"De Mendigo a Rei: A Queda dos Intocáveis" Capítulo 2
O cheiro de ferro velho, graxa seca e esgoto subia pelo piso metálico do vagão de trem abandonado, perdido em um ramal desativado nos arredores do Brás.
A chuva lá fora continuava a açoitar as telhas de zinco furadas, criando uma sinfonia de goteiras que cadenciavam o isolamento absoluto daquele refúgio subterrâneo.
Enzo estava sentado sobre um monte de cobertores esfarrapados, com as costas apoiadas na parede de aço oxidado que tremia com o eco longínquo do metrô.
Com os dedos ainda doloridos e sujos de sangue seco pela bota de Renato, ele enfiou a mão trêmula nas dobras do forro rasgado de seu casaco.
Ali, protegido da umidade por camadas de sacos plásticos vedados com fita isolante, repousava o seu tesouro mais mortal: um smartphone contrabandeado de tela severamente trincada, com placa-mãe soldada à mão.
O visor piscou com uma luz azulada e fraca, iluminando o rosto magro do menino e destacando o brilho cortante de suas pupilas de um azul-marinho quase negro.
Seus dedos finos começaram a voar sobre o teclado virtual com uma velocidade mecânica, quase desumana, executando comandos complexos em uma interface de linha de comando personalizada.
Para o mundo exterior, Enzo era apenas um fedelho sem nome esmagado pela sarjeta, mas no submundo cibernético ele operava como a sombra digital mais temida da América do Sul.
Naquela tela minúscula, o império financeiro construído com propinas e sangue pelo promotor federal começava a ruir como um castelo de cartas de baralho.
A primeira camada de criptografia dos servidores offshore localizados nas Ilhas Cayman tremeu diante do algoritmo de força bruta que Enzo havia programado por meses.
Linhas de código verde-fluorescente desciam em cascata pelo visor quebrado, contornando firewalls militares e sistemas de segurança de última geração sem disparar nenhum alarme.
"Vamos ver quanto tempo a sua arrogância aguenta, Renato", sussurrou o menino para si mesmo, com a voz baixa e metálica ecoando no silêncio do vagão.
Enquanto o processador do aparelho esquentava entre seus dedos, o som de botas pesadas pisando na lama e o ranger de chapas de metal ecoaram do lado de fora.
Passos arrastados e risadas abafadas cortaram o silêncio da linha morta, acompanhados pelo cheiro fétido de cigarro barateiro e álcool de cana.
Na carcaça do vagão ao lado, Pablo e seus dois capangas avançavam pela penumbra com vergalhões de ferro nas mãos, buscando presas fáceis entre os desabrigados da zona leste.
Pablo, o autoproclamado dono daquele trecho de trilhos, tinha uma cicatriz feia cruzando o lábio superior e um histórico de violência que aterrorizava os novatos da estação.
"Eu vi um pivete maltrapilho correndo para cá agorinha mesmo com um casaco novo", rosnou Pablo para os comparsas, cuspindo no chão de metal.
"Se ele tiver qualquer coisa de valor ou um pedaço de pão guardado, a gente arranca dele a força, entendeu?"
Os capangas riram em coro, empurrando a porta corrediça enferrujada do vagão onde Enzo estava, abrindo um vão largo por onde a lama e a chuva espirravam.
A silhueta corpulenta de Pablo bloqueou a entrada de ar, e seus olhos ávidos varreram a escuridão até encontrarem o menino agachado no canto mais fundo.
"Olha só o que temos aqui", provocou Pablo, dando dois passos largos para dentro e erguendo o vergalhão de ferro com um sorriso sádico nos lábios podres.
"Passa tudo o que você tem nos bolsos agora mesmo, seu moleque de rua, ou eu quebro as suas duas pernas para você nunca mais sair daqui."
Enzo sequer levantou os olhos da tela do celular; seus dedos continuavam digitando a última linha de código do script de extração de dados bancários com uma calma glacial.
O desrespeito silencioso do garoto atingiu Pablo como um soco no estômago, inflamando a fúria do criminoso de meia-idade que odiava ser ignorado por miseráveis.
"Você é surdo ou ficou mudo de vez, desgraçado?", gritou o bandido, avançando a passos largos com a barra de ferro erguida para desferir um golpe certeiro.
Num movimento que desafiou a aparente fragilidade de seu corpo esgotado, Enzo levantou-se com uma agilidade felina e aterrorizante.
