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"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 8

正文开头

Gabriel sentiu o sangue desaparecer do rosto.

Por alguns segundos, a frase de Mariana pareceu não fazer sentido.

"Como assim, tarde demais?"

"Ele teve uma crise durante a madrugada."

"Ele morreu?"

Mariana não respondeu imediatamente.

Gabriel avançou.

"Meu pai morreu?"

"Não."

O ar voltou aos pulmões dele de uma vez.

"Então me leva até ele."

"Gabriel, ele está muito debilitado."

"Eu não atravessei tudo isso para ficar parado num corredor."

Mariana sustentou o olhar dele.

Depois assentiu.

"Venha comigo."

Os dois atravessaram uma porta de segurança e seguiram pelo corredor da ala médica.

Gabriel mal percebia os agentes, as câmeras ou o barulho das chaves.

Só conseguia ouvir os próprios passos.

Durante onze anos, imaginara como seria encontrar Henrique outra vez.

Em algumas versões, gritava.

Em outras, virava as costas.

Houve épocas em que imaginava dizer tudo o que tinha guardado desde os dezesseis anos.

Agora não conseguia pensar em uma única frase.

Mariana parou diante de uma porta.

"O médico conseguiu estabilizá-lo."

Gabriel olhou para ela.

"Por quanto tempo?"

"Não sabemos."

Ele fechou os olhos.

Mariana colocou a mão na maçaneta.

"Se você quiser esperar alguns minutos..."

"Não."

Gabriel respondeu imediatamente.

"Abre."

A porta se abriu.

Gabriel entrou.

E parou.

Henrique estava deitado numa cama estreita, perto da janela.

O homem que Gabriel lembrava era alto, forte, sempre apressado, sempre falando ao telefone enquanto procurava as chaves do carro.

Aquele homem não estava mais ali.

Henrique parecia pequeno.

O rosto estava afundado.

Os braços, magros.

Um acesso venoso estava preso à mão.

Gabriel sentiu o estômago revirar.

Por mais que soubesse da doença, não estava preparado.

Henrique dormia.

Gabriel permaneceu perto da porta.

Poderia sair.

Ainda havia tempo.

Ninguém o obrigara a entrar.

Então Henrique abriu os olhos.

Demorou alguns segundos para focalizar a figura diante dele.

Quando conseguiu, seu rosto mudou.

"Gabriel?"

A voz era quase um sussurro.

Gabriel não respondeu.

Henrique tentou se erguer.

A dor o fez parar.

"Não."

Gabriel falou instintivamente.

"Não levanta."

Henrique obedeceu.

Os dois ficaram se olhando.

Onze anos cabiam naquele silêncio.

Henrique foi o primeiro a desviar os olhos.

"Você não precisava vir."

Gabriel engoliu em seco.

"Eu sei."

Não houve abraço.

Nenhum pedido de perdão.

Nenhum gesto cinematográfico capaz de reconstruir o que havia sido destruído.

Gabriel puxou uma cadeira.

Sentou.

Henrique olhou para as mãos do filho.

"Você está diferente."

"Onze anos."

"É."

Henrique tentou sorrir.

"Onze anos."

Gabriel percebeu que o pai procurava alguma coisa para dizer.

Uma pergunta simples.

Trabalho.

Casa.

Helena.

Mas nenhuma parecia adequada.

Foi Gabriel quem rompeu o silêncio.

"Eu li as cartas."

Henrique congelou.

"Que cartas?"

"As que estavam com Rafael."

O rosto de Henrique ficou tenso.

"Ele não devia ter entregado."

"Por quê?"

"Porque pedi que não entregasse."

"Eu sei."

Gabriel inclinou o corpo para a frente.

"Por que decidiu isso sozinho?"

Henrique respirou devagar.

"Porque você tinha parado de responder."

"Então achou que podia escolher por mim?"

正文1

"Não."

"Foi exatamente o que fez."

Henrique não discutiu.

"Foi."

A facilidade da resposta irritou Gabriel.

"Você sempre faz isso."

Henrique franziu a testa.

"O quê?"

"Decide uma coisa, faz, e depois aceita a consequência como se isso resolvesse."

Henrique ficou calado.

Gabriel sentiu a raiva subir.

"Você decidiu dirigir."

A expressão do pai mudou.

"Gabriel..."

"Não."

