"A Menina Deu Seu Último Remédio ao Temido Homem" Capítulo 1
Adrian Moretti levou a mão à garganta antes de o copo de Barolo escapar de seus dedos.
O cristal se partiu no piso claro do escritório. O vinho abriu uma mancha escura no tapete persa, mas ele já não conseguia olhar para nada. O ar entrava por um espaço cada vez menor. A língua parecia grande demais, o peito se fechava e uma coceira violenta subia pelo pescoço.
Tentou alcançar o telefone sobre a mesa. Os joelhos cederam.
Do corredor inferior, Ellie Carter ouviu o vidro quebrar. Tinha quatro anos, uma mochila rosa nas costas e o coelho Rosie preso debaixo do braço. Sua mãe mandara que esperasse na saleta enquanto terminava o turno, mas a menina conhecia aquele som de respiração. Era o mesmo que acordava Hannah nas noites em que algum alimento desconhecido encostava em sua boca.
Ela empurrou a porta.
O homem de preto estava no chão, agarrado à própria garganta. Os lábios começavam a ficar azulados. Havia uma bandeja caída perto da poltrona e cheiro de vinho, madeira e alguma coisa doce.
— Mamãe! — gritou Ellie.
Hannah respondeu de longe. Ellie não esperou.
Abriu a mochila, afastou Rosie e encontrou o estojo amarelo. Havia apenas um autoinjetor. O segundo acabara na semana anterior, depois de uma reação na escola, e o plano de saúde recusara a reposição antes da nova autorização. Hannah repetira que aquele era o último e que Ellie devia mantê-lo junto ao corpo até a farmácia liberar outro.
A menina olhou para o homem. Ele tinha a mesma expressão que ela via no espelho quando o ar não entrava.
Puxou o dispositivo. Retirou a tampa azul como treinara com o aparelho de demonstração. A mão pequena tremia.
— Um, dois, três.
Pressionou a ponta laranja contra a parte externa da coxa de Adrian, por cima da calça. O clique soou alto. Ellie segurou o aparelho no lugar e contou até dez, errando o sete e recomeçando do seis.
Hannah entrou correndo.
— Ellie, não!
Parou quando viu o autoinjetor preso à perna do patrão. Caiu de joelhos, pegou o telefone e chamou a emergência da propriedade. Adrian continuava consciente, mas os olhos lacrimejavam e o rosto estava coberto de suor.
— Foi alergia — disse Ellie. — Ele não respirava.
Hannah retirou o dispositivo usado e o colocou longe dos cacos. Não havia tempo para pensar no preço, na farmácia ou no fato de a filha ter ficado sem proteção. Apoiou Adrian de lado, conforme aprendera nos treinamentos de primeiros socorros, e gritou por Matteo.
Os seguranças chegaram em segundos. Um deles afastou Hannah com o braço. Outro examinou o copo quebrado antes de olhar para o homem no chão. Na casa Moretti, todo acidente era tratado primeiro como ataque.
— Não encosta nela! — Ellie gritou, agarrando a saia da mãe.
Adrian puxou o ar com um ruído áspero. A epinefrina começava a abrir caminho. Ele viu a menina entre manchas de luz: vestido branco, cabelos castanhos, olhos grandes demais para o rosto. Na mão dela estava a coisa que o mantivera vivo.
O doutor Greene, médico particular da família, chegou com a maleta de emergência. Aplicou uma segunda dose, instalou oxigênio e ordenou que levassem Adrian ao quarto médico da mansão. O empresário tentou ficar de pé, mas o corpo não respondeu.
— A criança — conseguiu dizer.
— Está bem — afirmou Greene. — O senhor precisa parar de falar.
— A criança.
Matteo entendeu a ordem. Mandou que ninguém retirasse Hannah e Ellie da propriedade. Para Hannah, aquilo soou menos como proteção do que como detenção.
