desconhecidas na estrada de madrugada?"
Eli manteve os olhos na pista.
"Não."
"Então por que parou?"
"Porque estava chovendo."
"Isso não responde."
"Você estava sozinha."
"Também não responde."
Ele soltou um suspiro curto.
"Você quer o café ou prefere continuar me interrogando?"
Helena quase se ofendeu.
Depois percebeu que não havia pena na voz dele.
Só cansaço.
Pegou o copo.
O primeiro gole queimou sua língua.
Ainda assim, foi a coisa mais reconfortante que sentiu naquela noite.
Eli não perguntou por que ela mancava.
Não perguntou por que carregava uma bolsa velha no meio da madrugada.
Não perguntou por que uma mulher de vinte e quatro anos caminhava sozinha numa rodovia rural durante uma tempestade.
Isso a deixou mais desconfiada do que qualquer pergunta teria deixado.
Helena segurou o café com as duas mãos.
"Você não quer saber para onde estou indo?"
"Quero."
"Então por que não perguntou?"
"Porque achei que você diria quando quisesse."
Ela olhou pela janela.
As luzes de Santa Rita do Cedro desapareciam aos poucos atrás da chuva.
Por alguns segundos, Helena enxergou o reflexo do próprio rosto no vidro.
Parecia outra pessoa.
Cabelo molhado.
Olhos vermelhos.
Mandíbula travada.
Uma mulher sem casa.
Uma mulher com um contrato escondido no celular.
Uma mulher que acabara de ser expulsa pela própria família depois de entregar uma assinatura que eles acreditavam ser perfeita.
"Não sei para onde estou indo", disse enfim.
Eli não reagiu com surpresa.
"Então podemos começar por algum lugar seco."
Helena soltou uma risada sem humor.
"Você fala como se isso fosse simples."
"Não é."
"Você nem me conhece."
"É verdade."
"Então por que está me ajudando?"
Eli ficou alguns segundos em silêncio.
"Porque alguém precisa ajudar sem fazer pergunta demais de vez em quando."
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