Em sua mão direita, escondida sob a aba do casaco, não havia apenas um pedaço de plástico, mas sim uma pistola de eletrochoque caseira de alta voltagem, construída com baterias de lítio modificadas.
Antes que Pablo pudesse abaixar o ferro, Enzo deu um passo à frente e cravou os eletrodos diretamente no peito largo do capanga principal.
Um estalo ensurdecedor de faíscas elétricas iluminou o vagão inteiro com um clarão violeta, acompanhado pelo cheiro forte de carne chamuscada.
Pablo soltou um urro estrangulado que foi cortado abruptamente quando os milhares de volts paralisaram seu sistema nervoso central num segundo.
Seus olhos viraram para dentro, a baba espessa espirrou de sua boca e seu corpo despencou pesadamente contra o piso metálico como um saco de cimento.
Os dois capangas que vinham logo atrás travaram instantaneamente no lugar, com os rostos pálidos e os olhos arregalados de pânico puro ao olharem para o colega desfalecido.
Eles olharam para o menino magro e, sobretudo, para aquelas pupilas azul-marinho que os encaravam sem a menor gota de humanidade ou piedade.
"Se vocês derem mais um passo para dentro deste vagão, o próximo choque vai parar o coração de vocês para sempre", disse Enzo com uma voz rouca que cortava o ar como uma lâmina de barbear.
Os bandidos não pensaram duas vezes; deram meia-volta tropeçando nos próprios pés e correram desesperados pela lama, uivando de medo pela linha do trem.
Enzo soltou um suspiro controlado, abaixou o equipamento e voltou a se sentar na mesma posição, retomando o foco absoluto na tela trincada do smartphone.
Na interface de transferência, o progresso da invasão aos servidores de Renato atingia exatos noventa e nove por cento de conclusão.
Com um último toque firme no botão central, ele confirmou o envio do pacote de dados criptografados para uma pasta segura hospedada na dark web.
Em seguida, na tela preta do terminal, ele abriu uma nova janela de programação para inserir a linha de comando final que automatizaria o colapso do sistema financeiro.
O garoto digitou calmamente o nome do script que destruiria a reputação, a liberdade e a fortuna do promotor federal na manhã seguinte.
O arquivo recebeu o rótulo definitivo:
"Thor_Hammer"
, programado para disparar assim que o sol nascesse sobre a praça da Sé.
Enquanto a barra de execução piscava na tela escura, uma notificação em formato de texto criptografado apareceu de repente no canto superior do visor.
Era uma mensagem cifrada vinda de um endereço IP oculto e desconhecido, pertencente a um operador de alto nível nos fóruns subterrâneos de Zurique.
O texto dizia apenas:
“Sabemos quem você está caçando, Espectro. O leilão pelos arquivos de Renato já começou na rede, e tem gente muito poderosa querendo comprar a sua cabeça antes do amanhecer.”
Enzo leu as palavras com uma expressão impassível, sem demonstrar a menor surpresa ou temor diante da ameaça internacional que acabara de surgir.
Ele fechou a notificação com um toque rápido, apagou os rastros de conexão e bloqueou a tela do aparelho com uma frieza calculada.
O vagão mergulhou novamente em uma penumbra quase total, abafado pelo som contínuo da chuva que laçava os trilhos abandonados do lado de fora.
Enzo deitou a cabeça sobre os braços cruzados, mantendo o telefone tateando junto ao peito, pronto para responder ao fogo assim que o relógio marcasse a hora certa.
O que ele não sabia, contudo, era que a mensagem de Zurique não era a única variável imprevista que rondava os seus passos naquela noite fria de São Paulo.
Em uma cobertura de luxo nos Jardins, alguém cujos interesses colidiam diretamente com os de Renato acabara de interceptar os primeiros sinais daquela invasão digital.
A silhueta de uma mulher encostada na vidraça observava a tempestade cair sobre a cidade, segurando uma taça de cristal com um sorriso enigmático nos lábios.
Ela olhou para o relatório preliminar na mesa de mogno, onde o pseudônimo do garoto brilhava em vermelho-sangue, e murmurou baixinho para o próprio reflexo:
"Parece que o intocável promotor finalmente encontrou um coveiro à altura... Vamos ver se o garoto tem dentes afiados o suficiente para morder a mão que governa este estado."
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