No quarto, Adrian recebeu anti-histamínicos e corticosteroides. A pressão demorou a estabilizar. Greene queria encaminhá-lo a um hospital, porém Moretti insistiu em permanecer em casa enquanto a equipe controlasse as vias aéreas. Não temia morrer em uma ambulância; temia deixar a propriedade sem descobrir quem colocara castanha de caju concentrada em seu vinho.
Quando abriu os olhos de novo, Matteo estava ao lado da cama.
— Quem usou a epinefrina? — perguntou Adrian.
— Uma menina — respondeu Greene. — Ellie Carter.
O nome demorou a ganhar sentido. Era a filha da nova funcionária da copa, a pequena que Adrian vira no corredor do subsolo com uma mochila rosa. Tentou se levantar. Uma dor queimou sua garganta.
— Não se mexa — disse Greene. — A reação foi grave. A epinefrina comprou tempo. Ainda pode haver uma segunda fase.
— Onde ela está?
— Na antessala com a mãe. O autoinjetor era o último da menina.
Adrian fechou os olhos.
Durante vinte anos, homens haviam lhe oferecido dinheiro, lealdade e vidas por medo ou dívida. Ele sempre sabia o preço. Uma criança que não conhecia seu nome lhe entregara a única defesa que possuía contra a própria morte.
— Traga as duas.
Hannah entrou com Ellie no colo. Estava pálida, os olhos vermelhos, uma mão apertada na mochila vazia. A menina observava Adrian com a seriedade de quem precisava confirmar que uma tarefa terminara bem.
— Senhor Moretti, eu não sabia que ela tinha saído — disse Hannah. — Desobedeceu, mas eu...
— Ela salvou minha vida.
Hannah perdeu a voz.
Adrian estendeu a mão. Ellie só desceu do colo depois que a mãe assentiu. Aproximou-se da cama.
— Já consegue respirar?
— Consigo.
— A perna vai doer. A minha sempre dói depois.
Adrian reconheceu nos olhos dela a gravidade precoce de Lily. Algo fechado desde o incêndio se partiu dentro dele.
— Você me deu seu remédio.
Ellie acariciou a orelha gasta de Rosie.
— O senhor estava com a cara que eu faço quando o ar não entra.
— Sabia que era o último?
— Sabia. A farmácia só vai dar outro na semana que vem.
Uma lágrima atravessou a têmpora de Adrian. Depois outra. Greene desviou o olhar. Hannah ficou imóvel. Ellie deu dois tapinhas na mão dele.
— Não chora. Rosie disse que não foi desperdiçado.
Adrian cobriu a mão pequena com a sua.
— Rosie está certa.
A porta se abriu. Matteo entrou segurando um tablet.
— Temos as imagens. A câmera mostra a senhora Carter levando a bandeja. Ninguém mais entrou no escritório durante a hora anterior.
Dois guardas apareceram atrás dele.
Ellie se agarrou à saia da mãe.
Hannah recuou como se tivesse recebido um golpe.
— Eu levei a bandeja. Não coloquei nada no vinho.
Adrian viu o medo da menina e sentiu a antiga lógica de seu mundo exigir uma resposta: isolar a suspeita, pressionar, punir antes que alguém confundisse cautela com fraqueza. A lógica fora derrotada pela criança que acabara de lhe dar a última dose.
— Ninguém toca na senhora Carter — ordenou. — Preservem a bandeja e revisem todas as câmeras. Ninguém sai da propriedade.
Ellie puxou o lençol.
— O velho pôs lágrimas azuis.
O quarto ficou em silêncio.
Adrian inclinou a cabeça.
— Que velho?
— O que fala baixinho. Ele estava no quarto das garrafas. Tirou uma coisinha azul do bolso e pingou no seu copo. A mão dele fazia assim.
Ela levantou os dedos e os fez tremer.
Hannah perdeu o pouco de cor que lhe restava.
— Vincent.
Matteo saiu sem esperar outra ordem.
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