Gabriel levantou a mão.

"Eu vim até aqui. Então você vai me ouvir."

Henrique assentiu.

Gabriel respirou fundo.

"Eu passei anos achando que você tinha me esquecido."

"Eu nunca..."

"Deixa eu terminar."

Henrique fechou a boca.

"Depois eu descobri que você escreveu dezenas de cartas."

Gabriel sentiu os olhos arderem.

"E sabe o que é pior?"

Henrique esperou.

"Uma parte de mim ficou feliz."

A voz dele quebrou.

"Feliz porque meu pai não tinha me esquecido."

Henrique fechou os olhos.

"E eu me senti culpado por ficar feliz."

"Você não devia."

"Não me diga o que eu devia sentir."

"Desculpa."

Gabriel riu com amargura.

"É sempre essa palavra."

Henrique recebeu o golpe em silêncio.

"Eu encontrei Luciana."

O nome fez Henrique abrir os olhos.

"Luciana Prado?"

"Sim."

Henrique ficou pálido.

"Ela está bem?"

Gabriel soltou uma risada sem humor.

"Você realmente quer fazer essa pergunta?"

Henrique baixou a cabeça.

"Não."

Gabriel continuou:

"Ela me contou sobre aquela noite."

Henrique ficou imóvel.

"Contou que você ligou para o socorro."

Silêncio.

"Que tentou tirar Marcelo do carro."

Henrique apertou o lençol.

"Que ficou com ele."

"Chega."

A voz saiu baixa.

Gabriel parou.

Henrique respirava com dificuldade.

"Não use isso para me defender."

"Eu não estou defendendo."

"Então não fala como se tivesse alguma coisa bonita naquela noite."

Gabriel ficou surpreso.

Henrique olhou para ele.

"Eu estava tentando salvar um homem que estava morrendo porque eu tinha bebido e dirigido."

Os olhos dele ficaram vermelhos.

"Não existe heroísmo nisso."

Gabriel abaixou a cabeça.

"Eu sei."

Henrique levou alguns segundos para recuperar o fôlego.

"Ele falou alguma coisa?"

Gabriel ergueu os olhos.

"Quem?"

"Marcelo."

A pergunta saiu quase inaudível.

Gabriel percebeu que o pai nunca tinha contado aquela parte.

"Você não lembra?"

Henrique fechou os olhos.

"Lembro."

"Então por que perguntou?"

"Porque às vezes queria lembrar errado."

Gabriel ficou em silêncio.

Henrique respirou fundo.

"Ele perguntou pela Luciana."

A voz tremeu.

"Perguntou?"

Henrique assentiu.

"E pelos filhos."

Gabriel sentiu um nó no peito.

"Eu disse que a ambulância estava chegando."

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Henrique.

"Eu disse que ele ia voltar para casa."

Ele virou o rosto.

"Eu menti para um homem que estava morrendo."

Gabriel não conseguiu responder.

"Durante anos, eu acordei ouvindo aquela frase."

Henrique fechou os olhos.

"Ele perguntou se eu podia ligar para a mulher dele."

Gabriel apertou as mãos.

"E você ligou?"

"Não deu tempo."

Silêncio.

Henrique respirou fundo.

"Eu destruí muita coisa."

Gabriel respondeu sem suavizar:

"Destruiu."

Henrique assentiu.

"Eu queria poder voltar."

"Mas não pode."

"Eu sei."

Nenhum dos dois falou por alguns minutos.

正文2

Era doloroso.

Mas, pela primeira vez, não havia ninguém tentando fugir da verdade.

Gabriel olhou pela janela.

"Eu passei muito tempo odiando você."

Henrique permaneceu quieto.

"Eu sei."

"Não sabe."

Gabriel virou para ele.

"Eu odiava quando alguém dizia que eu parecia com você."

Henrique abaixou os olhos.

"Troquei de academia porque um cara me reconheceu."

Gabriel respirou fundo.

"Evitei relacionamentos porque tinha medo de alguém pesquisar meu sobrenome."

"Gabriel..."

"Eu vi minha mãe chorar escondida."

Henrique fechou os olhos.

"Eu vi ela vender nossa casa."

A voz aumentou.

"E durante tudo isso, você estava aqui."

"Eu sei."

"Para de dizer que sabe!"

Gabriel levantou.

Henrique se assustou.

