"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 7
Gabriel ficou imóvel diante de Luciana.
Rafael não se mexeu.
Até Thor permaneceu em silêncio.
Luciana apoiou as duas mãos sobre a mesa.
"Você conhece a versão do processo."
Gabriel franziu a testa.
"Eu conheço o que meu pai fez."
"Conhece o resultado."
Ela respirou fundo.
"Não conhece a noite inteira."
Gabriel puxou uma cadeira.
"Então me conta."
Luciana demorou alguns segundos.
Era a primeira vez, em muitos anos, que ela falava sobre aquilo com alguém da família de Henrique.
"Marcelo saiu de casa às seis e meia."
A voz dela permaneceu firme.
"Ele disse que voltaria antes das dez."
Gabriel baixou os olhos.
Luciana continuou.
"Nosso filho tinha prova no dia seguinte. Marcelo prometeu ajudar a revisar matemática."
Rafael fechou os olhos por um instante.
"Às nove e quarenta, ele mandou uma mensagem dizendo que já estava voltando."
Luciana olhou para Gabriel.
"Foi a última coisa que recebi dele."
Gabriel respirou fundo.
"Meu pai tinha bebido."
"Sim."
"Quanto?"
"Mais do que deveria para sequer pensar em dirigir."
Gabriel apertou a mandíbula.
Luciana não suavizou.
"Ele estava numa confraternização em Alphaville."
"Eu sei."
"Rafael ofereceu carona."
Gabriel olhou para ele.
Rafael assentiu.
"Ofereci."
"Mais de uma vez?"
"Três."
Gabriel ficou em silêncio.
Rafael continuou:
"Na última, eu tirei a chave da mão dele."
Gabriel ergueu os olhos.
"Você fez isso?"
"Fiz."
"E como ele dirigiu?"
Rafael abaixou a cabeça.
"Ele ficou bravo."
Luciana completou:
"Disse que estava bem."
Gabriel riu sem humor.
"Claro."
Rafael aceitou a provocação.
"Eu devia ter feito mais."
"Não."
Luciana olhou para ele.
"Essa parte não é sua."
Rafael ficou calado.
Luciana voltou para Gabriel.
"Seu pai pegou a chave de volta."
"Ele podia ter chamado alguém."
"Podia."
"Podia ter esperado."
"Podia."
"Podia não ter bebido."
"Podia."
Cada resposta parecia pesar mais.
Gabriel passou as mãos pelo rosto.
"Então não existe segredo nenhum."
Luciana ficou séria.
"Existe."
Ele levantou os olhos.
Luciana continuou:
"Seu pai não fugiu."
Gabriel franziu a testa.
"Eu sabia que ele foi preso no local."
"Não é a mesma coisa."
Luciana puxou outra cadeira.
"Quando os carros bateram, o veículo do Marcelo girou e atingiu a proteção lateral."
Gabriel ficou imóvel.
"Henrique também perdeu o controle."
"Sim."
"Ele se machucou?"
"Machucou."
Luciana respirou fundo.
"Cortou a testa. Teve uma lesão no ombro. Estava sangrando."
Gabriel não entendeu aonde ela queria chegar.
"Mas saiu do carro."
Rafael completou:
"Ele podia ter ficado dentro."
Luciana assentiu.
"Podia."
"Mas não ficou."
Ela apertou os dedos.
"Henrique atravessou a pista."
Gabriel parou de respirar por um instante.
"Foi até o carro do Marcelo."
Luciana desviou o olhar pela primeira vez.
A calma dela rachou.
"Meu marido ainda estava vivo."
Gabriel sentiu o peito apertar.
"O quê?"
"Quando seu pai chegou até ele, Marcelo ainda respirava."
A varanda ficou pequena demais.
Luciana fechou os olhos.
"Henrique tentou abrir a porta."
A voz começou a falhar.
"Não conseguiu."
Gabriel não disse nada.
"Então ligou para o socorro."
Rafael abaixou a cabeça.
"Foi ele quem fez a primeira chamada."
Luciana continuou:
"Enquanto esperava, ele ficou falando com Marcelo."
Gabriel sentiu um arrepio.
"O que ele dizia?"
"Eu não sei tudo."
Luciana respirou fundo.
"Isso está no depoimento."
Ela olhou diretamente para ele.
"Henrique dizia para ele ficar acordado."
Gabriel engoliu em seco.
"Dizia que a ambulância estava chegando."
Luciana apertou os lábios.
"Dizia que ele não podia dormir."
A voz dela finalmente quebrou.
"E meu marido morreu antes de chegar ao hospital."
Gabriel abaixou a cabeça.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então ele perguntou:
"Por que eu nunca soube disso?"
Luciana respondeu sem hesitar.
"Porque isso não mudou o que ele fez."
Gabriel levantou os olhos.
"E porque seu pai nunca quis usar aquilo para diminuir a culpa dele."
Rafael assentiu.
"No processo, os advogados tentaram."
Luciana soltou uma risada amarga.
"Claro que tentaram."
Gabriel franziu a testa.
"Como assim?"
Rafael explicou:
"A defesa queria destacar que Henrique prestou socorro imediatamente."
"Isso não é importante?"
"É."
Luciana respondeu.
"Mas não é absolvição."
Gabriel ficou em silêncio.
Ela continuou:
"Seu pai fez algo certo depois de fazer algo irreversivelmente errado."
A frase ficou no ar.
"Uma coisa não apaga a outra."
Gabriel olhou para as cartas.
De repente, tudo parecia mais complicado.
Mais humano.
E por isso mesmo, mais doloroso.
"Ele confessou."
Luciana assentiu.
"Sim."
"Sem tentar jogar a culpa no Marcelo?"
"Não."
"Nem na pista?"
"Não."
"Nem na chuva?"
"Não."
Rafael cruzou os braços.
"Henrique recusou várias estratégias da defesa."
Gabriel ficou surpreso.
"Quais?"
"Dizer que o consumo de álcool não tinha sido determinante."
"Mas tinha sido."
"Ele sabia."
Rafael olhou para ele.
"Por isso recusou."
Luciana fechou os olhos.
"Na audiência, ele falou uma frase que eu odiei durante anos."
Gabriel esperou.
"Qual?"
Luciana respondeu:
"Eu não quero sair daqui fingindo que alguém morreu por azar."
Gabriel sentiu o estômago apertar.
"Ele disse isso?"
"Disse."
"Na sua frente?"
"Na minha frente."
Luciana respirou fundo.
"Eu queria levantar e bater nele."
Rafael abaixou os olhos.
"Eu queria que ele calasse a boca."
Ela engoliu em seco.
"Porque cada palavra parecia pedir que eu enxergasse humanidade nele."
Gabriel não interrompeu.
"E eu não queria."
Luciana levantou o queixo.
"Eu tinha acabado de enterrar meu marido."
"Você tinha esse direito."
"Eu ainda tenho."
Gabriel assentiu.
Ela continuou:
"Depois da condenação, Henrique pediu aos advogados para vender parte do patrimônio."
Gabriel olhou para Rafael.
"Que patrimônio?"
"Uma participação na empresa."
Rafael respondeu.
"Um imóvel comercial."
Gabriel franziu a testa.
"Para quê?"
Luciana respondeu:
"Indenização."
O rosto dele mudou.
"Você recebeu?"
"Recebi."
"E isso ajudou?"
Luciana ficou em silêncio por alguns segundos.
"Financeiramente?"
"Sim."
"Em todo o resto?"
Ela balançou a cabeça.
"Não."
Gabriel sentiu vergonha da pergunta.
"Desculpa."
"Não precisa."
Luciana olhou para o quintal.
"Dinheiro paga escola."
"Paga dívida."
"Paga tratamento psicológico."