"Você não estava lá!"

Gabriel apontou para o peito.

"Você não sabe como foi ser seu filho!"

Henrique não tentou se defender.

"Não."

Gabriel respirava rápido.

"Eu não sei."

A resposta desarmou a raiva.

Henrique continuou:

"Eu só sei como foi perder o direito de acompanhar você."

Gabriel sentiu os olhos arderem.

"Mas isso foi consequência da minha escolha."

Henrique respirou fundo.

"Não da sua."

Gabriel virou o rosto.

Henrique falou baixo:

"Se você sair por aquela porta agora e nunca mais voltar, eu não vou dizer que você me abandonou."

Gabriel apertou os lábios.

"Eu fui embora primeiro."

O silêncio ficou pesado.

Depois de alguns minutos, Gabriel sentou novamente.

"Você viu o Thor."

O rosto de Henrique mudou.

Uma pequena luz apareceu nos olhos cansados.

"Vi."

"Rafael me contou o que aconteceu."

Henrique quase sorriu.

"Ele exagerou?"

"Disse que Thor tentou enfrentar dois agentes."

"Então não exagerou."

Gabriel soltou uma risada curta.

Henrique também.

Foi pequena.

Mas existiu.

Gabriel olhou para ele.

Por um instante, reconheceu alguma coisa do pai antigo.

E isso doeu mais do que a raiva.

"Ele me reconheceu também."

Henrique abriu um sorriso verdadeiro.

"Reconheceu?"

"Foi até mim."

"Claro que foi."

"Não parecia tão óbvio."

Henrique respirou com dificuldade.

"Para ele era."

Gabriel olhou para as próprias mãos.

"Eu achava que odiava aquele cachorro."

Henrique ficou sério.

"Por quê?"

"Porque ele esperava você."

Henrique não respondeu.

"Todos os dias."

Gabriel continuou.

"Cada carro que passava, ele corria para o portão."

Os olhos de Henrique se encheram.

"Eu gritava com ele."

Gabriel riu tristemente.

"Mandava parar."

"Ele nunca foi bom nisso."

"Não."

Gabriel balançou a cabeça.

"Não foi."

Uma enfermeira entrou.

"Senhor Gabriel, ele precisa descansar."

Gabriel assentiu.

Henrique tentou esconder a decepção.

"Está tudo bem."

Gabriel se levantou.

Caminhou até a porta.

Colocou a mão na maçaneta.

Henrique fechou os olhos.

Então Gabriel parou.

Ficou alguns segundos de costas.

"Pai..."

Henrique abriu os olhos imediatamente.

Gabriel não se virou ainda.

Para Henrique, aquela única palavra foi suficiente.

Os olhos ficaram vermelhos.

A respiração falhou.

Onze anos sem ouvir aquilo.

Onze anos sendo Henrique.

Vasconcelos.

Interno.

Condenado.

Nunca mais pai.

Até agora.

Gabriel finalmente se virou.

Henrique chorava em silêncio.

"Eu ainda não perdoei você."

"Eu sei."

"Talvez eu nunca consiga."

Henrique assentiu.

"Eu sei."

Gabriel voltou até a cama.

"Mas eu não quero que a última coisa entre nós seja silêncio."

Henrique levou a mão ao rosto.

"Obrigado."

Gabriel respirou fundo.

"Não agradece ainda."

Henrique quase sorriu.

Gabriel puxou a cadeira mais uma vez.

"Eu quero saber uma coisa."

"Pergunta."

Gabriel olhou para ele.

"O que você quer que eu faça pelo Thor?"

Henrique ficou em silêncio.

A expressão dele mudou.

"Pai?"

Henrique estendeu a mão para a gaveta ao lado da cama.

Não alcançou.

Gabriel abriu.

Dentro havia uma pasta parda.

"Essa?"

Henrique assentiu.

Gabriel retirou a pasta.

Era pesada.

Havia documentos, cópias autenticadas e o nome de um escritório de advocacia de São Paulo.

"O que é isso?"

Henrique olhou diretamente para o filho.

"Não é só pelo Thor."

Gabriel abriu a pasta.

Na primeira página havia um nome impresso em letras grandes.

Projeto Segunda Chance.

Ele ergueu os olhos.

Henrique respirou fundo.

"É o que eu quero deixar depois que eu morrer."

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