Ela voltou os olhos para Gabriel.
"Não faz alguém voltar para casa."
Thor se levantou devagar e mudou de posição.
Gabriel acompanhou o movimento.
Luciana percebeu.
"Foi por isso que eu nunca aceitei ver seu pai."
Gabriel virou para ela.
"Ele pediu?"
"Muitas vezes."
"Quantas?"
"Perdi a conta."
Luciana passou a mão sobre a mesa.
"Eu recusava todas."
"Por quê?"
Ela soltou o ar.
"Porque eu tinha medo de ouvir um pedido de perdão."
Gabriel franziu a testa.
"Medo?"
"Sim."
"Eu não queria que ele colocasse isso nas minhas mãos."
Gabriel ficou calado.
Luciana continuou:
"Se ele pedisse perdão e eu dissesse não, eu pareceria cruel."
"E se dissesse sim..."
"Eu sentiria que estava traindo Marcelo."
Gabriel abaixou os olhos.
"Então eu preferi nunca ir."
Rafael perguntou:
"E agora?"
Luciana demorou para responder.
"Agora ele está morrendo."
A voz dela voltou a endurecer.
"Mas isso também não transforma nada."
Gabriel sentiu uma pressão no peito.
"Você acha que eu não deveria ir?"
Luciana olhou para ele.
"Eu não disse isso."
"Mas você acha?"
"Eu acho que essa decisão é sua."
Ela se levantou.
"Ele é seu pai."
Gabriel também ficou de pé.
"E Marcelo era seu marido."
"Era."
"Se eu for até ele..."
Luciana interrompeu.
"Não me deve lealdade."
Gabriel ficou surpreso.
"Eu passei anos achando que sentir falta dele era errado."
Luciana o encarou.
"Sentir falta não absolve ninguém."
Gabriel respirou fundo.
"Então como você consegue separar?"
Ela respondeu:
"Não consigo todos os dias."
O silêncio voltou.
Luciana pegou a bolsa.
Antes de sair, parou diante de Gabriel.
"Seu pai teve tempo para entender o que fez."
"Marcelo não teve tempo para nada."
Gabriel abaixou a cabeça.
Luciana falou mais baixo:
"É por isso que eu nunca romantizo arrependimento."
Ela esperou até Gabriel olhar novamente para ela.
"Arrependimento não apaga consequências."
Gabriel sentiu aquela frase entrar fundo.
Luciana abriu o portão.
Antes de atravessar, virou-se.
"Mas as consequências também não obrigam você a passar o resto da vida fingindo que nunca amou seu pai."
Gabriel ficou parado.
Ela foi embora.
Rafael não disse nada.
Não precisava.
Gabriel olhou para Thor.
Depois para as cartas.
Pegou o celular.
Discou um número.
Helena atendeu.
"Filho?"
"Mãe."
A voz dele estava diferente.
"Eu vou."
"Vai aonde?"
Gabriel fechou os olhos.
"Ver meu pai."
Na manhã seguinte, ele saiu cedo da Vila Mariana.
A viagem pareceu interminável.
A cada quilômetro, pensava em voltar.
Quando finalmente atravessou os procedimentos de entrada e chegou à área administrativa, Mariana Ferraz já o esperava.
"Gabriel Vasconcelos?"
"Sim."
Ela se aproximou.
Havia algo estranho no rosto dela.
Gabriel percebeu imediatamente.
"Onde ele está?"
Mariana hesitou.
"Seu pai foi levado para a enfermaria."
Gabriel sentiu o coração disparar.
"Por quê?"
"Ele piorou durante a madrugada."
"Eu preciso vê-lo."
Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
Gabriel deu um passo à frente.
"Eu vim até aqui para isso."
Ela respirou fundo.
"Gabriel..."
"Eu preciso vê-lo."
Mariana baixou os olhos.
Quando tornou a encará-lo, sua voz estava baixa.
"Talvez você tenha chegado tarde demais."
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